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Exclusivo: Este Alpinista Fez o Maior Free Solo Do Ano (E Não É Alex Honnold)

O alpinista, de 25 anos, subiu e desceu o icónico pico da Patagónia, usando apenas calçado de escalada, um saco de giz e perícia. Sexta-feira, 12 Abril

Por Andrew Bisharat

Um alpinista californiano fez um dos solos mais criativos e vanguardistas na Patagónia, na Argentina, onde escalou uma subida técnica de 1500 metros, no Monte Fitz Roy de 3359 metros, sem cordas ou equipamento de segurança – e também subiu a rota sem qualquer assistência artificial.

A novidade? O seu nome não é Alex Honnold.

Conheça Jim Reynolds, um alpinista de 25 anos de Weaverville, na Califórnia, que trabalha no Yosemite Search and Rescue (YOSAR) no verão, usa óculos retangulares sem armação, toca Slayer num bandolim e faz o seu o treino mental com uma catana de samurai de madeira, numa floresta banhada pelo sol por trás do acampamento YOSAR.

Reynolds talvez seja mais conhecido por deter, durante alguns meses, o cobiçado recorde de velocidade do Nariz do El Capitan, com Brad Gobright – escalando a rota de 914 metros em 2 horas, 19 minutos e 44 segundos, em 2017 – antes de Tommy Caldwell e Alex Honnold fazerem o mesmo percurso em menos de duas horas, em junho de 2018.

A temporada de verão austral mais recente marcou a primeira expedição de Reynolds às espantosas torres irregulares que compõem o Maciço de Chaltén, na Patagónia.

“Após três meses neste local, encontrei finalmente o meu ritmo”, diz Reynolds. “Encontrei a melhor forma de me exprimir.”

No dia 21 de março, Reynolds fez a solo – subindo e descendo – uma escalada de rocha de 1524 metros chamada Afanassieff, no Monte Fitz Roy, em cerca de 15 horas e 5 minutos – um período de tempo muito esgotante, em termos físicos e mentais, exposto a uma situação onde o mínimo erro significa a morte imediata.

A rota que Reynolds escalou a solo tem um grau de dificuldade de 5.10c no Sistema Decimal de Yosemite – tecnicamente é muito mais fácil que o free solo feito por Alex Honnold no Free Rider (5.13a), no El Capitan. Mas o que distingue o free solo de Reynolds no Fitz Roy não é a dificuldade técnica, mas sim a natureza da escalada (uma longa rota de montanha com neve e gelo), a sua extensão, a posição remota e a decisão de não utilizar cordas para escapar de uma aventura de alta altitude.

“É uma loucura que ele o tenha conseguido”, diz Rolo Garibotti, um alpinista argentino de classe mundial e perito na Patagónia. “O Jim está a fazer uma grande afirmação. Vamos falar sobre isto durante muito, muito tempo. Tenho dificuldade em imaginar alguém a superar este feito.”

GRITOS PRIMITIVOS NA NOITE

Quem já viu o filme Free Solo, lembrar-se-á que uma das secções mais assustadoras para Honnold não era a mais difícil em termos técnicos. A primeira secção de “lajes” – uma secção pouco vertical de granito liso, sem fendas, parecia sempre assustadoramente insegura.

As secções mais difíceis de Afanassieff eram semelhantes – lajes de pedra lisas que não ofereciam fendas de segurança, nas quais o alpinista pode apoiar as suas mãos ou pés.

Enquanto Reynolds subia as lajes, colocava pinceladas de giz nas fendas de granito mais difíceis de distinguir, que sobressaiam como se fossem cartões de crédito presos numa parede, na esperança de as conseguir encontrar na descida. Nas secções mais fáceis da cordilheira, Reynolds trocou o calçado técnico de escalada por sapatos de borracha pegajosa. Ele construiu pequenos montes de pedra para não se perder na descida, e durante a ascensão navegou a rota por instinto e pela memória de anotações feitas nas semanas anteriores, num caderno descritivo – mas que se esqueceu em casa.

Para além de uma tentativa feita a solo uma semana antes – um esforço que ele abortou porque a sua intuição lhe disse que o momento não era o adequado – ele estava maioritariamente a escalar terreno novo e desconhecido (para ele). Reynolds levou apenas um pouco de corda e algum material – para tentar aumentar a sua margem de segurança caso alguma tempestade repentina assolasse a Patagónia, ou caso necessitasse de se auto-socorrer. Claro que as suas aspirações passavam por não utilizar cordas nem materiais de segurança, tanto na subida como na descida. Queria fazê-lo apenas com o calçado de escalada, um saco de giz e perícia.

Apesar de Reynolds transportar consigo uma corda, esqueceu-se do arnês e do sistema de travagem em casa, inutilizando assim a corda – algo que só se apercebeu mais tarde.

Quando se estava a aproximar do cume, deparou-se com uma ravina a soltar blocos de gelo – estavam a derreter com o sol da tarde. Sem capacete, Reynolds receava que um pedaço de gelo o pudesse derrubar no abismo. Foi aí que vislumbrou uma linha de apoios, que conduziam até uma parede íngreme de granito, mais à direita, e decidiu seguir por esse novo caminho. Nessa zona, a subida ficou mais difícil e insegura do que ele esperava, com uma dificuldade semelhante a 5.11b, mas Reynolds conseguiu atravessar essa secção de movimentos poderosos e alcançar uma inclinação de neve de ângulos rasos que conduzia até ao cume. Aí, colocou pitões e usou o machado de gelo para continuar até o topo.

“Era realmente incrível e surreal, estar no cume do Fitz Roy completamente sozinho”, diz Reynolds, enquanto descreve uma vista deslumbrante de montanhas e glaciares por todo o lado, como se estivesse nos limites do planeta. “Mas eu sabia que não podia ficar muito tempo ali em cima. Eram quase três e um quarto da tarde e eu tinha demorado 6 horas e 38 minutos a subir. Se ficasse ali muito tempo, ia acabar por ficar escuro. Eu tinha a noção de que só tinha feito metade da escalada.”

A descida acabou por demorar ainda mais tempo do que a subida. Ele saiu da rota inicial e foi forçado a recuar pelo mesmo caminho, em vez de atalhar por secções que o pudessem colocar em perigos maiores.

Quando chegou às lajes inferiores, já era de noite. A luz da lanterna no seu capacete varria a rocha pálida, enquanto ele tentava encontrar as marcas de giz que tinha deixado para trás, e que pareciam pequenas migalhas brancas. As lajes estavam agora molhadas, e algum do giz tinha desaparecido.

“Foi aqui que senti realmente medo e incerteza”, diz Reynolds. “Nunca senti que estava prestes a morrer, e tinha uma sensação esmagadora de que queria mesmo, mesmo sobreviver. Queria regressar para junto dos meus e da minha comunidade. Queria mesmo viver.”

Reynolds não conseguia ver mais do que três apoios de cada vez e comprometia-se a segui-los, inseguro se esse seria o caminho certo. Depois, surgiam mais três apoios. Aos poucos, de forma lenta e firme, ia descendo.

Entre Reynolds e o terreno mais fácil que o conduzia até ao chão restava apenas uma zona íngreme, com uma dificuldade de 5.10b. “Tive uma vontade enorme de fazer esta secção em rapel”, diz Reynolds, com a noção da dificuldade em fazer esta secção no escuro, para não falar da exaustão que já sentia naquele momento. “É muito íngreme, e fazer uma descida íngreme faz com que seja muito difícil vermos onde colocamos os pés.”

Reynolds quase que cedeu à tentação de descer em rapel, mas decidiu que tinha chegado longe demais para desistir.

“Eu tinha de dar tudo naquele momento e, enquanto descia, soltava gritos primitivos na escuridão da noite, para aumentar a minha força e eficácia”, diz. “Nunca senti que estava no limite da insegurança, estava a gritar para colocar todo o meu foco e concentração naquela descida, e para o fazer da forma mais sólida que conseguia.”

Quando chegou ao solo, tinham passado 15 horas e 5 minutos desde a partida, e ele tinha conseguido fazer um free solo do Fitz Roy da melhor forma possível.

“Quando cheguei à base, disse para mim próprio em voz alta, ‘Bom trabalho, Jim. Bom trabalho.’”

A PRIMEIRA ASCENSÃO 'FREE SOLO'?

Catalogar a escalada de Reynolds na história de escalada do Fitz Roy vai certamente ser alvo de discussão entre a comunidade de alpinistas. O Fitz Roy já foi escalado algumas vezes a solo por alpinistas solitários que recorreram de forma minimalista a cordas e materiais de segurança para complementar as suas subidas.

Pelo que se sabe, Dean Potter foi o único alpinista a escalar o Fitz Roy de uma forma que se pode realmente chamar de free solo – sem cordas ou material de segurança na subida. Em 2002, fez uma rota chamada Supercanaleta em free solo. Potter, que morreu num acidente de wingsuit BASE jumping em 2015, dizia que Supercanaleta tinha sido uma das suas melhores subidas de sempre.

Contudo, Potter fez a descida em rapel.

“Penso que o que existe de tão especial sobre a escalada de Reynolds é a pureza ética de como o fez”, diz Garibotti. “Poderíamos eventualmente debater se esta foi, tecnicamente, a primeira ascensão free solo do Fitz Roy.”

Garibotti menciona outro momento famoso na história da escalada para suportar o seu ponto de vista: a primeira ascensão free solo da Dawn Wall. Numa secção, Tommy Caldwell decidiu descer 30 metros de terreno desconhecido, em vez de fazer rapel. Os alpinistas dão tudo por tudo para escalar de forma “free” as subidas – isto significa sem quedas, sem a ajuda de materiais de segurança, recorrendo apenas às mãos e aos pés para escalar. Numa montanha onde não podemos simplesmente ir embora, porque é que essas regras não se aplicam na descida?

Curiosamente, esta questão antecede a ascensão de Reynolds em mais de 100 anos. No início do século XX, Paul Preuss, um alpinista austríaco, foi o primeiro a colocar questões sobre um código ético de normas na escalada de montanhas. As suas escaladas e a sua escrita foram extremamente influentes, criando desde então as bases de todos os debates éticos sobre escaladas.

“Com ajudas de escalada artificiais, estamos a transformar as montanhas em desafios mecânicos”, escreveu Preuss em 1911. (Preuss morreu vários anos mais tarde numa escalada free solo.) “Eventualmente, essas ajudas partem-se ou desgastam-se, e não temos outra alternativa senão deitá-las fora.”

Um dos “teoremas” mais relevantes de Preuss sobre escalada colocava a ideia de que os alpinistas só deviam tentar rotas que conseguissem descer em segurança.

“Eu acreditei sempre que era mais fixe poder descer livremente num free solo,” diz Alex Honnold. “Encaro o rapel como um último recurso, mas não o reprovo por questões de padrões éticos ou algo assim. Acredito que o ideal é poder descer por uma rota mais fácil, se a conseguirmos encontrar.”

Reynolds está indiferente à forma como categorizam os seus solos na Patagónia, que incluem não só o Fitz Roy, mas também duas outras montanhas mais pequenas na mesma cordilheira. Em meados de março, fez a Face Oeste (5.10c) de Rafael Juarez (2449 metros) em free solo – foi provavelmente o primeiro free solo feito nesta formação. Também fez um free solo no Saint-Exupéry (2549 metros), através de uma rota chamada Chiara di Luna (5.11a). Tal como o seu solo do Fitz Roy, desceu ambas as formações, embora tenha optado por rotas alternativas na descida.

Para ele, a opção de subir e descer sem recorrer a qualquer material ou cordas de segurança é simplesmente uma questão de “expressar a minha arte na natureza”.

“Para mim, fazer solos é uma forma de combinar a beleza da humanidade com a beleza do mundo natural, criando uma arte superior”, diz Reynolds. “Isso é algo que vale a pena perseguir numa era moderna, onde muitos não têm qualquer objetivo.”

O AMOR É MAIS FORTE QUE O MEDO

Após 4 anos no YOSAR, onde efetuou mais de 70 salvamentos, Reynolds conhece bem de perto o que acontece quando uma pessoa cai.

“Estas coisas exigem um respeito enorme pelas montanhas”, diz Reynolds. “As montanhas são belas, mas também conseguem ser brutais. Já vi as consequências de uma queda de 300 metros. Essas imagens de morte fazem parte de mim.”

Reynolds não se descreve como sendo um viciado em adrenalina. De facto, Garibotti diz que uma das coisas que mais o impressionou sobre Reynolds é a sua tranquilidade – algo que Garibotti reparou a ver vídeos de Reynolds no seu iPhone, captados a meio da escalada. 

“Não havia tensão absolutamente nenhuma”, diz Garibotti. “O seu ponto forte é o quão confortável se sente a fazer o que gosta. Ele parecia alegre e calmo.”

No entanto, Garibotti, de 48 anos e antigo escalador free solo, está preocupado com as consequências de promover esta atividade perigosa – sobretudo depois do filme Free Solo a ter colocado na luz da ribalta de forma tão imponente.

“Preocupo-me com a forma como isto pode influenciar os mais novos”, diz Garibotti. “Eu próprio fui influenciado quando era novo. Mas é importante realçar que existem outras maneiras de criar algo significativo na vida, sem a presença de perigo.”

Por outro lado, Reynolds parece ter uma abordagem saudável a esta questão: “Eu vivo para muito mais coisas para além das escaladas”, diz. “Tenho amigos e uma boa família com que eu me preocupo, e eles fazem parte da razão pela qual eu quero viver. Eu costumo dizer que quero viver para sempre. Quero viver uma vida boa e preenchida. Mas não estou disposto a trocar o meu amor da escalada pelo medo. O medo da morte é obviamente um dos nossos receios mais poderosos... mas o amor é mais forte que o medo.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

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