Viagem e Aventuras

Porque Razão Todos Visitam Portugal

Cidades nas colinas, praias banhadas pelo sol e um povo acolhedor... sem esquecer o fabuloso vinho do Porto. Em Portugal, tudo é iluminado.Wednesday, July 3, 2019

Por Anne Farrar
A cidade do Porto, com as suas seis pontes sobre o rio Douro e os barris infinitos de vinho do Porto, deslumbra ao anoitecer.

Brilhante, tão brilhante que até faz doer a vista.

Ao final da tarde, enquanto saio de Lisboa em direção ao norte, a luz do sol é tão forte que mal consigo abrir os olhos. Ao sair da autoestrada, passo por um túnel e vejo finalmente o meu destino: Porto, a cintilar sob o sol ibérico. A segunda maior cidade de Portugal, inundada de tons desbotados e de azulejos, é um panorama de azul, amarelo, castanho e verde. As cores são relaxantes, agradáveis à vista e fazem-me abrandar. Estamos em outubro, a brisa é fresca.

Saio do carro e caminho por um emaranhado de ruas e becos, seguindo uma melodia que flutua no ar, e encontro um homem com o seu velho órgão de rua. Ele tem uma galinha que bica sementes numa mesa, quase como se estivesse a dançar ao som da música. Atrás deste homem, o sol projeta uma silhueta contra a parede de um edifício. Parece um quadro da Escola de Haia. Atiro um euro para o seu cesto de moedas, tiro uma fotografia e continuo a caminhar.

Mas não vou muito longe. Não consigo andar mais de cem metros, tenho de parar para admirar uma parede de estuque que desaparece nas sombras, o brilho de um telhado com telhas vermelhas e o reflexo brilhante do sol a bater num lençol branco. Nestes últimos dois anos, todas as pessoas que conheci diziam-me que, ou tinham acabado de visitar Portugal, ou que estavam a caminho de Portugal. Todos diziam que Lisboa era linda, que o Alentejo era intemporal e que o Porto era mágico. Quando eu perguntava porquê, ninguém conseguia responder. "Veja por si própria", diziam.

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Agora, eu sou uma dessas pessoas, de câmara na mão, à procura de algo indescritível – uma iluminação permanente, uma forma de congelar os fugazes momentos que vivemos quando viajamos. Aqui, a luz é filtrada pelas ruas como se fosse um riacho a fluir pelo meio de juncos. Nunca sabemos onde é que esta luz vai cair, chapinhar e refletir nos belos ângulos multifacetados. Azulejos azuis e brancos, clique; reflexos de bolos numa montra, clique; poeira levantada pelos trabalhadores que restauram edifícios seculares, clique. Mais: o Mosteiro da Serra do Pilar, inscrito na UNESCO; a Igreja gótica de São Francisco; um homem de chapéu verde. Pessoas reunidas na Ponte Dom Luís I para assistir ao pôr do sol. Num dos cafés à beira-rio, uma família conversa e ri enquanto petisca o famoso bacalhau. Clique.

EM DIREÇÃO AO FAROL, NAZARÉ: Durante o voo para Portugal, fiquei ao lado de um viajante que partilhou comigo um dos segredos mais mal guardados do país: Nazaré, uma das cidades à beira-mar mais atraentes de Portugal, com algumas das maiores ondas do mundo. A temporada de ondas grandes acontece de outubro a maio, e em novembro de 2017, o surfista brasileiro Rodrigo Koxa fez história ao surfar uma onda de 24 metros, batendo o recorde mundial para a maior onda alguma vez surfada. (Descubra as praias fluviais mais bonitas de Portugal.)

O pôr do sol sobre o farol da Nazaré, construído num pequeno forte, no promontório mais distante de um penhasco.

Este domínio dos mares tem precedentes. Desde o início do século XV, até ao século XVII, os marinheiros portugueses governaram as ondas, inaugurando uma era europeia de descobrimentos. O Infante D. Henrique, conhecido como o Navegador, persuadiu os seus comandantes a procurarem uma rota para a Índia, dando origem a um vasto império comercial que se estendia desde África, passando pela Península Arábica, até à América do Sul e Caraíbas. Os marinheiros usavam as estrelas para se orientar e dependiam dos faróis para navegar em segurança junto à costa.

O farol da Nazaré, em funcionamento desde 1903, é o melhor miradouro da região, um lugar na primeira fila para desfrutar do surf. Do parapeito do farol, que fica num antigo forte, vejo um enorme areal branco que se estende para além do penhasco. Ao meu lado, os surfistas destemidos, com cervejas na mão, observam a água enquanto planeiam as suas próximas ondas. Sinto um frio de outono no ar, mas consigo imaginar estas areias cheias de pessoas durante o verão.

CIDADE DE REFLEXÃO, LISBOA: Os traços desta cidade são tão nítidos que mais parecem uma camisa engomada. O cheiro a pão e as pedras da calçada guiam-me pelas ruas estreitas e passagens da capital. Um café, uma saudação festiva e um pastel de nata ajudam a começar o dia. Na Leitaria Académica, os clientes apoiam-se no balcão de vidro e são atendidos por um empregado que, estando acostumado a esta coreografia matinal, domina a situação.

A Praça Luís de Camões, um dos maiores poetas portugueses, é um ponto de encontro em Lisboa que fica entre os vibrantes bairros do Chiado e o Bairro Alto.

Enquanto caminho pelas ruas, o Castelo de São Jorge, que mais parece um gigante a observar-nos, tem o seu legado inscrito na história. Celtas, romanos, mouros – todos chamaram casa a este lugar, e todos deixaram para trás um pedaço da sua civilização. O que mais me impressiona é a vitalidade desta cidade – antiga e desbotada, mas vibrante. Absorvida pela imensidão, continuo a perder-me nos detalhes. Estou à deriva entre o passado e o presente. Mas liberto-me da minha introspeção quando vejo uma igreja encantadora, ou vejo estudantes universitários a mergulharem numa fonte, ou quando faço uma pausa para ver a troca da guarda em frente ao Palácio de Belém. De repente, estou de regresso ao momento, à procura da próxima rua para descer, da próxima visão para apreciar.

RELÂMPAGOS NO HORIZONTE, ALENTEJO: Deslizo de colina em colina através da região do Alentejo, uma paisagem suave para a vista e para os sentidos. A luz do sol brilha através dos sobreiros. Um touro branco, a dormir num campo, parece uma aparição fantasmagórica. Os porcos andam de bolota em bolota, forrageando o sabor que confere ao presunto ibérico a sua riqueza. Os castelos e as igrejas pontuam as colinas; são relíquias do passado, mas retêm o seu poder no presente. Estamos na época baixa e as ruas estão vazias, excetuando alguns homens encorpados, com mãos e rostos desgastados pelo tempo, que regressam a casa dos cafés.

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A entrada da quinta de São Lourenço do Barrocal, nos arredores de Monsaraz, é enquadrada por oliveiras. Segundo os proprietários, algumas destas árvores têm mais de mil anos. Retorcida, mas ainda a produzir azeitonas, uma oliveira cresce a poucos metros de uma pedra neolítica que permanece vigilante há quase 5 mil anos. Imagino as conversas partilhadas por estes dois “monumentos” ao longo dos séculos. No horizonte, uma tempestade aproxima-se e a vila de Monsaraz parece um espectro esbatido no céu. Os relâmpagos e os últimos raios de luz do dia lutam para penetrar na névoa da tempestade.

A HORA DOURADA, SAGRES: Estou cansada, mas o porteiro do hotel diz para eu não parar. Ele marca um X no mapa e diz-me para continuar. Não vai arrepender-se, diz o porteiro. Dirijo-me rapidamente para a vila de Sagres, saindo à direita na rotunda. Com a terra a ficar cada vez mais plana, começo a ver carros estacionados ao longo da estrada. Continuo a conduzir até encontrar um lugar para descontrair. As pessoas caminham, riem e conversam animadamente enquanto o vento sopra nos seus cabelos. A energia emanada pela multidão revela alguma antecipação. Algo de espetacular está prestes a acontecer.

Viajantes a desfrutar de banhos de sol, no cabo de São Vicente, em Sagres, o ponto mais sudoeste da Europa.

Chego ao fim da estrada, no ponto mais ocidental de Portugal. As ondas do Atlântico rebentam contra as falésias de Sagres; as gaivotas parecem planar cada vez mais alto. Enquanto me junto a uma centena de pessoas, um brilho laranja irrompe das nuvens. Quando estamos a testemunhar o fim do dia, no fim do mundo, somos assolados por um silêncio... até que alguém ergue um copo de vinho para fazer um brinde. O céu muda de cor, de laranja para roxo, para tons de rosa e azul. Depois, com as sombras a devorarem os últimos salpicos de luz, regressamos lentamente às nossas viaturas.

No Porto, o Café Majestic, com um ambiente de glamour e arte nouveau, serve cafés fortes e pastelaria há quase 100 anos. Prove as rabanadas acompanhadas por um copo de vinho do Porto.

Eis como planear a sua viagem até este destino radiante.

Comer e Beber
Há imenso tempo que a cozinha portuguesa resiste às invasões de fusões e gastronomias moleculares. Os restaurantes, geridos cordialmente por famílias, servem diversas variantes de bacalhau, frango com piripíri e bolos extremamente doces. Mas eis algumas tentativas recentes que visam sacudir o paladar português.

Belcanto/Bairro do Avillez: As duas mecas gastronómicas do reconhecido chef José Avillez, no Chiado, em Lisboa, revelam o amor pela gastronomia portuguesa de uma forma reinventada. O Belcanto, com duas estrelas Michelin, tem pratos requintados com nomes como "O jardim da galinha dos ovos de ouro". E o Bairro do Avillez é um espaço amplo que abriga uma taberna informal, um mercado e um cabaret.

O Paparico: Com um ambiente rústico e intimista, O Paparico, no Porto, tem um chef alsaciano que leva as suas criações muito para além do clássico prato de bacalhau, com cores e combinações que se mantêm fieis à “Portugalidade” – nome de um dos menus de degustação. Em conjunto com uma das principais capitais mundiais da vinicultura, o restaurante tem uma adega que parece não ter fim e o bar vale bem a pena.

Peixaria da Esquina: Vítor Sobral, responsável por outro dos destaques gastronómicos do país, abriu tascas informais a preços acessíveis, em Lisboa e no Brasil, que se aproximam mais dos sabores tradicionais, mas com leveza e talento – como é o caso do atum açoriano com manga, pimentão e poejo. Da vitrine repleta de marisco da Peixaria da Esquina, experimente lulas refogadas com cogumelos shiitake, favas e coentros.

Epur: Aberto há cerca de um ano, o Epur é um prenúncio do futuro da cozinha portuguesa. O chef é francês, mas o menu e a decoração são minimalistas. Os pratos honram o nome do restaurante e o seu foco em ingredientes locais essenciais. Os pratos de coelho, atum ou da deliciosa carne de porco preto, são para ser apreciados com prazer. Localizado no Largo da Academia Nacional de Belas Artes, em Lisboa, a sala de refeições também possui uma das melhores vistas panorâmicas da cidade.

Café Majestic: Se estiver farto de fazer experiências e procura um final adequado para a sua refeição – ou se estiver faminto depois de uma tarde de passeio – este palácio de pastelaria no Porto, juntamente com a Pastelaria Versailles, em Lisboa, são eternamente clássicos. Perto de celebrarem os 100 anos de existência, ambos refletem os tempos áureos das belas artes.

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Onde Ficar
Em Portugal, os quartos não só incluem vistas, como também têm um valor considerável em termos arquitetónicos e históricos. Apesar das pousadas, alojadas em antigos palácios ou em conventos, continuarem a ser uma experiência única, muitas das novas pousadas superam-nas com spas de última geração e com a possibilidade de fazer agroturismo.

Martinhal Sagres Beach Family Resort: Este resort de luxo no Algarve satisfaz as exigências de viajantes de todas as idades. Os adultos podem saborear cocktails enquanto as crianças aprendem a surfar. A estância fornece carrinhos para bebé, cadeiras altas e esterilizadores de biberões.

Verride Palácio Santa Catarina: Esta mansão com 19 quartos, renovada recentemente, possui um dos melhores pontos de vista de toda a cidade de Lisboa, situada no topo das ruas íngremes do bairro da Bica.

Quinta Do Vallado Wine Hotel: Este hotel vinícola de 13 quartos oferece a moldura perfeita para absorver o magnífico Vale do Douro – a quinta-essência da vinicultura portuguesa. Os hóspedes dormem numa mansão que data de 1733, ou numa nova ala, concluída em 2012, ambas situadas em plantações inclinadas de videiras em maturação.

São Lourenço do Barrocal: Curiosamente, é no campo que muitos dos mais ousados arquitetos portugueses têm trabalhado a sua magia minimalista. São Lourenço do Barrocal, uma humilde quinta perto de Monsaraz, transformada por Eduardo Souto de Moura, mima-nos com uma simplicidade interminável.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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