Viagem e Aventuras

Nadar na Grande Ilha de Lixo do Pacífico

O nadador de longa distância Ben Lecomte está a ajudar a recolher amostras científicas de um vórtice de plástico oceânico.segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Por Mary Anne Potts
Ben Lecomte, nadador de longa distância, com um contentor de lixo encontrado na Grande Ilha de Lixo do Pacífico, um vórtice maciço de lixo plástico no Oceano Pacífico, entre a Califórnia e o Havai. Lecomte está a nadar no lixo para ajudar a recolher amostras de microplástico.

A cerca de 1.600 km a sudoeste de São Francisco, o francês de 52 anos e nadador de longa distância, Ben Lecomte, está a explorar um dos lugares mais poluídos do oceano. Estamos no dia 71 de 80 dias de natação pela Grande Ilha de Lixo do Pacífico, um remoinho de lixo com cerca de 1.8 biliões de pedaços de plástico que pesam perto de 90.000 toneladas. Ben chama o projeto de The Vortex Swim e a sua rota é determinada pelos cientistas da Universidade do Havai, que usam imagens de satélite e modelos oceânicos para localizar as maiores concentrações de detritos. Quando localizam uma zona cheia de lixo, Lecomte mergulha do seu veleiro de 20 metros.

Em 1998, Lecomte completou o que afirmou ser a primeira travessia a nado do Oceano Atlântico, apoiado por um barco, mas sem o uso de uma prancha de suporte. Em 2018, tentou nadar do Japão para a Califórnia, para completar a nado o percurso mais longo do mundo, mas depois de percorrer 1.500 milhas náuticas em 165 dias, teve de cancelar a última parte do percurso devido aos danos no barco de apoio. Mas a quantidade de plástico que Ben encontrou durante essa tentativa inspirou-o a planear um mergulho ao epicentro do lixo plástico marinho.

A Grande Ilha de Lixo do Pacífico é um dos cinco giros, ou vórtices, onde as correntes concentram os detritos que acabam no oceano. Estima-se que cubra uma área de superfície com o dobro do tamanho do Texas e contenha camadas de plásticos descartados – equipamentos de pesca, embalagens de detergente e pedaços mais pequenos de plástico degradado. Enquanto Lecomte nada, a sua equipa de 10 elementos recolhe dados e amostras de água para estudar a proliferação dos microplásticos e, pior ainda, das microfibras.

Falámos com Lecomte pelo Skype para saber como é que tem corrido a experiência.

A Grande Ilha de Lixo do Pacífico cobre mais de 1.600 km. E para uma pessoa interessada em bater recordes de longa distância a nado, porque razão está apenas a nadar 300 milhas náuticas?
As 300 milhas náuticas são uma espécie de metáfora – uma milha náutica por cada milhão de toneladas de plástico produzido anualmente em todo o mundo. E este projeto incide mais sobre os dados e amostras que recolhemos. É a equipa científica que determina para onde vamos e onde nado, dependendo sempre dos diferentes remoinhos na Grande Ilha de Lixo do Pacífico.

Lecomte com dois albatrozes na Grande Ilha de Lixo do Pacífico. O desperdício de plástico em grande escala está a alterar o ecossistema marinho de várias formas, incluindo a movimentação de microplásticos e produtos químicos de plástico pela cadeia alimentar – após serem ingeridos pela vida marinha.

Que tipo de lixo encontrou até agora?
Muitos dos detritos são de materiais de pesca ou relacionados com a pesca, como redes e armadilhas. Também temos detritos de plástico que vêm diretamente das atividades humanas em terra: produtos domésticos como embalagens de detergente, embalagens de molho de soja, garrafas de água e chapéus. Quando vejo estas coisas, só penso: já vi isto numa prateleira qualquer. Já vi isto em casa.

Por baixo da superfície, estas peças degradam-se em microplásticos. São difíceis de ver. Mas apesar de não os conseguirmos ver, não significa que não estejam lá. Quando estou a nadar, vejo que existem muitos microplásticos na coluna de água.

Depois, temos outro nível, coisas que não vemos, mas que recolhemos dados sobre – as microfibras. Filtramos a água para ser analisada, porque não temos equipamentos adequados a bordo, para ver a quantidade de microfibras presente nas amostras.

Consegue descrever a sensação de nadar pelos microplásticos?
Parece uma espécie de nevoeiro, ou uma sopa. Isso é o que vemos a olho nu. Ao início, pensava que estava a ver plâncton na água, o reflexo do sol a refletir no plâncton. Mas um dia levei uma rede pequena para apanhar o que eu julgava ser plâncton. Descobri que eram microplásticos.

Se até eu sou enganado por isto, imagino a vida marinha. E também encontrámos plástico no estômago de peixes mortos. Vimos um albatroz a apanhar microplásticos na superfície da água. E vimos microplásticos embutidos em formas mais pequenas de vida marinha, como medusas e plâncton.

Avistaram baleias no Depósito de Lixo?
Já vimos algumas baleias. A mais recente, estava eu dentro de água. E ouvimos sons de baleias exatamente no centro uma área que tem uma das nossas maiores contagens de microplásticos. Nessa zona, arrastámos uma rede durante 30 minutos. O volume de água que passou pela rede foi muito pequeno. Só nessa amostra, encontrámos mais de 3.000 microplásticos.

No Instagram, publicou uma fotografia de uma escova de dentes encontrada por si. Encontrou outras coisas?
Sim, uma lâmina de barbear e um tampo de sanita. E muitas embalagens diferentes de sabonetes, champô e gel de banho. Encontrámos a sola de um sapato, um capacete de segurança e muitas caixas. E sobretudo equipamentos de pesca, completamente atados, e redes.

Esquerda: Um membro da equipa de Lecomte a nadar debaixo de uma "rede fantasma", uma rede de pesca perdida ou atirada ao mar pelas tripulações de embarcações pesqueiras. As redes enleiam-se na vida marinha e, por vezes, afastam as criaturas dos ecossistemas costeiros, levando-as para o mar alto. Direita: O veleiro de 20 metros de Lecomte, a sua base durante as longas semanas de natação, desliza sobre uma "rede fantasma". No Depósito de Lixo, muitos dos detritos encontrados pela equipa são materiais de pesca abandonados.

E também fez uma publicação sobre as muitas “redes fantasma” que encontrou. O que são?
Gostamos de pensar que são redes que se soltaram dos barcos sem os pescadores darem por isso. Mas, quando vemos a forma como os equipamentos estão todos atados, leva-me a crer que foi feito intencionalmente. Quando os pescadores já não querem as redes velhas, é mais fácil atirá-las ao mar, juntamente com o resto das coisas que já não vão utilizar.

Isto cria obviamente um problema, dado que a vida marinha pode ficar enleada nisto. Há dois dias, vimos três ou quatro cachalotes enleados em redes fantasma.

Já vi algumas redes com peixes mortos, com um ecossistema inteiro criado à sua volta. Os peixes costeiros são apanhados nas redes e vão parar ao meio do oceano, porque estas redes só flutuam com as correntes. Uma vez, eu estava a tentar ajudar um peixe a sair de uma rede que também tinha outros peixes mortos. Quando tentei sacudir a rede, um dos peixes mortos soltou-se e começou a afundar. Em menos de nada, apareceu um tubarão por baixo e comeu-o.

Esquerda: A equipa recolhe amostras dos peixes que captura nas redes. O plástico ao lado deste dourado-do-mar foi encontrado dentro do seu estômago. Direita: Um membro da equipa com um recipiente que tem 2.409 pedaços de plástico recolhidos da água em apenas 30 minutos.

Encontrou alguém?
Tivemos a sorte de ter dois grandes encontros. Um deles foi com Charles Moore, que descobriu a Grande Ilha de Lixo do Pacífico em 1997. Eu já o tinha conhecido em terra, mas foi incrível vê-lo no seu barco. O Charles costuma visitar a zona para ver como é que esta progride. Passámos um dia com ele.

E também passámos um dia com a equipa da Ocean Cleanup, que criou um sistema para recolher parte do plástico na Grande Ilha de Lixo do Pacífico. O projeto foi fundado em 2013, por Boyan Slat, quando ele tinha apenas 16 anos. E foi implantado em São Francisco há alguns meses, mas o sistema acabou por falhar devido ao desgaste. Entretanto já projetaram um dispositivo com um novo design que é bastante mais pequeno. Foi-me permitido nadar dentro e fora do dispositivo, algo que nem eles podem fazer, por causa da responsabilidade, por isso, fiquei com uma perspetiva muito singular.

Precisa de um fato de mergulho especial para nadar na Ilha de Lixo?
Não, uso um fato de mergulho normal, e só uso fato por causa da temperatura da água e das medusas. E também porque, se ficar algumas horas à superfície da água, acabo por ficar com queimaduras do sol nas costas e nos ombros.

Quando terminar esta expedição, o que vai fazer com os dados recolhidos?
Quando terminarmos a expedição, começa o trabalho em terra. Todos os dados e amostras que recolhemos serão enviados para cientistas universitários que colaboram connosco.

Um membro da equipa de Lecomte inspeciona o “Drifter C”, uma boia usada pelos cientistas para rastrear o movimento da Grande Ilha de Lixo do Pacífico.

Que itens devemos evitar usar para não piorar a Ilha de Lixo?
Não tenho nada contra o plástico. Penso que o que está errado é a maneira como usamos o plástico. Nós encaramos o plástico como algo de muito conveniente. Não nos importamos com o que acontece depois de o usarmos, mas o plástico tem muitos produtos químicos. E os peixes vão comer isso, é uma coisa que se vai concentrar à medida que sobe na cadeia alimentar e, geralmente, no topo da cadeia alimentar... estão os humanos.

Pessoalmente, tento afastar-me dos plásticos descartáveis. Por exemplo, nas roupas, tento mudar para fibras naturais, como algodão ou lã, e tento encontrar algo que não seja feito de fibras sintéticas. É um processo difícil, porque temos hábitos muito enraizados no nosso quotidiano. Dependemos do plástico e fazemos a escolha fácil, por isso, para conseguirmos ter impacto, precisamos de refletir e mudar de hábitos. Não precisamos de fazer isso na perfeição, mas temos todos de fazer alguma coisa.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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