Astúrias: Um Dos Segredos Mais Bem Guardados de Espanha

As Astúrias seduzem qualquer pessoa com as suas paisagens deslumbrantes e gastronomia de classe mundial.quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Por Bruce Schoenfeld
Fotografias Por Chiara Goia

Desfrutei de uma refeição que não poderia comer em mais lado nenhum, mas só pensei nisso quando ia no sétimo prato. Estou nas montanhas das Astúrias, uma das Melhores Viagens Nat Geo para 2020, e serviram-me um prato de ouriço-do-mar com presunto que, numa única dentada, faz a união perfeita entre a costa e os picos desta província do norte de Espanha. A duas mesas de distância, vejo José Antelo a levantar o seu garfo em sinal de triunfo.

Antelo é controlador de tráfego aéreo em Barcelona. O seu irmão, Luis, é juiz no supremo tribunal de Madrid. Estes irmãos vivem em duas das capitais gastronómicas da Europa; podem desfrutar de refeições memoráveis todos dias – sem nunca terem de entrar num avião. Mas três ou quatro vezes por ano, reúnem-se nas Astúrias para comer.

Esta região autónoma de Espanha, situada ao longo do Golfo da Biscaia, repleta de árvores nas colinas recortadas por praias imaculadas, não fica entre Barcelona e Madrid. Fica a centenas de quilómetros de distância de ambas as metrópoles. Quando menciono isso, José começa a rir. "Tenho a certeza de que você percebe porque estamos aqui", diz José. “Em nenhum outro lugar de Espanha encontramos tantos sabores, com uma variedade tão incrível, numa área tão pequena. É como um país dentro de um país.”

Esquerda: A variedade de marisco desta região costeira está presente em todos os cardápios dos restaurantes mais aclamados, como o Güeyu Mar, em Ribadesella. Direita: Na vila de Arriondas, a lavanda perfuma o jardim da Casa Marcial – restaurante galardoado com duas estrelas Michelin – chefiada pelo chef Nacho Manzano, que cresceu nesta quinta agora renovada.
Fotografia de CHIARA GOIA

Estamos a jantar na Casa Marcial. Este restaurante, alojado numa antiga mansão, fica no topo de uma estrada sinuosa em La Salgar, uma vila nas montanhas que cheira a pinheiro. A costa fica a 10 quilómetros de distância, mas La Salgar está tão embrenhada no interior montanhoso e densamente arborizado que, segundo me disseram, muitos dos seus habitantes passaram a infância inteira sem nunca ver o mar.

A família Manzano abriu a Casa Marcial em meados do século passado como uma mercearia, vendendo azeite, sidra, ração para gado e até roupa. Em 1993, Nacho Manzano, na altura com 22 anos, filho dos proprietários, regressou da costa para abrir um restaurante. Os gastrónomos como os irmãos Antelo adoram a Casa Marcial, que já foi galardoada com duas estrelas Michelin. Os habitantes locais também adoram o restaurante, mas não se vestem a rigor para desfrutar de uma refeição. Mas ninguém admira mais a culinária moderna asturiana – marisco fresco, mas também os guisados de feijão – do que os outros chefs.

Nesta noite de novembro, meia dúzia de chefs de toda a Espanha reuniram-se para comemorar o 25º aniversário do restaurante. Mas não estão apenas a prestar uma homenagem; na verdade, estão a cozinhar para Nacho e para os cerca de 50 clientes. Desfrutámos de prato atrás prato: presunto, coelho assado e pepinos-do-mar salgados. Quando regresso ao meu hotel, na praia de Gijón, são quase cinco da manhã.

Enquanto caminho debaixo de chuviscos junto ao mar, onde nos dias de verão os surfistas se reúnem, passo por um barco a remos cheio de pescadores antes do amanhecer. Quando olho à minha volta e me lembro da aldeia no meio das montanhas de onde acabei de sair, a descrição de José Antelo começa a fazer sentido. As Astúrias são como um país dentro de um país.

Eu já não visitava esta região há vários anos, mas alguns dias antes, quando vinha a conduzir para cá a partir de Madrid, cheguei ao extremo norte da província de León e entrei no túnel de Negrón – mas parece que saí num sítio diferente, numa terra nova. A estrada fazia uma curva longa através de um vale cercado de pinheiros altos que atravessava formações rochosas no topo de encostas vertiginosas. Vi casas com janelas panorâmicas sobre ruas de pedra e antigos celeiros sobre palafitas. Por vezes, parecia mais que estava na Irlanda do que em Espanha. Não vi nenhum sinal a demarcar a passagem de León para as Astúrias, mas isso não era importante, eu não precisava dessa informação.

Capital cultural com um porto divertido
Eu estava a dirigir-me para a capital asturiana de Oviedo, uma cidade compacta com cerca de 220.000 habitantes que está separada de Gijón por subúrbios. Cada cidade tem a sua própria vida social; podemos ser muito importantes num sítio, mas desconhecidos noutro. Oviedo tem os melhores museus; Gijón tem a praia. Duas vezes por ano, as equipas de futebol da região, Sporting Gijón e Real Oviedo, defrontam-se num estádio cheio de rivalidade.

Muitos dos visitantes acabam por descobrir Oviedo em primeiro lugar, sobretudo os que procuram algumas das melhores arquiteturas pré-românicas do mundo – 14 edifícios bem preservados, incluindo o complexo de igrejas-palácio do século IX de Santa María del Naranco. Aproveito para fazer uma peregrinação assim que chego lá. Entro numa sala abobadada feita de pedras em tons de café com leite. Só está mais uma pessoa lá dentro. Lá no alto, onde as janelas estão recortadas nas paredes do edifício, espreito por cima das copas das árvores e vejo a cidade lá em baixo.

Em pouco mais de uma hora, atravesso Oviedo e encontro esculturas por todo lado; a cidade é adornada por mais de 100 trabalhos. Antes de chegar ao hotel, passo por "La Maternidad", a escultura de uma mulher arredondada com uma criança igualmente arredondada, do escultor colombiano Fernando Botero. Depois, vejo "El Diestro", de Miguel Ortiz Berrocal, uma representação metálica do torso de um toureiro. Mais tarde, já num bairro residencial, descubro um centro de conferências e um edifício de escritórios, projetado por Santiago Calatrava, que parece uma criatura alada prestes a levantar voo. No dia seguinte, fico impressionado com "El Regreso de Williams B. Arrensberg", uma estátua que representa um amigo do artista Eduardo Úrculo.

O despertar artístico de Oviedo só aconteceu durante a última geração, quando Nacho Manzano começou a chamar a atenção internacional com o seu pequeno restaurante nas montanhas. "Antigamente, não pensávamos que as Astúrias tivessem muito para oferecer ao mundo", explica Esther Manzano, irmã de Nacho, que tem o seu próprio restaurante, La Salgar, no centro de Gijón. "Não acreditávamos em nós próprios. Não tínhamos um clima fantástico e era difícil chegar até aqui – era uma viagem longa a partir de qualquer lugar, não tínhamos voos. Partimos do princípio que ninguém queria vir cá.”

Mas depois aconteceram duas coisas: no final dos anos 1990, as novas companhias aéreas low cost começaram a fazer voos para a região; e o filme de Woody Allen de 2008, Vicky Cristina Barcelona, mostrou as suas personagens em Oviedo durante um fim de semana, surpreendendo cineastas do mundo inteiro. Porque razão alguém iria querer sair de Barcelona para visitar… as Astúrias? "Woody Allen mostrou ao mundo que nós existíamos", diz Esther. "Abriu os olhos do mundo, mas também abriu os nossos". E na Calle Uria podemos ver uma estátua do realizador.

O turismo ajudou a elevar o padrão de vida nas Astúrias, dando aos restaurantes geridos por Nacho e Esther Manzano, e não só, uma forma de prosperar. Mas não mudou a natureza da região. Espanha recebeu mais de 80 milhões de visitantes no ano passado, o suficiente para invadir muitas das suas cidades mais conhecidas. Barcelona tornou-se numa peça central, longe da cidade portuária ruidosa que costumava ser. E Madrid parece um centro comercial internacional.

Porém, as Astúrias mantêm as suas raízes regionais, com paladares fortes e sabores autênticos. Em Oviedo, é difícil encontrar menus em inglês, e até recentemente não existiam menus noutras línguas na região. José Andrés – o chef de origem Asturiana sediado em Washington que se tornou mundialmente famoso – quer abrir um restaurante não muito longe de onde viveu quando era criança. E se de facto abrir aqui um restaurante, aposto que também não vai ter um menu em inglês.

As duas maiores cidades das Astúrias parecem estar em polos opostos. Oviedo, como muitas cidades do interior, tende a ser insular, conservadora, educada e socialmente inacessível. Gijón é uma cidade portuária da classe operária e ocasionalmente profana, mas aberta ao mar e a novas ideias. Oviedo tem uma casa de ópera e um programa completo para a encher. Gijón prefere os seus festivais de vanguarda. Quando chego a Gijón, fico contente por ver que um destes festivais, o Jazz Xixón, estava a decorrer no Teatro Jovellanos. Compro um bilhete para ver os Portico Quartet, uma banda experimental que foi nomeada para o Mercury Prize; os outros cabeças de cartaz incluem o divertido grupo espanhol El Viaje del Swing. É impossível deixar escapar o letreiro em néon do Teatro Jovellanos, montado por cima do Paseo Begoña. Inaugurado em 1899, o teatro foi renovado a seguir à queda de Francisco Franco, em 1975, e comprado por Gijón em 1995. Desde então, é uma peça cultural de destaque.

Foi aqui que encontrei Tonio Criado, o diretor do festival, parado no hall de entrada debaixo de um enorme lustre de cristal. Tonio cresceu numa pequena cidade do interior, perto de Cangas de Onís, antes de se mudar para Gijón. Agora, diz que não era capaz de viver noutro lugar.

"É a cidade mais jovem e vibrante da região", diz Tonio. “É possível sentir isso na nossa música, na nossa gastronomia e no nosso modo de vida.” Quando lhe pergunto se sente que é mais espanhol ou asturiano, Tonio não hesita. "Oh, asturiano. Mas a sério, sou de Gijón. O que estamos a fazer aqui não podia acontecer em Oviedo."

Na manhã seguinte, decido visitar o Museu do Povo Asturiano, que fica perto do centro de Gijón. Este museu parece uma atração turística da Guerra Fria, mas na verdade é uma recriação de uma vila tradicional das Astúrias. Os terrenos do museu incluem uma casa de camponeses do século XVII, uma ruela coberta onde se pratica o jogo tradicional cuatreada, um museu de gaitas de foles (as gaitas de foles são um instrumento musical comum nas Astúrias e na Galiza) e vários celeiros – chamados hórreos – que são omnipresentes na região. Dentro do espaço das exposições, o tema do dia é a gastronomia. Fico surpreendido quando me apercebo do quão rudimentares eram as cozinhas nas décadas de 1950 e 60, mesmo nas áreas urbanas.

Muitas das comidas que eram feitas naquelas cozinhas são agora servidas no restaurante de Esther Manzano, La Salgar, em homenagem à cidade natal dos irmãos Manzano. A Casa Marcial é onde a família Manzano acrescenta um elemento asturiano à gastronomia requintada, e La Salgar recompensa os asturianos com comida caseira de Gijón. A ideia era fazer com que os clientes locais provassem as versões de pratos que comeram a vida inteira, como o arroz con pitu, uma versão de frango, arroz e pimenta vermelha que todos asturianos comeram na infância, mas com um toque da cozinha de excelência. "Pratos caseiros", diz Esther, "mas servidos num restaurante".

Grutas, vinho e muitas descobertas
Tal como acontece em São Francisco e na Escócia, o mau tempo também combina bem com as Astúrias. Saio de Gijón e sigo para leste ao longo da costa, debaixo de uma chuva miudinha interminável. Em agosto, a região de Ribadesella atrai os espanhóis que estão desesperados para fugir do calor opressivo. Em novembro, com a chuva a cair numa manhã fria, esta vila piscatória transforma-se num lugar particularmente adorável. As crianças mergulham nas poças de água, os adultos passeiam os cães e os donos das lojas ficam à porta das mesmas a cumprimentarem os seus amigos.

Ali perto fica a Caverna Tito Bustillo, local de uma das descobertas mais notáveis do século passado. Em 1968, um grupo de exploradores amadores percebeu que, ao longo dos séculos, a queda de pedras tinha selado a abertura de uma caverna. Mais tarde, regressaram devidamente equipados e conseguiram entrar. Quando o fizeram, ficaram surpreendidos quando descobriram que a caverna se abria para outra gruta e depois para outra. Nas paredes, encontraram uma magnífica série de pinturas rupestres com mais de 10.000 anos. E, de acordo com a datação por carbono, um dos desenhos misteriosos foi feito há cerca de 30.000 anos.

Embora este sítio arqueológico tenha sido validado por diversos especialistas, a sua existência continua a levantar mais perguntas do que respostas. Eu próprio me interrogo, porque razão é que estes trabalhos foram feitos exatamente no mesmo local, mas separados por 20.000 anos?

Fico a pensar sobre o assunto durante o almoço, num restaurante que fica 15 minutos a norte, numa língua de praia. O restaurante Güeyu Mar é uma cabana glorificada com um enorme peixe-rei de plástico sobre a porta. Abel Alvarez, chef e proprietário, grelha peixe aqui desde 2007.

O seu cardápio consiste em tudo o que os barcos trazem no próprio dia, e é complementado por marisco conservado em latas de metal por Alvarez. Não há carne, arroz ou batatas, apenas marisco e vegetais locais, e um pão divinal. Decido comer amêijoas e sardinhas, e depois berbigão grelhado e peixe-rei. Peço um vinho asturiano, que praticamente não existia há 10 anos atrás, das vinhas Dominio del Urogallo, o melhor dos poucos produtores que existem na região oeste da província. Esta mistura de três variedades locais de uva tinta tem uma frescura que costumo associar aos vinhos brancos de climas frios – sabe a mar.

A chuva começa a cair novamente; quando saio, vejo um arco-íris que vai desde o topo das colinas íngremes até à água. Decido seguir para o interior e paro na cidade montanhosa de Cangas de Onís, onde uma ponte romana atravessa um riacho sereno.

Na manhã seguinte, faço uma curta viagem até Covadonga, que é um dos pontos históricos mais importantes de Espanha. Até podemos argumentar que Espanha moderna nasceu quando o avanço dos mouros foi aqui travado em 718 pelo nobre visigodo Pelágio, o fundador do Reino das Astúrias.

Os espanhóis levaram mais de 800 anos a tentar expulsar os mouros, mas a Batalha de Covadonga mudou o rumo da história. Este cenário natural é de tirar a respiração, e tem uma estrada serpenteante que vai dar a um desfiladeiro que passa por uma queda de água, e depois a um pequeno santuário. No topo, por cima da neblina, ergue-se a majestosa Basílica de Santa Maria Real de Covadonga.

Eu já tinha visitado esta região anteriormente, mas nunca tive tempo para conduzir até aos lagos do Parque Nacional dos Picos da Europa. Agora, seguindo por outra estrada sinuosa, vou visitar os lagos. As árvores desaparecem e a vista abre-se para um céu interminável coberto de nuvens.

Depois, começo a ouvir chocalhos. Ao início, o som é suave, mas depressa o ruído começa a abafar o som do rádio do carro. Dobro uma curva e vejo ovelhas, parecem centenas, atravessando cuidadosamente a estrada em frente a uma fila de carros parados.

Decido estacionar o carro e faço um passeio pelo mato, inalando um ar tão fresco que me abre completamente os pulmões. Os cumes pontiagudos da montanha rodeiam-me silenciosamente à distância; só consigo ouvir o barulho chocalhos das ovelhas – parecem os sinos da igreja a tocar as 12 badaladas. Um dos automobilistas começa a buzinar em frustração, mas isso só faz com que as ovelhas parem. Depois de uma deliberação prolongada, as ovelhas retomam o seu caminho.

O trânsito congestionado já serpenteia pela montanha. Vejo os carros a começarem a andar, mas ainda não consigo regressar ao meu veículo. Os som dos chocalhos continua e estou rodeado por um mar de ovelhas – e não existe um pastor à vista. Nunca vi nada assim, e não quero sair daqui.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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