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Planta Curativa Cresce Apenas Numa Ilha Grega

Desde a antiguidade que Quios atrai visitantes pela sua cobiçada resina aromática.

Por Margarita Gokun Silver
Publicado 9/12/2019, 17:39
Em Quios, na Grécia, Vassilis Ballas e a sua esposa, Roula Boura, extraem resina de uma ...
Em Quios, na Grécia, Vassilis Ballas e a sua esposa, Roula Boura, extraem resina de uma árvore mástique. O processo de cultivo de mástique pode ser feito durante todo o ano e mudou pouco desde a antiguidade.
Fotografia de Eirini Vourloumis, The New York Times/Redux

Se caminharmos pelas ruas estreitas e medievais de Pyrgi, encontramos edifícios, arcos – e até a parte inferior das varandas – gravados com padrões geométricos muito detalhados. As mulheres perscrutam ramos frondosos como se estivessem à procura de diamantes. Estão à procura de bolhas de gosma branca endurecida: mástique, uma resina natural muito apreciada desde a antiguidade pelas suas propriedades aromáticas e curativas.

Mulheres selecionam mástique em Pyrgi. Os edifícios são decorados com “xysta” – padrões tradicionais geométricos a preto e branco que datam de há vários séculos.
Fotografia de Georgios Makkas, Alamy Stock Photo

Pyrgi é uma das 24 aldeias produtoras de mástique, ou mastichochoria, na ilha grega de Quios. Embora a árvore de mástique (Pistacia lentiscus) se encontre por todo o Mediterrâneo, a variedade que verte resina de mástique cresce apenas na parte sul de Quios – uma peculiaridade da natureza que enriqueceu a conturbada história da ilha.

Monopólio de goma
Há milénios que o mástique dá fama, força económica e identidade a Quios e aos seus habitantes. O próprio Heródoto mencionava este facto no século V a.C., os romanos mastigavam esta resina para limpar os dentes e refrescar o hálito, e os otomanos valorizavam as suas características enquanto especiaria.

O cultivo sério de lentisco (árvore de mástique) começou com a chegada dos genoveses no século XIV, que monopolizaram o comércio de mástique e construíram as mastichochorias com casas semelhantes a fortalezas, com um labirinto de ruas para enganar os invasores e uma torre de vigia central para prevenir ataques. Para travar o comércio ilegal, existia um recolher obrigatório durante a noite e punições severas para quem roubasse mástique.

A mástique é conhecida na Grécia pela designação “lágrimas de Quios” devido às suas bolas transparentes de resina que endurecem e escurecem com o tempo. Amargas ao início, o seu sabor vai-se tornando herbal quanto mais se mastiga.
Fotografia de AGE Fotostock, Alamy Stock Photo

Quando os otomanos assumiram o controlo da região no século XVI, mantiveram o monopólio das resinas. Só em 1840 é que os produtores de mástique tiveram finalmente permissão para negociar de forma independente o que cultivavam e, menos de um século depois, uniram forças para criar a Associação de Produtores de Mástique de Quios (CMGA), uma cooperativa que ainda hoje está em atividade.

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Não obstante as alterações nos regimes, o cultivo e a produção de mástique permaneceram praticamente inalterados ao longo dos séculos. Esta atividade, ainda centrada nas 24 aldeias, dura o ano inteiro e começa com cuidados no solo. Depois, continua com cortes rasos na casca das árvores para o mástique se infiltrar e culmina com a colheita e a limpeza. Grande parte deste processo é feita à mão. E tal como  acontecia com as gerações anteriores, os produtores da atualidade também pedem ajuda aos seus amigos e familiares.

Para visitar
Apesar de geograficamente estar mais perto da Turquia do que da Grécia, Quios fica a um curto voo de distância a partir de Atenas – com a Olympic Air. Também é possível apanhar um ferry de Pireu para Quios.

Visite a região entre agosto e setembro para testemunhar o processo de cortes nas árvores, ou entre outubro e março para ver a mástique a ser limpa. Alugue um carro e comece a sua viagem no Museu de Mástique de Quios, que oferece uma visão muito abrangente do processo de cultivo de mástique, para além de um bosque de árvores de mástique onde os visitantes podem procurar as “lágrimas” de mástique.

A cidade de Quios, na costa leste da ilha homónima, tem um cais que recebe o ferry vindo de Pireu, um porto na área metropolitana de Atenas.
Fotografia de Salvator Barki, Getty Images

De seguida, continue até Pyrgi, que fica nas proximidades de Olympi, de Mesta e de outras aldeias, para passear pelas ruas e admirar as igrejas. A vila de Agioi Apostoli, perto da praça central de Pyrgi, é um bom exemplo da arquitetura bizantina do século XIII, que apresenta afrescos bem preservados do século XVII. Em Limenas, delicie-se com fagri (robalo local) grelhado na O Sergis Taverna. Com sorte, é possível ver a yiayia (avó) da família a fazer bolas de queijo caseiras.

Para ter uma noção de como era a vida aristocrática em Quios – durante o período genovês e não só – fique numa pousada em Kampos, uma área conhecida pelos seus muros de pedra altos, mansões imponentes e enormes jardins de citrinos. Para tomar uma bebida durante a noite, na orla da cidade de Quios pode provar um mástique azedo no Pura Vida. Quem desejar saber mais sobre o processo de destilação pode entrar em contacto com a Destilaria Stoupakis, uma das mais antigas da ilha, para marcar uma visita.

Antes de partir, compre licor, massas e tudo o que é feito de mástique na Mastiha Shop da Associação de Produtores de Mástique de Quios. E não se esqueça de petiscar um pacote de lágrimas de mástique para continuar a tradição milenar da ilha de mastigar mástique ao natural.

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 Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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