O Futuro dos Safaris em África

Estas cinco tendências estão a transformar os safaris tradicionais – para melhor.quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Desde santuários de vida selvagem a expedições lideradas por mulheres, os safaris em África já não se dedicam à caça de animais selvagens, nem às aventuras de andar com uma máquina fotográfica às costas em visitas guiadas só por homens. Eis o futuro dos safaris africanos.

"Os projetos comunitários de conservação, como acontece em Naboisho, no Quénia, foram um ponto de viragem importante", diz Judy Kepher-Gona, uma das principais especialistas em ecoturismo de África. "Os habitantes locais passaram de rapazes de entregas e cozinheiros a parceiros e líderes na proteção de vida selvagem." Os resultados são impressionantes – as conservações no Quénia abrangem agora mais de 6 milhões de hectares e protegem algumas das espécies mais raras do mundo, incluindo o rinoceronte-negro.

Visto que os governos tinham efetivamente problemas na gestão dos seus parques nacionais, algumas organizações privadas chegaram-se à frente para ajudar, incluindo a African Parks, um grupo sem fins lucrativos fundado com o único objetivo de salvar os parques africanos e a sua vida selvagem – concentrando-se no desenvolvimento económico e no combate à pobreza. As histórias de sucesso incluem o Parque Nacional de Zakouma, no Chade, que passou de estar à beira do colapso para se tornar na joia da coroa dos encontros de vida selvagem da atualidade. "Estamos a viver um momento revolucionário onde os habitantes locais e os visitantes beneficiam de uma nova visão sobre o conceito de safari", diz Keith Vincent, CEO da Wilderness Safaris, uma das empresas mais conhecidas no continente africano.

Antigamente, participar num safari era sinónimo de caça. Mas os safaris da atualidade estão focados na conservação – uma coisa boa para as comunidades locais e o planeta agradece.

Emancipação femina
Seja Ellen Johnson Sirleaf, da Libéria, a primeira mulher presidente do continente africano, ou Wangari Maathai, defensora acérrima da conservação no Quénia, África nunca teve escassez de mulheres dinâmicas na liderança. E agora, uma nova geração de mulheres africanas está a demonstrar ao mundo que tem tudo para desafiar as normas de género na indústria dos safaris.

"Era típico dos homens insistirem que não tínhamos capacidades para sermos boas guias", diz Tshepiso Vivian Diphupu, chefe da primeira equipa feminina de guias de África, na Reserva Chobe, no Botsuana. “Mas, pela minha experiência, as mulheres conseguem fazer bem este trabalho. Nós tendemos a ser melhores comunicadoras, somos mais sensíveis aos interesses dos hóspedes, somos confiantes e estamos sempre dispostas a aprender mais.” Apelidadas de Anjos de Chobe por algumas pessoas, Diphupu e as suas colegas estão entre as primeiras – mas não únicas – mulheres a fazer algo que antigamente estava destinado aos homens.

"O meu objetivo enquanto guia é fazer com que todos os safaris sejam únicos, pedagógicos e divertidos", diz Maggie Duncan Simbeye, fundadora da Maggie's Tour Company, uma das poucas empresas de safaris que é propriedade de uma mulher africana. “Eu sempre adorei a natureza e o meu conhecimento sobre plantas e animais é profundo.” Trabalhar como guia de safaris na Tanzânia inspirou Maggie a estabelecer a Fundação Dare Women's, uma ONG local que trabalha na capacitação  de mulheres e raparigas – para seguirem as suas ambições profissionais.

Esquerda: Um rinoceronte-branco-do-sul transferido da África do Sul, de uma região onde impera a caça furtiva, para o Botsuana, pela “Rinocerontes Sem Fronteiras”, uma organização cofundada pelos Exploradores National Geographic Dereck e Beverly Joubert,. Direita: A pousada ecológica Campi ya Kanzi, em Chyulu Hills, no sul do Quénia, faz parte do Fundo de Conservação Massai e colabora com os Massai locais em todos os aspectos, desde a construção de infraestruturas à programação de visitas.
Fotografia de BEVERLY JOUBERT (ESQUERDA) E NICOLA TONOLINI (DIREITA)

Ação comunitária
Os Himba, na Namíbia, tal como os Massai no Quénia, são povos indígenas que vivem há muito tempo em equilíbrio com a natureza. “Estabelecemos o Fundo de Conservação Massai na nossa terra ancestral, perto do Monte Kilimanjaro, para proteger a natureza e partilhar o nosso modo de vida tradicional com os visitantes da forma mais direta e sincera”, diz o presidente Samson Parashina, ancião Massai reconhecido pelas Nações Unidas em 2012 como um dos seis Campeões da Terra.

No Quénia, os hóspedes podem ficar na Campi ya Kanzi, uma pousada ecológica no coração dos 122 mil hectares de áreas de conservação comunitária, onde leões, elandes e outros animais selvagens vagueiam entre os parques nacionais Amboseli e Tsavo. "A conservação está a redefinir os safaris, não só em termos da economia de vida selvagem, como na oferta de experiências inovadoras para os hóspedes", diz Ashish Sanghrajka, presidente da Big Five Tours and Expeditions. Sanghrajka é especializado em itinerários que ajudam as comunidades indígenas. “Trata-se de estar na vanguarda da conservação e oferecer uma excelente aventura de vida selvagem. É aqui que ambas se encontram.”

Inovações contra a caça ilegal
Estima-se que até 2030 o turismo em África possa gerar mais de 260 mil milhões de dólares anualmente; os safaris de fotografia estão a impulsionar grande parte deste crescimento económico – uma fonte vital de emprego para os habitantes locais. Com tudo isto em jogo, as empresas de safaris estão a financiar alguns dos esforços mais inovadores contra a caça furtiva.

Podemos tomar como exemplo o projeto dos cães pastores da Anatólia, na Bushmans Kloof – uma Unique Lodge of the World da National Geographic – nas montanhas Cederberg da África do Sul. “O leopardo é um dos felinos mais ameaçados do mundo e, para além da caça furtiva, os criadores de gado também os matam para defenderem os seus rebanhos. Mas os cães pastores da Anatólia protegem instintivamente as ovelhas e as cabras dos predadores”, diz Brett Tollman, CEO da The Travel Corporation, da qual a Bushmans Kloof faz parte. “Por isso, doámos estes belos caninos aos habitantes locais para protegerem os seus animais e, nas zonas onde introduzimos estes cães, assistimos a uma diminuição dramática na caça furtiva de leopardos.”

Destinos emergentes
O Chade pode ser um dos destinos de safaris menos conhecidos de África, mas o Parque Nacional de Zakouma, uma das melhores viagens National Geographic para 2020, está a mudar isso. “Passei 30 anos a trabalhar como guia privado por toda a África e Zakouma é um dos espetáculos mais incríveis de vida selvagem que alguma vez testemunhei. Nada nos prepara para a visão de milhões de tecelões-de-bico-vermelho a voar com nascer do sol, ou para as inúmeras manadas de elefantes”, diz Michael Lorentz, proprietário da Passage to Africa.

E cada vez mais os amantes de vida selvagem estão a visitar Madagáscar, lar de dezenas de milhares de espécies de fauna e flora. Cerca de 70% destas espécies, incluindo quase todos os lémures do mundo, não existem em mais lado nenhum. E o terceiro maior sistema de recifes de corais do planeta também prospera nesta região.

Depois, temos a costa oeste de África, que nunca foi realmente considerada um destino viável para safaris, mas Michael Fay, Explorador National Geographic, liderou uma expedição ao Gabão e testemunhou hipopótamos a nadarem no mar, elefantes a vaguearem pelas praias de areia branca e grupos enormes de gorilas nas clareiras da selva.

Avistamentos sustentáveis
A contradição entre celebrar a natureza e adicionar mais poluição ao planeta não se dissolveu no crescente número de viajantes mais sensibilizados da atualidade. Este ano, a Pousada Xigera Safari vai reabrir na área de biodiversidade do Okavango, alimentada por uma quinta solar com mais de 4.000 quilowatts. E um sistema de baterias a iões de lítio da Tesla oferece vários pontos de carregamento para os veículos elétricos de safari. E o plástico descartável também vai ser eliminado. "O nosso objetivo é criar o alojamento ecológico de safari de luxo do futuro", diz o diretor-gerente Mike Myers.

No Ruanda, um dos últimos refúgios para os gorilas-das-montanhas – animais em perigo de extinção – a Pousada Singita Kwitonda também está a levar a sustentabilidade a outro nível. As paredes do complexo foram construídas com materiais naturais, e um sistema de ventilação inovador aspira o ar fresco para arrefecer as divisões, eliminando a necessidade de ar-condicionado e o uso excessivo de energia.

Na Namíbia, a Pousada andBeyond Sossusvlei Desert está localizada na única reserva Dark Sky do continente. “Ecologicamente, os desertos são particularmente frágeis. Durante a construção, tivemos o cuidado de provocar o menor impacto possível, e quando a construção estiver concluída, também temos um programa de recuperação total”, diz Joss Kent, CEO da andBeyond.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com