Tasmânia: Um Sonho Para os Amantes de Experiências ao Ar Livre

Lar de demónios da vida real e de árvores com mais de 2 mil anos, esta ilha épica oferece aventuras inesquecíveis. quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Por Sarah Reid
Fotografias Por Ewen Bell

“EXPLORE AS POSSIBILIDADES” é o que diz na matrícula do meu carro alugado, com um tigre-da-tasmânia a espreitar entre dois números. Aceito o desafio, atiro as minhas botas de caminhada para dentro do porta-bagagens e coloco as coordenadas no GPS para o parque nacional mais próximo.

Outrora descartada como uma ilha de águas paradas, a Tasmânia é agora um dos destinos turísticos de maior crescimento na Austrália, e uma das melhores viagens da National Geographic para 2020. O segredo para o encanto deste estado mais a sul da Austrália é a sua beleza natural, que se deve em grande parte a uma combinação entre distância (os planos de expansão do aeroporto estão em andamento, mas os voos internacionais ainda podem demorar alguns anos) e ao espírito ecológico e duradouro dos seus 500 mil habitantes.

Coberta de árvores com 2 mil anos de idade e lar de demónios da vida real (e até de "tigres", se acreditarmos nos rumores de que o tilacino, oficialmente extinto, ainda vive), a ilha é perfeita para aventuras ao ar livre.

Depois de fazer uma caminhada pela Tasmânia, os seus visitantes descobrem que grande parte das atrações da ilha são surpreendentemente acessíveis. Em apenas 4 horas é possível viajar de carro por todo o estado. E independentemente da localização do nosso alojamento, a natureza está sempre a um passo de distância – afinal de contas, quase metade da ilha é um parque nacional.

Curiosa para descobrir se as experiências de aventura mais recentes da Tasmânia são tão espetaculares quanto parecem nas redes sociais, dirigi-me até Hobart para explorar as suas tentações cheias de adrenalina.

Para fazer caminhadas
“É um pouco mais bonito do que a cobra-tigre, não é?”, brinca o guia Joel Kovacs, enquanto um Thylogale (uma espécie de mini-canguru) saltita ao longo do nosso caminho no trilho Three Capes Track. O marsupial fica imóvel a alguns metros de distância para nos observar através de uma vegetação que antigamente era usada pelos Palawa (aborígenes da Tasmânia) para tecer cestas. Juntamente com um trio de cangurus-de-pescoço-vermelho e a mortífera cobra-tigre que se juntaram a nós pelo caminho, e sem esquecer a equidna que encontrámos mais tarde naquele dia, foi uma caminhada abençoada para observar vida selvagem.

Mas as vistas continuam a ser o grande destaque deste trilho de 4 dias – com 48 km de extensão – que circunda os penhascos de doleritos que sustentam a península de Tasman, uma região selvagem e ventosa que se projeta na ponta sudeste do estado. Inaugurado em 2015 com enorme alarido, o trilho mais recente da Tasmânia tem casas de madeira projetadas por arquitetos de renome e vários “lugares da história” onde os caminhantes são convidados a contemplar a história da península enquanto recuperam o fôlego.

No ano passado, a Tasmanian Walking Company, empresa que organiza caminhadas guiadas de luxo em alguns dos principais trilhos da Tasmânia, lançou a caminhada Three Capes Lodge Walk, com grupos que pernoitam em estalagens ecológicas particulares que estão discretamente localizadas no trilho principal. Considerando as refeições gourmet, o vinho local e o conhecimento dos dois guias, é uma forma verdadeiramente transformadora de experimentar um trilho que é diferente de todos os outros na Tasmânia. Mas os cerca de 880 trilhos que circundam os parques nacionais, as reservas e as áreas de conservação do estado também têm as suas características únicas. E a variedade não é o único trunfo.

"Os trilhos com boas infraestruturas não afetam a sensação de se estar imerso na natureza", diz Kovacs, nativo de Hobart que palmilhou muitos destes trilhos a trabalhar como guia nos últimos 10 anos. “Os trilhos da Tasmânia não foram alargados como acontece na Nova Zelândia e noutros lugares para acomodar grandes multidões, e espero que assim continuem.” O favorito de Kovacs é o Overland Track, uma travessia de 6 dias pelo Parque Nacional Cradle Mountain-Lake St. Clair.

No topo da minha lista de desejos está a Wukalina Walk, uma jornada de 4 dias guiada por aborígenes que foi inaugurada o ano passado na Bay of Fires, ou Baía dos Fogos, nome que também se deve à cor alaranjada das suas rochas de granito.

Os caminhantes mais casuais têm à sua disposição várias caminhadas diárias por onde escolher. Eu aproveito e dou um saltinho até às Cataratas Russell (e Cataratas Horseshoe a montante), no Parque Nacional Mount Field, que se estende por uma floresta tropical imortalizada na primeira coleção de selos da Tasmânia, projetada para promover o turismo em 1899.

Outros passeios notáveis incluem o Circuito Dove Lake, que passa por baixo da imponente montanha Cradle, o Wineglass Bay Lookout, que tem as melhores vistas do Parque Nacional Freycinet, e o Springlawn Nature Walk, no Parque Nacional Narawntapu, na costa norte, pela sua fauna. Estas são apenas 3 das 60 caminhadas mais pequenas listadas pelo Serviço de Parques & Vida Selvagem como sendo as melhores do estado, e estão a ser desenvolvidos novos percursos.

A proposta para construir 6 cabanas ecológicas para caminhantes ao longo do trilho South Coast Track – o trilho mais remoto da Tasmânia – recebeu luz verde para avançar no ano passado, ao passo que em julho foram anunciados planos para desenvolver uma rota pedestre na cordilheira de Tyndall, nos limites da área que é Património Mundial da UNESCO.

Para andar de bicicleta
A espreitar por cima do guiador da minha bicicleta, sobre um trilho íngreme e rochoso que desce entre eucaliptos pauciflora, interrogo-me se confiei demasiado nas minhas capacidades. Mas depois de percorrer algumas curvas apertadas sem cair, sinto-me confortável a descer pelo Maydena Bike Park, conseguindo ter vislumbres cada vez mais longos da paisagem em constante mudança, enquanto desço mais de 800 metros, por uma rede de 62 trilhos, numa encosta a noroeste de Hobart.

"Gosto de pensar nesta secção como o nosso próprio Parque Jurássico", diz Luke Reed, gerente assistente do parque, enquanto serpenteamos entre enormes plantas pteridófitas na floresta tropical de clima temperado que abraça as encostas. Há cerca de 2 anos, quando soube do desenvolvimento do parque de Maydena, Luke Reed abandonou o continente e diz que nunca mais olhou para trás. "Há muita coisa para fazer aqui. Temos as cataratas Marriott e o Mount Field ali ao final da estrada, e ainda não andei de bicicleta por todos os trilhos de Maydena."

Apesar de Maydena ser o único parque completamente dedicado a bicicletas todo-o-terreno da Tasmânia, existem cada vez mais parques para bicicletas de montanha a surgir por todo o estado. A norte de Launceston, o Hollybank Mountain Bike Park, inaugurado em 2014, tem uma descida de 10 km chamada Juggernaut que atrai ciclistas do mundo inteiro.

Em 2015, a antiga cidade mineira de Derby transformou-se subitamente no principal destino para bicicletas de montanha da Austrália, depois de inaugurar o Blue Derby Mountain Bike Trails. E este movimento continua a evoluir com a primeira secção da rede St. Helens Mountain Bike Trail, 65 km a sudeste de Derby, que foi inaugurada em novembro.

"Também é possível andar de bicicleta em alguns dos trilhos do Mount Wellington", diz Luke, enquanto tiramos os capacetes. Aliviada por ter conseguido completar Maydena sem ter testado os limites do meu seguro de viagem, acredito nele.

Para fazer canoagem
O meu guia, Liam Weaver, foi quem o avistou primeiro. Seguindo as suas indicações, remo lentamente na direção de uma forma castanha que se move pela água. De repente, o seu corpo liso e peludo, e o icónico bico de pato, ficam mais visíveis. É o meu primeiro avistamento de um ornitorrinco, e estou extasiada.

“Em algumas viagens, vemos mais de 20”, diz Weaver de sorriso na cara, enquanto eu volto a perscrutar as águas à procura de mais atividade dos ornitorrincos.

O ornitorrinco, uma das criaturas mais elusivas da Austrália, prospera a montante do rio Derwent, rio que serpenteia por um vale rural a noroeste de Hobart e que é ladeado por quintas de ovelhas e plantações de lúpulo que perfumam o ar com uma estranha mistura de lanolina e cerveja. Weaver estima que vivem aqui cerca de 30 a 50 pares reprodutores de ornitorrincos, preparando o cenário para o melhor dos passeios de caiaque, o Tassie Bound.

"Quando o Liam me trouxe aqui de caiaque pela primeira vez, parecia que estávamos a ser presenteados com uma oportunidade única para criar uma experiência sustentável de turismo", disse a esposa e parceira de negócios de Liam, Fiona, depois do passeio. Fiona também administra a Wild Island Women, a primeira comunidade feminina de aventura da Tasmânia. "Alguns dos habitantes locais nem sabem que têm esta oportunidade incrível de fazer observação de vida selvagem mesmo à porta de casa", diz Fiona.

E mesmo sem ornitorrincos, este passeio a remos tem vistas maravilhosas. Três anos depois de ter sido lançado, o Tassie Bound continua a ser o único operador no rio, o que aumenta a sensação de aventura. O casal também faz outros passeios de caiaque, e existem passeios muito bons na península Freycinet, mas quem estiver interessado em aventuras diferentes pode dar uma vista de olhos às expedições de vários dias da Roaring 40s Kayaking que navegam pelos canais ocultos da região Património Mundial.

Na mesma zona, encontramos a experiência mais espetacular de rafting em águas brancas da Austrália, uma aventura de 8 dias pelo rio Franklin – rio que foi salvo de um projeto de construção de uma barragem nos anos 1970 por uma das campanhas ambientais mais relevantes da história da Austrália.

"A experiência de remar pelo Franklin, que não tem quaisquer infraestruturas artificiais, é incrivelmente poderosa", diz Elias Eichler, nascido na Tasmânia, que dirige o Franklin River Rafting com a sua mulher e o seu amigo, Franzi. “A água é tão cristalina que até levamos um copo pendurado na lateral do barco para o caso de ficarmos com sede. Onde é que podemos fazer algo assim hoje em dia?”

Para comer
Sejam queijos à moda de King Island Dairy, ou ostras à Bruny Island, a comida da Tasmânia é lendária e, com mais de uma dezena de rotas gastronómicas estabelecidas por todo o estado, a escolha do nosso próprio itinerário para comer e beber é uma das aventuras mais gratificantes.

Dado o clima ideal para o malte, o Whisky Trail é um bom lugar para começar. Depois de passar a manhã no Museu de Arte Antiga e Moderna (MONA), a principal instituição cultural da Tasmânia e uma aventura por si só, entro na Destilaria Shene, a apenas 30 minutos de carro a norte de Hobart. Aqui, a família Kernke restaurou meticulosamente um requintado estábulo e um celeiro de arenito gótico-revivalista do século XIX – este último é agora a sala de degustação da destilaria da família.

O primeiro lote do uísque Mackey, que é destilado 3 vezes, ganhou a medalha de ouro no San Francisco World Spirits Competition em 2018, mas prefiro o gin Poltergeist que também é produzido aqui. O gin tem este nome em homenagem aos símbolos pagãos que foram gravados nos edifícios durante os tempos coloniais, apesar de Anne Kernke, que faz passeios guiados e provas com marcação, sugerir que existe algo mais nesta história. Uma vez, Anne teve a sensação de ter alguém sentado na sua cama enquanto ela estava deitada, e não havia ninguém por perto. "Nós adoramos uma propriedade com espírito, por isso, achámos que era melhor fazermos bebidas espirituosas", diz Anne a piscar o olho enquanto me serve um gin tónico.

Existem outras rotas que revelam bem o espectro de paladares da Tasmânia. Os enófilos podem seguir as placas azuis e amarelas ao longo de um circuito com quase 170 km a norte de Launceston, para descobrir mais de 30 adegas na Rota dos Vinhos do Vale Tamar. E o trilho gourmet Made on Bruny Island é ideal para os amantes de ostras e queijos.

Por fim, depois de provar um filete de peixe cozinhado na perfeição numa das famosas lojas flutuantes de fish-and-chips de Hobart, percebo que, se existe uma desvantagem em procurar aventuras na Tasmânia é a de que, por mais que nos esforcemos, dificilmente vamos para casa mais leves.

Depois de dar mais uma dentada, chego à conclusão de que consigo viver bem com isso.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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