Despertar do Movimento Aquático

Oceans and Flow reúne viajantes para aprofundar a conexão com o meio ambiente através da dança, da terapia aquática e do mergulho livre.quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

ILHA de SÃO MIGUEL, AÇORES ― foi o destino escolhido para um encontro de grupo com 15 participantes, interessados em desenvolver novas formas de se relacionarem com a água. Uma forma também diferente de viajar e descobrir a ilha, através de práticas de autoconhecimento e conexão com a natureza.

A fundadora do projeto, Violeta Lapa, começou este caminho em 2016, sem saber nadar e com a intenção de um dia dançar na água. Na sua decisão de enfrentar um medo, descobriu exercícios e práticas que ajudam a vencer bloqueios, empoderar sonhos e fortalecer propósitos. Criou a Oceans and Flow, e durante os últimos quatro anos, realizou 30 viagens de pesquisa para aperfeiçoar um itinerário de imersão, indo ao encontro do que a água pode ensinar.

O convite foi aceite por 98 participantes vindos de 27 países, ao longo de sete viagens nos Açores, Tailândia, Grécia, Sintra e Parque Natural da Arrábida. Para cada viagem, Violeta identifica “uma constelação de professores, chefs de cozinha, parceiros e guias locais. É um sonho coletivo que nós sonhamos com os participantes. Um espaço para criarmos juntos”.

No interior da ilha de São Miguel, por cima de um veludo de plantas e musgo no parque Terra Nostra, a professora de dança desta primeira viagem aos Açores, Sasha Bezrodnova, lembra-nos que “as árvores sentem o nosso toque, a relva sente o nosso toque, tudo sente o nosso toque”. Sob esse olhar, exploramos através do movimento, formas de levantar, sentar, rolar, trabalhar o apoio firme e o sentir do chão. Escutar com todos os nossos sentidos. Atentos ao ritmo da natureza e do grupo, participando nas observações e descobertas de cada um.

Na terceira noite, com a permissão do Parque Natural da Ilha de São Miguel, o nosso grupo entrou nas termas de água quente metálica, vinda da nascente na Caldeira Velha.

Uma neblina pairava ao redor, feita por fumarolas e com cheiro a vulcão. Chovia levemente, apesar do céu estrelado. Entre exercícios de relaxamento e flutuação, Ofer Rosenthal, professor desta sessão, providenciou um poderoso espaço de introspeção e cura – “a água leva a memória das coisas, que atravessa todos os seres vivos de um planeta. Um grande símbolo de união, da união que vive dentro de nós e fora de nós”.

Antes de um novo amanhecer, embarcamos com a empresa Terra Azul no seu barco semi-rígido, comandado por Miguel Cravinho. Após uma breve pausa à deriva para saudar o Sol, navegamos a curta distância até o Ilhéu de Vila Franca. Com a permissão do Parque Natural, desembarcamos antes do horário de abertura ao público. Raios laranja refletiam das paredes circulares, que seguravam um mundo de água na cratera interior. Sentindo o grupo, Sasha fez um convite, “vamos deixar as nossas mochilas, telefones e câmaras aqui no cais, entrar descalços, e caminhar em silêncio”. Confesso que fiquei imóvel uns segundos, com uma mochila cheia de lentes e câmaras prontas a filmar tudo. Caminhei desarmado, enquanto cada um era atraído por uma região diferente do ilhéu. Desci pela parede de pedra e saltei para a água fria esmeralda da manhã.

O ilhéu respirava com o subir da maré, quando o toque de um leve sino juntou o grupo numa pequena praia no seu interior. A proposta foi formarmos duplas, para uma dinâmica de “dança e movimento autêntico”. Um movimentava-se de olhos fechados, como bem sentisse, o outro permanecia observando e dando segurança. Dançámos ilhados entre as pequenas ondas, vindas de todos os lados, até a praia desaparecer debaixo dos nossos pés.

Ao longo da semana percorremos um trilho aquático da terra até o mar. Foram dias dedicados a despertar reflexos criados desde uma genética ancestral, até ao útero materno. Ativando memórias celulares que nos predispõem para imersões na água.

Na piscina das Termas da Ferraria, desenvolvemos exercícios de terapia aquática com o Ofer, de dança aquática com Sasha, de respiração e iniciação ao mergulho livre com o instrutor Mario Blanco. Para Mario, o foco era “levar uma pessoa a reconhecer que a
água é como uma casa. Podemos ultrapassar ideias que estão na mente, e não no corpo, e compreendermos que o nosso corpo é bem capaz. É importante para as pessoas entenderem essa possibilidade de habitarmos a água, de nos relacionarmos com o mar,
com os lagos, com os animais desses lugares, de uma forma mais familiar. A conexão é sobre isto. Divertida, bonita, mas é também uma responsabilidade
”. “Nós cuidamos do que amamos”, diz Sasha completando seu pensamento.

No último dia da viagem, com o vento calmo e mar liso, embarcamos novamente com o Miguel Cravinho da Terra Azul. Paramos perto dos três quilómetros da costa, com 400 metros de profundidade. Uma família de golfinhos navegava por perto. Eles têm uma vida bem diferente da nossa, mas temos em comum a capacidade de criar linguagens, vínculos sociais, e até conhecimentos medicinais. Temos também em comum, adaptações e respostas fisiológicas de mergulho.

Quando colocamos o nosso rosto na água, sentimos o efeito no coração, 20% de redução na frequência do batimento cardíaco. O corpo, através da vasoconstrição direciona sangue de regiões periféricas até aos órgãos vitais. Em profundidade, o baço contrai e liberta reservas de glóbulos vermelhos oxigenados, que facilitam a circulação. O sangue, enquanto fluido pouco compressível dentro de água, enche os alvéolos e mantém a nossa estrutura pulmonar e a troca gasosa, mesmo sob altas pressões.

O tempo move-se de forma diferente. Golfinhos aparecem e desaparecem do nosso campo de visão. Seus sons e palavras ecoam longe, entre formas de vida cintilantes que pulsam em cada milímetro de água. Atentos à segurança, o nosso grupo dança em diferentes profundidades. Alguns encostam-se de leve, outros deixam-se ir pelo toque. Vê-los a voar num ballet aquático é um descanso para o olhar, que perde facilmente orientação no infinito azul.

Navegando de volta ao porto de abrigo, Violeta celebra com o grupo esta dança de potencial, que valoriza cada vez mais o Oceano em nós – “a simplicidade de estar em contacto com a água, e como pode ser tão transformador”.


Gustavo Neves é um realizador e fotógrafo, baseado em Lisboa, que integra a equipa de produção da Oceans and Flow. Violeta Lapa é fundadora da Oceans and Flow, onde desenvolve expedições, retiros e documentários sobre a cultura do movimento aquático.

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