Visite a Ilha Remota Onde Napoleão Passou os Últimos Anos de Vida

Um novo aeroporto traz consigo turistas – e mudanças – para a ilha selvagem de Santa Helena.segunda-feira, 9 de março de 2020

Por Emma Thomson
Fotografias Por Robert Ormerod

“Santa Helena. Ilha pequena.” Em 1785, quando Napoleão Bonaparte ainda era estudante, rabiscou estas palavras na última página do seu livro de geografia. Ironicamente, 30 anos depois, o deposto imperador francês foi exilado (e faleceu) neste remoto posto britânico no Oceano Atlântico.

Porém, ainda existem muitas pessoas que nunca ouviram falar sobre este lugar, ou sabem sequer onde fica, mas isso está a mudar. Em outubro de 2017, Santa Helena recebeu o seu primeiro voo comercial. Esta ilha de 121 km quadrados, que antigamente só era acessível através de uma viagem de cinco dias de barco, no RMS St. Helena, pode agora ser alcançada com um voo de quatro horas a partir da África do Sul.

Mas esta acessibilidade não foi um processo fácil. O voo inaugural foi adiado durante mais de um ano devido às condições perigosas do vento. E a imprensa não perdoou: no Reino Unido alguns dos jornais diziam que era “o aeroporto mais inútil do mundo”. A passagem para aviões mais pequenos e o treino intensivo feito durante 8 meses pelos pilotos resolveram o problema, mas o aeroporto continua a tentar afastar a má imagem inicial. Atualmente, só existem 9 pilotos no mundo qualificados para voar para Santa Helena. “O aeroporto está classificado com a categoria C – o nível mais difícil”, diz Jaco Henning, o piloto sul-africano que fez o voo inaugural.

De porto britânico ao esquecimento
Curiosamente, Santa Helena, que fica a cerca de 1930 km da costa angolana, costumava atrair muitos visitantes, entre eles o naturalista Charles Darwin, o explorador James Cook, o romancista William Thackeray e o astrónomo Edmond Halley.

E até o futuro inimigo de guerra de Napoleão, Arthur Wellesley, duque de Wellington, fez uma visita memorável à ilha em 1805, quando regressava da Índia para Inglaterra. “O barco que o ia levar para terra virou-se com a fúria das águas. Três pessoas morreram afogadas”, diz um guia turístico octogenário, Basil George, enquanto passeamos pelas docas da capital em Jamestown. “Wellington não sabia nadar, mas houve um rapaz que o socorreu. Se o rapaz não o tivesse feito, a Batalha de Waterloo podia nunca ter acontecido!”

Agora, o próprio destino da ilha está a mudar. “Antes de existir o canal do Suez, atracavam aqui 30 navios por dia”, diz George. O comércio esteve sempre em crescimento desde 1657, quando Oliver Cromwell concedeu à Companhia das Índias Orientais uma carta para governar a ilha. Foi enviado um pequeno pelotão e um grupo de agricultores – e assim fizeram de Santa Helena uma das colónias mais antigas da Grã-Bretanha. E com as riquezas do comércio que aqui passava vindo da Índia, construíram um forte, um castelo, a Igreja de St. James e a Casa da Plantação. E comerciantes como Solomons e Thorpes – que ainda hoje têm lojas em Jamestown – instalaram-se aqui na década de 1790.

Mas, em 1833, quando a ilha passou da Companhia das Índias Orientais para a Coroa Britânica, “ficámos pobres”, diz George, e as coisas começaram a piorar em 1869. “O canal tirou-nos do mapa e, na década de 1960, o comércio de linho colapsou – quando os serviços postais do Reino Unido começaram a usar elásticos em vez de fios – e ficámos dependentes da ajuda do governo”, diz George. Os empregos eram tão escassos que as crianças ficavam a viver com os avós enquanto os pais iam para o Reino Unido trabalhar em casas de famílias abastadas.

Uma das pessoas que viveram esta realidade foi Ivy Robinson, que gere a Wellington House em Jamestown. “A minha irmã partiu quando eu tinha 4 anos, e só a vi novamente quando já tinha 44 anos”, diz Ivy. E muitos dos habitantes da ilha ainda precisam de procurar trabalho longe de Santa Helena. “A ilha pode ser um círculo de segurança, ou uma armadilha”, diz George.

O aeroporto vai mudar as coisas?
Os habitantes esperam que o aeroporto dê aos ilhéus mais jovens (conhecidos por santos) uma oportunidade de futuro que não os obrigue a sair da ilha à procura de trabalho. Aaron Legg – um santo de quinta geração – costumava depender da agricultura, mas diversificou a sua atividade e agora organiza passeios de aventura em veículos todo-o-terreno pela ilha. “Já não preciso de esperar três semanas pelo meu próximo cliente”, diz Aaron, enquanto examinamos o mato à procura da ave endémica da ilha, também conhecida por batuíra-de-santa-helena. “O aeroporto também me dá liberdade para viajar sem ter de me afastar muito tempo dos meus negócios.”

Mas nem todos concordam com a construção do aeroporto. Em 2002, a ilha fez um referendo onde os ilhéus puderam votar a favor ou contra. Mas só metade da população é que votou, distorcendo de certa forma os resultados. Depois, com a crise económica, os fundos desapareceram e os planos ficaram congelados até 2012, altura em que começaram as obras do aeroporto sem um segundo referendo. “Eu não votei no aeroporto. Eu não sabia se seriamos capazes de nos adaptar rapidamente. Os mais novos conseguem, mas nós estamos habituados a um ritmo de vida mais lento”, diz Ivy Robinson. E também receia que o impacto no isolamento dos mais novos seja prejudicial. “Estamos aqui tão protegidos: não temos crime, não temos portas trancadas.”

Mas, para outras pessoas, o problema reside no facto de o aeroporto não ser prático. “Não foi construído para os santos”, diz Vince Thompson, editor do jornal Independent da ilha. “Os 76 lugares do avião, mesmo que as viagens sejam semanais, não chegam para as nossas necessidades.” E o número limitado de lugares também significa menos dinheiro vindo do turismo. O Mantis, o hotel boutique mais recente da cidade, conta com investimento estrangeiro, mas as pousadas locais precisam de visitantes para ganhar dinheiro e investir no melhoramento das infraestruturas. E alguns habitantes reclamam que os voos são demasiado caros.

Caminhadas, estrelas e uma tartaruga muito velha
Portanto, o que é que os viajantes podem esperar de Santa Helena? Esqueça as fantasias de praias de areia branca e palmeiras. A ilha oferece falésias esculpidas no oceano e vales íngremes recortados pela chuva. As paisagens envoltas em vastos campos de linho escondem florestas exuberantes ladeadas pelas brumas das marés. E a areia na praia de Sandy Bay é negra.

Santa Helena parece talhada para a aventura. As 30 espécies de peixes das suas águas são acompanhadas, entre janeiro e março, por tubarões-baleia. E na Casa da Plantação os naturalistas também podem dar de caras com o animal vivo mais antigo do mundo, Jonathan, a Tartaruga Gigante (que eclodiu por volta do ano 1832), e fazer observação de espécies endémicas como a batuíra-de-santa-helena (Charadrius sanctaehelenae) e o caracol corado miniatura (Succinea sanctaehelenae).

E também pode saborear o café mais remoto do mundo, ou provar um trago de Tungi (bebida espirituosa feita de figo-da-índia) e provar os bolos de peixe, ou a bread ‘n’ dance (sandes com pasta de tomate). Ao anoitecer, recoste a cabeça e desfrute de um céu estrelado. A ilha aguarda o reconhecimento oficial da Dark Sky Association sobre a qualidade de observação do céu noturno. “Temos características únicas, daqui conseguimos ver a constelação Cruzeiro do Sul e a Ursa Maior”, diz Thompson.

As caminhadas são uma das grandes atrações da ilha. Qual é o melhor trilho? Os 699 degraus da Escada de Jacob, que sobem o íngreme vale que protege Jamestown. “Você alguma vez fez escalada?” pergunta Val Joshua, enquanto me leva por uma caminhada até ao Pico de Diana. Joshua ajudou a classificar os mais de 20 trilhos que atravessam a ilha – os músculos das suas pernas parecem punhos cerrados. E os habitantes da ilha também parecem estar todos em boa forma, mas os trilhos estão a ser reclassificados para permitir caminhadas mais acessíveis aos viajantes que não possuem o “gene de cabra das montanhas”.

À procura de Napoleão
Os amantes de história podem aprofundar o passado de Napoleão com uma visita à Casa Longwood, onde o imperador deposto viveu exilado desde 1815 até falecer em 1821. Os destaques incluem uma banheira de cobre onde o “Pequeno Cabo” passava horas a ler e a compor as suas memórias, bem como as vigias onde Napoleão esculpiu persianas, para espiar melhor os guardas no exterior. A sepultura onde o seu corpo esteve enterrado até ao ano de 1840 fica a pouco mais de 2 km de distância. (Os restos mortais de Napoleão foram depois transladados para Paris nesse ano.)

Ilha idílica e isolada
Apesar da sua história atribulada, a vida na ilha é calma e os habitantes locais ainda trocam diariamente abóboras por galinhas; a cobertura de rede para telemóvel só foi lançada em 2015; e as duas rotundas da ilha “ainda estão a ser aperfeiçoadas”, diz Stephen Biggs, proprietário da Farm Lodge Country House. Com cerca de 4500 habitantes, a família é, literalmente, tudo. “Todos são tios e tias, mesmo que não sejam!” diz Matt Joshua, um dos habitantes, a rir. Portanto, na ilha todos se tratam pelo primeiro nome. E de facto, no meu segundo dia em Santa Helena, enquanto andava por Jamestown a tirar fotografias, uma senhora meteu-se em frente da câmara. “Posso ficar com uma cópia? O meu nome é Molly”, disse a senhora a sorrir, como se tivesse dito tudo sobre si.

Todo este isolamento também acarreta desafios: é difícil encontrar alguns ingredientes para a cozinha, e a cobertura de internet e rede móvel tem momentos em que é irregular. Mas o isolamento também é o grande apelo de Santa Helena. Com este afastamento digital e geográfico, regressamos a um ritmo mais lento e aos prazeres simples da vida. Os habitantes locais cumprimentam-nos na rua ou acenam quando passam na estrada (independentemente de nos conhecerem). É tudo muito silencioso, e damos connosco a desfrutar de jogos de tabuleiro ao lado de uma lareira.

Mudanças no horizonte
Os viajantes devem aproveitar esta oportunidade para fazerem uma desintoxicação digital porque, no fundo do oceano, está uma ramificação do cabo submarino de fibra óptica da South Atlantic Express – que faz a ligação entre a África do Sul e a costa leste dos EUA – e que em breve vai acabar com o isolamento digital de Santa Helena. “Vai ter um impacto muito maior do que o aeroporto”, diz Helena Bennett, diretora de turismo da ilha.

A embarcação RMS St. Helena encerrou funções em 2018. Os navios cargueiros ainda passam por aqui, mas a era dos viajantes que vislumbravam este pedaço de rocha no meio do oceano acabaram. A chegada por via aérea altera a experiência? Rainer Schimpf, operador de mergulho sediado na África do Sul que espera fazer expedições em Santa Helena, já veio de barco e de avião. “As pessoas adoravam o RMS porque era como viajar no tempo – quase que podíamos encontrar o Humphrey Bogart nos corredores. E quando chegávamos, éramos amigos de todos e já sabíamos tudo sobre a ilha. Eu pensava que vir de avião era diferente, mas ainda há muitas conversas de um lado para o outro do corredor – não é como um voo normal.”

O aeroporto pode ser uma solução para acabar com a dependência económica da ilha, mas o turismo só consegue ser sustentável quando os visitantes chegarem semanalmente, em vez de uma vez por mês. Bem-vinda ou não, a mudança está literalmente a voar para Santa Helena.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.