Invasão de Propriedade e Vandalismo nos Parques Nacionais Afetados Pelo Coronavírus

Enquanto a pandemia leva ao encerramento de vários parques, alguns visitantes testam os limites – e as equipas dos parques tentam lidar com a situação.

sexta-feira, 24 de abril de 2020,
Por Kurt Repanshek
O Rio Grande marca a fronteira entre o Desfiladeiro de Santa Elena (à esquerda), protegido pelo ...

O Rio Grande marca a fronteira entre o Desfiladeiro de Santa Elena (à esquerda), protegido pelo México, e o Parque Nacional Big Bend do Texas, que está temporariamente encerrado durante a pandemia de coronavírus.

Fotografia de Meridith Kohut, The New York Times/Redux

Até os parques norte-americanos estão a sentir a pressão da pandemia de coronavírus.

Embora existam limites no número de pessoas que podem estar juntas e as ordens de confinamento restrinjam o movimento de milhões, o tempo passado ao ar livre é agora mais vital do que nunca. Nos EUA, dezenas de parques nacionais encerraram por completo e, apesar da controvérsia, algumas zonas públicas permanecem abertas – e os visitantes estão a testar os limites.

As instalações para visitantes da Área Nacional de Recreação Golden Gate estão encerradas, mas os seus espaços ao ar livre permanecem abertos ao público. O pedido de confinamento na Califórnia permite atividades ao ar livre, desde que se respeitem as distâncias de segurança, e vários parques registaram um aumento no número de visitantes em finais de março.

Fotografia de David Paul Morris, Bloomberg/Getty Images

Invasão de propriedade e fogo posto
A enorme quantidade de parques encerrados fez com que os viajantes começassem a procurar novos destinos, incluindo o Monumento Nacional Sunset Crater Volcano, no Arizona.

Criado em 1930 para proteger a paisagem pitoresca que uma equipa de filmagens de Hollywood queria explodir, o monumento de Sunset Crater, que não fica muito longe de Flagstaff, assistiu a um aumento no seu número de visitantes. Uma das estradas que serpenteia pela Floresta Nacional de Coconino atravessa o monumento em direção a norte, perto do Monumento Nacional de Wupatki. Apesar de estes dois monumentos e respetivos terrenos estarem encerrados, a estrada não está, porque dá acesso a terrenos florestais nacionais e a residências particulares.

Brenda Emry, guarda florestal em Sunset Crater, diz que passam por ali mais de 45 veículos por dia – mais do que o número de residentes ou o tráfego do Serviço Florestal.

“O tráfego é mais intenso do que poderíamos esperar neste momento, durante uma pandemia”, diz Brenda. “Qualquer pessoa que abandone a estrada está basicamente a invadir propriedade. Eu diria que, diariamente, cerca de 18 a 20 pessoas tentam sair da estrada para fazer caminhadas nos nossos trilhos.”

Os veículos têm matriculas de vários estados: Califórnia, Nova Iorque, Novo México, Wisconsin. “As pessoas foram informadas para ficarem em casa em confinamento, mas ainda assim, parece que sofrem de algum tipo de problema com o isolamento. Ainda há muitos viajantes.”

No Parque Nacional de Shenandoah, na Virgínia, a equipa do parque tenta lidar com as indicações contraditórias das autoridades.

“Estamos a tentar encontrar um equilíbrio entre as diretrizes do Centro de Controlo de Doenças e as palavras do governador”, disse Sally Hurlbert, porta-voz do parque de Shenandoah. “O governador diz para as pessoas ficarem em casa, mas também deixa a porta aberta para que se desloquem até aos lugares públicos, para fazerem exercício e apanhar ar fresco – por questões de saúde mental e física.”

Até ao dia 8 de abril, mais de 100 km da estrada Skyline Drive, desde Front Royal Sul até Swift Run Gap, estavam encerrados à circulação de veículos – embora estivessem abertos para ciclistas e pedestres, porque os municípios vizinhos pediram ajuda para reduzir as multidões atraídas pelos trilhos do parque. Mas nesse mesmo dia à tarde, o parque de Shenandoah encerrou por completo.

A equipa do parque também decidiu ficar de vigia durante a noite – as pousadas estão fechadas, é proibido acampar e a equipa não quer incentivar as caminhadas noturnas. Mas ainda há alguns visitantes de Shenandoah que pensam que ninguém está a observar.

“Temos assistido a alguns atos de vandalismo, mas o que há mais é o que chamamos de comportamentos incómodos”, disse Hurlbert. “Pessoas que fazem peões com os carros nos parques de estacionamento e nos miradouros. Também assistimos a um aumento no excesso de velocidade; há pessoas que aceleram pela Skyline Drive. E lixo, muito lixo, mais do que o normal. Estamos a tentar acompanhar o saneamento, mas isso coloca os nossos guardas florestais em risco porque eles precisam de apanhar o lixo e esvaziar os contentores – e o coronavírus pode sobreviver durante um determinado período de tempo no papelão e em superfícies de plástico.”

Mas os problemas não se limitam aos comportamentos incómodos: Há relatos de fogo posto no Ozark National Scenic Riverways, no Missouri. A equipa do parque anunciou a oferta de uma recompensa de até 10 mil dólares por informações que levem à condenação de quem deflagrou o incêndio florestal de Pot Hole, no dia 9 de março, fogo que ameaçou uma residência particular.

Os parques nacionais de Yellowstone e Grand Teton encerraram no dia 24 de março. A hesitação do Serviço Nacional de Parques dos EUA em fechar os parques durante os estágios iniciais da pandemia foi alvo de muitas críticas de especialistas.

Fotografia de Jacob W. Frank, NPS/Alamy Stock Photo

Olhar para o futuro
À medida que o teletrabalho se torna no novo normal para as equipas da maioria das unidades dos parques que encerraram as instalações, alguns funcionários do Parque Nacional Big Bend, no Texas, concentraram-se nos projetos que estavam atrasados.

“Estamos a fazer muito trabalho ao ar livre”, disse o superintendente Bob Krumenaker. “Trabalhos nos trilhos e na vegetação. Estamos a pintar o centro de visitantes e a limpar tudo a fundo. Mantemos a distância social, mas estamos a trabalhar arduamente e a tentar colocar o parque nas melhores condições possíveis, para que, quando reabrirmos ao público, as pessoas possam ver que passámos o tempo de forma produtiva.”

Jennifer Pharr Davis mal pode esperar que reabram os parques. Davis, que em 2011 estabeleceu o recorde para a caminhada mais rápida no Trilho Appalachian, trilho com mais de 3.500 km de extensão, é proprietária de uma empresa de caminhadas guiadas em Asheville, na Carolina do Norte, junto ao Parque Nacional Great Smoky Mountains e da estrada Blue Ridge Parkway.

O encerramento das Great Smoky Mountains, e a recomendação da Appalachian Trail Conservancy para as pessoas evitarem o icónico trilho, forçaram o cancelamento das caminhadas programadas de Davis.

“Estamos agora encerrados a cerca de 90%”, disse Davis. “As nossas viagens foram canceladas, a maioria dos parques nas redondezas está fechado, e a nossa loja também fechou. Agora, a parte mais difícil é saber quando é que podemos reabrir e começar a agendar as coisas novamente. Do ponto de vista comercial, fechámos tudo, exceto o comércio online.”

E parece que alguma da vida selvagem também está desejosa que os visitantes regressem.

“Agora que as pessoas se afastaram, já não temos tantas gaivotas e corvos a rondar”, disse J.J. Condella – gerente da Flamingo Adventures, empresa que fica no extremo sul do Parque Nacional Everglades – sobre as aves que andavam sempre por perto à espera para roubar alguma comida dos almoços dos visitantes. “Parece que as aves perderam a esperança e foram para outra região.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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