Será que as Viagens Virtuais Vieram Para Ficar?

O coronavírus está a mudar a forma como viajamos. Mas será que a realidade virtual – um escape bem vindo à pandemia – poderá substituir as viagens reais quando a pandemia passar?

quinta-feira, 23 de abril de 2020,
Por Angela Chen
Através da realidade virtual, os viajantes podem “visitar” destinos longínquos, como a região costeira da Tanzânia, ...

Através da realidade virtual, os viajantes podem “visitar” destinos longínquos, como a região costeira da Tanzânia, com impactos ambientais mínimos.

Fotografia de Ascape VR

No Dia da Terra de 2020, as pessoas que normalmente o celebram ao ar livre podem ter precisado de recorrer a passeios virtuais. E esta pode ser uma oportunidade para experimentar uma tecnologia que alguns especialistas encaram como uma solução ecológica para o problema do turismo em excesso.

Com cerca de 90% do planeta a enfrentar restrições nas viagens, muitos aventureiros estão a recorrer à realidade virtual (VR) para os levar até Machu Picchu, ou às Ilhas Galápagos. O potencial que esta tecnologia tem na diminuição da pegada de carbono do turismo é evidente, e é sublinhada por alguns dos benefícios ecológicos inesperados que surgiram do confinamento devido ao coronavírus – incluindo ar e água mais limpos.

Mas, apesar de ter reduzido a poluição, a pandemia tem sido devastadora para a indústria do turismo. Será que o interesse em viajar virtualmente se vai manter depois da pandemia? E será que esta tecnologia VR vai continuar em ascensão?

Mais do que uma engenhoca
Há vários anos que as companhias aéreas, as agências de viagens e de turismo usam a tecnologia VR para vender destinos de férias a potenciais clientes. Agora, “o impacto da COVID-19 pode fazer com que a [realidade virtual] perca a imagem de que é apenas uma engenhoca”, diz Ralph Hollister, analista turístico da Global Data e autor de um relatório sobre o setor de viagens VR.

As experiências de viagens virtuais estão a assistir a um aumento na sua popularidade. Valeriy Kondruk, CEO da empresa de viagens virtuais Ascape, diz que os downloads da sua aplicação cresceram 60% em relação a dezembro (tradicionalmente o mês mais movimentado) e duplicaram desde janeiro. A empresa tem despertado o interesse de educadores e de pessoas que trabalham em clínicas de repouso, diz Kondruk – e isto acontece quando as companhias aéreas e as agências de viagens, que geralmente licenciam os conteúdos VR da Ascape, interromperam as suas contas.

Para os destinos superlotados, como Machu Picchu, as experiências de realidade virtual podem ajudar a diminuir o número de turistas, aliviando a infraestrutura local.

Fotografia de Jonathan Irish, National Geographic Image Collection

Ainda assim, existe uma diferença enorme entre usar a realidade virtual para “experimentar antes de comprar” e encarar a realidade virtual como o verdadeiro destino em si. Para começar, a tecnologia ainda não está realmente pronta. Os vídeos de realidade virtual de 360 graus geralmente são visionados através de óculos VR (como o Oculus Rift) ou de uma aplicação (como a Google Cardboard). Os óculos VR são dispendiosos, pesados, podem provocar náuseas e a sua utilização não é confortável durante mais de 30 minutos. As aplicações não têm estes problemas, mas também não são tão impressionantes, diz Hollister.

As sensações limitadas são outro dos obstáculos. Os vídeos concentram-se na audição e na visão, mas não conseguem fazer muito com o olfato, o toque ou o paladar, e as experiências VR tendem a durar apenas alguns minutos – nada que se compare com umas férias de duas semanas em Espanha. E claro, alguns investigadores estão a trabalhar em recursos VR cada vez mais imersivos, incluindo fatos táteis, diz Samuel Greengard, autor de Virtual Reality. Mas, mesmo que um fato de corpo inteiro com experiências sensoriais aumentadas consiga fazer com que um vídeo da Amazónia ou da Antártida pareça mais realista, continua a não conseguir responder às necessidades mais profundas que nos compelem a viajar.

Instinto de liberdade
Os turistas não são habitantes locais, e também não são viajantes de negócios. Os turistas tendem a ser menos diretos nas suas explorações e estão mais focados em novas experiências e descobertas. “E isso não é passível de ser recriado em realidade virtual”, diz Erick Ramirez, filósofo da Universidade de Santa Clara que estuda VR.

Erick Ramirez compara o futuro das viagens virtuais a uma teoria clássica: imagine que se podia ligar a uma “máquina de sensações” e sentir-se simplesmente feliz para sempre. O filósofo Robert Nozick, que desenvolveu esta teoria, “acredita que ninguém se iria querer envolver com isto”, diz Ramirez. “Eu acho que existem alguns tipos de experiências turísticas em que o seu valor está na ação, não apenas em ver e ouvir, e será difícil a realidade virtual conseguir replicar isso.”

Nós não queremos apenas fazer coisas, queremos ser nós a decidir o que fazer. A um nível básico, as viagens virtuais são construídas e são-nos alimentadas; vemos apenas a extensão de um mundo que alguém foi capaz de filmar e projetar. Ramirez diz que é “a mais autoritária das visitas guiadas”.

A realidade virtual estende-se apenas até onde foi projetada. Numa experiência virtual, não podemos optar por passear por uma rua secundária e descobrir um café encantador, a não ser que essas opções já tenham sido programadas.

Fotografia de Sylvain Sonnet, Getty Images

Alguém que visite a Índia na vida real pode decidir para onde quer ir e o que visitar. E nessa viagem, as pessoas podem surpreender-se com as coisas que descobrem. Mas alguém que viaje até à Índia através de um vídeo, pode nunca ver coisas que uma empresa de produção VR pode obscurecer para criar uma experiência mais agradável. “Uma visita que Elon Musk – só para mencionar alguém – poderia projetar, seria muito diferente daquilo que um indiano da classe operária que vive na Índia poderia projetar”, diz Ramirez. “É importante ter isto em mente quando entramos nestas experiências turísticas de VR.”

Pessoalmente, testei viagens de realidade virtual em 2015 com uma demonstração do Oculus Rift. Era um pequeno passeio pela costa norte de Vancouver, na Colúmbia Britânica. A demonstração era linda e parecia semelhante à localização real, que eu visitei quatro anos mais tarde. Contudo, de certa forma, não havia grandes comparações. Parte da diferença era sensorial: sentia o ar frio na minha pele e podia tocar na água. Mas grande parte da diferença estava na especificidade da minha visita real. A experiência estava a acontecer apenas comigo, eu tinha o controlo completo sobre o que era capaz de ver e ouvir – e, se quisesse, podia ver e escolher outra coisa.

Pensar de forma alternativa

No sul de França, Chauvet-Pont-d’Arc, uma gruta de pinturas rupestres do paleolítico, é muito vulnerável para ser visitada pessoalmente. Mas nas proximidades existe uma réplica que permite aos turistas ver cópias das pinturas –  isto pode demonstrar o potencial das experiências de viagem em realidade virtual.

Fotografia de Idealink Photography, Alamy Stock Photo

A realidade virtual pode nunca vir a substituir as viagens tradicionais, mas oferece possibilidades intrigantes. Se a tecnologia evoluir o suficiente, as pessoas mais conscientes sobre o ambiente – sobretudo as que querem reduzir a nossa pegada de carbono (ou pessoas sensíveis ao movimento “flight shaming”) – podem preferir esta forma de escape. As viagens de realidade virtual conseguem levar partes do mundo a pessoas que fisicamente são incapazes de visitar esses locais. Acima de tudo, isto pode ajudar a levar as pessoas a lugares que, de outra forma, seriam inacessíveis.

Por exemplo, no sul de França existem algumas das pinturas rupestres mais antigas do mundo, mas estão encerradas ao público porque estas obras do paleolítico são demasiado delicadas. No entanto, a pouco mais de 6 km das pinturas originais, existe uma réplica aberta ao público. Ramirez sugere que a realidade virtual pode ser aplicada de forma semelhante – e ainda mais acessível – em lugares do mundo inteiro. Hollister, da Global Data, concorda que a realidade virtual pode desempenhar um papel único na recriação de atrações históricas. E Kondruk, CEO da Ascape, diz que a sua empresa trabalha com a Vietravel, uma agência de viagens vietnamita, para recriar áreas do país onde o governo limita as viagens turísticas.

Em última análise, o impacto que a realidade virtual poderá ter nas viagens será determinado pela evolução e aplicação de novas tecnologias. Até agora, os avanços têm sido incrementais – e não com uma escala que provavelmente possa perturbar o setor de viagens, ou dar origem a uma queda nas emissões de carbono relacionadas com as viagens depois do fim da pandemia. Porém, tal como as outras plataformas de viagens – desde as revistas impressas às redes sociais – oferecem alguns vislumbres das explorações reais, a realidade virtual também pode aproximar lugares longínquos e, ao fazê-lo, encoraja os viajantes a adotarem práticas sustentáveis para onde quer que escolham ir (ou não) no futuro.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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