‘Você é o Único Passageiro’: Como Regressei a Um Mundo Vazio

Siga a jornada de um fotógrafo desde uma ilha remota no Atlântico Sul até a um mundo parado por uma pandemia.

Wednesday, April 8, 2020,
Por Pete McBride
Fotografias Por Pete McBride
O navio National Geographic Explorer atravessa as águas geladas do oceano a caminho da Ilha Geórgia ...

O navio National Geographic Explorer atravessa as águas geladas do oceano a caminho da Ilha Geórgia do Sul.

Fotografia de Pete McBride, National Geographic

Quando o mundo parou, não dei por nada. Estava longe de tudo, na região da Antártida, perdido no meio do ruído de quase 200 mil pinguins. Noutras partes do mundo, à medida que a COVID-19 ganhava terreno, as estradas estavam vazias, os aviões estavam em terra e as empresas encerravam. Mas a ordem para o distanciamento social ainda não tinha chegado a este canto do planeta.

No início da minha jornada de duas semanas como orador convidado a bordo do National Geographic Explorer, a caminho da Ilha Geórgia do Sul, haviam apenas alguns casos relatados de coronavírus na Argentina e no Chile. À medida que a pandemia se aproximava, parecia que o nosso passeio remoto era uma fuga oportuna. Todos os passageiros mediram a temperatura, para verificar se tinham febre, antes de embarcarem em Ushuaia, na Argentina, e rapidamente zarpámos para as Malvinas. Eu queria acreditar, de forma otimista, que quando regressássemos o pior já tinha passado.

A Ilha Geórgia do Sul, território britânico, juntamente com as ilhas vizinhas Sandwich do Sul (bastante mais pequenas), era um antigo posto avançado de caça de focas e baleias e centro de investigação científica.

Fotografia de PETE MCBRIDE, NATIONAL GEOGRAPHIC

Escapadela fugaz
Quando chegámos às Malvinas, ficámos maravilhados com as colónias de albatrozes-de-sobrancelha, aves de asas gigantes que conseguem passar até cinco anos no mar e percorrer anualmente distâncias de mais de 16 mil km. À medida que avançávamos para sudeste, através de um mar de ondas tranquilas, percebemos que o coronavírus se estava a começar a propagar pela América do Sul. Alguns dias depois, começaram a surgir no horizonte os picos da Ilha Geórgia do Sul. Parámos em Salisbury Plain e eu pisei terra num vasto deserto que parecia intocado pelo mundo moderno.

O trajeto do fotógrafo Pete McBride.

Mas claro que não era território intocado. Os primeiros exploradores, caçadores de focas e baleeiros, chegaram aqui há mais de um século e trouxeram consigo ratos que entretanto foram erradicados. As populações de baleias estão lentamente a recuperar da caça desenfreada que aconteceu na primeira metade do século XX. Grande parte deste santuário de vida selvagem parece – e até soa – semelhante ao encontrado pelos pioneiros. Um membro da equipa do Explorer, na sua quinta visita a este local, descreve-o como “a última pintura de Deus”.

Com cerca de 200 mil pinguins-rei, Salisbury Plain, na Ilha Geórgia do Sul, é o lar de uma das maiores colónias de pinguins-rei no mundo.

Fotografia de Pete McBride, National Geographic

Se for uma pintura, é muito ruidosa. Sentei-me numa colina coberta de relva, com vista para Salisbury Plain, que reverberava com o coro caótico de pinguins-rei. À minha frente, uma colónia enorme estendia-se ao longo do que parecia ser mais de um quilómetro, na costa norte da ilha, passando por uma baía que subia até um vale glaciar. Figuras a preto e branco aglomeravam-se em cacofonia até onde a vista conseguia alcançar. Pesando quase 20 quilos e medindo até 1 metro de altura, os pinguins-rei só ficam atrás dos pinguins-imperador em termos de tamanho. Mas os sons que produzem são ainda mais ruidosos: a sinfonia de chamadas da colónia, juntamente com os "uivos" das crias de foca e os sons das aves marinhas criava uma orquestra de som natural.

Neste ecossistema inóspito, a sobrevivência é uma luta constante – e não apenas para os animais. Nós seguimos os passos do explorador Sir Ernest Shackleton, que ficou famoso por sobreviver contra todas as probabilidades quando o seu navio Endurance se afundou no gelo do mar de Weddell, na Antártida. A sua tripulação passou vários meses acampada no gelo marinho antes de remar até à ilha deserta de Elefante. Finalmente, Shackleton e cinco tripulantes enfrentaram uma viagem exaustiva de duas semanas em alto-mar, num barco de 7 metros repleto de gelo, até à Ilha Geórgia do Sul. Uma semana depois, atravessaram os glaciares da ilha para chegarem à estação baleeira de Stromness, onde finalmente conseguiram enviar ajuda para a tripulação que ficou para trás.

Recriámos os últimos passos da jornada de Shackleton, enquanto focas brigavam perto das estruturas enferrujadas da estação baleeira de Stromness. Quando cheguei a uma cordilheira rochosa, fiquei fascinado com a determinação necessária para sobreviver num isolamento tão extremo. Shackleton sobreviveu à sua odisseia épica com toda a sua equipa, incluindo a tripulação que ficou presa durante quatro meses na Ilha Elefante.

Quando nós próprios regressámos ao nosso navio, soubemos das terríveis notícias: o alcance assustador do coronavírus tinha chegado ao Oceano Antártico. As fronteiras e os portos estavam a encerrar rapidamente, e havia a preocupação crescente de que poderíamos chegar tarde demais para desembarcar em qualquer lugar. Foi quando reparei na ironia da situação. Shackleton lutou contra o isolamento, e agora nós – juntamente com o resto do mundo – estávamos à procura desse mesmo isolamento.

Regresso a casa
Quando saímos das Malvinas, sem saber onde e quando desembarcaríamos, os albatrozes voavam junto à proa do navio. No dia 17 de março, o Chile e a Argentina encerraram os seus portos. Apesar de as Malvinas serem controladas pelo Reino Unido, e de também se debaterem com a mesma situação, atracámos em segurança em Port Stanley.

A partir dali, apanhei uma série de voos para atravessar este inimigo viral. Segui das Ilhas Malvinas até São Paulo, no Brasil, e depois para Chicago, nos EUA, para apanhar o meu último avião até casa. Nos aeroportos quase desertos vi pessoas com máscaras de proteção e outras a esfregarem as mãos desenfreadamente. Quando ia a entrar no avião para o meu último voo, o agente na porta de embarque perguntou-me o nome e sorriu. “Você é o único passageiro. Desfrute.”

Esquerda: O navio National Geographic Explorer esteve no mar durante 12 dias, antes de ser obrigado a regressar quando a Argentina e o Chile encerraram as suas fronteiras. Os passageiros e a tripulação do navio conseguiram fazer a quarentena a bordo e eventualmente desembarcaram nas Ilhas Malvinas.
Direita: As restrições nas viagens e os pedidos de confinamento esvaziaram o Aeroporto Internacional O'Hare de Chicago, que geralmente é o sexto aeroporto mais movimentado do mundo.

Fotografia de PETE MCBRIDE, NATIONAL GEOGRAPHIC

Os comissários de bordo, que iam voar para o Colorado independentemente de eu embarcar no avião ou não, ofereceram-me um upgrade “em qualquer lugar que você desejar”, para além de petiscos intermináveis e um avião em miniatura que geralmente está reservado para as crianças. E tirámos selfies.

Quando saí de casa, o mundo ainda fervilhava com as suas atividades do quotidiano e eu estava entusiasmado com a solidão do deserto da Ilha Geórgia do Sul. Mas regressei a um mundo diferente – um mundo silenciado pela COVID-19. E durante este tempo todo, a música da colónia de pinguins não me saía da cabeça.

Tal como todas as pessoas, também eu fiquei de quarentena e socialmente distanciado, e tentei falar com a minha família e amigos através de videochamadas. Felizmente, todos atenderam. Conversámos uns com os outros sobre os receios e sobre toda esta confusão. À nossa maneira, estávamos todos a explorar novos territórios e a redescobrir um som esquecido: o silêncio.

No dia 20 de março, com todos os viajantes fechados em casa para retardar a propagação do coronavírus, Pete McBride era o único passageiro neste voo para o Colorado, destino para onde a tripulação ia voar independentemente de McBride embarcar ou não.

Fotografia de Pete McBride, National Geographic

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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