Em Confinamento nos Açores, na Ilha de Onde os Meus Antepassados Partiram

O confinamento devido ao coronavírus cria uma estadia surreal nos Açores para uma fotojornalista que quer dar a volta ao mundo.

Wednesday, May 20, 2020,
Por Genna Martin
Fotografias Por Genna Martin
No dia 22 de março de 2020, em Angra do Heroísmo, um homem solitário olhava para ...

No dia 22 de março de 2020, em Angra do Heroísmo, um homem solitário olhava para a marina tranquila, depois de uma proibição relacionada com o coronavírus ter interditado os passeios de barcos de recreio.

Fotografia de Genna Martin

É uma sensação estranha estar aprisionada indefinidamente no lugar que os meus antepassados se esforçaram tanto para abandonar há mais de cem anos.

Quando eu e a minha parceira aterrámos nos Açores, um exuberante arquipélago vulcânico a mais de 1400 km da costa de Portugal, era suposto fazermos a primeira paragem no nosso itinerário de um ano de viagem para dar a volta ao mundo. Abandonámos os nossos empregos em Seattle – ela era formadora de segurança empresarial e eu era fotojornalista. Precisávamos de uma mudança, tínhamos o desejo de conhecer o mundo e pensámos: por que não agora?

Mas esse desejo de viajar vai ter de esperar. Agora, estamos presas no nosso primeiro ponto de paragem, muito depois de termos chegado em finais de fevereiro, muito depois da data planeada de partida e sem um fim à vista para a nossa estadia aqui. Aparentemente, não é seguro voar e quase todos os países no nosso itinerário encerraram as suas fronteiras. Não temos casa, emprego ou seguro de saúde nos Estados Unidos. Por isso, esperamos.

Esquerda: O sol da manhã ilumina uma freguesia da ilha de São Miguel. Antes da pandemia, o turismo nos Açores estava em ascensão, com 698.325 visitantes em 2019, um aumento de quase 85% desde 2014.
Direita: Nas Furnas, em São Miguel, as roupas coloridas complementam o azul do céu.

Quando eu era criança, considerava os portugueses a coisa mais próxima de uma herança cultural. A minha avó paterna, com quem passei bastante tempo, era uma açoriana americana de primeira geração. Ela tentou ensinar-me um pouco de português, e a sua despensa estava repleta de pães King’s Hawaiian – a versão mais aproximada do pão português que conseguíamos encontrar nos EUA. Sem ser isso, nunca senti ou procurei uma ligação ancestral com um lugar.

Mas aqui, na Ilha Terceira, essa ligação está sempre presente. Quando explorámos a ilha, antes das ordens de confinamento, encontrámos a igreja de Santa Bárbara, onde os meus trisavós se casaram em 1893. Caminhámos pela freguesia de Fontinhas, onde o meu trisavó nasceu, e o seu pai antes dele, e a sua mãe antes dele, e assim por diante até pelo menos 1759, a extensão dos registos da minha família.

Se tirássemos os carros e os postes da luz, esta localidade de casas caiadas de branco provavelmente seria idêntica ao que era quando os meus antepassados pastoreavam o seu gado nas proximidades. Penso neles a viverem o sismo de 1841, que destruiu a igreja da cidade; e mais tarde trabalharam ao lado dos seus vizinhos para a reconstruírem.

Imagino como os meus antepassados terão ficado de quarentena, exatamente como estamos agora, em 1908, quando um surto de peste bubónica se propagou pelas ilhas. Este excerto de um artigo da Associated Press de 17 de setembro de 1908 parece perturbadoramente familiar:

Novos casos da praga estão a ocorrer diariamente e a epidemia ameaça espalhar-se por todo o grupo de ilhas. Os doentes estão amontoados nos hospitais em condições miseráveis, com falta de comida, medicamentos e com outras necessidades... O comércio está completamente paralisado, tendo o governo proibido toda a comunicação com as ilhas infetadas.

Em 1914, o pai da minha avó tinha 16 anos, quando embarcou num navio e foi para a América sozinho à procura de uma vida melhor. Nos anos que se seguiram, trabalhou por todo o país, antes de se estabelecer no vale de San Joaquin, na Califórnia, uma região que se tornou num paraíso para milhares de imigrantes açorianos. E outros membros da minha família também colocaram as suas esperanças na Califórnia.

Vacas a pastar numa colina, na costa sudeste da Ilha Terceira, onde há mais bovinos do que pessoas. Os celeiros são raros e as manadas vagueiam pelas vastas colinas de pastagens da ilha.

Esquerda: Adília Parreira conversa com os seus pais, Francisco e Cândida, com uma distância de segurança, depois de lhes deixar o almoço de Páscoa, no dia 12 de abril de 2020. “Nunca um abraço foi tão precioso ou deixou tantas saudades”, disse Adília, que é enfermeira na Unidade de Saúde da Ilha terceira.
Direita: Um barco que normalmente é utilizado em excursões turísticas flutua ociosamente na marina de Angra do Heroísmo.

Eles estavam entre a vaga inicial da diáspora açoriana para a América do Norte, fugiam da peste, da pobreza e de desastres naturais. A comunidade agrícola portuguesa na Califórnia floresceu e, na década de 1970, os portugueses americanos possuíam metade das quintas de laticínios do vale de San Joaquin. A migração das ilhas continuou durante grande parte do século XX, e estima-se que agora a população de emigrantes açorianos e descendentes que vivem no estrangeiro seja seis vezes maior do que a população do arquipélago. A minha família portuguesa de produtores de laticínios acabou por sair da Califórnia e foi para Tillamook, no Oregon, no início dos anos 1990, e eu cresci a fazer viagens até lá, para visitar os meus primos e as suas vacas.

Existe uma dissonância cognitiva em estar num lugar que parece profundamente familiar e estranho ao mesmo tempo. Senti esta tensão no momento em que aterrámos nos Açores e nos dirigimos para o nosso primeiro alojamento, um Airbnb na ilha de São Miguel que, por acaso, fica numa quinta de gado com vista para o oceano. O cheiro do solo e do mar, a sensação das botas de borracha e as calças enlameadas parecem ter saído do meu passado. Parece que estou na quinta da minha família na costa do Oregon.

Os rostos das pessoas que encontramos são os rostos dos meus primos, todos com maxilares quadrados e sobrancelhas escuras. Os nomes das empresas, das ruas e nas lápides – Borges, Vaz, Rocha, Pereira – são os nomes dos meus avós e dos avós deles.

Estas ilhas vivem em mim como uma memória. Também as revejo no meu pai, mesmo que ele nunca as tenha visitado. E vejo a necessidade que ele tinha de estar perto do oceano, como se as ondas do mar e a brisa salgada fossem o que mantinha a vivacidade da sua alma. Estar aqui, rodeada por campos verdes, rochas negras e ondas azuis, parece um regresso a casa.

Ainda assim, sou uma forasteira, separada pela pele pálida que herdei da minha mãe e pela falta de fluência no português. Os rostos que me parecem tão familiares olham para mim confusos e com um ar de ligeira suspeita, e agora ainda mais – provavelmente somos os únicos turistas que restam na ilha. “Quem é você e o que é que ainda está aqui a fazer?”, dizem as sobrancelhas.

Como não há mais ninguém com quem interagir, exceto o ocasional empregado da mercearia, o nosso isolamento tornou-se ainda mais evidente. Somos estranhas numa ilha insular que se escondem de um vírus mortal. É um tipo de solidão que nunca tinha sentido.

Sem o objetivo de continuar viagem, ficámos um bocado à deriva. Felizmente, ainda podemos sair de casa, por isso, fazemos caminhadas e andamos de carro para desfrutar ao máximo da beleza desta ilha – qualquer coisa que nos distraia da ansiedade em relação à saúde dos nossos amigos e familiares que estão a um oceano de distância.

Um avião que tinha levantado voo do Aeroporto Internacional das Lajes, na Ilha Terceira, sobrevoava o Monumento ao Imaculado Coração de Maria, na Praia da Vitória, no dia 16 de março de 2020. Mais tarde naquele dia, os voos de e para a ilha foram suspensos para todas as companhias aéreas, exceto para uma.

Esta estadia prolongada está longe daquilo que eu esperava que fosse a minha experiência nos Açores, no entanto, uma ilha remota e pouco povoada é um dos melhores lugares para se estar durante uma pandemia. Apesar de existirem cerca de 144 casos de coronavírus confirmados no arquipélago, os hospitais não estão sobrelotados e o distanciamento social não é difícil.

Mas já percebi que estou a perder o que queria descobrir aqui. As pessoas são a alma de um lugar, e é triste não poder interagir com a comunidade que me rodeia. Sinto-me em casa, mas falta qualquer coisa. Observamos ansiosamente o mundo pela janela dos nossos ecrãs, sentindo o peso do desconhecido e ansiando pelas ligações pessoais que outrora dávamos como garantidas.

E assim continuamos a vaguear pelas cidades vazias e lojas encerradas, com a companhia dos fantasmas do meu povo, pessoas que enfrentaram os seus próprios desafios e sobreviveram.

Ao cair da noite, em Angra do Heroísmo, um habitante local faz um passeio solitário em direção ao mar.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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