‘Forrageio Urbano’ – A Nova Forma de Explorar Uma Cidade

Não pode viajar para longe? Então explore a vizinhança e encontre alimentos no ambiente do seu quotidiano.

Tuesday, May 26, 2020,
Por Wross Lawrence
Fotografias Por MARCO KESSELER
Wross Lawrence, forrageador profissional, apanha artemísia num parque em Londres. Esta planta tem um aroma semelhante ...

Wross Lawrence, forrageador profissional, apanha artemísia num parque em Londres. Esta planta tem um aroma semelhante ao da salva e pode ser encontrada durante o verão.

Para os viajantes fechados em casa, o mundo é uma maravilha para se contemplar – de longe. Mas um dos principais objetivos das viagens sustentáveis – comer localmente com pouco impacto ambiental – pode não exigir muito mais do que um passeio pelo bairro.

O forrageio urbano é um estudo íntimo e uma interação com o mundo vivo que nos rodeia, onde se destaca uma flor ou uma baga, onde se aprende sobre o seu nome e propriedades, o seu sabor, quando e onde cresce, como se pode cozinhar ou preservar.

Esquerda: Muito apreciada pelas suas propriedades medicinais, a malva também funciona como um agente espessante e era o ingrediente original do marshmallow.
Direita: Com um sabor ligeiramente semelhante ao da maçã e um alto teor de pectina, as bagas de espinheiro são excelentes para fazer compotas e condimentos.

Este tipo de alimentos tem tido cada vez mais visibilidade. No mundo da alta cozinha, os chefs elaboram menus com ingredientes que são produzidos localmente por agricultores. Mas, em alguns casos, os ingredientes são colhidos nas zonas em torno de um restaurante. E há um apetite por isto: de acordo com uma nova sondagem da Morning Consult/National Geographic, um terço dos americanos – sobretudo entre os 18 e os 34 anos – diz estar a preparar-se para fazer mais refeições sem carne devido aos preços mais elevados e às opções limitadas de carne nos supermercados.

(Relacionado: O movimento de viagens sustentáveis vai conseguir sobreviver ao coronavírus?)

Muitos viajantes também encaram o forrageio como uma forma de experimentar um destino, e as visitas guiadas estão a ganhar cada vez mais popularidade.

A No Taste Like Home, uma empresa de ecoturismo fundada há 25 anos, sediada na cidade de Asheville, na Carolina do Norte, faz experiências guiadas para “caçadores-coletores” dos tempos modernos. Alguns dos ingredientes colhidos podem ser saboreados num restaurante local.

Princípios básicos do forrageio
Com os cientistas a calcularem que será necessário alimentar mais de dois mil milhões de pessoas até 2050, a questão sobre qual é a melhor dieta assumiu novos contornos de urgência. Os alimentos que optarmos por comer nas próximas décadas terão consequências dramáticas no planeta.

Em vez de procurarmos soluções futuristas, podemos tentar olhar para o passado. Antes de a agricultura se estabelecer, o forrageio ajudava a alimentar os nossos antepassados e a tratar doenças. Assim sendo, os investigadores estão a intensificar os seus esforços para aprenderem o que podem sobre os povos que ainda forrageiam, como os Tsimane na Amazónia e os Hadza na Tanzânia, antes que este estilo de vida desapareça.

Lawrence procura alimentos selvagens para restaurantes com estrelas Michelin, mercados, cervejarias e supermercados em Londres.

Neste momento, estou a celebrar o meu 10º aniversário enquanto forrageador, e posso dizer que as colheitas são abundantes. Nas minhas prateleiras tenho gin de abrunheiro (com infusão de bagas de abrunho, o fruto do arbusto de espinheiro), aguardente de bolota, refrigerante de sabugueiro, pesto de urtigas, gelado de rosa mosqueta, compota de amora, cogumelos selvagens desidratados e cerveja de lúpulo selvagem – são todos produtos caseiros apanhados nas ruas, parques e margens dos rios de Londres.

Os forrageadores nos EUA também têm muito por onde escolher – amoras na Pensilvânia; nêsperas e cunquates na Califórnia; maçãs, peras e ameixas no Wisconsin. E o forrageio também pode atingir níveis extremos. Por exemplo, o ambientalista Rob Greenfield, da Flórida, passou um ano a forragear ou a cultivar tudo o que precisava para comer, desde toranjas colhidas de uma árvore nas proximidades a rabanetes japoneses cultivados no seu próprio jardim.

Esquerda: As enormes pétalas cítricas da magnólia podem ser conservadas em vinagre para ficarem com um sabor ainda melhor.
Direita: A rosa mosqueta é rica em vitamina C e pode ser usada para fazer compota ou chás de ervas.

O alho selvagem da Grã-Bretanha, que tem um aroma distinto, pode ser encontrado durante a primavera nos bosques, cemitérios e parques.

Eu nem sempre passei os meus dias no meio de sebes, de arbustos, nas ruas ou nos bosques à procura de ingredientes selvagens para os restaurantes com estrelas Michelin, para os mercados, cervejarias e para os supermercados em Londres. Durante muitos anos trabalhei como pescador de alto-mar na minha cidade natal, em Tenby, no sudoeste do país de Gales. Mas depois de vários anos a acordar a meio da noite para ir para a escuridão e frio do Mar da Irlanda, decidi que estava na hora de mudar. Quando regressei a terra, fiz formação e trabalhei em cirurgia arbórea durante três anos – foi o que me abriu os olhos para todas as coisas selvagens e passíveis de forrageio.

Na minha opinião, todas as pessoas deviam experimentar os benefícios do forrageio, sobretudo agora que os consumidores esvaziam em pânico as prateleiras dos supermercados, e as ordens de confinamento limitam as viagens. O forrageio liga-nos à natureza de uma forma que traz benefícios mentais e físicos em tempos de ansiedade e stress. Com menos agitação de pessoas e carros nas ruas, e com menos poluição sonora, está na hora de nos familiarizarmos com o nosso ambiente natural.

A alegria das coisas simples
Quando saímos para colher estes ingredientes, sentimos novos aromas, sabores, cores, texturas, padrões e uma sensação gratificante de conquista. Isto pode ser feito por qualquer pessoa, em praticamente qualquer lugar, e não custa um cêntimo. Quando vagueamos pelas ruas, começamos a reparar em novos recantos do nosso dia a dia. E vemos coisas pelas quais costumávamos passar todos os dias, mas agora olhamos para elas de uma perspetiva diferente. Descobrimos áreas e comunidades inteiras que nunca percebemos que existiam antes de este novo hábito de vaguear com um propósito em mente se ter apoderado de nós.

Sinto um enorme prazer neste simples ato e descobri que, depois de começarmos, transforma-se numa coisa involuntária e viciante. Há muito para aprender e é tudo surpreendente e interessante. Podemos tomar como exemplo o milefólio, uma planta que o herói grego Aquiles alegadamente usou para tratar as feridas dos seus soldados durante a batalha de Tróia. Ou a malva, uma planta que um pasteleiro francês usou para criar um doce mundialmente famoso no século XIX. Ou a nogueira, que produz nozes de casca rija pela qual as pessoas pagam muito dinheiro – e que provavelmente são importadas do estrangeiro – mas estão por cima das nossas cabeças.

Uma tramazeira, cujas bagas fazem uma compota deliciosa, cresce junto a um edifício de apartamentos em Londres.

Para alguém que se queira aventurar sem um guia, deve verificar muito bem as suas descobertas com várias fontes, e só deve comer o que colheu se estiver completamente confiante na identificação dos ingredientes. Existem várias informações disponíveis, incluindo o livro Food for Free de Richard Mabey.

Porquê forragear?
Estas plantas são todas ricas em nutrientes, vitaminas e minerais, e são muito mais saudáveis do que quase tudo o que encontramos nas lojas – e não têm pesticidas. E também servem para fins medicinais. Algumas folhas de verbasco – uma planta grande que tem folhas pilosas – produz um chá que acalma as dores de garganta. As agulhas azuis-esverdeadas do pinheiro-branco podem ser mergulhadas em água quente e mel para fazer um xarope para a tosse que alivia a congestão no peito.

Plantas maravilhosas como estas podem ser encontradas em todas as vilas e cidades, seja a sair de fendas no cimento, sobre a vedação de um parque, a pender sobre o portão de um cemitério, ou nas margens de um rio. Quando começamos a reparar nelas, começamos a vê-las por todo o lado.

Acredito que o forrageio e a botânica devem ser incutidos em todos nós desde tenra idade. Crescer a aprender sobre todos os diferentes géneros de plantas, famílias e espécies desperta o interesse e liga as crianças à natureza. Estas crianças serão um dia os arquitetos, banqueiros e políticos que moldarão as nossas cidades e ambientes de vida no futuro.

O meu maior receio é o de que, quando esta crise de pandemia passar, as coisas regressem ao “normal” – mesmo que o normal não estivesse a funcionar, pois o planeta e a sua vida selvagem tornaram-se secundários nas prioridades económicas e tecnológicas. Talvez durante este período, quando estamos profundamente cientes do nosso confinamento e com um acesso restrito ao ar livre, possamos dedicar algum tempo a ponderar sobre a nossa relação vital com o mundo natural.

O forrageio, onde quer que estejamos, é um bom ponto de partida.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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