Costuma Sonhar com Dragões? Eis Onde Vivem Realmente.

Eis como pode ver dragões-de-komodo nas florestas da Indonésia ou num zoo norte-americano.

Thursday, July 9, 2020,
Por Jason Bittel
Os dragões-de-komodo, que podem crescer até aos três metros de comprimento e pesar mais de 150 quilos, ...

Os dragões-de-komodo, que podem crescer até aos três metros de comprimento e pesar mais de 150 quilos, são os maiores lagartos do mundo. Na natureza, vivem no Parque Nacional de Komodo, na Indonésia, mas muitos podem ser encontrados em jardins zoológicos nos EUA.

Fotografia de Stephen Belcher, Minden Pictures

Os dragões existem. Mas não conseguem cuspir fogo. E definitivamente não os iremos ver a voar pelo ar (a não ser que estejamos a assistir a um lançamento da SpaceX – da nave que se chama Crew Dragon). Mas com três metros de comprimento e mais de 150 quilos, os dragões-de-komodo são o animal mais aproximado que temos das míticas bestas que assombram os nossos sonhos (e os desenhos animados).

Mas estas criaturas, apesar de serem carnívoras vorazes, também estão extremamente acessíveis. Podemos ver estes animais em jardins zoológicos nos EUA, como no Zoo de Louisville, no Kentucky, no Zoo Toledo & Aquarium, em Ohio, ou no Zoo de Pittsburgh, na Pensilvânia, que reabriram recentemente após os confinamentos devido à COVID-19. Outros jardins zoológicos que têm dragões-de-komodo – atualmente encerrados devido à pandemia – incluem o Parque Zoológico Nacional Smithsonian, em Washington D.C. e o Zoo de Bronx.

Mas, para vermos estas criaturas no seu habitat nativo, precisamos de viajar até uma das quatro ilhas da Indonésia. Não podemos é vaguear sozinhos pela floresta – porque está cheia de dragões.


Existe uma indústria de turismo próspera que nos pode proporcionar um encontro de perto com estes gigantes carnívoros, mas os visitantes precisam de tomar precauções antes de entrarem no Parque Nacional de Komodo. Para proteger o habitat dos dragões, só 5% do parque é que está aberto aos turistas, e cada visitante tem de estar acompanhado por um guia ou guarda florestal – que estão armados com um bastão de madeira de quase dois metros de comprimento.

“Eles usam isto para afastar um dragão que se interesse demasiado por alguém”, diz Rob Pilley, herpetologista e cineasta de vida selvagem.

“Nós temos uma frase que costumamos utilizar”, diz Tim Jessop, ecologista da Universidade Deakin, na Austrália – “Consideramos os dragões-de-komodo mortíferos, mas não perigosos.”

Jessop estuda dragões-de-komodo há cerca de 20 anos e está a referir-se ao facto de um destes gigantes conseguir derrubar um humano adulto. Estes répteis conseguem abrir os maxilares até quase 180 graus, têm dentes que parecem lâminas, como os dentes de um grande tubarão-branco, e conseguem sair repentinamente da vegetação rasteira para emboscar presas. E a saliva do dragão-de-komodo contém um veneno rudimentar que reduz a pressão sanguínea, aumentando o ritmo de uma hemorragia.

Mas, apesar de tudo isto, há uma variedade de fatores que faz com que uma morte provocada por um dragão seja altamente improvável.

Lagartos relaxados
Para começar, os maiores lagartos do mundo são ectotérmicos, o que significa que os seus níveis de energia variam consoante o calor do dia. Mas mesmo quando estão cheios de energia após estarem ao sol, esta energia deve ser cuidadosamente conservada para procurar comida e acasalar. E é importante salientar que estes animais são propensos ao relaxamento.

Dragões-de-komodo lutam pelo domínio no Parque Nacional de Komodo, na Indonésia.

Fotografia de iStock, Getty Images

Em 2018, Rob Pilley esteve no Parque Nacional de Komodo a filmar um segmento para um documentário – Nature: Spy in the Wild 2 – para a cadeia norte-americana PBS. Foi no início de agosto, no auge da época de reprodução dos dragões. E isto significa que os machos grandes, do tamanho de crocodilos, estavam envolvidos em rituais de combate – onde envolvem as pernas dianteiras uns nos outros, erguem-se no ar e depois caem.

“Em última análise, o vencedor é aquele que consegue atirar o outro ao chão”, diz Pilley.

“Estes dragões são muito estimulados pela testosterona. Andam à procura de lutas. E estão muito, muito zangados, porque também estão famintos.”

E claro, tudo isto resulta em imagens espetaculares. Mas Pilley e a sua equipa, enquanto estavam focados nas filmagens, ficavam vulneráveis aos outros dragões que andavam por perto. E é aí que os guardas florestais e os seus bastões se revelam úteis.

“Precisamos literalmente de ter olhos na parte de trás da cabeça, porque os dragões saem repentinamente dos arbustos”, diz Pilley. “Muitas vezes, estávamos sentados a filmar uma luta, e outro macho aparecia de repente por trás de nós. Os guardas gritavam, ‘Levantem-se, levantem-se, levantem-se!’”

Mas o mais importante, diz Pilley, nunca devemos fugir de um dragão-de-komodo. Porquê? Porque é isso que as suas presas fazem, como veados e porcos. E não queremos que um dragão nos confunda com uma das suas presas. Felizmente, com um guia especializado ao nosso lado, uma visita aos dragões pode ser feita em segurança, e não existem praticamente relatos de ferimentos em turistas.

Salvar os dragões
Porém, o gado dos habitantes locais não costuma ter a mesma sorte. E isto pode colocar os dragões-de-komodo em rota de colisão com os humanos, como acontece com os leões em África ou os tigres na Índia. Mas o ecologista Achmad Ariefiandy está a trabalhar para alterar esta situação.

Ariefiandy trabalha na organização sem fins lucrativos indonésia chamada Komodo Survival Program. A cada época de trabalho de campo, Ariefiandy e a sua equipa apanham e implantam microchips no maior número possível de dragões, fornecendo alguns dos primeiros dados alguma vez registados sobre a forma como estes lagartos passam o dia. Este programa também trabalha na educação dos habitantes locais, ensinando o valor de partilhar o habitat com os dragões e como o melhoramento das práticas de pastoreio podem ajudar a reduzir os ataques dos principais predadores das ilhas.

Estes animais só existem na Indonésia, diz Ariefiandy. E já estão classificados como vulneráveis à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

“Se estes animais desaparecerem, as pessoas nunca mais os poderão ver”, diz Ariefiandy. “Portanto, temos mesmo de os proteger.”

Um dragão-de-komodo desfruta do sol no Parque Nacional de Komodo. Estes répteis raros são ectotérmicos, o que significa que os seus níveis de energia mudam consoante a sua temperatura corporal.

Fotografia de Stefano UNTERTHINER, National Geographic Image Collection

Atualmente, devido à pandemia de COVID-19, o Parque Nacional de Komodo está encerrado aos visitantes. Mas isso pode acabar por ser bom para os dragões. Em julho de 2019, as autoridades planeavam fechar o parque durante todo o ano de 2020, alegando que a presença de tantos visitantes começava a ter impacto nos hábitos de reprodução e alimentação dos animais. No entanto, estes planos foram revogados em setembro e o parque permaneceu aberto até a Indonésia começar a limitar as viagens internacionais, na tentativa de conter a propagação do novo coronavírus. Parece que afinal os dragões-de-komodo tiveram o seu descanso.

Podem existir outros animais no mundo que reivindicam o nome de dragão – dragões-barbudos, dragões-de-água-chineses, e outros dragões aquáticos de aparência sobrenatural. Existem milípedes-dragão, pequenos répteis planadores conhecidos por dragões voadores, peixes dragão-negro nas profundezas do mar e cobras-dragão de escamas afiadas. Mas de todos os animais deste planeta cujos nomes se inspiram nestes míticos répteis, nenhum se compara ao dragão-de-komodo.

Línguas bifurcadas de 30 centímetros. Saliva venenosa. Escamas que parecem cota de malha medieval.

“São realmente um tipo de herói sombrio neste canto do mundo”, diz Jessop.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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