Diz-se que Viajar Aumenta a Compreensão Cultural. Será Verdade?

Apesar de os investigadores dizerem que viajar afeta as vias neurais do cérebro, a verdadeira empatia continua a ser um destino elusivo.

Thursday, July 16, 2020,
Por Ruth Terry
De acordo com os especialistas, os viajantes podem ter dificuldades em empatizar com os habitantes dos ...

De acordo com os especialistas, os viajantes podem ter dificuldades em empatizar com os habitantes dos locais que visitam. Nesta imagem, captada em 2016, vemos turistas a comprar sumo de fruta numa banca de mercado em Siem Reap, no Camboja.

Fotografia de Aluxum, Getty Images

A empatia é geralmente definida como “colocarmo-nos na pele de outra pessoa” ou “sentir os estados emocionais de outros”. É uma ferramenta social vital que cria ligações sociais, promovendo experiências partilhadas e comportamentos de compaixão.

Mas será que a empatia é algo que se pode aprender? E será que viajar pode ajudar a facilitar esta aprendizagem?


A resposta é complicada. “As investigações mostram que a empatia não é simplesmente inata, mas que pode ser ensinada”, escreve a psicoterapeuta F. Diane Barth na Psychology Today. Embora as investigações anteriores indiquem que a empatia seja um traço incontestável, as investigações mais recentes – incluindo um estudo de Harvard de 2017 – sugerem que a “competência baseada na neurobiologia” da empatia é mutável e que pode ser ensinada nas circunstâncias corretas.

Saber se viajar pelo mundo abre realmente a mente dos viajantes – ou se os torna mais empáticos – ainda é uma questão em aberto. De acordo com a Quartz, numa sondagem feita pela Harris Poll em 2018 com 1300 pessoas que viajam em negócios, 87% disseram que as viagens de negócios as ajudavam a ter mais empatia pelos outros. E num estudo de 2010, Adam Galinsky, professor da Columbia Business School, descobriu que viajar “aumenta a perceção sobre as ligações e associações subjacentes” com outras culturas.

Apesar de empatia e consciência autodefinidas serem difíceis de avaliar, é lógico que a exposição transcultural feita através das viagens consegue pelo menos criar as condições para trazer ao de cima os preconceitos, seja de forma consciente ou inconsciente. “Se queremos avançar na direção de uma sociedade mais empática e de um mundo mais compassivo, é claro que trabalhar no melhoramento das nossas capacidades de empatia é fundamental para fortalecer laços individuais, comunitários, nacionais e internacionais”, escreve Helen Riess, professora associada de psiquiatria da Faculdade de Medicina de Harvard e autora do estudo de 2017.

Mas a pandemia de coronavírus e, mais recentemente, os protestos globais do movimento Black Lives Matter obrigaram a uma avaliação desconfortável – a de que todas as viagens no mundo podem não ser suficientes para gerar a profunda consciência cultural que as pessoas precisam neste momento.

“Existe a noção errada de que as viagens abrem as mentes, mas isso não é um facto embutido nos efeitos de viajar”, diz Travis Levius, jornalista da Black Writers e consultor de hospitalidade em Londres e Atlanta. “Viajar não faz de nós automaticamente pessoas melhores, nem nos dá uma perceção do que está a acontecer em termos de relações raciais.”

Martina Jones-Johnson, fundadora da Black Travel Alliance, concorda com esta declaração e diz que os órgãos de turismo deixaram “esmagadoramente claro que as viagens não geram necessariamente empatia”.

A falta de diversidade dentro da própria indústria de viagens sugere que há muito trabalho a fazer para tornar a indústria tão inclusiva quanto o mundo dos consumidores de viagens. De acordo com um relatório anual de 2019 do Bureau of Labor Statistics do Departamento de Comércio dos EUA, os trabalhadores do setor de lazer e hospitalidade são predominantemente brancos. Enquanto isso, os consumidores dizem que querem gastar o seu dinheiro em empresas de viagens cujos funcionários refletem o mundo em que trabalham, de acordo com o Conselho Mundial de Viagens e Turismo.

Para além disso, as empresas que adotam a inclusão podem ter mais probabilidades de evitar situações indesejadas, como por exemplo usar as palavras “finalmente livres” – do discurso “Sonho” de Martin Luther King Jr. – para legendar um cartaz publicitário com crianças brancas a brincar no arquipélago de Florida Keys. O cartaz, que entretanto já foi retirado, surgiu imediatamente a seguir ao assassinato de George Floyd às mãos da polícia de Minneapolis, evento que provocou protestos em todo o mundo contra a brutalidade policial.

Karfa Diallo lidera uma visita pelos locais relacionados com o comércio transatlântico de escravos em Bordéus, França, em junho de 2020. Participar em atividades que dão corpo às vozes e experiências marginalizadas pode ajudar bastante no desenvolvimento de empatia, afirmam os especialistas.

Fotografia de Andrea Mantovani, The New York Times/Redux

Uma estrada pavimentada com boas intenções
Curiosamente, o turismo moderno tem origens bastante empáticas. Na década de 1850, Thomas Cook usou os novos sistemas ferroviários para desenvolver viagens de lazer de curta distância para os trabalhadores britânicos, de acordo com Freya Higgins-Desbiolles, oradora sénior em gestão de turismo da Universidade do Sul da Austrália.

Cem anos depois, as Nações Unidas declararam os horários razoáveis de trabalho, as férias remuneradas e o “descanso e lazer” como direitos humanos. Na década de 1960, estimulado por movimentos relacionados que queriam aumentar o tempo de férias, o setor de lazer deu origem a uma indústria profissional de pleno direito.

Desde então, a Organização Mundial de Turismo e grupos de ajuda internacional têm defendido o turismo como “uma força vital para a paz mundial que pode fornecer a base moral e intelectual para a compreensão e interdependência internacional”, bem como uma estratégia de desenvolvimento económico para os países mais pobres.

Mas nem todos concordam que a indústria de viagens correspondeu à nobreza destes objetivos. Nas últimas décadas, o setor foi acusado de fazer exatamente o oposto. Como escreveu Stephen Wearing há quase 20 anos: “o turismo perpetua as desigualdades” porque as empresas multinacionais dos países capitalistas detêm todo o poder económico e os recursos dos países em desenvolvimento.

Hoje em dia, a desigualdade está integrada no próprio processo de viajar, diz Nathan Thornburgh, correspondente da revista Time e cofundador da Roads & Kingdoms. “O nosso estatuto de passageiro frequente, aquele pequeno cordão estúpido que separa as linhas de embarque, a forma como usamos um Uber ou um táxi do aeroporto depois de aterrarmos, em vez de um autocarro – tudo isto reforça a divisão, não a empatia”, escreve Nathan por email. “E isto é apenas para ir de um lugar para o outro.”

Desvantagens da empatia
Os especialistas dizem que não é fácil desenvolver empatia e que isso acarreta uma série de problemas. Joseph M. Cheer, professor do Centro de Pesquisa em Turismo da Universidade Wakayama, no Japão, diz que a empatia incute a sensação de “outros”.

Num estudo feito em 2019 por Joseph M. Cheer sobre uma excursão de bicicleta feita por ocidentais no Camboja, Cheer descobriu que, apesar dos aspectos pró-sociais da experiência – visitas a organizações não-governamentais e interação com os habitantes locais – as entrevistas pós-excursão revelaram que os turistas não compreendiam o contexto cultural do passeio. Os visitantes usaram expressões como “felizes”, “adoráveis” e “generosos” para descrever os habitantes locais, ou encaravam-nos simplesmente como prestadores de serviços.

Este preconceito de “outros”, diz Cheer, torna-se ainda mais percetível quanto maior for a distância entre os turistas e os habitantes locais, sobretudo em encontros puramente transacionais, como acontece nos hotéis.

Um funcionário de uma estância turística em Bali. Os investigadores dizem que os visitantes deviam fazer um compromisso com as culturas locais, em vez de se ficarem pelas interações transacionais.

Fotografia de Philippe Charlot, Redux

As nossas experiências individuais de viagem contradizem as nossas melhores intenções, diz o escritor de viagens Bani Amor, que escreveu extensivamente sobre raça, poder e lugar.

“As pronunciadas [boas] intenções são completamente contraditórias com o que acontece na indústria do turismo e na sua opressão para com os negros e indígenas pelo mundo inteiro, sobretudo pela forma como os trabalhadores do setor de turismo são tratados ou espoliados, não tendo o direito a desfrutar das suas próprias terras”, diz Bani Amor, que trabalhou no setor de turismo do Equador.

“Nós só conhecemos realmente a nossa própria experiência”, acrescenta Anu Taranath, professora de equidade racial na Universidade de Washington Seattle e imigrante de segunda geração.

“Penso que podemos desenvolver um sentimento de empatia e abrir a nossa noção de identidade para incluir outras pessoas nessa experiência. Só conseguimos aprofundar a compreensão de quem somos num mundo desigual e pela forma como isso nos faz sentir, e como nos motiva a mudar a nossa vida de uma maneira ou de outra.”

“Penso que, na sua forma mais pura, a empatia é basicamente impossível. Eu posso chorar por alguém, mas não posso chorar no lugar dessa pessoa.”

por NATHAN THORNBURGH, COFUNDADOR ROADS & KINGDOMS

Ou como diz Thornburgh: “Penso que, na sua forma mais pura, a empatia é basicamente impossível. Eu posso chorar por alguém, mas não posso chorar no lugar dessa pessoa.”

Viagens profundas
Apesar de os especialistas concluírem que viajar pode não inspirar empatia suficiente para transformar um turista em ativista de justiça social, a alternativa – nem sequer viajar – pode ser ainda pior.

“Como as viagens dão origem a encontros entre estranhos, é provável que suscitem sensações semelhantes a empatia, que simplesmente não existiriam sem a proximidade criada pelas viagens”, diz Hazel Tucker num estudo de 2016 publicado na Annals of Tourism. Esta também é uma das razões pelas quais é importante expor as crianças às viagens desde tenra idade.

No entanto, as experiências verdadeiramente transformacionais exigem mais do que aparecer apenas com uma mala em determinado lugar. Requerem energia, esforço e comprometimento por parte dos turistas, para além de condições específicas, diz Higgins-Desbiolles. “Os visitantes precisam de estar preparados para interagir com outras pessoas em níveis de igualdade.”

O livro de Taranath, Beyond Guilt Trips: Mindful Travel in an Unequal World, pode oferecer alguns pontos de partida. “É um convite para pensar mais cuidadosamente sobre as nossas boas intenções e sobre onde devem realmente ser colocadas à prova”, explica Taranath. “Como é que encaramos identidade e diferença num mundo de desigualdades? Como será esse processo?”

Para além disso, Tucker sugere que se aceite o que chama de “empatia variável”: aprender sobre as culturas que planeamos visitar e lidar com o legado desconfortável do colonialismo, da escravatura, do genocídio e desapropriação – fatores presentes em todos os destinos.

Barbara Manigault, tecelã de cestas de verga, pratica o seu ofício em Mount Pleasant, na Carolina do Sul. Os turistas americanos com poucas possibilidades para viajar podem encontrar muitos lugares nos EUA onde podem aprender mais sobre outras culturas.

Fotografia de Richard Ellis, Alamy Stock Photo

Este pano de fundo pode servir de base para conversas que têm significado, algo que Cheer diz ser “o elemento chave para gerar empatia”. Thornburgh acrescenta que os viajantes devem procurar lugares onde exista “uma interação igual e humanística, ou algo que se aproxime disso, entre os visitantes e os visitados”.

Os especialistas excluem geralmente as viagens de cruzeiro quando se pretende atingir este objetivo. Em vez disso, as experiências imersivas como as oferecidas pela Black Heritage Tours, que dão corpo às vozes historicamente marginalizadas, oferecem melhores oportunidades para ligações com significado.

Felizmente, para os pretensos viajantes, estas oportunidades podem ser encontradas mesmo em tempos de pandemia – quando muitos países ainda restringem as viagens internacionais, sobretudo para os americanos.

“Temos muita sorte que o mundo inteiro tenha vindo para este país para construir as suas vidas, em pequenas e grandes cidades, e temos a sorte de ter comunidades negras [e nativo americanas] por toda a parte”, diz Thornburgh. “Devemos visitar os restaurantes dessas comunidades, oferecer os nossos talentos às suas escolas e ajudá-las a angariar dinheiro para as suas causas.”

“Quer viajar? Quer conhecer culturas diferentes? Comece a partir de casa. Comece agora.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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