Agulhas Microscópicas e Reconhecimento Facial – Viagens Aéreas Adaptam-se Para Aumentar Segurança

Aviões e aeroportos estão a implementar tecnologia futurista emergente para responder à pandemia de COVID-19.

Tuesday, August 18, 2020,
Por Jackie Snow
Uma assistente de bordo da companhia Buddha Air usa um fato de proteção individual e viseira ...

Uma assistente de bordo da companhia Buddha Air usa um fato de proteção individual e viseira durante um exercício de segurança a bordo de um avião em Kathmandu, no Nepal.

Fotografia de Prabin Ranabhat, SOPA Images/LightRocket/Getty Images

A minha viagem recente de avião de Washington DC para Eugene, no estado de Oregon, não parecia muito diferente de um voo feito em 2019. Para além de uma camisola na loja do aeroporto que dizia “Peço desculpa pelo que disse quando estávamos de quarentena”, a experiência era familiar, mesmo com passageiros de máscara e aviões com metade da lotação. Mas os especialistas dizem que os nossos voos podem vir a ser muito diferentes.

A indústria da aviação já estava a passar por uma revolução tecnológica antes da pandemia. Mas os requisitos médicos e materiais da COVID-19 trouxeram alguma urgência à corrida para tornar as viagens aéreas ainda mais seguras. No solo e no ar, os robots de limpeza, os novos equipamentos de proteção individual para os assistentes de bordo e os exames médicos obrigatórios podem vir a tornar-se fatores padrão no futuro das viagens aéreas.

Eis como a tecnologia pode vir a mudar a nossa próxima experiência de voo.


Robots mantêm tudo limpo
A desinfeção ganhou uma nova importância durante a pandemia, com o ultravioleta C (UV-C) na linha da frente. O UV-C é um comprimento de onda que danifica o ADN e o RNA de um vírus, fazendo com que este pare de se replicar e morra. É um tipo de ciência que já se conhece desde meados do século XX e que é usado em lugares como hospitais para esterilizar quartos e ferramentas. Agora, a indústria de viagens está a tentar aproveitar esta luz para combater a propagação de coronavírus.

Robots limpam o chão com luz ultravioleta no Aeroporto Internacional de Pittsburgh. Estes raios ultravioleta conseguem matar os vírus presentes nas superfícies.

Fotografia de Jeff Swensen, Getty Images

Antes da pandemia, o Aeroporto Internacional de Pittsburgh já estava a trabalhar com uma startup local, a Carnegie Robotics, para testar robots de limpeza autónomos que usam pressão de água e desinfetantes químicos. Quando o novo coronavírus surgiu, a empresa ofereceu-se para instalar um componente UV-C.

Os quatro robots parecem limpa-neves em miniatura e têm o nome de heróis voadores – Amelia, Orville, Wilbur e Rose, em homenagem a Rose Collins, a primeira mulher a receber uma licença de aviação na Pensilvânia em 1929. “Os viajantes adoram-nos”, diz Christina Cassotis, CEO do Aeroporto Internacional de Pittsburgh. “E a equipa de limpeza também os adora porque permite que se concentrem noutras áreas.”

Estas máquinas operam entre oito a 10 horas por dia sem precisarem de ser recarregados. A luz, que é forte o suficiente para danificar os olhos, está cuidadosamente protegida para atingir apenas o chão. Os testes correram tão bem que Cassotis diz estar à procura de mais robots para limpar o comboio que se move entre os terminais e para limpar os corrimãos.

Mas como a exposição à luz ultravioleta acarreta riscos de cancro, quaisquer ferramentas desenvolvidas terão de manter a eficácia e a segurança em mente, diz Praveen Arany, professor da Universidade de Buffalo e especialista em usos terapêuticos de laser e luz.

Os robots de limpeza que usam técnicas mais tradicionais do tipo Roomba estão a operar no Aeroporto Internacional de Cincinnati/Northern Kentucky. O Neo – um robot de 50 mil dólares e 450 quilos que parece o resultado do amor entre uma mala com rodinhas e o motor de um barco – é feito pela canadiana AvidBots e usa tecnologia 3D e lasers para mapear as suas rotas e para contornar lojas, carrinhos de comida, ou até crianças perdidas.

A nossa cara é o passaporte
Antes da pandemia de COVID-19, os aeroportos já estavam a investir em tecnologia contactless para agilizar a experiência de embarque. Agora, estas mesmas ferramentas sem contacto também podem impedir a transmissão de vírus.

“A tecnologia existente vai ficar mais popular ainda mais depressa do que o esperado”, diz Andrew O’Connor, vice-presidente de gestão de portfólio da Sita, uma empresa de tecnologia aeroportuária. “Podemos usar o nosso rosto sem termos de tocar tanto nas coisas.”

Uma agente de embarque da United Airlines ajuda os passageiros protegida por um escudo de plástico no Aeroporto Internacional O'Hare de Chicago.

Fotografia de Brian Cassella, Chicago Tribune/Tribune News Service/Getty Images

Em vez de mostrarmos o passaporte ou o bilhete, podemos fazer uma leitura do nosso rosto com um dispositivo biométrico. A maioria destes dispositivos usa sensores que permitem que as características únicas de uma pessoa – a curvatura de uma orelha, o formato de uma testa – provem a sua identidade. Apesar de companhias aéreas como a Delta, a Air France e a JetBlue terem começado a implementar processos biométricos de embarque antes da pandemia, O'Connor diz que o interesse de outras companhias aéreas e aeroportos aumentou. E mesmo que as ferramentas de reconhecimento facial tenham sido criadas antes de as máscaras se tornarem predominantes, O'Connor diz que esta tecnologia continua a conseguir identificar os passageiros com as suas faces meio cobertas.

Embora estas tecnologias prometam tornar as viagens mais seguras, também podem comprometer a privacidade se não forem protegidas contra a violação de dados.

Mas não é só o processo de embarque que está a passar para A Terra do Amanhã: as zonas de self-service e de entrega de malas também estão a receber um tratamento biométrico para minimizar as interações entre funcionários e viajantes e para reduzir o número de vezes que precisamos de mostrar a nossa identificação.

Monitorizações de saúde tornam-se padrão
As monitorizações de saúde também se podem tornar parte da experiência sem contacto do aeroporto. A maioria das pessoas já viu imagens de passageiros a medir a temperatura com um termómetro portátil nos portões de embarque ou nos pontos de controlo de segurança. Mas, cada vez mais, os aeroportos estão a optar por (ou a testar) câmaras de triagem térmica, que operam através da deteção do calor emanado pelo corpo de uma pessoa e, de seguida, estimando a temperatura central. A ideia com ambos os dispositivos é detetar pessoas com febre que possam estar infetadas com COVID-19. As companhias aéreas solicitaram ao governo dos EUA exames de temperatura nos aeroportos para manter os passageiros mais seguros e confiantes no processo de voar.

Mas os especialistas – incluindo a Organização Mundial de Saúde – salientam que estes dispositivos não detetam indivíduos assintomáticos que têm COVID-19 e os infetados que não têm febre.

Uma agente de segurança do Aeroporto de Istambul usa um monitor térmico para medir a temperatura dos passageiros. Embora estes dispositivos possam ajudar a identificar pessoas com febre, não conseguem detetar pessoas com COVID-19.

Fotografia de Yasin Akgul, Xinhua/Eyevine/Redux

Um novo dispositivo chamado Symptom Sense pode dar às companhias aéreas uma ideia mais apurada sobre o estado de saúde de um passageiro do que uma medição de temperatura. O engenho é parecido e funciona como os portões com detetores de metais que os viajantes atravessam a caminho dos seus voos. Em cinco segundos (e sem contacto físico), o aparelho avalia a temperatura do passageiro, os níveis de oxigénio no sangue e a frequência cardíaca e respiratória.

Derek Peterson, CEO da Soter Technologies, a empresa responsável pelo Symptom Sense, diz que esta tecnologia foi lançada em junho e que a empresa já está em negociações com aeroportos e companhias aéreas para adicionar este dispositivo aos processos de triagem dos sinais vitais dos passageiros.

“Basicamente, estamos a simular uma visita ao médico”, diz Peterson. “Queremos construir uma abordagem por camadas para descobrir se alguém está bem ou não.”

Isto pode até significar que os passageiros serão desinfetados à chegada a um aeroporto. Quando aterrarem no Aeroporto Internacional de Hong Kong, os viajantes podem ter de entrar numa cápsula de pressão negativa que parece uma mistura entre uma cápsula espacial de ficção científica e um pequeno elevador. A engenhoca, chamada CLeanTech, faz um tratamento de 40 segundos com “agulhas microscópicas”, tecnologia de fotocatalisador e a pulverização de um desinfetante, tudo destinado a proteger os viajantes e funcionários do aeroporto de potenciais infeções virais. O dispositivo já estava a ser testado no início deste ano – os porta-vozes do aeroporto dizem que pode ser usado de forma generalizada em 2021.

Aplicações para telemóvel ajudam a viajar “sem contacto”
Os passageiros já usam os telemóveis há mais de uma década para fazerem o check-in, para descobrir se vão perder ligações de escala ou se trocam de lugar. Mas os dispositivos móveis estão a tornar-se ainda mais proeminentes na experiência de voo durante a COVID-19.

Quando o reconhecimento facial não está disponível, as aplicações para telemóveis podem interagir com os balcões e portões de embarque para reduzir o contacto de proximidade. Os alertas destas aplicações podem minimizar os congestionamentos, enviando uma mensagem para o embarque individual de passageiros. Isto pode ajudar a diminuir as multidões em torno do portão de embarque ou na fila da ponte para entrar no avião – uma zona de perigo sem muita circulação de ar que coloca as pessoas em risco de contacto de proximidade – um modo primário de transmissão da COVID-19.

“Tudo o que pudermos fazer para reduzir a quantidade de pessoas aglomeradas naquela zona é uma boa ideia”, diz Paloma Beamer, professora de saúde pública na Universidade do Arizona.

No Aeroporto Internacional de Miami e em vários outros aeroportos dos Estados Unidos, um software de análise de movimento denominado Safe Distance está a ser instalado para ajudar os passageiros a praticarem o distanciamento social e para reunir dados sobre como as pessoas se reúnem e movem nas filas. O sistema usa câmaras para rastrear os movimentos e computadores para processar os dados; atualmente é apenas uma ferramenta para as autoridades aeroportuárias descobrirem se precisam de melhorar a sinalização de distanciamento social ou os procedimentos de segurança para espaçar mais as pessoas. Mas este sistema (ou outro semelhante) pode eventualmente ser usado em aplicações de embarque para telemóveis ou exibido nos painéis dos aeroportos.

A alteração mais significativa para os telemóveis pode ser um segundo procedimento de check-in. As principais companhias aéreas dos Estados Unidos estão a trabalhar num projeto de rastreio de contactos, que pode depender de uma aplicação gerida por terceiros para recolher dados sobre os passageiros antes de cada voo. Beamer, que está a ajudar a desenvolver uma aplicação de rastreio de contactos para a Universidade do Arizona, diz que esta ideia pode ser particularmente útil para o setor da aviação civil. “Se estas aplicações pudessem ser utilizadas de forma mais ampla, poderiam ser úteis em coisas como os voos, porque há muitas probabilidades de encontros casuais.”

Assistentes de bordo com novos uniformes
As companhias aéreas costumavam encarar os corredores dos aviões como mini-desfiles de moda, com assistentes de bordo bem vestidas (basta pensar nas hospedeiras da Pan Am com os seus fatos azuis em 1971). Mas as tripulações de cabine da atualidade e do futuro podem vir a usar EPI, ou equipamento de proteção individual. O EPI já é exigido para os assistentes de alguns voos da Qatar Airways, AirAsia, Thai Airways e Philippine Airlines.

(Relacionado: Como se propaga o coronavírus num avião – e o lugar mais seguro.)

Há um certo toque futurista em alguns dos uniformes de segurança: os novos EPI vermelhos da AirAsia parecem fatos antirradiação; as tripulações de cabine da Philippine Airlines usam protetores faciais e fatos brancos com uma faixa arco-íris num dos ombros.

Este tipo de moda funcional é uma coisa boa, diz o Doutor Niket Sonpal, gastroenterologista e professor da Faculdade de Medicina Touro, mas os assistentes de bordo devem usar estas roupas como se estivessem num ambiente médico. “É necessária uma formação em EPI: quais os erros a evitar quando se vestem, como se devem mover com o fato e, de seguida, como o retirar.”

O objetivo continua a ser a proteção dos passageiros e dos assistentes de bordo, que estão sob risco elevado de exposição à COVID-19 no trabalho. Pelo menos um comissário de bordo morreu depois de contrair o vírus durante a formação para o trabalho; e suspeita-se que outros que faleceram devido à doença adoeceram durante os voos. E centenas de assistentes de bordo já foram hospitalizados.

Um EPI completo pode ser um exagero ou uma “farsa de higiene”, sobretudo quando alguns dos hospitais ainda se esforçam para manter equipamentos de proteção de reserva, de acordo com Sonpal. Os assistentes de bordo e outros trabalhadores essenciais precisam do apoio dos seus locais de trabalho e das pessoas que os rodeiam no seguimento das diretrizes de saúde – como por exemplo a utilização de máscara e a higienização das mãos. “Ainda há muito que não se sabe sobre este novo coronavírus”, diz Sonpal. “Estamos a voar no limite de segurança.”

E em relação à qualidade do ar que circula dentro da cabine de um avião? É um risco teórico, já que as membranas mucosas nas nossas vias nasais podem secar durante um voo, tornando-as mais suscetíveis a um vírus. Mas os especialistas acreditam que os filtros HEPA presentes nos sistemas de ventilação neutralizam os vírus, tornando o ar (que é refrescado a cada três minutos) seguro para respirar – de preferência através de um respirador N95 bem limpo.

“As tecnologias podem realmente oferecer mais segurança”, diz Kacey Ernst, epidemiologista e professora da Universidade do Arizona. “Mas se os nossos comportamentos se tornarem mais arriscados, isso pode cancelar os benefícios tecnológicos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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