Como Cozinhar Uma Piranha? Gordon Ramsay Fala Sobre o que Aprendeu nas Suas Viagens Durante as Filmagens

Com o regresso de 'Gordon Ramsay: Uncharted', o famoso chef fala sobre apanhar pimenta na Índia, montar um touro na Indonésia e viajar em tempos de pandemia.

Friday, August 28, 2020,
Por Jill K. Robinson
Durante as filmagens da segunda temporada de Gordon Ramsay: Uncharted da National Geographic, o famoso chef preparou ...

Durante as filmagens da segunda temporada de Gordon Ramsay: Uncharted da National Geographic, o famoso chef preparou um prato de porco em Kodagu, na Índia.

Fotografia de Justin Mandel, National Geographic

Como é óbvio, o chef Gordon Ramsay está confortável numa cozinha. Mas a sua popular série da National Geographic, 'Gordon Ramsay: Uncharted', também prova que o chef premiado com estrela Michelin é perito em caminhadas por florestas tropicais remotas, ou rapel em penhascos, à procura de ingredientes selvagens. Com o início da segunda temporada do programa, os espetadores podem acompanhá-lo em locais que vão desde Kerala, na Índia, à zona rural do Louisiana, nos EUA, enquanto Ramsay permite que especialistas locais sirvam como guias e professores de culinária.

Conversámos com Ramsay no dia 26 de maio, enquanto ele estava em confinamento em casa com a sua família, em Inglaterra, durante a crise de coronavírus. Ramsay falou sobre o que espera das viagens no futuro, bem como as aventuras e lições de vida que aprendeu durante as filmagens da segunda temporada de 'Gordon Ramsay: Uncharted', que estreia em Portugal no dia 4 de setembro às 22h10 no National Geographic.


Como é que as viagens vão mudar num mundo pós-pandemia?
Neste momento, o mais importante é a segurança. Mas nunca podemos deixar de lado a emoção de viajar e a curiosidade – isso é fundamentalmente importante. Precisamos de viajar e continuar a ter aventuras incríveis porque há algo de impressionante nisso e em nos expormos a novos lugares. Esta questão é sobre o tempo e sobre permanecermos fortes, mas precisamos de inspirar confiança uns nos outros. Isso pode ser feito facilmente através da comida: partir o pão, compreender culturas, partilhar a emoção de aventuras e viagens.

Durante as filmagens em Kannur, na Índia, Gordon Ramsay e a chef Shri Bala provaram sumo fresco de coco da região.

Fotografia de Ritam Banerjee, National Geographic

Quando procura novas aventuras, como lida com os eventos imprevisíveis?
Gosto de lidar com as coisas em tempo real. Quando estou a filmar o programa, geralmente não gosto de ter demasiada informação. Preciso de falhar duas ou três vezes antes de conseguir fazer bem as coisas. Quando eu me estava a tentar agarrar a dois touros na Indonésia, para esquiar na lama de um arrozal, foram necessárias algumas tentativas. Mas agora, sempre que uso o volante de um carro, não consigo parar de pensar em como virar um touro num arrozal. De vez em quando recordo como tem sido a minha vida em Uncharted, mas estou realmente mais confortável dentro dessa zona porque está tudo relacionado com comida. Posso dar nas vistas por ser diferente, mas adoro e estou seriamente confortável com tudo isso.

Inspirou-se em alguma das suas experiências de viagem enquanto esteve confinado em casa?
Usei algumas das técnicas que aprendi enquanto viajava, como escalar uma piranha-preta, que aprendi em Guiana. Mas fiz isso com um robalo na costa da Cornualha – abri-o ao meio e grelhei-o no churrasco, e terminei com um pouco de limão. Ensinar isso ao meu filho poucas semanas depois de ter feito o mesmo na selva foi incrível. Sem potes de barro ou panelas, sem azeite, sem pimentas, e acabámos por desfrutar do pôr do sol a apreciar este robalo de uma maneira diferente.

Para onde quer viajar quando a pandemia acalmar?
A América do Sul é o destino seguinte. Brasil e Argentina, por exemplo. A robustez da comida e a forma como grelham e conservam os alimentos são coisas que me entusiasmam. Juntando também as aventuras de um pouco de montanhismo em lugares remotos.

Ficou surpreendido com alguns dos destinos?
Eu já tinha estado na Índia, por isso pensei que a minha familiaridade tornasse as coisas menos emocionantes. Mas em Kerala, percebi novamente como a história e a regionalização da área afetam a importância do grão de pimenta para as pessoas que ali vivem. O simples facto de entrar na selva para apanhar grãos de pimenta das árvores e cozinhar com estes ingredientes poucos minutos depois foi uma experiência de cortar a respiração. É como o início de uma jornada, ficamos com uma noção de como estes blocos fundamentais começaram e foram colocados por camadas com o passar do tempo para construir uma reputação regional. Todas estas coisas salientam a importância de como os ingredientes podem ser saborosos quando são adquiridos localmente. Não há nada como saborear a comida de um destino quando estamos lá.

RELACIONADO: EXPLORE CULTURAS ALIMENTARES AUTÊNTICAS

O que podem os espetadores esperar dos novos episódios de 'Gordon Ramsay: Uncharted'?
Para mim, a segunda temporada é como a primeira, mas com esteróides. Aumentámos a fasquia em termos de destinos e aventuras. As coisas são um pouco mais cruas e fomos ambiciosos. Na região onde filmámos em Guiana, por exemplo, foi uma das áreas mais profundas e remotas da selva em que eu já estive. Saltar de um helicóptero para águas infestadas de tubarões em Durban, na África do Sul; pescar com rede na Índia; e mergulhar na Tasmânia foram coisas bastante desafiadoras. Mas com as ambições para esta nova temporada, encontrámos perspetivas muito mais profundas e uma camada diferente de perigo.

O que aprendeu na estrada durante esta temporada?
Uma das coisas mais importantes em que reparei foi que as comunidades [prestam] atenção às espécies invasoras. As pessoas que vivem nestas regiões compreendem a devastação que estas espécies podem trazer ao ambiente, como os roedores “nutria” no sul do Louisiana, que danificam o sistema radicular das plantas e destroem os pântanos. Tem sido um desafio fazer destes animais um produto alimentar nos menus, apesar de terem um bom paladar, porque são conhecidos localmente por ratos do pântano.

Em Guiana, foi incrível ver a forma como utilizam o que está debaixo dos nossos pés e tudo o que nos rodeia na selva – ver pessoas que não desperdiçam nada e que caçam apenas o que precisam para aquele dia. Eu tive de praticar tiro ao alvo com o meu novo arco e flechas antes de sair para caçar, porque não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar flechas quando são todas feitas à mão e essenciais para a sobrevivência. Ser aventureiro para aprender sobre o que está a acontecer localmente em todos estes lugares ajuda-me a compreender muito mais cada destino.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler