No Parque Nacional Mais Recente de França, as Árvores São o Grande Destaque

Refúgio para 50 milhões de árvores, o Parc National de Forêts é um modelo de turismo sustentável.

Monday, September 7, 2020,
Por Mary Winston Nicklin
A apenas três horas de Paris, o 11º parque nacional de França protege um ecossistema florestal ...

A apenas três horas de Paris, o 11º parque nacional de França protege um ecossistema florestal único.

Fotografia de PHILIPPE DESMAZES, AFP/Getty Images

Depois de uma migração de 5600 quilómetros desde a costa oeste de África, a cegonha-preta pousa no Parc National de Forêts, em França, construindo os seus enormes ninhos em carvalhos de 12 metros, longe dos olhos humanos. Esta ave é o símbolo adequado para o parque nacional mais recente de França – uma espécie protegida que representa a biodiversidade destas florestas cobertas de musgo, e os seus hábitos discretos também refletem o caráter de um lugar esquecido há muito tempo.

As vinhas de Champagne e Borgonha, que ficam nas proximidades, despertam a imaginação dos amantes de vinho do mundo inteiro. Mas o densamente arborizado Plateau de Langres – dos quais ‎242.148 hectares integraram em novembro o 11º parque nacional de França – raramente é visitado.


Mas isso pode mudar. A apenas três horas de Paris, este é o parque nacional mais próximo da capital francesa. Apesar de a área ser atormentada pelo êxodo rural desde a década de 1950, a licença do parque inclui um plano para o desenvolvimento económico local com foco no ecoturismo e na investigação florestal.

“O rótulo de parque nacional permite que as pessoas alterem a sua visão do território, elevando-o e valorizando-o”, diz Claire Colliat, presidente da vila de Saint-Loup-sur-Aujon, na fronteira leste do parque. Claire ajudou a defender a criação do parque através da campanha Oui au Parc. “Os habitantes reconhecem agora a sua incrível riqueza e recursos: naturais, culturais e humanos.”

De facto, o Parc National de Forêts fornece um modelo sobre como se podem criar parques nacionais hoje em dia. Foi um processo político de uma década de negociações com agricultores, caçadores, conselhos municipais e organizações sem fins lucrativos locais – um processo que enfrentou oposição.

Raízes de um ecossistema
A Europa tem cerca de 460 parques nacionais. Com base numa tradição de conservação iniciada nos Estados Unidos e adaptada pela Suécia, Suíça e Espanha no início do século XX, cada país desenvolveu o seu próprio sistema de parques.

O primeiro parque nacional de França, o Vanoise, foi criado em 1963. Agora, 10% do território continental do país está protegido sob a forma de parques nacionais. Gratuitos e abertos ao público, estes parques não deslocam os habitantes. Em vez disso, uma “zona de adesão”, composta por aldeias e comunas que defendem valores de conservação, circunda o núcleo do parque.

O Parc National de Forêts fornece habitats para muitas espécies raras e protegidas, incluindo a cegonha-preta.

Fotografia de Fabrice Cahez, Minden Pictures

Em 2007, o conselho nacional do meio ambiente delineou um plano para criar novos parques, escolhendo áreas representativas dos ecossistemas emblemáticos de França. Após uma investigação de dois anos feita por todo o país, o Ministério de Ecologia francês escolheu o futuro Parc National de Forêts para proteger a frondosa floresta de planície.

“A floresta está aqui desde a Idade Média”, diz Sylvain Boulangeot, presidente de um gabinete de turismo local e gestor da organização sem fins lucrativos Maison de la Forêt, que organiza passeios de observação de orquídeas e atividades de escalada em árvores. “O motivo pelo qual a floresta não foi completamente dominada pela agricultura deve-se ao seu solo rochoso. O calcário força as árvores a crescerem lentamente, pelo que os troncos destes carvalhos com 200 anos não são muito espessos, mas a sua madeira é apreciada pelos fabricantes de barris.”

Estas árvores são as âncoras do ecossistema, fornecendo habitat para aves, morcegos, insetos e cogumelos. Ao longo da história, naturalistas famosos estudaram neste planalto. E agora, o parque nacional – com a sua densidade de 50 milhões de árvores – está projetado para se tornar num centro europeu de estudos florestais. A reserva central protegida é a segunda maior do continente europeu e vai permanecer completamente intocada, tornando-se num laboratório para o estudo da biodiversidade e adaptação às alterações climáticas.

“Como historicamente não havia aqui muita agricultura, a biodiversidade foi preservada”, explica Marion Delforge, gestora de desenvolvimento sustentável do parque.

Um excelente exemplo são os marais tuffeaux, um complexo único de micro-habitats de pântanos com camadas de calcário que datam da última Idade do Gelo. Estes pântanos também contêm plantas geralmente encontradas nos alpes de alta altitude, como a linária alpina e a genciana-de-turfeiras. Durante séculos, os habitantes locais usaram muitas destas plantas para fins medicinais.

Mas, em termos de flora, a estrela do parque é uma orquídea rara e espetacular: a sabot de Vénus, ou chinelo de Vénus. No restaurante homónimo que fica em Bure-les-Templiers, o chef Arole Dupaty mostra as delícias comestíveis da região, desde ervas e trutas apanhadas localmente a cenouras cobertas com mel das colmeias do restaurante. O que jamais iremos encontrar no menu? A orquídea protegida. A multa para quem colher esta orquídea chega aos 15 mil euros.

Arole Dupaty – cujo negócio também oferece caça de trufas, serviço de catering e estadia para hóspedes – é apenas um exemplo de como os habitantes locais funcionam em harmonia com a missão de conservação do parque.

O elemento humano
Durante as negociações do parque, Marion Delforge reuniu-se com cerca de 60 agricultores individuais. Apesar da resistência inicial, a comunidade agrícola acabou por compreender o objetivo da gestão sustentável de terras. Em julho de 2020, 95 cidades votaram a favor da sua integração no parque.

“Agora há uma mentalidade diferente na criação de um parque nacional”, diz Marion. “[Estamos] a trabalhar em estreita colaboração com os habitantes locais na conservação e práticas agrícolas sustentáveis.”

A humanidade está presente nesta área desde o período Neolítico. Em 1953, os arqueólogos desenterraram o espetacular túmulo da Idade do Ferro da Senhora de Vix. Os visitantes podem visitar o “Tesouro Vix” – incluindo o maior vaso de bronze da época – num museu em Châtillon-sur-Seine, a maior cidade deste parque nacional.

Hoje, vários empreendedores partilham o seu amor por estes terrenos através de operações de ecoturismo. Florence Guerin abriu uma clínica de terapia florestal em Recey-sur-Ource. A apicultora e instrutora de ioga Annette Dulion faz sessões de ioga ao som do zumbido das abelhas em Busseaut. Michel Vuillermet e a sua esposa Esther gerem o Donkey’âne, uma quinta onde os visitantes podem participar em passeios de burro, e que inclui acampamentos de vários dias.

A pitoresca Châtillon-sur-Seine de Borgonha é a maior cidade do parque.

Fotografia de Parkerphotography, Alamy Stock Photo

“Nós, habitantes locais, não tínhamos propriamente consciência sobre a riqueza da área”, diz Nathalie Pierre, habitante local que transformou uma mansão do século XIX nas elegantes acomodações La Villa 1892. “Agora, o parque nacional apresenta a região sob uma perspetiva diferente. Com sorte, os novos empregos irão manter os jovens na região, e creio que os empreendedores vindos de fora também podem ser uma força motriz para o desenvolvimento local.”

Mathieu Bouchard é um destes empreendedores. Este antigo padeiro de Dijon mudou-se para Rochefort-sur-Brévon e abriu uma pousada com a sua esposa. “É uma oportunidade incrível para se viver num parque nacional”, diz Mathieu. “A floresta é a minha segunda casa; é onde vou para pensar, para refletir. E as noites estreladas, com pouca poluição luminosa, são incríveis.”

“Este é o novo El Dorado”, diz Fabian Ansault, artista que dirige Les Z’uns possible, um museu e café “de curiosidades” nas margens do Sena.

Embora a pandemia de coronavírus tenha abrandado o início do turismo, o novo parque nacional já está a estimular o otimismo e a energia na região.

“Daqui a uma década, espero que novas famílias se tenham instalado aqui, abrindo novos negócios e atividades”, diz Claire Colliat. “Espero que possamos acolher gerações de crianças e respetivos pais, para que tenham uma experiência única a descobrir a floresta e a compreender como o nosso futuro está ligado ao respeito pelo ambiente.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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