O Escritório Está Obsoleto? Muitos Viajantes Esperam que Sim

Conforme a pandemia se arrasta, as pessoas que trabalham remotamente encontram oportunidades inesperadas para se tornarem nómadas digitais.

Monday, September 28, 2020,
Por Jackie Snow
Com os escritórios encerrados durante a pandemia de coronavírus, os funcionários adaptaram-se ao trabalho em casa. ...

Com os escritórios encerrados durante a pandemia de coronavírus, os funcionários adaptaram-se ao trabalho em casa. Agora, muitos desejam trabalhar a partir de qualquer lugar do mundo.

Fotografia de Gary Yeowell, Getty Images

Arthur Deane nunca imaginou que o estilo de vida de nómada digital – viajar pelo mundo a trabalhar remotamente – fosse uma coisa para ele. Enquanto gestor sénior da gigante de tecnologia Google, Arthur achava que estar num escritório era essencial para o trabalho. Mas a pandemia mudou essa perspetiva.

Os quatro meses que passou a trabalhar no seu apartamento em Washington D.C. deixaram-no à beira da loucura e com necessidade de sair. Depois de pesquisar lugares onde os americanos tinham permissão para viajar, e as precauções de segurança razoáveis que pareciam estar em vigor, Arthur viajou em julho para passar uma semana em Aruba.

“Eu queria molhar os pés na água, em sentido figurado e literal”, diz Arthur.

Agora, Arthur está a pensar em regressar a Aruba, ou a um dos outros destinos abertos aos americanos, para fazer uma viagem mais longa. Ainda há detalhes para resolver, mas ele tem tempo: os escritórios da Google nos Estados Unidos só irão reabrir, no mínimo, em julho de 2021.

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Os empresários, freelancers e trabalhadores em nome individual compõem a maioria dos nómadas digitais, mas isso pode mudar à medida que mais empresas reavaliam a cultura laboral após seis meses de trabalho à distância. O número de pessoas que pode permanecer longe do escritório é impressionante – um estudo descobriu que mais de um terço dos empregos nos EUA podem ser feitos inteiramente a partir de casa. E uma sondagem feita a líderes de empresas revelou que 82% planeiam oferecer trabalho remoto, pelo menos em part-time, quando a pandemia passar.

Para Arthur Deane, a possibilidade de trabalhar remotamente durante alguns meses por ano, enquanto mantém uma base estável nos Estados Unidos, pode ser a configuração ideal – e em breve uma realidade.

“Não creio que o regresso ao escritório a tempo inteiro seja o futuro”, diz Arthur. “A pandemia ensinou-nos que podemos ser produtivos sem estarmos no escritório de segunda a sexta-feira, das nove às cinco.”

Tendência crescente
O trabalho remoto já estava a ganhar tração antes da pandemia, com as empresas a fazerem experiências com o trabalho à distância e a investirem em hardware para garantir ligações externas seguras. Agora que milhões de funcionários provaram durante meses que não precisam de trabalhar no escritório, alguns querem dar um passo adiante e descobrir se precisam sequer de trabalhar a partir de casa.

O termo “nómada digital” remonta a pelo menos 1997, quando o livro Digital Nomad argumentou que a tecnologia iria permitir aos humanos trabalhar a partir de qualquer lugar e possibilitar um regresso aos caminhos errantes dos nossos antepassados. Passaram-se mais de 15 anos até que o alcance da internet e as companhias aéreas de baixo custo, como a AirAsia, permitissem que este sonho se tornasse numa realidade para um grupo distinto de viajantes. Em 2019, um relatório descobriu que 7.3 milhões de trabalhadores americanos se consideravam nómadas digitais.

Lugares como Bali, Chang Mai e a Cidade do México tornaram-se destinos populares e oferecem espaços com internet de alta velocidade que também servem cafés com “alta octanagem”. Contudo, a maioria dos nómadas digitais depende de vistos turísticos, que tecnicamente não permitem qualquer tipo de trabalho. Apesar de muitas nações estarem mais focadas nos empregos locais e terem feito vista grossa aos nómadas digitais, isso não é suficiente para as empresas preocupadas com as implicações legais.

Alguns países procuram agora oportunidades para atrair trabalhadores – e tranquilizar empregadores – com programas oficiais para estadias prolongadas. Em julho, Barbados começou a receber inscrições para o Welcome Stamp, programa que oferece um visto de 12 meses. Os candidatos devem provar que ganham pelo menos 50 mil dólares por ano e que têm seguro saúde. E depois precisam de desembolsar mais de 2 mil dólares – ou 3 mil dólares para uma família – para pagar a taxa do visto. Uma vez aceites, os portadores de visto podem entrar e sair quando quiserem, obter acesso ao sistema escolar local e renunciar aos impostos sobre os rendimentos do país.

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A Estónia, conhecida pelo seu programa e-residência que permite que os estrangeiros interessados em abrir uma empresa tenham acesso aos serviços do país, anunciou um novo visto nómada digital. Com uma taxa de inscrição de 100 euros, o visto permite que os visitantes trabalhem remotamente na Estónia durante 12 meses – desde que comprovem que auferem de um salário mensal de pelo menos 3.504 euros. Porém, os americanos – que ainda estão proibidos de viajar para os países da União Europeia – vão ter de esperar.

No mês passado, as Bermudas lançaram o seu programa Work From Bermuda que, após a obtenção de um visto de 263 dólares, permite uma estadia de até um ano sem impostos sobre rendimentos. O nova-iorquino Kiwan Michael Anderson não solicitou visto, mas ficou surpreendido quando descobriu que estava a trabalhar em território britânico. Kiwan visita as Bermudas todos os verões para ver a família e teme que a pandemia acabe com esta tradição. Mas a ilha foi reaberta aos americanos no dia 1 de julho, e Kiwan fez a viagem com a intenção de ficar durante duas semanas de férias. Quando chegou a hora de partir, a sua tia perguntou se ele precisava mesmo de ir.

“Pensei um pouco sobre aquilo e cheguei à conclusão que, na realidade, não precisava de me ir embora”, diz Kiwan.

Kiwan cancelou o voo de regresso a casa e está nas Bermudas há nove semanas. Manter o seu trabalho de gerente na empresa de relações públicas Nike Communications não foi um problema. “A minha ligação wi-fi chega a ser melhor nas Bermudas do que no meu apartamento em Brooklyn.”

Uma mesa ao ar livre no Flatiron District de Nova Iorque, com vista para o Empire State Building, substitui uma mesa de escritório. As tecnologias como as redes virtuais privadas (VPN) facilitaram a viabilidade do trabalho remoto, mas ainda existem questões de proteção e segurança.

Fotografia de Alexi Rosenfeld, Getty Images

Como Kiwan tem um fuso horário com um hora de avanço em relação ao seu escritório em Nova Iorque, ele sente que começa a trabalhar mais cedo. E ao final do dia já está no oceano a fazer hidroginástica com a sua tia ou a fazer jet ski. Kiwan também quer começar a praticar paddleboarding.

“Já não se trata de onde estamos, mas sim do quão arduamente trabalhamos e quão produtivos somos.”

Conhecer antes de partir
A pandemia, como se sabe, dificulta as viagens. Tanto as Bermudas como Barbados exigem testes recentes de coronavírus e fazem exames de saúde à chegada. Mas de acordo com Lisa Lee, epidemiologista e especialista em ética de saúde pública do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, estes protocolos não detetam as pessoas que são infetadas em trânsito nem os casos assintomáticos.

Lisa diz que, idealmente, estes países deviam adotar uma quarentena de 14 dias, o período de incubação do coronavírus. E também refere a Jordânia, que impõe uma quarentena com pulseiras eletrónicas, e o Canadá, onde a polícia verifica as pessoas em quarentena, como exemplos de países que adotam estas medidas.

“Pode ser feito, mas é preciso ter muitos recursos”, diz Lisa.

Apesar de grande parte das pessoas não ter sequer 14 dias seguidos de férias, este período seria exequível para estadias mais prolongadas. E mesmo que a quarentena não seja obrigatória, Lisa recomenda que se imponha pessoalmente um período de contingência com distanciamento social, o uso de máscara e que se evite reuniões em espaços confinados. Até agora, as Bermudas e Barbados não registaram um aumento no número de casos, mas os nómadas digitais devem tomar sempre precauções, sobretudo porque os epidemiologistas esperam outro surto de infeções para este outono.

“Numa ilha, basta literalmente uma pessoa infetar outras duas para desencadear uma epidemia”, diz Lisa. “Ninguém quer ser a pessoa que leva uma doença e devasta uma população.”

Geralmente, o maior obstáculo encontrado pelos nómadas digitais é a disponibilidade de ligações wi-fi rápidas e de confiança. Embora as ligações à internet tenham melhorado em muitos lugares, os novos nómadas digitais estão a enfrentar outros problemas.

Para além da obtenção de visto, alguns trabalhadores precisam de se reunir regularmente com colegas de equipa ou clientes, uma situação que é afetada pelos diferentes fusos horários. Garantir a segurança dos dados de trabalho também é uma preocupação, embora muitas empresas também operem com redes virtuais privadas, ou VPN, e ofereçam formação regular sobre tópicos como a deteção de emails fraudulentos.

Ainda assim, estas práticas podem não ser suficientes para todos os que desejam viajar para o estrangeiro. Para as pessoas que trabalham com informações sensíveis, o departamento jurídico de uma empresa pode não permitir o acesso a partir de uma localização remota. Outras empresas receiam que os seus funcionários trabalhem em países com histórico de hacking.

David Cusick, responsável pela estratégia de ação da House Method, uma empresa sediada na Carolina do Norte que fornece pesquisas sobre prestadores de serviços ao domicílio, viu este tipo de problema surgir no início da pandemia.

“Os funcionários garantem-nos que os fusos horários não são um problema e que os vistos turísticos também não”, diz David. “Mas, quando se trata de responsabilidade legal, muitas vezes estamos de mãos atadas – acima de tudo, somos uma empresa dos Estados Unidos.”

David diz que a empresa ainda está a definir como será o trabalho a longo prazo, mas admite que se inclina para tornar o trabalho à distância numa opção permanente. Os funcionários gostam dessa decisão e há a possibilidade de se economizar dinheiro em espaço para escritórios. Se os funcionários querem ir para o estrangeiro, David fica feliz por poder considerar essa opção.

“Os funcionários que me consigam trazer uma coisa abrangente – ‘isto é para onde vou, é legal por estas razões, é isto que eu vou fazer’ – têm mais probabilidades de voar realmente para o seu oásis tropical”, diz David.

“Ao início, eu não fazia ideia de como isto podia funcionar”, diz Aasha Sapera, que começou a dar aulas de dança online em Jodhpur, na Índia, durante a pandemia de coronavírus. Enquanto bailarina na comunidade cigana de Kalbeliya, uma comunidade que na sua maioria é nómada e onde muitas pessoas vivem em cabanas de barro ou em tendas com eletricidade irregular e sem wi-fi, Aasha enfrentou mais desafios do que a maioria das pessoas que trabalham remotamente.

Fotografia de Sunil Verma, AFP, Getty Images

Também existem considerações ao nível pessoal para os nómadas digitais. Por exemplo, em Barbados, como em grande parte das Caraíbas, a atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo é ilegal. Embora os turistas LGBTQ levem sempre isto em consideração, as coisas podem mudar quando se trata de viver muito tempo nestes países com a pessoa amada.

Mas também há circunstâncias opostas. Para os afro-americanos e para outras minorias, ir para o estrangeiro pode ser uma fuga do racismo patente nos Estados Unidos. Para Kiwan Anderson, que teve de lidar com os seus sentimentos pessoais sobre o movimento Black Lives Matter e ajudar clientes a lidar com isso, estar nas Bermudas, onde a maioria é negra, foi um alívio.

“Recarregou-me”, diz Kiwan. “Deu-me esperança e energia.”

Rumo à sustentabilidade
Os países que já queriam atrair mais nómadas digitais antes do coronavírus continuam a querer esses viajantes, diz Michaela Murray, chefe de marketing da Hacker Paradise, empresa que organiza viagens para grupos de nómadas digitais desde 2014.

“Países do mundo inteiro estão a preparar-se para um aumento exponencial de nómadas digitais”, diz Michaela.

Alguns lugares, como Bali e Veneza, já lidavam com o “sobreturismo” e consideravam a criação de um imposto para conter o número de visitantes. Mas Michaela diz que observou um aumento no interesse em viagens para lugares como Kilifi, no Quénia, e para outros locais menos conhecidos, à medida que a ideia de turismo sustentável se consolidava.

Abrandar também é uma forma de tornar as viagens mais sustentáveis, dando tempo aos visitantes para ver um lugar mais aprofundadamente ao mesmo tempo que se reduz as emissões de carbono dos voos. Gerry Isabelle deixou o seu emprego de escritório em 2017 e tornou-se nómada digital a tempo inteiro, sustentando-se com a organização e escrita de viagens. Gerry queria ter experiências autênticas e, ao mesmo tempo, ser cuidadosa com as suas viagens, respeitando o que aprendeu na Dominican Abroad.

“Devemos levar definitivamente em consideração o nosso impacto enquanto nómadas digitais”, diz Gerry.

Uma lição importante que Gerry aprendeu é a de que os guias de viagens não são feitos para os nómadas digitais. Enquanto que uma família com 10 dias de férias pode não querer arriscar uma visita a um lugar durante a estação das chuvas, os nómadas digitais podem ficar lá tempo suficiente para o mau tempo passar, e evitar multidões. E também podem aumentar as receitas de turismo das comunidades na época baixa, obter tarifas mais baratas nas viagens e aproveitar as experiências autênticas que as viagens mais longas podem proporcionar.

“Se conseguirmos abrandar”, diz Gerry, “conseguimos estabelecer aquelas ligações locais e perceber a riqueza do legado de um lugar”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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