Será que as Pessoas Vão Tocar Novamente Nestas Icónicas Atrações Turísticas?

Desde Blarney Stone na Irlanda à Gum Wall de Seattle, algumas atrações “repletas de germes” enfrentam um desafio turístico peculiar devido à COVID-19.

Wednesday, September 16, 2020,
Por Zoe Baillargeon
Uma bandeira feita de pastilha elástica mastigada já esteve na Gum Wall de Seattle, uma parede ...

Uma bandeira feita de pastilha elástica mastigada já esteve na Gum Wall de Seattle, uma parede que é limpa frequentemente e que tem sido um ponto turístico popular desde o início desta tradição na década de 1990. Como acontece com outros locais turísticos “repletos de germes” pelo mundo inteiro, também a Gum Wall enfrenta um futuro incerto.

Fotografia de Ruth Fremson, The New York Times/Redux

Durante séculos, os viajantes que queriam tornar o seu vocabulário mais eloquente subiam ao topo de um castelo medieval, inclinavam-se para trás sobre um buraco num parapeito e davam um beijo num pedaço de calcário conhecido por Blarney Stone.

Acredita-se que (entre outras coisas) este é um antigo altar de pedra trazido das Cruzadas, uma pedra lendária que é uma das atrações turísticas mais populares da Irlanda. De acordo com os rumores, a Blarney Stone concede “o dom da palavra” aos que a beijam. No ano passado, cerca de metade dos 460 mil visitantes do Castelo e Jardins de Blarney beijaram a pedra. São muitos lábios.

Pelo mundo inteiro, os destinos que oferecem turismo “repleto de germes” – estátuas, pedras e outros objetos que os visitantes tocam ou beijam devido a mitos, lendas, crenças ou tradições – enfrentam um desafio particular durante a COVID-19. Estas práticas intrigantes e dignas de receio podem agora ser consideradas perigosas ou irresponsáveis por causa da pandemia. Apesar de existirem poucos estudos de saúde que se tenham concentrado nas atrações com germes, as interações com estes locais raramente são consideradas perigosas ao ponto de resultarem em doenças graves. Mas isso foi antes de uma pandemia global tornar o contacto com superfícies numa prática tabu. Agora, estes locais são potenciais vetores de propagação do novo coronavírus entre os seus visitantes através de gotículas libertadas por beijos, contacto ou respiração.

Como é que se convencem os viajantes da era coronavírus de que é seguro interagir fisicamente com um objeto que já foi tocado ou beijado por milhares de pessoas? As atrações repletas de germes enfrentam um ano turbulento para o turismo – e têm dificuldades em descobrir como manter os seus legados culturais enquanto se protege o público de patógenos.

A oferta de... germes?
Muitas vezes considerada a atração turística com mais germes no mundo, a Blarney Stone foi reaberta ao público em finais de junho, depois de ter encerrado pela primeira vez nos seus 600 anos de história em março. Apesar da COVID-19, cerca de um em cada três visitantes continua a beijar a pedra.

“Acho que esperávamos um pouco menos”, diz Paul O’Sullivan, gestor de marketing do castelo. “Mas quando falamos com as pessoas, elas ficam surpreendidas com os esforços que fizemos para tornar isto o mais seguro possível.”

Esta fotografia, tirada em meados de 1950, mostra a pose estranha que os visitantes precisam de fazer para beijar a famosa Blarney Stone. Nesta era coronavírus, o funcionário que ajuda os visitantes usa máscara, viseira e luvas que são trocadas após cada interação.

Fotografia de Three Lions, Getty Images

O Castelo de Blarney implementou inúmeras medidas de limpeza, nomeadamente um produto ecológico de limpeza aprovado pela Organização Mundial de Saúde, para limpar a pedra após cada beijo, e os visitantes devem esperar um minuto para permitir que o produto seque. O funcionário que ajuda as pessoas a beijar a pedra usa máscara, viseira e luvas que são trocadas após cada visita. O local tem zonas com desinfetantes para as mãos, reforça o distanciamento social e desinfeta regularmente as superfícies de maior contacto; os detalhes sobre o rastreamento de contactos são recolhidos à entrada.

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Antes da pandemia, a pedra já era limpa regularmente com um desinfetante que não danificava ou descolorava o calcário, que foi sendo desgastado por milhões de beijos. Paul O’Sullivan diz que, mesmo antes da pandemia, os visitantes tentavam limpar frequentemente a pedra com toalhetes, pelo que o castelo teve de ser mais proativo na utilização de produtos que não danificassem o calcário.

“Somos muito mais rigorosos agora do que nunca”, acrescenta Paul.

Cheio de pastilhas elásticas
Outro local com germes muito famoso é a Gum Wall no Mercado Pike Place de Seattle, onde milhares de visitantes adicionam pedaços de pastilha elástica já mastigada a um mosaico de borracha de 2,5 por 16 metros. A Gum Wall, uma tradição que começou nos anos 1990, é popular entre os visitantes que querem tirar uma fotografia e acrescentar a sua própria pastilha; alguns até se atrevem a lamber a parede. Localizada num edifício histórico feito de tijolos, a Gum Wall é frequentemente limpa, embora os visitantes adicionem mais pastilhas após cada limpeza.

Em 2015, a Gum Wall foi limpa pela primeira vez em 20 anos – foram removidos cerca de 1000 quilos de pastilha dos tijolos com 115 anos de idade. Como não existe uma lei ou regulamento que proíba a aplicação de pastilhas na parede, os visitantes continuam com esta tradição, obrigando a uma limpeza regular.

Fotografia de Ruth Fremson, The New York Times/Redux

“É peculiar, colorida e cheia de vida”, diz Madison Bristol, que trabalha no departamento de relações públicas do mercado.

A Gum Wall permaneceu aberta durante a pandemia, embora com poucos visitantes. Durante o verão, os viajantes regressaram: as fotografias recentes no Instagram mostram visitantes a posar, a comer pastilhas e a colocar o seu contributo na parede. Madison Bristol diz que não espera que a Gum Wall seja muito popular este ano, mas outras pessoas na indústria do turismo local acham que os futuros visitantes não vão ser dissuadidos.

“Na maior parte do tempo, as pessoas não tocam em nada, pelo que eu acho que, no futuro, as pessoas vão continuar a visitar a parede”, diz Colin Perceful, proprietário e CEO da Totally Seattle Tours. “Os viajantes continuam a querer viver esta fantasia.”

Durante o confinamento, o local aderiu brevemente ao movimento de turismo digital, quando dois empreendedores de tecnologia de Seattle criaram uma Gum Wall virtual para ajudar a indústria hoteleira da cidade.

“Continuo a pensar que o ato físico de visitar este local de referência e participar na experiência é difícil de replicar”, diz Mark Michael, cocriador da experiência virtual. “A Gum Wall é icónica.”

Futuro incerto
Em alguns lugares – incluindo Punta Arenas, no Chile, onde beijar o pé de uma estátua que representa um indígena da Patagónia ajuda a evitar enjoos no mar e traz boa sorte – o turismo ainda não recomeçou, pelo que os planos de saúde e segurança ainda não foram delineados.

“Como não recebemos quaisquer turistas na nossa cidade, é difícil saber”, diz Marta Larravide Villagrán, funcionária do Conselho Nacional de Turismo do Chile (SERNATUR). “Talvez durante um tempo as pessoas não toquem ou beijem a estátua, mas a tradição permanece.”

O TCL Chinese Theatre de Hollywood, onde os turistas podem colocar as mãos nos contornos de betão das mãos das suas estrelas de cinema favoritas, está encerrado desde março e os planos para a sua reabertura com segurança continuam em desenvolvimento.

Outros locais reabriram, mas apenas para os fiéis. Em maio, os funcionários do Vaticano higienizaram por completo a Basílica de São Pedro – onde o pé de bronze do santo foi desgastado e deformado por séculos de beijos e toques piedosos – e apesar de a igreja ter reaberto para as missas, está interdita a turistas.

Mesmo nos locais onde o funcionamento normal foi retomado, é preciso aguardar para ver o que o futuro reserva.

“Creio que a percentagem de pessoas que beijam a Blarney Stone pode diminuir um pouco”, especula Paul O’Sullivan. “[O regresso das] viagens internacionais pode ser determinante.”

Mas há um lado positivo: a pandemia abrandou temporariamente a vaga de “sobreturismo” nos destinos mais populares, permitindo que os habitantes locais desfrutassem dos seus tesouros sem multidões.

“É surpreendente a quantidade de visitantes [irlandeses] que estiveram aqui pela primeira vez”, diz Paul O’Sullivan.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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