Viajar Devia Ser Considerada Uma Atividade Humana Essencial

Viajar não é uma atividade racional, mas está nos nossos genes. É por isso que devíamos começar a planear uma viagem agora.

Wednesday, September 23, 2020,
Por Eric Weiner
Em 1961, Volkmar Wentzel, célebre fotógrafo da National Geographic, captou duas mulheres a contemplarem as ondas ...

Em 1961, Volkmar Wentzel, célebre fotógrafo da National Geographic, captou duas mulheres a contemplarem as ondas de Peggy’s Cove, na Nova Escócia. Esta e todas as outras imagens presentes neste artigo fazem parte da coleção de imagens da National Geographic.

Fotografia de Volkmar Wentzel, Nat Geo Image Collection

Tenho feito bom uso do meu passaporte ultimamente. Uso-o como base para os copos e para nivelar as pernas da mesa. É um brinquedo excelente para os gatos.

Bem-vindo à pandemia de deceções. As viagens foram canceladas, ou nunca planeadas, para não serem canceladas. As reuniões de família, os anos a estudar no estrangeiro, as férias de preguiça na praia... desapareceu tudo. Foi tudo obliterado por um minúsculo vírus e por uma longa lista de países onde os nossos passaportes não são bem-vindos.

De acordo com este relatório, apenas 33% dos americanos afirmam ter viajado para passar uma noite fora em lazer desde março, e apenas um pouco mais, cerca de 38%, afirmam que provavelmente o irão fazer até ao final do ano. E apenas 25% dos americanos planeiam sair de casa no Dia de Ação de Graças, normalmente o período mais movimentado nos EUA. Os números pintam um cenário sombrio sobre as nossas vidas paralisadas.

Não é natural sermos tão sedentários. Viajar está nos nossos genes. Durante a maior parte do tempo em que a nossa espécie existiu, “vivemos como caçadores-coletores nómadas que se moviam em grupos de 150 pessoas ou menos”, escreve Christopher Ryan em Civilized to Death. Esta vida nómada não foi por acidente. Foi útil. “Mudar para um terreno vizinho é sempre uma opção para evitar um conflito ou apenas para mudar de cenário social”, diz Christopher. Robert Louis Stevenson colocou as coisas de forma mais sucinta: “A grande questão é mudar.”

E se não nos conseguirmos mover? E se não formos capazes de caçar ou coletar? O que deve um viajante fazer? Existem muitas formas de responder a esta pergunta. “Desespero”, porém, não é uma delas.

Esquerda: Nesta vista aérea captada em 1967 em Ocean City, Maryland, veraneantes relaxam à beira-mar debaixo dos guarda-sóis e nas toalhas de praia.
Direita: Um festival de outono em 1967 em Guadalajara, no México, com músicos e dançarinos em trajes tradicionais.

Fotografia de EMORY KRISTOF, NAT GEO IMAGE COLLECTION (ESQUERDA) E VOLKMAR WENTZEL, NAT GEO IMAGE COLLECTION (DIREITA)

Somos uma espécie que se adapta. Conseguimos tolerar breves períodos de sedentarismo forçado. Uma pitada de negação também ajuda. Não estamos de castigo, é o que dizemos a nós próprios. Estamos apenas entre viagens, como um vendedor desempregado entre oportunidades. Passamos os dias a ver fotografias antigas de viagens e atualizações no Instagram. Olhamos para as lembranças. Tudo isto ajuda. Durante um tempo.

Tentamos manter um ar corajoso. “Nação Caseira”, declarava alegremente a capa da revista Canadian Traveler, como se fosse uma escolha.

Nos EUA, a U.S. Travel Association, a organização comercial do setor, lançou uma campanha de recuperação nacional chamada Let’s Go There. Suportada por uma coligação de empresas relacionadas com o turismo – hotéis, agências, companhias aéreas – o objetivo desta iniciativa é encorajar os americanos a transformarem o desejo de viajar em realidade.

A indústria de viagens está a sofrer. Os viajantes também. “Mergulhei tanto na minha deceção que quase doeu fisicamente”, disse-me recentemente a jornalista parisiense Joelle Diderich, depois de cancelar cinco viagens nesta primavera.

O meu amigo James Hopkins é um budista que vive em Katmandu. Poderíamos pensar que ele se iria dar bem durante o confinamento, uma espécie de retiro de meditação obrigatório. E assim foi, durante um tempo.

Quando falámos recentemente pelo Skype, James parecia abatido e desiludido. Ele confessou que estava a ficar inquieto, “e ansiava pelo antigo roteiro de viajar por 10 países por ano”. Nada parecia ajudar, disse James: “Não importa quantas velas acendo, ou o incenso que queimo, e apesar de viver num dos lugares mais sagrados do sul asiático, eu simplesmente não consigo mudar os meus hábitos.”

Quando acabámos de falar, senti-me aliviado, o meu mau humor estava validado. Não sou eu; é a pandemia. Mas também fiquei preocupado. Se um budista em Katmandu estava a enlouquecer, que esperança poderíamos ter?

Creio que a esperança está na própria natureza de viajar. Viajar implica um pensamento positivo. É preciso um salto de fé e de imaginação para embarcar num avião para uma terra distante, esperando e desejando alcançar o sabor de algo deslumbrante. Viajar é uma das poucas atividades em que nos empenhamos sem saber o resultado, e deleitamo-nos nessa incerteza. Nada é menos memorável do que a viagem que corre exatamente como planeada.

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Viajar não é uma atividade racional. Não faz sentido sentarmo-nos numa cadeira para sermos lançados a alta velocidade para um lugar distante, um lugar onde não falamos a língua ou conhecemos os costumes. E tudo isto é dispendioso. Se parássemos um pouco para fazer a análise entre custo-benefício, nunca saíamos de casa. No entanto, saímos.

Essa é uma das razões pelas quais estou otimista em relação ao futuro das viagens. Na verdade, eu diria que as viagens são uma indústria essencial, uma atividade essencial. Não é essencial como os hospitais e os supermercados são essenciais. Viajar é essencial, assim como os livros e os abraços são essenciais. Alimento para a alma. Agora, estamos entre destinos, saboreando onde já estivemos, antecipando para onde iremos. Talvez seja Zanzibar, ou talvez seja o parque de campismo ao fim da rua que sempre quisemos visitar.

James Oglethorpe, viajante experiente, está feliz por parar durante um tempo e por poder contemplar “a lenta alteração na luz e nas nuvens sobre as montanhas Blue Ridge”, onde vive. “A minha mente pode levar-me pelo resto do caminho, à volta deste mundo e mais além”, diz James.

Não é o lugar que é especial, mas sim o que levamos para esse lugar e, mais importante ainda, como interagimos com ele. Viajar não tem que ver com destino ou jornada. É sobre tropeçar “numa nova forma de ver as coisas”, como dizia o escritor Henry Miller. Não precisamos de ir muito longe para obter uma nova perspetiva.

Ninguém sabia isso melhor do que Henry David Thoreau, que viveu quase toda a sua curta vida em Concord, no Massachusetts. Thoreau observou o lago Walden de todos os pontos de vista concebíveis: do topo de uma colina, das margens, debaixo de água. Por vezes, dobrava-se e espreitava por entre as pernas, maravilhando-se com o mundo invertido. “Do ponto de vista correto, cada tempestade e cada gota é um arco-íris”, escreveu Thoreau.

Thoreau nunca se cansou de contemplar o seu amado lago, e nós também não perdemos o fascínio pelo nosso mundo. No mínimo, a pandemia reacendeu a nossa afeição por ele. Já percebemos como é ter uma existência digital e nós (pelo menos a maioria) não queremos isso. As bancadas do estádio Wrigley Field de Chicago; a secção da orquestra no Lincoln Center de Nova Iorque; os becos de Tóquio. Sentimos falta destes lugares. Somos criaturas de lugares, e seremos sempre.

Depois dos ataques de 11 de setembro, muitos previram o fim das viagens aéreas, ou pelo menos uma redução dramática. Ainda assim, as companhias aéreas recuperaram rapidamente e, em 2017, um recorde de quatro mil milhões de passageiros voaram pelos céus. Privados brevemente do milagre que é voar, hoje apreciamos mais essa experiência e toleramos a inconveniência dos exames e revistas corporais pelo privilégio de transportar o nosso eu de carne e osso para locais distantes, onde partimos o pão com outros seres.

Esquerda: Arquitetos paisagistas trabalham no seu estúdio no Rio de Janeiro, no Brasil, em 1955.
Direita: Uma turista fotógrafa uma planta centenária em St. Thomas, nas Ilhas Virgens dos EUA, em 1956.

Fotografia de CHARLES W. ALLMON, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Portanto, siga em frente e planeie essa viagem. É bom para si, dizem os cientistas. Planear uma viagem é quase tão agradável como fazer uma. O simples facto de se pensar numa experiência agradável já é agradável. A antecipação é uma recompensa por si só.

Eu testemunhei em primeira mão as sensações de antecipação de uma viagem. A minha esposa, que geralmente não é fã de fotografia de viagens, passa agora horas no Instagram a olhar ansiosamente para as imagens de alojamentos nos Alpes e para campos de arroz em Bali. “O que se passa?”, perguntei eu. “São absolutamente cativantes”, respondeu ela. “Fazem-me lembrar que existe um mundo grande e lindo lá fora.”

Muitos de nós, incluindo eu, encarámos as viagens como uma coisa garantida. Ficámos preguiçosos e presunçosos, e isso nunca é bom. O meu amigo Tom Swick, que escreve sobre viagens, disse-me que costumava olhar para as viagens como se fossem um dado adquirido. Agora, Tom diz: “Estou ansioso para as viver como se fossem uma dádiva.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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