Como a Morte das Viagens de Negócios Pode Mudar as Suas Próximas Férias

As viagens de trabalho caíram mais de 90%. E esta queda está a afetar tudo, desde quando e para onde viajamos até à duração da nossa estadia.

Friday, October 9, 2020,
Por Bruce Wallin
Uma viajante apressa-se para apanhar o comboio Intercidades Expresso de Inglaterra, na Estação Central Hauptbahnhof de ...

Uma viajante apressa-se para apanhar o comboio Intercidades Expresso de Inglaterra, na Estação Central Hauptbahnhof de Berlim. Devido à pandemia, as viagens de negócios decresceram significativamente.

Fotografia de Paul Langrock, laif/Redux

Se alguém já levou o seu cônjuge para uma conferência em Las Vegas, passou um fim de semana no arquipélago de Florida Keys após visitar Miami em trabalho, ou visitou os mercados de Natal em Salzburgo depois de uma reunião em Munique, então fez parte de uma tendência crescente no mundo de viagens: as viagens de negócios-lazer.

Esta categoria vagamente definida, em que negócios e lazer convergem, normalmente refere-se a pessoas que estão de férias num destino antes ou depois de uma visita para fins relacionados com trabalho. Uma sondagem de 2016 feita pela Expedia Group Media Solutions descobriu que viajantes pelo mundo inteiro transformaram 43% das suas viagens de negócios em férias. Este número aumentou para os 60% em 2018, com uma extensão média de estadia para cerca de três noites. Os profissionais mais jovens gostavam particularmente desta prática: em 2019, uma sondagem da National Car Rental revelou que 90% dos viajantes de negócios da geração millennial adicionou componentes de lazer às suas viagens.

Depois chegou 2020, o ano em que as viagens de negócios morreram. O colapso das viagens corporativas induzido pela COVID também matou a vertente de negócios-lazer – e pode ter uma influência duradoura na forma como viajamos. Os locais onde decidimos passar as nossas férias, a forma como chegamos lá, quando é que vamos, quanto tempo ficamos e até mesmo a forma como as nossas viagens impactam o ambiente são coisas que estão a mudar. E embora estimuladas pela pandemia, muitas destas mudanças podem ser atribuídas à ligação entre viagens de negócios e lazer.

A obliteração das viagens de negócios-lazer
De acordo com a Global Business Travel Association, em 2019 fizeram-se mais de 400 milhões de viagens de negócios apenas nos Estados Unidos. Porém, em abril deste ano, 92% dos membros desta organização disseram que tinham cancelado ou suspendido todas ou a grande parte das viagens dentro dos EUA, um número que subiu para os 98% nas viagens internacionais.

Os catalisadores responsáveis pelo declínio das viagens corporativas são evidentes: as preocupações com questões de saúde e as restrições tornaram as viagens de negócios insustentáveis numa era de COVID-19, enquanto que o aumento no trabalho à distância e a adoção de tecnologias de videoconferência tornaram este tipo de viagens desnecessárias.

Daiki Murakami despede-se da sua família no aeroporto de Narita, perto de Tóquio, no dia 25 de junho de 2020. Daiki estava entre os 440 empresários que viajaram do Japão para o Vietname em três voos fretados, depois de ambos os países terem levantado as restrições nas viagens durante a pandemia. Quando chegaram ao Vietname, os viajantes foram testados para o vírus e colocados em quarentena durante 14 dias.

Fotografia de Kyodo News/Getty Images

Esta junção de fatores criou uma nova realidade para a indústria de viagens, um cenário que pode persistir durante muito tempo após a pandemia. “Ainda estamos a mais de um ano do recomeço das viagens de negócios”, diz Lori Pennington-Gray, diretora da Iniciativa de Gestão de Crise de Turismo da Universidade da Flórida. “E vai ser muito diferente do que parecia antes.”

Tal como a vertente corporativa, as viagens de lazer também terão um aspeto diferente nos meses e anos que seguem. Um fator-chave nesta transformação é a queda nas viagens de negócios-lazer – e as poupanças que isso proporciona. De acordo com uma sondagem da National Car Rental, economizar dinheiro foi o motivo principal que levou 49% dos millennials a fazer uma viagem de negócios-lazer. Na verdade, viajar para Londres ou Hong Kong pode não ser viável se a nossa empresa não cobrir as despesas de voo. “Será que quero investir naquela viagem de longo curso, mesmo que parte da viagem não seja paga?” diz Lori. “Ou será que fico mais perto de casa e faço viagens mais curtas?”

As viagens de negócios-lazer também são uma questão de conveniência. Aproveitar para passar o fim de semana em Praga depois de uma viagem de negócios à capital da República Checa faz todo o sentido quando comparado com, digamos, uma viagem de 35 horas de ida e volta para sair de Los Angeles para uma estadia de duas noites.

As viagens de negócios também ditam obviamente muitos dos lugares para onde viajamos. Um estudo feito em 2018 pelo Expedia Group descobriu que 67% das viagens de negócios-lazer tinham sido nos mesmos destinos das viagens em trabalho. Para além disso, as viagens de negócios incluem frequentemente um membro da família ou um amigo que está a viajar por lazer. Por exemplo, no ano passado, 6.6 milhões de pessoas visitaram Las Vegas para assistir a conferências, 24% das quais levaram pelo menos um acompanhante – viajantes que de outra forma poderiam não ter visitado Las Vegas para passar férias.

“Quando olhamos para Londres, Nova Iorque, Las Vegas – todos os grandes centros urbanos – as viagens corporativas são o principal impulsionador dos seus negócios [de turismo]”, diz Lindsey Ueberroth, CEO da Preferred Hotels & Resorts.

As principais cadeias de hotéis também dependem das viagens corporativas, que equivalem a quase 70% das receitas dos hotéis Marriott International e Hilton, de acordo com um artigo publicado recentemente no New York Times. As viagens de negócios também são essenciais para as companhias aéreas. O Times descobriu que os viajantes corporativos representam cerca de metade de todas as receitas das grandes companhias aéreas e uma parcela ainda maior dos lucros.

Os cortes recentes das companhias aéreas no número de voos e rotas são um reflexo da atual queda na procura e da perspetiva sombria que se tem da recuperação das viagens corporativas. Quanto mais esta seca nas viagens de negócios se prolongar para as companhias, menos convenientes e acessíveis se tornarão as viagens aéreas. Isto provavelmente irá promover uma tendência que começou neste verão, quando as viagens de carro se tornaram na norma.

Viagens curtas de longo prazo
Estimuladas pelos riscos de saúde associados a voar, neste verão as viagens de carro ajudaram a compensar a queda nas viagens de negócios em cidades turísticas desde Nova Inglaterra até ao sul da Califórnia. Kurt Bjorkman, diretor-geral do The Ranch em Laguna Beach, previu que 30% dos seus negócios para 2020 viriam de viagens em grupo e de negócios. Isto aconteceu quase da noite para o dia, diz Kurt, mas a estância ainda teve um dos melhores meses de agosto de sempre. “Para começar, servimos um mercado de viagens mais curtas e isso intensificou-se quando as pessoas deixaram de poder sair do país.”

A transição para o trabalho em casa e ensino virtual, mesmo que temporariamente, também está a criar oportunidades para as pessoas que viajam em lazer. “Posso trabalhar em qualquer lugar e os meus filhos podem estudar em qualquer lugar”, diz Lindsey Ueberroth. “Porque é que não posso ir de carro para um lugar para passar uma semana onde os meus filhos podem estar na piscina durante os intervalos nas aulas?”

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Vários hotéis estão a atrair este nicho reconfigurando os seus espaços – chegando até a converter salões de baile em salas de estudo – e oferecem uma calendarização para trabalhadores e alunos à distância. Lindsey cita a Montage Academy lançada recentemente pela Montage Hotels & Resorts, um programa que inclui aulas particulares para crianças dos seis aos 17 anos, para além de “disciplinas opcionais”, após as aulas, que variam desde caminhadas a aulas de culinária.

Embora as crianças acabem eventualmente por regressar à escola, muitos adultos podem não regressar ao escritório – e o apelo inicial de se trabalhar em casa também pode começar a aborrecer. “Estamos todos há muito tempo no mesmo barco, por assim dizer, e é bom sair de casa e mudar o nosso ponto de vista”, diz Tracey Slavonia, diretora de marketing da Salamander Hotels & Resorts.

Esta empresa, que possui propriedades em Charleston, na Carolina do Sul; em Middleburg, na Virginia; e em Montego Bay, na Jamaica, assistiu a um aumento no número de viajantes de áreas metropolitanas próximas que usam os seus hotéis para trabalhar remotamente. “Quando a fronteira com a Jamaica foi encerrada, virámos o marketing da nossa propriedade em Montego Bay para os habitantes de Kingston”, diz Tracey. “Eles alugaram vilas de cinco a sete quartos e instalaram-se no hotel durante longos períodos de tempo.”

Viagens menos frequentes e com estadias mais longas podem ser outro resultado direto da revolução do trabalho à distância. Se não precisamos de estar num escritório – e não precisamos de fazer viagens de negócios para visitar outros escritórios – podemos instalar-nos durante semanas, ou meses, de cada vez. “As pessoas estão a perceber que não precisam de regressar a casa, não precisam de ir para o escritório”, diz Misty Belles, diretora de relações públicas da cadeia de viagens Virtuoso. “Estamos a testemunhar o que parecem ser contratos de aluguer, em que as pessoas ficam num hotel durante dois ou três meses.”

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Menos impacto, mais consciencialização
A combinação entre viagens perto de casa e estadias mais prolongadas oferece potenciais vantagens para o ambiente. Para além da redução nos voos de longa distância, estas tendências podem significar menos rotatividade nos hotéis, com um fluxo mais consistente de hóspedes para estadias mais longas. “Os hotéis recebem menos hóspedes do que no passado”, diz Lori Pennington-Gray, “e têm a oportunidade de pensar sobre qual será esse impacto a longo prazo”.

Lindsey Ueberroth acredita que os viajantes também irão mudar de perspetiva. “Quando isto passar, os viajantes vão prestar mais atenção ao que as propriedades de turismo estão a fazer. Como é que estão a investir nas suas comunidades? Se há uma coisa que a pandemia nos ensinou, é a importância de cuidarmos das pessoas que estão mais perto de nós.”

Os novos hábitos de viagem também podem aliviar um pouco o stress do turismo em excesso. Em vez de sobrelotarem os locais mais populares durante o verão,  primavera e fins de semana, os novos trabalhadores em regime de flexibilidade podem criar um fluxo constante ao longo do ano. “O grande vencedor nisto tudo é a época baixa”, diz Misty Belles. “As linhas que estiveram sempre bem delineadas do ponto de vista sazonal estão agora mais enevoadas.”

Embora estejam a mudar, as linhas entre viagens de negócios e lazer também parecem manter-se enevoadas. As viagens de negócios-lazer como as conhecíamos podem estar mortas, mas está a formar-se um novo vínculo entre diferentes categorias. “Se vamos passar um mês num hotel perto de casa a trabalhar, será que estamos mesmo de férias?” pergunta Kurt Bjorkman. “Ou será que isto é simplesmente a nova faceta das viagens de negócios-lazer?”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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