Flórida Pode Vir a Registar Um Aumento no Nascimento de Tartarugas – Graças à Pandemia

O turismo está em baixa, mas o sucesso de nidificação pode estar em alta. Descubra o que os cientistas dizem e como todas as pessoas podem ajudar.

Thursday, October 29, 2020,
Por Jesse Scott
Na Flórida, uma tartaruga-verde cobre os seus ovos com areia. Este ano, alguns investigadores descobriram um ...

Na Flórida, uma tartaruga-verde cobre os seus ovos com areia. Este ano, alguns investigadores descobriram um aumento nas taxas de nidificação.

Fotografia de REBECCA SMITH, UNIVERSIDADE DA FLÓRIDA CENTRAL, PERMITTED RESEARCH UNDER MTP-186

Este é um dos maiores espetáculos da natureza. Todos os anos, milhares de tartarugas marinhas chegam à costa do Atlântico e do Golfo da Flórida, escavam meticulosamente a areia para colocar os seus ovos e, de seguida, regressam ao mar. Após incubarem durante cerca de dois meses, os ovos – uma fêmea pode colocar mais de cem – eclodem e as pequenas tartarugas tentam chegar à água.

Nos EUA, cerca de 90% da nidificação de tartarugas marinhas acontece nas praias da Flórida, de acordo com a Sea Turtle Conservancy, uma organização de investigação e conservação sediada em Gainesville. Na época de 2019, durante a sua sondagem anual que é feita em 27 praias, o Instituto de Pesquisa de Peixe e Vida Selvagem deste estado documentou mais de 53.000 ninhos de tartarugas-comuns. Para além das tartarugas-comuns, a Flórida também é o lar de nidificação de tartarugas-verdes e tartarugas-de-couro. Existem outras quatro espécies de tartarugas marinhas que percorrem as águas do planeta – tartarugas-marinhas-pequenas, tartarugas-oliva, tartarugas-de-pente e tartarugas-marinhas-australianas – e a grande maioria está ameaçada ou em perigo crítico de extinção.

Esquerda: Na Flórida, uma cria de tartaruga-de-couro observa o mundo pela primeira vez. Os ovos de tartaruga-de-couro incubam durante cerca de 70 dias, enquanto que os ovos de tartarugas-verdes e comuns demoram cerca de 50 dias para eclodir.
Direita: Depois de nidificar durante a noite, uma tartaruga-comum regressa ao oceano com o nascer do sol.

Fotografia de TIFFANY DAWSON, UNIVERSIDADE DA FLÓRIDA CENTRAL, PERMITTED RESEARCH UNDER MTP-186 (ESQUERDA) E GUSTAVO STAHELIN, UNIVERSIDADE DA FLÓRIDA CENTRAL, PERMITTED RESEARCH UNDER MTP-186 (DIREITA)

Durante a época de nidificação na Flórida, que vai desde março até outubro, as praias estão normalmente inundadas com humanos. Este ano, a pandemia de coronavírus restringiu drasticamente as viagens e algumas jurisdições estaduais foram forçadas a encerrar as suas praias durante semanas. Estas ações podem ter sido uma desilusão para muitos banhistas, mas também podem ter sido uma bênção para as tartarugas marinhas. Contudo, 2020 também foi um ano sem precedentes no número de furacões que fustigaram o sudeste dos EUA. À medida que esta época de nidificação chega ao fim, os investigadores começam a partilhar algumas das suas descobertas iniciais e dicas sobre como os viajantes – mesmo os que estão em confinamento – podem ajudar a proteger as tartarugas marinhas.

Ausência rara de humanos
Uma das questões importantes que os cientistas estão a tentar responder este ano passa por saber se a diminuição de distúrbios resulta em mais nidificações. Durante a nidificação das tartarugas marinhas podem existir “trilhos falsos”, nos quais uma fêmea encontra uma distração entre a água e um possível local de nidificação. Quer seja um turista com uma câmara, uma cadeira de praia, um ruído ou uma luz, o plano da tartaruga pode ser interrompido, enviando o animal de regresso para o oceano sem colocar os seus ovos.

“Na verdade, encontrámos uma diferença significativa durante os encerramentos das praias, e depois em termos de uma taxa de sucesso de nidificação”, diz Justin Perrault, diretor de investigação do Centro Loggerhead Marinelife, uma organização sem fins lucrativos sediada em Juno Beach que se dedica à educação, pesquisa, e reabilitação de tartarugas marinhas. Este ano, o centro observou aproximadamente 17.000 ninhos ao longo das praias de Juno, Júpiter-Carlin e Tequesta. “Durante os encerramentos, as tartarugas-comuns nidificaram com sucesso cerca de 61% das vezes”, diz Justin. “Quando as praias reabriram, este número caiu para os 46%.”

Na costa sudoeste do Golfo, o Programa de Tartarugas Marinhas da Fundação de Conservação Sanibel-Captiva examina 30 quilómetros de praia, entre a Ilha de Sanibel e Redfish Pass. Este ano, a equipa documentou contagens recorde de ninhos de tartarugas-comuns, totalizando 926. Durante o mês de maio, a taxa de trilhos falsos foi 23% mais baixa do que a observada no período homólogo do ano passado. Embora as praias que a fundação monitoriza não tenham encerrado, o estacionamento junto à praia foi proibido entre 18 de março a 1 de junho, para além das ordens de confinamento emitidas pelo estado.

Outros cientistas argumentam que o efeito da pandemia foi mais limitado. O Programa de Pesquisa e Conservação de Tartarugas Marinhas do Laboratório e Aquário Marinho Mote, que monitoriza 55 quilómetros de praia, desde Longboat Key até Venice, registou 3.716 ninhos – o quarto número mais elevado em 39 anos de história deste programa. Mas como estas praias estiveram encerradas durante poucas semanas no início da época de nidificação, os investigadores estão relutantes em estabelecer uma ligação com os confinamentos.

Na Reserva Nacional de Vida Selvagem Archie Carr, em Brevard County, o Grupo de Investigação de Tartarugas Marinhas UCF observou 12.968 ninhos de tartaruga-comum, 8.102 ninhos de tartaruga-verde e 40 ninhos de tartaruga-de-couro. As contagens de tartarugas-comuns estavam “dentro do intervalo que esperávamos”, diz Kate Mansfield, diretora do grupo. “As tartarugas-de-couro tiveram um ano bom, e as tartarugas-verdes colocaram mais ovos do que o esperado. A ingestão de alimentos por parte das tartarugas e a qualidade dos alimentos disponíveis nestas áreas desempenham um papel determinante na nidificação... portanto, quando a pandemia começou, os dados já tinham sido lançados em termos de quais eram as tartarugas que iriam nidificar nesta época.”

A erosão costeira provocada por furacões e ventos fortes pode afetar os ninhos de tartarugas marinhas, resultando na morte dos embriões. Mas as tartarugas marinhas nidificam em vários locais diferentes todos os anos para aumentar as probabilidades de eclosão de alguns ovos.

Fotografia de MONICA REUSCHE, UNIVERSIDADE DA FLÓRIDA CENTRAL, PERMITTED RESEARCH UNDER MTP-186

Aumento de tempestades
Para além da interação humana, a temporada de furacões no Atlântico (que vai desde junho até novembro) pode afetar os cenários de nidificação. Durante este ano recorde, que produziu 25 tempestades com nome até meados de outubro, as inundações e as marés mais altas que vêm com os furacões deixaram as suas marcas.

“Apesar de o furacão Teddy não ter chegado perto da Flórida, houve uma ação significativa das ondas que provocou alguma erosão”, diz Justin Perrault. “Quando as margens sofrem erosão, [os ovos] podem rebolar na rebentação, ou pode haver uma inundação que cobre os ovos de forma constante e que, basicamente, acaba por os afogar.”

Entre as tempestades de 2020, Justin destaca a tempestade Isaias, que contornou a costa atlântica da Flórida no início de agosto. Para além de provocar danos no valor de milhares de milhões de dólares nos EUA e não só, o furacão destruiu cerca de 2000 ninhos na área de observação do Centro Loggerhead Marinelife, diz Justin.

De acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, as temperaturas globais estão a subir a uma taxa de 0.18 graus Celsius por década desde 1981. Isto tem provocado um aquecimento nos oceanos, algo que ajuda a alimentar e a intensificar os furacões.

As alterações climáticas também estão a distorcer as proporções de género sexual de algumas tartarugas marinhas, com os especialistas a observarem uma oscilação que favorece as populações de fêmeas. “A temperatura crucial para a incubação de tartarugas marinhas é de cerca de 28 graus”, diz David Godfrey, diretor executivo da Sea Turtle Conservancy. “É esta temperatura que tende a produzir 50% de machos e fêmeas. As temperaturas mais baixas produzem mais machos e as mais quentes produzem mais fêmeas.”

Caça furtiva a aumentar noutros locais
A pandemia tem provocado efeitos adversos noutros locais de nidificação pelo mundo inteiro. Na Costa Rica, onde surgem anualmente centenas de milhares de ninhos nas praias, a falta de turismo teve um impacto tremendo, diz Jimena Gutiérrrez, bióloga da Sea Turtle Conservancy que vive no Parque Nacional Tortuguero, na Costa Rica.

“Por causa da COVID, uma das maiores observações que fizemos foi no aumento da caça furtiva nas praias”, diz Jimena. “Normalmente, a conservação das tartarugas acontece porque temos pessoas que as vêm ver. Talvez, a longo prazo, poderemos assistir a bons resultados porque há menos tráfego de embarcações no oceano, mas neste local, a redução do turismo é uma desvantagem para as tartarugas.”

Na República Dominicana, o Parque Nacional Jaraguá e a Isla Saona acolhem anualmente centenas de ninhos. Yolanda León, bióloga e professora de investigação do Instituto Tecnológico de Santo Domingo, diz que, nos últimos anos, locais como a Isla Saona tiveram um aumento para cerca do dobro no número de ninhos graças às patrulhas de praia que ajudam a dissuadir os caçadores furtivos. Mas com menos dólares vindos do turismo para apoiar os trabalhadores locais durante a pandemia, Yolanda está preocupada com os conservacionistas e com as tartarugas.

Esquerda: Uma cria de tartaruga-de-pente, membro de uma espécie em perigo crítico de extinção, junta-se a outros peixes na costa do Panamá.
Direita: Na praia de Bocas del Drago, no Panamá, tartarugas-de-pente recém-nascidas contornam obstáculos a caminho da água.

Fotografia de RAUL GARCIA, SEA TURTLE CONSERVANCY

Embora a época de nidificação na Austrália esteja apenas a começar – normalmente vai de outubro até fevereiro – alguns habitantes estão preocupados com uma nova tendência turística que surgiu na região. “Estamos a ver um aumento enorme no número de veículos com tração às quatro rodas nas praias e noutros trilhos”, diz Debbie Ferguson, proprietária da Exmouth Dive & Whalesharks Ningaloo, que fica na costa oeste do país. “A nossa preocupação é a de que as tartarugas enfrentem ainda mais pressões, podendo não desovar ou, quando o fizerem, pode haver mais influência humana a afetar a capacidade de as crias chegarem ao mar.”

Impulsionar as tartarugas marinhas
Nos EUA, a Lei das Espécies Ameaçadas proíbe danos às tartarugas marinhas e aos seus ninhos, e a Lei de Proteção de Tartarugas Marinhas da Flórida limita as interações com tartarugas marinhas a pessoas associadas a organizações científicas, educacionais e de conservação.

Várias localidades também adotaram uma abordagem proativa de proteção. Por exemplo, em Broward County, que acolheu 3.500 ninhos ao longo das suas costas de areia branca no ano passado, o Programa de Conservação de Tartarugas Marinhas isola os locais de nidificação e trabalha com hotéis e outras propriedades costeiras em iniciativas que visam a instalação de iluminação favorável às tartarugas.

Stephanie Kedzuf, especialista em recursos naturais de Broward County, aconselha os viajantes a evitarem a captação de fotografias ou a utilização de luzes nas suas caminhadas noturnas, ações que podem afetar o processo de nidificação.

Também há voluntários amigos das tartarugas que se juntam em limpezas de praias, como as reuniões mensais feitas em Melbourne Beach e Cabo Canaveral através da Sociedade de Preservação de Tartarugas Marinhas; os passeios guiados do Centro Loggerhead Marinelife; e o Trash Bash organizado pelo Centro de Conservação de Tartarugas Marinhas da Praia de Navarre.

Para além da Flórida, os viajantes também podem planear aventuras pós-pandemia para ajudar os cientistas a recolher dados sobre tartarugas marinhas na Costa Rica e nas Bahamas, através da organização ambiental sem fins lucrativos Earthwatch, ou ajudar na reabilitação de tartarugas doentes na Austrália com a Ocean 2 Earth Volunteers.

Mas qualquer pessoa – seja na praia ou em casa – pode fazer a diferença, reduzindo a dependência de plásticos descartáveis que acabam nos cursos de água que alimentam os oceanos. “Usar garrafas de água reutilizáveis, sacos, talheres, palhinhas... tudo isso pode reduzir bastante a quantidade de plástico no oceano”, diz Stephanie Kedzuf, “e isso beneficia não só as tartarugas marinhas como as outras formas de vida marinha.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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