O Turismo de Caça às Bruxas É Lucrativo, Mas Esconde Uma História Trágica

Salem, no Massachusetts, divide-se entre lucro e tributo. Como é que outros locais históricos de bruxaria podem fazer o mesmo?

Thursday, October 29, 2020,
Por Karen Gardiner
O Memorial Steilneset na Noruega, localizado na costa do Mar de Barents, homenageia os 91 homens ...

O Memorial Steilneset na Noruega, localizado na costa do Mar de Barents, homenageia os 91 homens e mulheres do país que foram executados no século XVII devido a bruxaria.

Fotografia de Max Galli, Laif/Redux

Séculos depois de um pânico de bruxas ter fustigado a Europa e certas zonas da América, as bruxas ainda invocam um feitiço poderoso. A bruxaria tinha alegadamente poderes surpreendentes, que foram dramatizados e reencarnados sob a forma de decorações de Halloween. As bruxas são representadas no cinema, no teatro e na televisão, e muitas vezes são descritas como “perversas”, mas também podem ser “boas” e até adoráveis.

Na verdade, as bruxas e os acusados de usar magia eram pessoas reais. As suas histórias – que foram apropriadas e que nem sempre são contadas com precisão – geram lucros em lugares associados ao ocultismo, lugares como Salem, no Massachusetts, e Zugarramurdi, também conhecido por “Salem de Espanha”.

Mas com o aumento da consciencialização sobre a perseguição de pessoas – sobretudo mulheres – por bruxaria no mundo inteiro, há uma sensação crescente de inquietação sobre a forma como nos lembramos dos homens, mulheres e crianças que perderam a vida na caça às bruxas feita nestas cidades agora turísticas. A questão é: como é que encontramos um equilíbrio entre homenagem e lucro? A resposta não é fácil.

Bruxa kitsch
Todos os anos no Halloween, imagens de mulheres com narizes e chapéus pontiagudos surgem nos Estados Unidos, sobretudo em Salem.

Nos anos pré-pandemia, quase um milhão de turistas gerava 140 milhões de dólares anuais em Salem, cidade que hoje é sinónimo dos julgamentos de bruxaria de 1692, onde 19 pessoas foram executadas por bruxaria. A celebração do Halloween, que dura um mês, é a grande atração da cidade e equivale a 30% dos seus visitantes anuais, que chegam com máscaras e tiram fotografias aos agentes da autoridade que usam chapéus pontiagudos, e compram lembranças com a temática associada a bruxas.

Habitantes de Salem vestidas de bruxa em 2018, no “Grande Desfile Assombrado dos Acontecimentos” que se realiza anualmente em Massachusetts. Este desfile é um evento importante na famosa celebração de Halloween que dura um mês em Salem.

Fotografia de JOSEPH PREZIOSO, AFP / GETTY IMAGES

Uma cena semelhante acontece durante o ano inteiro em Zugarramurdi, no norte de Espanha, onde 7000 pessoas foram acusadas de bruxaria durante os julgamentos das bruxas bascas no início do século XVII. Aqui, os turistas visitam uma caverna onde alegadamente as bruxas dançavam com o diabo (disfarçado de cabra); visitam um museu dedicado a esta história; e compram bugigangas associadas a bruxaria.

Embora o turismo de bruxas possa ser divertido, alguns estudiosos receiam que estes estereótipos façam mais mal do que bem. A venda de bonecas em lojas de souvenirs como as de Espanha “perpetua a ideia de que as alegadas bruxas não foram vítimas de uma perseguição terrível, e que eram figuras fictícias”, diz Silvia Federici, autora de Calibã e a Bruxa. “Acho que os turistas que compram estas bonecas não se apercebem que se tratavam de mulheres acusadas de crimes fictícios, e que depois foram horrivelmente torturadas e, na maioria das vezes, queimadas vivas.”

A história repete-se
Desde finais do século XVI até meados do século XVII, o receio de bruxaria espalhou-se pela Europa. Naquela época, as disputas de terrenos, as doenças inexplicáveis e as suspeitas de mulheres transgressoras ou poderosas estavam entre as acusações de bruxaria. Neste processo, dezenas de milhares de pessoas inocentes foram assassinadas em julgamentos de bruxaria.

A bruxaria é difícil de descrever. A enciclopédia Britannica categoriza-a como uma crença religiosa e define-a como “o exercício ou invocação de supostos poderes sobrenaturais para controlar pessoas ou eventos; práticas que envolvem feitiçaria ou magia”. Mas a bruxaria abrange uma vasta gama de crenças culturais e regionais, desde o xamanismo às ideias metafísicas e tradições folclóricas pré-cristãs que historicamente têm sido encaradas de forma negativa.

Nesta gravura, o rei Jaime da Escócia é retratado a presidir ao julgamento das Bruxas de North Berwick em 1591, em East Lothian, um condado que fica a cerca de 30 quilómetros de Edimburgo.

Fotografia de CHRONICLE, ALAMY STOCK PHOTO

Centenas de anos mais tarde, a perceção errada em torno da bruxaria ainda prevalece. Como resultado, a caça às bruxas ainda é uma prática do século XXI em muitas partes do mundo, particularmente na África Subsaariana, na Índia e em Papua Nova Guiné.

Embora as autoridades de muitos países ignorem simplesmente estas perseguições, alguns sistemas legais sancionam-nas. Para além de ter leis contra a feitiçaria (um crime passível de pena de morte), a Arábia Saudita criou em 2009 uma unidade anti-bruxaria dentro do departamento das autoridades religiosas do país.

Saber porque é que a caça às bruxas aumentou nalgumas partes do mundo é uma questão difícil de responder. Para além dos conflitos prevalecentes no início da história moderna da Europa, a bruxaria pode ser um bode expiatório conveniente para o problema crescente da violência de género. “A violência contra as mulheres intensificou-se muito nos últimos anos”, diz Silvia Federici, “por motivos, creio eu, que têm alguma relação com a violência infligida contra as mulheres através da caça às bruxas no passado”.

O fracasso em reconhecer a história da caça às bruxas também pode ser um fator. “Não foi introduzido um ‘dia de homenagem’ em qualquer calendário europeu”, escreve Silvia Federici na introdução da sua coleção de ensaios de 2018, Mulheres e Caça às Bruxas. A história das vítimas não pode “ser enterrada em silêncio, a não ser que queiramos que o seu destino se repita, como já está a acontecer em muitas partes do mundo”.

Uma comemoração mais adequada
Pelo mundo inteiro, há esforços que vão para além do clichê do uso de “vassouras voadoras” para reconhecer de forma realista esta história sombria. Em Salem, no Massachusetts, a “Proctor’s Ledge” é uma área paisagística discreta, onde os acusados foram enforcados em 1692. Em Essex, Inglaterra, uma pequena placa comemorativa lista os nomes das 33 vítimas detidas em Castle Park.

Nas Ilhas Orkney da Escócia, uma placa de pedra recorda as 80 pessoas mortas em Gallow Ha’. Ao longo do Trilho Costeiro de Fife, três placas lembram as 380 pessoas acusadas de bruxaria. Em 2019, também em Fife, funcionários do governo propuseram que um farol com 200 anos fosse dedicado à vítima mais famosa deste condado, Lilias Adie (que morreu na prisão em 1704 enquanto aguardava julgamento) e a todas as vítimas de caça às bruxas no país. Contudo, esta campanha não reuniu consenso para avançar.

Mas nenhum destes memoriais se compara com a escala e o impacto do Memorial Steilneset da Noruega. Esta estrutura, erguida em 2011, descreve a vida de 77 mulheres e 14 homens executados nos julgamentos de bruxaria de Finnmark no século XVII. Os turistas encontram este memorial no fim do Roteiro Cénico Norueguês de Varanger, na orla do Mar de Barents, onde os acusados de bruxaria foram atirados ao mar. Caso flutuassem, eram culpados.

O arquiteto Peter Zumthor projetou um longo pavilhão que termina numa caixa de aço e vidros fumados. Dentro da caixa, uma escultura da artista Louise Bourgeois, “The Damned, The Possessed and The Beloved” (2007-2010), destaca uma cadeira de aço em chamas rodeada por espelhos.

O Memorial Steilneset na Noruega foi projetado pela artista Louise Bourgeois e pelo arquiteto Peter Zumthor para recordar as vítimas dos julgamentos de bruxaria de Finnmark.

Fotografia de Max Galli, Laif/Redux

Ao lado de cada uma das 91 janelas com estruturas de aço do pavilhão (uma para cada vítima), um texto impresso em seda – escrito pela historiadora Liv Helene Willumsen com base nos registos do tribunal – nomeia as vítimas, as acusações e respetivas sentenças. Entre as vítimas: Sámi Karen Edisdatter, que foi a primeira das 13 mulheres culpadas por um naufrágio em 1617; e Marette, conhecida apenas por “esposa de Torsten”, que foi queimada viva em 1645 e “deixou apenas um par de calças azuis e uma camisola velha”.

“Eu estava bastante ciente do perigo de dramatizar os julgamentos de bruxaria”, diz Liv Helene. “Tentei tratar este material histórico de forma respeitosa para que isso não acontecesse. Quero devolver alguma dignidade às vítimas, uma dignidade que nunca tiveram em vida. Quero mostrar que eram seres humanos, [cada um com] um nome e uma voz. [Queria] demonstrar que eram aldeões de Finnmark.”

‘Equilíbrio inquietante’
O Memorial de Steilneset tornou-se num modelo para ativistas na Escócia, onde a história de perseguição às bruxas é particularmente sombria. Os habitantes locais querem um reconhecimento mais amplo das atrocidades cometidas no país, num momento em que protestos contra monumentos que refletem incorretamente a história estão a agitar a América e a Europa.

As pessoas querem “registar a história corretamente”, sobretudo as “mulheres [que] ainda não têm igualdade na sociedade”, diz Claire Mitchell, advogada de defesa criminal sediada em Edimburgo que iniciou uma campanha para obter um perdão legal suportado pelo Parlamento, um pedido de desculpas e um monumento.

Mas Claire reconhece que um memorial tem potencial para criar um equilíbrio inquietante entre a homenagem das vítimas e a monetização das suas histórias. “O que eu quero para a Escócia não é apenas uma [atração] turística, quero que os visitantes compreendam o património e o que aconteceu”, diz Claire, acrescentando que o memorial deve ser “feito de forma adequada”.

“Não é fácil comemorar uma atrocidade”, escreve a autora Stacy Schiff, vencedora do Prémio Pulitzer pelo seu ensaio First, Kill the Witches. Then, Celebrate Them, que se baseia na indústria de turismo inspirada nas bruxas de Salem. Em relação ao facto de Salem ter amealhado milhões dólares de um turismo baseado no seu passado sombrio, Stacy escreve que “a cidade transformou a sua vergonha secreta em graça salvadora”.

Apesar de todo o seu historial de bruxaria, Salem é um dos poucos lugares que reconheceu adequadamente a história destas mulheres. Nas décadas que se seguiram aos julgamentos de bruxaria, os acusadores pediram oficialmente desculpa pelos eventos de 1692. Trezentos anos mais tarde, Salem ergueu um memorial para as vítimas e, em 2002, Massachusetts exonerou todos os acusados. O turismo também foi afetado; as “bruxas” da atualidade organizam agora passeios que explicam a verdadeira história e dissipam os estereótipos.

Esta contradição é demasiado familiar para Kristen J. Sollee. No seu novo livro Witch Hunt, Kristen narra a experiência de visitar lugares associados aos julgamentos de bruxaria e os locais de interesse para pessoas que, como ela, se identificam como bruxas. “Depois de anos de pesquisa”, Kristen escreve que está “bem versada no conflito eterno... que o turismo de bruxas inspira”.

Um dos capítulos do livro descreve uma visita a Triora, em Itália, “onde à semelhança do que acontece em Salem, a vertente comercial… é desanimadora”. Embora Kristen acredite que este local é “atormentado pelo comercialismo, ao mesmo tempo também há belos rituais e esforços genuínos da comunidade para lembrar a caça às bruxas. Portanto, é como Salem... oscilando entre a sobriedade e a indecência”.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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