Redescobrir Portugal Natural

Conheça alguns dos mais importantes espaços naturais portugueses num país marcado por uma enorme biodiversidade.

Publicado 25/11/2020, 18:25 WET
Vista aérea sobre o percurso ondulante do magnífico rio Paiva na zona de Cinfães.

Vista aérea sobre o percurso ondulante do magnífico rio Paiva na zona de Cinfães.

Fotografia de João Nunes da Silva

Atualmente em Portugal, estamos mais conscientes e sensibilizados para a importância do nosso património natural, tendo-se assistido nos últimos anos, a uma espécie de redescoberta do país pelos portugueses. No que se refere aos nossos principais habitats, podemos também conhecer melhor algumas das espécies animais e vegetais que nos rodeiam, em únicas e diversificadas paisagens. As características territoriais de Portugal, associadas à sua média dimensão, permitem-nos, num curto espaço de tempo, deslocar de uma zona litoral para uma zona montanhosa.

Apesar da paisagem em Portugal ser bastante humanizada, têm sido fomentados nos últimos anos estudos e projectos de conservação, tal como noutros locais da Europa, o que permite a proteção e a recuperação da população de muitas das nossas espécies selvagens. É disso exemplo o lince-ibérico, entre outros.

Serras

Diversas serras encontram-se distribuídas em Portugal, merecendo destaque as localizadas a norte e centro do território. Montesinho, Peneda e Gerês, Alvão, Marão, Serra da Estrela, Caramulo e Lousã são apenas algumas das nossas serras que nos proporcionam magníficas paisagens e nalguns casos, estão associadas a uma rica biodiversidade. No Inverno, nalgumas serras portuguesas sobretudo a norte, as temperaturas podem chegar a ser negativas e por vezes, por mais que uma vez, cobrem-se de branco. O Outono torna as serras deslumbrantes, com as suas florestas de diversas espécies de folha caduca a pintalgarem de tons quentes a paisagem e regatos de água cristalina a rolarem serras abaixo, merecendo destaque o emblemático Parque Nacional da Peneda-Gerês. Aqui, encontram-se cenários do melhor que temos em Portugal. Um privilégio que vale a pena conhecer. Na Primavera explodem de cor, quando se cobrem de cores rosa e amarela, da urze e do tojo e se enchem de borboletas, algumas delas raras e ameaçadas como a borboleta-azul-das-turfeiras que encontramos no Parque Natural do Alvão.

Borboleta-azul-das-turfeiras, uma espécie rara e ameaçada num prado da serra do Alvão.

Fotografia de João Nunes da Silva

Florestas

Portugal tem áreas florestais magníficas, algumas com diversos núcleos de floresta autóctone que vale a pena conhecer. Em Portugal, a floresta representa uma enorme fonte de rendimento e assegura um modo de vida a inúmeras pessoas que retiram dela diversos bens e serviços. Algumas das nossas florestas albergam igualmente uma enorme biodiversidade, razão pela qual muitas se encontram protegidas. A norte e centro de Portugal, podemos encontrar com mais abundância os carvalhos, os castanheiros, os vidoeiros e as faias, entre outras espécies de folha caduca. Durante o Outono, muitas destas áreas florestais tornam-se quase obrigatórias serem visitadas, devido à enorme beleza em que se transformam com as suas cores. Peneda-Gerês, Serra da Estrela, Serra do Alvão ou Montesinho entre outras, são áreas com emblemáticas áreas florestais. Uma diversidade enorme de cogumelos, arbustos, aves, mamíferos, invertebrados e muitos outros seres podem ser encontrados com frequência nas nossas florestas. As áreas florestais ocupam em Portugal quase um terço do seu território. Nalgumas regiões no centro e sul de Portugal, destacam-se os sobreiros e azinheiras, que em parte são uma das imagens de marca da Península Ibérica. No montado de sobro, onde Portugal é o líder mundial na produção do nobre produto que é a cortiça, a biodiversidade é enorme. Espécies protegidas e ameaçadas como a águia-imperial e o lince-ibérico, fazem do valioso habitat que é o montado, sua residência. Outras espécies, como os grous, todos os anos viajam desde o Norte da Europa até aos montados do sul de Portugal, para aí passarem os meses mais frios. Na Primavera, vale a pena percorrer alguns montados do sul do país, com os seus extensos tapetes de cores vivas formados por uma explosão de flores espontâneas.

Zonas Húmidas

As zonas húmidas portuguesas constituem um importante ecossistema para inúmeras espécies, com destaque para as aves, que as utilizam ao longo do ano, sobretudo nos meses mais frios. Provenientes em grande parte do Norte da Europa, largos milhares de aves migram até nós e utilizam estas importantes zonas húmidas, na maioria dos casos, em simultâneo com o Homem. Várias espécies de peixes, mamíferos, répteis e anfíbios, invertebrados, entre outros, utilizam igualmente estas áreas ao longo de todo o ano. Quer no litoral quer no interior, estuários, rias, lagoas, pauis, ou albufeiras constituem uma enorme importância para a biodiversidade. Estuários do Tejo e Sado, Ria Formosa, Ria de Aveiro, Estuário do Rio Douro, Paul de Arzila ou Albufeira do Caia são apenas alguns exemplos, entre muitos outros, onde podemos observar, sobretudo durante o Outono e Inverno, inúmeras aves aquáticas. À medida que a Primavera se aproxima, é altura de muitas das aves invernantes deixarem o nosso país e voltarem aos seus pontos de origem, para iniciarem a sua época de reprodução.

O Estuário do Tejo é a mais importante zona húmida portuguesa e um dos maiores da Europa, com uma área de 14.192 hectares localizada às portas da cidade de Lisboa. Todos os anos recebe uma população de milhares de aves que incluem flamingos, garças, alfaiates, tarambolas, borrelhos, pilritos, patos, entre muitas outras espécies. Entrar no interior deste estuário é uma experiência difícil de esquecer, com nuvens vivas de aves em constante voo e múltiplos assobios e piares que ecoam pelo estuário dentro. Temos ainda o Estuário do Sado, com uma área de 23.160 hectares que banha a cidade de Setúbal. Para além de uma diversificada avifauna, este estuário possui uma importante colónia de cerca de 25 golfinhos roaz-corvineiro, única em Portugal e uma das poucas de Europa. A sul de Portugal, na região do Algarve temos a magnífica Ria Formosa. Com uma grande dimensão, este sistema lagunar estende-se desde o Ancão até à Manta Rota. A Ria Formosa tem uma forte ligação com as comunidades piscatórias locais, pois imensos mariscadores e pescadores tiram de lá a sua principal fonte de rendimento. Ainda no Algarve encontramos a Lagoa dos Salgados ou o Sapal de Castro Marim, esta última conhecida também pelas suas salinas. Algumas das nossas zonas húmidas para além de estarem classificadas como Áreas Protegidas, estão referenciadas como Sítio Ramsar ou na Lista de Zonas Húmidas de Importância Internacional. É o caso da Ria de Alvor, localizada na costa SO do Algarve que, apesar da sua pequena dimensão, é um importante local para migração outonal de passeriformes e local de nidificação da ameaçada chilreta. Muitas outras zonas húmidas de média e pequena dimensão merecem destaque, como as Lagoas de Bertiandos e S. Pedro d'Arcos no norte de Portugal, a Lagoa de Óbidos, na região centro, ou a Lagoa de Santo André mais a sul, local importantíssimo para a passagem de aves em migração outonal e invernada de aves aquáticas. As zonas húmidas existentes no nosso país, para além da sua importância para a conservação da natureza, são igualmente relevantes para a manutenção de algumas tradições e modos de vida de algumas populações, por isso é fundamental todo o nosso esforço e dedicação para as conservar.

Rios

Quando falamos de rios portugueses temos que obrigatoriamente referir os nossos três maiores rios que, são transfronteiriços e que nascem no país vizinho. O Douro, o Tejo e o Guadiana. O rio Douro nasce na província de Sória, a mais de 2000 metros de altitude. Atravessa o norte de Portugal moldando uma paisagem absolutamente fantástica como são as regiões do Douro Internacional, com arribas imponentes e uma das mais selvagens do país, e a do Douro Vinhateiro, classificado como património da humanidade. Na região do Douro Vinhateiro encontram-se algumas das melhores paisagens do mundo rural português. O rio Tejo, que nasce na Serra de Albarracín (Espanha) e entra pela região da Beira Baixa, é responsável pela criação da nossa mais importante zona húmida, o estuário do Tejo às portas da cidade de Lisboa. O Tejo é o rio mais extenso da Península Ibérica, com 1007 quilómetros de extensão. Um rio cheio de história que, ao longo do seu percurso, vai banhando diversas povoações ribeirinhas, que desde os primórdios viveram encostadas ao grande Tejo. O rio Guadiana, localizado a sul de Portugal, é igualmente um rio internacional, que nasce na província espanhola de Ciudad Real e numa parte do seu troço faz fronteira entre Portugal e Espanha. Na zona internacional dos nossos rios Douro e Tejo existem verdadeiros santuários para a vida selvagem. Zonas pouco humanizadas, que proporcionam abrigo e local de nidificação para várias espécies de aves, algumas delas ameaçadas. Destacam-se as grandes rapinas, como o grifo, o britango, a águia-real e águia-imperial. Outras aves como a emblemática cegonha-preta também por aqui pode ser encontrada sobretudo na altura da sua nidificação. Tendo em conta a salvaguarda da vida selvagem, assim como a manutenção da paisagem e dos diversos valores ancestrais que o Homem aqui desenvolveu, foram criados os parques naturais do Douro e Tejo internacional, que vale a pena conhecer.

Mas em Portugal existem também diversos rios mais pequenos, alguns de montanha, como o Zêzere que nasce a 1900 metros de altitude na Serra da Estrela, junto ao Cântaro Magro. Após entrar pelo vale glaciar com o mesmo nome e um percurso de mais de 200 quilómetros vai confluir com o rio Tejo. Rios esses que, em alguns dos seus troços de água cristalina, servem de abrigo ao guarda-rios ao melro-de-água ou à esquiva toupeira-de-água. Outros exemplos são o rio Homem que atravessa o Parque Nacional da Peneda-Gerês, ou o rio Olo que corre pela Serra do Alvão e é responsável por uma das quedas de água mais espectaculares de Portugal, que são as Fisgas do Ermelo. É difícil especificar um a um os nossos rios, mas sobretudo temos que ter em conta a história de cada um deles, e a sua importância vital para as diversas populações e para a conservação da nossa biodiversidade. Face à melhoria que tem acontecido nos últimos anos na qualidade das águas de alguns rios portugueses, a lontra, expoente máximo de vida selvagem voltou a repovoar alguns deles.

Costa

Sendo um país de mar e com uma extensa costa, que se estendem pela zona oeste e sul, Portugal Continental possui 943 quilómetros de locais paradisíacos com praias, enseadas, areais, escarpas e falésias que são uma das imagens de marca da costa portuguesa. No entanto, a costa portuguesa não é só formada por praias nos meses de Verão. Encontramos locais de nidificação e/ou passagem de diversas espécies de aves, peixes e mamíferos marinhos e da existência de uma diversificada flora, alguma dela endémica. Existem também importantes e extensos sistemas dunares. Alguns locais integrados nessa costa merecem destaque, como o Parque Natural do Litoral Norte, na zona de Esposende, que se estende ao longo de 16 quilómetros, entre a foz do rio Neiva e a zona sul da Apúlia. Perto da região de Lisboa, merece destaque a Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, com uma vegetação onde se incluem alguns endemismos botânicos lusitanos e ibéricos. Nesta área protegida vale a pena observar a própria arriba fóssil, testemunho vivo, onde outrora o mar marcava presença. Ainda hoje, é possível aqui encontrar diversos exemplares de fósseis de organismos invertebrados marinhos. O nosso único parque marinho, criado em 1998 denominado Parque Marinho Luiz Saldanha e localizado entre a Serra da Arrábida e o Cabo Espichel, foi um passo importante na conservação de diversos recursos marinhos numa área de 57 quilómetros quadrados. No entanto, uma das mais espectaculares áreas da costa portuguesa levou à criação do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina localizado no litoral sudoeste de Portugal, entre a ribeira da Junqueira em São Torpes e a praia do Burgau, com uma extensão de aproximadamente 110 quilómetros. Nesta área protegida, na zona do Cabo Sardão, nidificam diversas cegonhas-brancas em arribas junto ao mar, único local no mundo onde tal acontece. Ao nível da flora, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina estão identificadas cerca de 750 espécies, sendo mais de 100 endémicas, raras ou localizadas. Outros locais junto à nossa costa merecem destaque, como o Lido de Faro, localizado no Sotavento Algarvio. Este acidente, resultou da acumulação de sedimentos que foram arrastados por uma corrente de sentido W-E originando um conjunto de restingas e ilhotas separadas por braços de mar e que levou também à criação do Parque Natural da Ria Formosa. Na região algarvia, magníficas praias e enseadas tornam obrigatória uma visita a esta costa, que vai do Cabo de São Vicente (com uma vista deslumbrante) até Vila Real de Santo António. Ao longo de toda a costa portuguesa encontram-se espécies de peixes e outros animais habituais no nordeste do Atlântico.
 

João Nunes da Silva é jornalista e fotógrafo de natureza, contribuidor frequente de várias revistas nacionais e internacionais, e autor de quatro livros sobre natureza portuguesa.

 

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