Jessica Nabongo Fala Sobre as Lições que Aprendeu a Visitar 195 Países

Em outubro de 2019, a empresária e fotógrafa de viagens Jessica Nabongo tornou-se na primeira mulher negra de que há conhecimento a visitar todos os 195 estados membro da ONU, viajando sozinha para 89 países. Jessica falou connosco sobre as aventuras.

Por Nora Wallaya
Publicado 29/12/2020, 15:56 WET
Jessica Nabongo fala connosco sobre as suas novas aventuras e sobre o que significa ser destemida.

Jessica Nabongo fala connosco sobre as suas novas aventuras e sobre o que significa ser destemida.

Fotografia de ELTON ANDERSON

O que inspira as suas aventuras?

Curiosidade – é o que sempre me inspirou. Tenho um forte desejo de ver as diferenças e semelhanças na forma como as pessoas vivem pelo mundo inteiro, incluindo em casa, nos Estados Unidos. Eu deposito muita confiança em estranhos e acredito que podemos viajar sozinhos para qualquer lugar.

Qual foi a pessoa mais interessante que conheceu?

Foi o meu guia Zaki, na Argélia. Foi no final das minhas viagens e, naquela altura, havia muitos protestos contra o governo a acontecer por lá. Era suposto estarmos numa excursão, mas acabámos sentados num café a conversar. Nunca esquecerei o que ele me disse: “Estou apenas a viver por viver. Aqui não podemos ter grandes ambições, sobretudo se formos o filho mais velho.” Estas palavras tocaram-me profundamente. Pelo simples facto de ter nascido ali, as suas oportunidades eram limitadas até um ponto em que ele nem sequer queria pensar em sucesso.

Tem alguns heróis de viagens?

Barbara Hillary. Ela foi a primeira mulher negra a visitar o Polo Norte e o Polo Sul, e  fê-lo quando tinha 75 e 79 anos – não é espetacular? O outro é Cory Lee. Ele está numa cadeira de rodas e já visitou 37 países. Não consigo ter noção de como será isso, porque nunca enfrentei esses desafios, mas adoro que o facto de ele estar numa cadeira de rodas não o tenha impedido de explorar o mundo. Também sigo a Traveling Black Widow no Instagram. Ela foi casada durante 31 anos, e depois de o seu companheiro ter falecido, começou a explorar o mundo. Eu adoro-a.

Quando falamos sobre diversidade, as pessoas pensam sobretudo em diversidade racial, mas também se trata de capacidade, da idade e do tipo de corpo. Existem muitos tipos diferentes de diversidade e todos deviam ser reconhecidos. Gosto de ver como as pessoas vivem as suas vidas sem limites.

Jessica na Grande Mesquita Sheikh Zayed de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Fotografia de JESSICA NABONGO

Antes da sua carreira no mundo das viagens, você estudou desenvolvimento internacional e trabalhou para as Nações Unidas. Isso ajudou-a a preparar-se?

Aprender sobre a história política e económica na Escola de Economia e Ciência Política de Londres abriu a minha mente e ensinou-me sobre o mundo, e a ONU foi certamente uma experiência interessante. Os meus estudos deram-me uma compreensão da dinâmica pós-colonial e sobre a forma como os diferentes países exercem o seu poder. Um exemplo simples de como isto se pode aplicar às viagens é a relação entre as antigas colónias e as rotas aéreas. A maneira mais fácil de chegar às antigas colónias francesas, sobretudo em África, é voar através de Paris – as companhias aéreas francesas têm o monopólio nestas regiões devido à diáspora.

Qual foi o lugar mais extremo que visitou?

Podemos tomar como exemplo o Sudão do Sul. A embaixada dos Estados Unidos desencoraja veementemente os cidadãos norte-americanos a viajarem para lá, e fui informada por um diplomata de que era um país muito perigoso. O Sudão do Sul tem muita insegurança em termos governamentais e, claro, pelas coisas terríveis que aconteceram lá. Mas eu digo sempre que nenhum país do mundo é completamente seguro e que nenhum país é completamente inseguro. Nós encontramos o que procuramos. O que eu procuro é humanidade. Estou à procura de amor. Por isso, fui na mesma.

Passei o meu tempo lá com Nyankuir, uma mulher sul-sudanesa. Eu não queria ir para um complexo de apartamentos de onde não podia sair. Em vez disso, visitei um acampamento de gado – o gado é um aspeto extremamente importante da cultura Dinka. Passei tempo a falar com os mais velhos e com as crianças, e descobri o meu preço de noiva – 30 cabeças de gado, no máximo, porque com um metro e setenta de altura sou considerada baixa.

Também penso na visita que fiz a um mercado. Havia um idoso sentado no meio deste mercado. O seu rosto era extremamente enrugado e dei por mim a olhar simplesmente para ele. Pensei que ele estava a mendigar, mas descobri que os seus filhos, que já eram adultos, tinham saído de casa, e ele não gostava de estar sozinho em casa. Por isso, ele sentava-se no mercado todos os dias para interagir com pessoas. Pedi para lhe tirar uma fotografia e ele disse-me para esperar, porque primeiro queria colocar os seus óculos. Portanto, agora tenho dois retratos: Um de como ele queria ser visto e outro de como eu o queria ver.

Ambas as experiências foram bonitas e simples. Nunca senti medo. Foi um lembrete de que não devemos aceitar tudo o que ouvimos dizer.

Jessica visita um acampamento de gado no Sudão do Sul. Jessica descobriu que o gado é um aspeto extremamente importante da cultura Dinka local.

Fotografia de Jessica Nabongo

Tem algum kit de viagem indispensável?

Gosto de levar câmaras sem espelho porque são mais leves – quer sejam Sony ou Canon. Acho que a 24-70mm é a objetiva perfeita para se conseguir uma vasta gama de fotografias, desde imagens de paisagens a lindos retratos, e para me conseguir mover com uma objetiva. É óbvio que podemos levar mais do que uma objetiva, mas para viajar durante longos períodos de tempo, devemos levar uma 24-70mm. Também viajo com o meu drone. Tenho um DJI Mavic Air que considero leve – e é discreto quando preciso que o seja.

Passou por alguns contratempos?

Eu não acredito em fracasso. E não tenho a capacidade de ficar envergonhada. A meu ver, o constrangimento não é uma característica humana natural – é algo que vem da socialização. Se eu caísse no meio da Estação de Grand Central, iria rir de mim própria. Eu acredito realmente que todos os fracassos nas nossas vidas são apenas oportunidades para aprendermos.

O que coleciona enquanto viaja?

Álcool. No Peru, comprei pisco; na Geórgia e na Nova Zelândia, comprei vinho. No Uganda, comprei Waragi – uma espécie de gin – e mais gin na Eritreia. Depois, comprei rum em Barbados e, claro, comprei rakia na Sérvia.

Se pudesse mudar uma coisa no mundo das viagens, o que seria?

Plástico descartável. Eu gostava que isso não existisse. Nas minhas viagens, eu vi realmente os efeitos do plástico descartável. Uma vez, fiz mergulho com snorkel em Nauru, um dos países menos visitados do mundo, e havia tanto lixo na água – partiu-me o coração. Vejo isto a toda a hora, em todos os lugares, mas infelizmente acontece mais nos países em desenvolvimento. As corporações levaram todo esse plástico para lá e não disseram a ninguém como o descartar. Estas comunidades estão habituadas ao lixo orgânico, como cascas de banana – que deitamos fora. Estas pessoas não têm sistemas de gestão de resíduos para lidar com o plástico.

Qual foi o melhor conselho que lhe deram?

A minha mãe disse sempre para eu ser “humilde”. Aprecio isso porque, quando viajamos, dependendo do nosso passaporte, dependendo da nossa classe social, dependendo de tantas coisas diferentes, podemos ir a lugares cheios de ego, ou podemos ser humildes e perceber que somos todos iguais. A humildade permite que estabeleçamos ligações com todos os tipos de pessoas, não importa se é um homem sentado no chão de um mercado ou se é o diretor-geral de um hotel Four Seasons. Na verdade, trata-se apenas de ver as pessoas exatamente como elas são – seres humanos. Ter humildade é muito importante.

Para onde vai a seguir?

Vou fazer uma viagem de carro por Nova Inglaterra, nos EUA. Vou começar em Nova Iorque, sigo para o Connecticut, depois Rhode Island, Massachusetts, New Hampshire, Maine, Vermont, Estado de Nova Iorque e Nova Jersey. Estou muito entusiasmada com a comida. Por ser a costa leste dos EUA, há muitas lagostas incríveis no Maine e em Rhode Island. Mal posso esperar para explorar ao ar livre – temos o Parque Nacional Acadia no Maine, e a maioria destes estados tem uma enorme costa atlântica. Vou aproveitar para desfrutar de algo novo, mas levando sempre em consideração os tempos em que vivemos.

Tem algum conselho para dar a alguém que queira embarcar numa aventura semelhante?

Viaje com generosidade, viaje com energia positiva e sem medo. Acho que, na maior parte do tempo, o que impede as pessoas é o receio do desconhecido. O que aprendi nas minhas viagens é que a maioria das pessoas é boa e, por isso, não há razão para termos um medo inato de estranhos. A maioria das pessoas quer realmente ajudar-nos. Muitas vezes as pessoas ficam realmente felizes por estarmos nos países delas.


Para descobrir mais sobre as aventuras de Jessica Nabongo, visite o seu blog The Catch Me If You Can, ou siga-a no Instagram. Jessica lançou recentemente uma loja online onde vende artigos que adquiriu durante as suas viagens.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

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