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Mergulhar no Primeiro Museu Subaquático da Grécia

Um parque nacional marinho que protege vida selvagem oferece agora passeios pelo “Panteão dos Naufrágios”, ao largo da ilha de Alonissos.

Por Maria Atmatzidou
Publicado 4/12/2020, 13:11
No novo museu subaquático da Grécia, que tem a sua inauguração oficial agendada para junho de ...

No novo museu subaquático da Grécia, que tem a sua inauguração oficial agendada para junho de 2021, os mergulhadores podem explorar um antigo naufrágio e a sua abundância de ânforas de vinho no Mar Egeu.

Fotografia de Timo Dersch

“Grécia, agradável o ano inteiro” era a frase utilizada pela campanha turística deste país ensolarado em janeiro passado. Esta sonante frase de marketing era suportada pela realidade; em 2019, cerca de 34 milhões de visitantes cederam aos encantos gregos. Mas depois surgiu a pandemia de COVID-19, que dizimou a indústria de turismo.

Contudo, há um vislumbre de esperança no meio da escuridão: a designação do primeiro museu subaquático da Grécia. Este local inusitado, que preserva um antigo naufrágio e visa atrair futuros visitantes; pode tornar-se um modelo sobre como se pode tornar o turismo mais sustentável numa era pós-pandemia.

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​​Localizado no Parque Nacional Marinho de Alonissos e Espórades do Norte, no Mar Egeu, o museu faz parte da maior área marinha protegida da Europa. Devido aos problemas relacionados com a pilhagem de artefactos arqueológicos, estas antiguidades submarinas só estavam acessíveis a arqueólogos e a visitantes com uma permissão especial. Agora, os mergulhadores recreativos podem mergulhar nestas águas e, a uma profundidade de cerca de 25 metros, encontrar a chamada Peristera, designação que homenageia a pequena ilha desabitada que fica nas proximidades. Como este naufrágio data de cerca de 425 a.C., mergulhar aqui é como viajar numa máquina do tempo.

Um mergulhador passa por uma parede subaquática de corais coloridos ao largo da costa de Alonissos, a ilha que fica perto do naufrágio.

Fotografia de Timo Dersch

Camadas de descoberta

Em 1985, Dimitris Mavrikis, um pescador local, encontrou o naufrágio na costa oeste de Peristera. Sete anos depois, as escavações subaquáticas lideradas pela arqueóloga Elpida Hatzidaki descobriram mais detalhes. O navio foi um dos maiores navios mercantes do período clássico (do quinto ao quarto século a.C.) e transportava uma carga impressionante: 4000 ânforas de vinho originárias das antigas cidades gregas de Mende e Peparethus, para além de tigelas de vidro negro, chávenas, pratos e talheres – itens essenciais para os banquetes sumptuosos, ou simpósios, da época.

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O naufrágio desta embarcação, que provavelmente era ateniense, aconteceu no final da Guerra do Peloponeso – décadas turbulentas em que duas superpotências, Atenas e Esparta, lutaram entre si. Os arqueólogos recuperaram poucas partes de madeira queimada do casco do navio, mas as ânforas empilhadas deram origem a uma grande descoberta.

“Considera-se que estas grandes embarcações [19 por 25 metros] foram construídas pela primeira vez na época romana. Mas o naufrágio de Peristera documenta a sua presença já no último quarto do século V a.C.”, diz Pari Kalamara, diretora do Eforato de Antiguidades Subaquáticas da Grécia.

Este naufrágio também é um dos mais bem preservados. “As ânforas mantiveram a sua consistência e permanecem no mesmo sítio, dispostas em camadas, tal como foram colocadas no porão, indicando o formato da embarcação”, diz Pari Kalamara. “Esta é uma experiência verdadeiramente única para os mergulhadores, que podem assim observar uma embarcação da era clássica.”

Vinte anos depois da última escavação, este sítio arqueológico, apelidado de “Panteão dos Naufrágios”, ainda guarda alguns segredos: como é que o comércio da antiguidade se desenvolveu, como foi construído o navio e por que razão se afundou. E talvez a pergunta mais evocativa de todas: o que está por baixo das ânforas?

Abertura ao público

Com a recente designação de museu subaquático, mergulhadores recreativos, acompanhados por instrutores certificados, começaram a visitar o naufrágio durante uma fase piloto que decorreu entre agosto e outubro de 2020.

Alonissos, conhecida pelas suas paisagens exuberantes e ambiente descontraído, é o ponto de partida para visitar o museu subaquático.

Fotografia de Georgios Tsichlis, Alamy Stock Photo

“Temos assistido a um interesse enorme por parte de pessoas do mundo inteiro. Esta foi a primeira vez que vimos tantos mergulhadores experientes a chegar”, diz Kostas Efstathiou, do Alonissos Triton Dive Center, um dos operadores turísticos locais credenciados. Na fase piloto, havia quatro visitas por dia para os mergulhadores experientes, e os que não tinham experiência de mergulho podiam ter formação para fazer a visita. “Acredito que nos próximos anos Alonissos irá ocupar o seu lugar no mapa de mergulho global”, diz Kostas Efstathiou.

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Conforme os mergulhadores descem, a luz do sol diminui e as cores desbotam. Mas as luzes das lanternas fazem regressar os matizes e os visitantes vislumbram os tons alaranjados, esverdeados e avermelhados dos corais, cardumes de peixes e esponjas – e as moreias que espreitam com a cabeça de fora nas ânforas. A uma profundidade de cerca de 15 metros, os mergulhadores têm uma visão panorâmica dos destroços, que se transformaram num ecossistema moderno. “Isto é inspirador”, diz Kostas Efstathiou. “O que vemos... tem 2500 anos, é uma viagem no tempo.”

Os entusiastas de naufrágios não precisam de mergulhar para ter um vislumbre deste reino submarino. Cinco câmaras subaquáticas transmitem vídeo em tempo real do local e uma das câmaras está acessível ao público (as outras estão atualmente reservadas para cientistas). “Esta é uma inovação mundial que usa tecnologia de ponta”, diz George Papalambrou, professor na Escola de Arquitetura Naval e Engenharia Marinha da Universidade Técnica Nacional de Atenas e membro da equipa do projeto. “Enquanto veem a transmissão... pessoas do mundo inteiro, mergulhadores ou não, [podem] partilhar a experiência de mergulho.”

Para além disso, na ilha de Alonissos, no Centro de Informação e Consciencialização na vila de Chora, quem não pratica mergulho pode usar óculos especiais para fazer um visita de realidade virtual em 3D do naufrágio.

Mesmo com as atuais restrições em vigor devido ao coronavírus, a fase piloto do museu atraiu 66 visitas subaquáticas programadas e 246 visitantes-mergulhadores, um arranque otimista para a inauguração oficial que está agendada para junho de 2021.

Proteger a cultura – e a natureza

As antiguidades não são os únicos tesouros preservados nesta região. Os esforços de proteção de espécies terrestres e marinhas, raras ou ameaçadas de extinção, começaram na década de 1970. Em 1992, uma área de quase 2600 quilómetros quadrados – incluindo Alonissos, seis ilhas mais pequenas e 22 ilhéus – foi declarada o primeiro parque nacional marinho da Grécia.

Uma foca-monge do Mediterrâneo descansa numa praia de Alonissos, localizada no parque marinho nacional que protege focas em perigo crítico de extinção e centenas de outras espécies.

Fotografia de Timo Dersch

Hoje, mais de 50 focas-monge do Mediterrâneo, animais em perigo de extinção, encontram refúgio na reserva natural de Gioura e na área protegida de Piperi; os falcões-da-rainha são protegidos nos ilhéus de Skantzoura, Strogilo e Polemica; e plantas raras como o narciso marinho em Psathoura. O parque também abriga uma raça rara de cabras selvagens, 300 espécies de peixes e mais de 80 espécies de aves, para além de répteis, golfinhos, baleias, flora terrestre e a erva marinha Posidonia oceanica, conhecida por erva de Neptuno.

“Os nossos visitantes são amantes do mar, da natureza, e gostam de velejar. Aqui, tornamo-nos unos com a natureza, dado que fazemos parte de um ambiente intocado”, diz Yiannis Nikolopoulos, colaborador do presidente da câmara de Alonissos. “Esta é uma ilha verdadeiramente ecológica, coberta por uma vegetação exuberante, e foi a primeira ilha grega a proibir os sacos de plástico em 2015. Felizmente, esta paisagem não foi alterada pelo turismo.”

No verão passado, a pandemia fez com que o turismo tivesse um decréscimo de 85% em relação ao ano anterior, diz Aggeliki Malamateniou, presidente da Associação de Proprietários de Hotéis de Alonissos. “Contudo, os nossos visitantes são leais”, diz Aggeliki. “Eles apreciam o que Alonissos tem para oferecer.”

O que tem para oferecer – com o parque marinho e o museu – é distinto. Porém, para ser sustentável, os tesouros da ilha precisam de ser preservados durante muito tempo. “Todos nós na região e nos centros de mergulho partilhamos uma grande responsabilidade”, diz Kostas Efstathiou. Se o turismo de mergulho puder ser desenvolvido de uma forma que continue a proteger as antiguidades e o ambiente, “pode oferecer experiências únicas aos visitantes, cultivar ainda mais o seu interesse pelo património subaquático e fornecer novas receitas para a comunidade local”, diz Pari Kalamara.

Em 2019, mais quatro naufrágios na região foram designados sítios arqueológicos subaquáticos acessíveis, com a intenção de os tornar futuros museus. Isto pode representar uma nova tendência num país com quase 16.000 quilómetros de costa e centenas de naufrágios.

“O maior desafio [para o primeiro museu] foi o design holístico e funcional a longo prazo, para servir de paradigma para iniciativas semelhantes noutros lugares”, diz Pari Kalamara. “Acredito que o conseguimos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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