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O Paraíso Desconhecido – Até Agora – no Brasil

Um parque estadual com muita biodiversidade na maior savana da América do Sul abriga fontes naturais, dunas de areia e quedas de água cintilantes.

Por Jamie Ditaranto
Fotografias Por Jamie Ditaranto
Publicado 15/12/2020, 17:53 WET
No Parque Estadual do Jalapão, os fervedouros são fontes cársicas únicas que fornecem um oásis fresco ...

No Parque Estadual do Jalapão, os fervedouros são fontes cársicas únicas que fornecem um oásis fresco na secura do Cerrado brasileiro, a maior savana da América do Sul. O Fervedouro do Ceiça é a maior nascente deste tipo conhecida do Jalapão.

Fotografia de Jamie Ditaranto

Quando nadamos num fervedouro parece que estamos a flutuar numa piscina de champanhe, enquanto a água de um rio subterrâneo borbulha através de uma fenda na terra e levanta uma fina espuma de areia rosada. Embora fervedouro se possa traduzir para “caldeira”, um fervedouro não é uma fonte termal.

Localizadas no meio da topografia seca do Parque Estadual do Jalapão, na região do Cerrado brasileiro, estas piscinas de água fresca são na verdade fontes cársicas. Mas a aparência única dos fervedouros é diferente de qualquer outra fonte cársica do mundo.

Estabelecido enquanto parque em 2001, o Jalapão era até recentemente pouco conhecido no Brasil. O parque tem uma área de aproximadamente 160.000 hectares, num canto remoto do norte do Cerrado, e é a maior savana da América do Sul, que separa a Amazónia da Costa Atlântica. O parque foi praticamente intocado pela indústria agrícola durante séculos. Para chegar ao Jalapão, os visitantes devem voar até Palmas, capital do estado brasileiro de Tocantins, e depois fazer uma viagem de cinco a seis horas de carro para leste através de estradas não pavimentadas.

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A inacessibilidade do parque manteve o Jalapão longe das atenções – até que a estreia de O Outro Lado do Paraíso, uma telenovela de 2017, colocou no parque os triângulos amorosos e as disputas por terras das suas personagens. Esta telenovela triplicou o turismo na região praticamente da noite para o dia.

O pôr do sol nas dunas do Jalapão oferece uma perspetiva diferente sobre um dos parques mais recentes do Brasil. As dunas foram formadas pela erosão natural de uma montanha nas proximidades.

Fotografia de Jamie Ditaranto

O público brasileiro sentiu-se particularmente atraído pelas imagens dos raros fervedouros. Um fluxo constante de água límpida oferece flutuabilidade aos nadadores e a flora tropical sombreia o perímetro. Muitos viajantes ficam-se por este pedaço de paraíso, mas há muito mais para ver no parque, incluindo quedas de água azul turquesa e dunas de areia.

Proteger uma zona de biodiversidade

O Turismo de Tocantins informou que, entre 2015 e 2019, o número de visitantes nas dunas do parque aumentou em mais de 200%, com 33.616 visitantes registados em 2019, a esmagadora maioria dos quais eram brasileiros. Antes da pandemia de coronavírus ter assolado o mundo, o dinheiro dos turistas fluiu pela primeira vez pelas regiões circundantes do parque e novos negócios, como operadoras de turismo e hotéis, foram lançados nas cidades vizinhas de São Félix e Mateiros.

Depois de o governador de Tocantins ter encerrado todos os parques em março, o Jalapão reabriu em outubro com um anúncio de que os novos investimentos iriam permitir a pavimentação dos 50 quilómetros de estrada que liga as cidades de Ponte Alta e São Félix. Porém, quando esta nova estrada ficar concluída, a maior parte do parque provavelmente irá continuar a ser um destino selvagem, respeitando o seu lema não oficial: O Jalapão é brutal.

Para os turistas, estas condições difíceis são apenas uma inconveniência, mas para as pessoas que vivem no parque – uma comunidade Quilombola descendente de escravos fugitivos que se estabeleceram por todo o interior do Brasil – as estradas acidentadas dificultam muito as viagens para o interior e exterior do parque, até Palmas, onde obtêm os cuidados de saúde. Conforme o turismo foi crescendo, algumas pessoas pediram ao governo para pavimentar os acessos principais, mas há quem esteja preocupado com as implicações que as novas estradas podem ter na ecologia sensível do parque.

Entre 2005 e 2008, Mariana Napolitano, diretora científica da World Wildlife Fund (WWF) Brasil, trabalhou com o governo para ajudar a determinar a capacidade do parque na sustentação de turismo, e Mariana levantou preocupações sobre o que o asfalto poderia significar para a vida selvagem da região, como o lobo-guará ameaçado de extinção; o raro pato-mergulhão, dos quais existem menos de 250 no mundo; e qualquer nova espécie que venha a ser descoberta.

Um limite de oito pessoas ao mesmo tempo evita que o Fervedouro do Rio Sono fique sobrelotado.

Fotografia de Jamie Ditaranto

“A estrada [atual] abranda o movimento dos carros, pelo que há tempo suficiente para os animais evitarem os veículos. Mas se tivermos uma estrada pavimentada, imagine a velocidade que as pessoas podem alcançar”, diz Mariana Napolitano.

Outras pessoas, como Marcello Coelho, guia turístico em Tocantins, estão preocupadas com os fervedouros que, de acordo do Marcello, precisam de mais supervisão do governo. Todos os anos na primavera há um limite de 20 minutos por grupo, e há sinais que proíbem os visitantes de usar protetor solar antes de entrarem nas nascentes. Mas Marcello diz que “o ambiente natural, sobretudo as nascentes, estão a sofrer com as perturbações da presença humana. As nascentes precisam de tempo para recuperar”.

O aumento exponencial do turismo beneficiou a região em termos económicos, levando à criação de empregos e ao aumento das receitas para as empresas que operam no parque, a maioria das quais é gerida por proprietários locais. E embora muitos defendam a delineação de limites neste período sensível de crescimento, outros, como Anna Carolina Lobo, especialista em turismo e gestão ambiental do WWF, acreditam que este momento é uma oportunidade.

Nesta região remota do Brasil, as estradas alcatroadas terminam em Ponte Alta, uma das últimas aldeias que os visitantes veem antes de entrarem no Parque Estadual do Jalapão.

Fotografia de Jamie Ditaranto

O Cerrado cobre quase 25% da superfície terrestre do Brasil e tem uma biodiversidade extraordinária. Mas está cada vez mais vulnerável à desflorestação devido ao cultivo de soja e pecuária vindos da Amazónia. Só na última década, mais de 100.000 quilómetros quadrados foram destruídos.

A proteção legal abrange menos de 3% do Cerrado, mas Anna Lobo espera que o aumento do turismo em parques como o do Jalapão possa ajudar a aumentar a consciencialização sobre o Cerrado entre os viajantes brasileiros, que podem defender mais a preservação dos lugares selvagens do Brasil.

Embora o Brasil tenha cerca de 150 milhões de hectares de terras protegidas, os brasileiros nunca tiveram uma cultura de férias na natureza. Mas quando as pessoas trazem para casa histórias de araras selvagens, quedas de água azuis e planaltos majestosos, a beleza intocada do interior brasileiro torna-se um pouco mais compreendida e muito mais atraente.

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Com a reabertura do parque e o anúncio de novos investimentos em estradas e noutras infraestruturas turísticas, o Jalapão pode tornar-se no destino de eleição de Tocantins e de todo o Cerrado, trazendo uma nova era de sensibilização para uma região que é há muito obscurecida pelo seu ecossistema vizinho que é mais famoso.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 
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