A Escritora Jini Reddy Fala Sobre Escutar a Voz da Natureza nos Pirenéus Franceses

Será que abrandar e ouvir o mundo natural nos permite realmente escutá-lo – com sussurros fantasmagóricos e tudo o resto?

Por Jini Reddy
Publicado 1/01/2021, 08:22 WET
Jini é a autora de Wanderland, publicado pela editora Bloomsbury Books. O livro foi selecionado para ...

Jini é a autora de Wanderland, publicado pela editora Bloomsbury Books. O livro foi selecionado para o Prémio Wainwright 2020 na categoria Natureza e Escrita de Viagens do Reino Unido.

Fotografia de LISA BRETHERICK

Sempre tive uma relação ambígua com as montanhas. Embora eu ache que esse tipo de paisagens sejam agradáveis à vista, particularmente quando a neve brilha à luz do sol, há algo de tão proibitivo na sua natureza implacável e inflexível que, nos últimos anos, ignorei as montanhas por completo. Portanto, em retrospetiva, é curioso que a semente do meu livro Wanderland tenha sido plantada por uma experiência profunda que aconteceu no topo de um cume montanhoso.

Fui impelida para as montanhas dos Pirenéus, a sudoeste de Toulouse, por um desejo de ouvir a “voz da natureza”. O que quero dizer com isto? Bem, influenciada por pessoas de culturas indígenas que tive o privilégio de conhecer nas minhas viagens anteriores, senti um desejo profundo de me ligar com a natureza; para sentir uma ligação mais sagrada com qualquer paisagem por onde eu estivesse a vaguear.

Depois de receber um convite intrigante para fazer campismo selvagem e jejuar sozinha, longe de todas as pessoas durante cinco dias e quatro noites, parti para França. Eu já tinha feito algo semelhante no Deserto do Sinai, cinco anos antes, pelo que a ideia de revisitar este tipo de experiência foi apelativa. Para além disso, já tinha passado por muita coisa e também queria fazer uma jornada interior para exorcizar os meus demónios e sentir a catarse. Há algo acerca de passar tempo sozinha na natureza que pode ser profundamente purificante e regenerador. Mas, apesar da minha predileção por paisagens naturais me ter levado a todos os tipos de tocas de coelhos, esta acabou por ficar muito além da minha zona de conforto.


A maioria das pessoas vem para os Pirenéus para caminhar. Eu também fiz um pouco disso, quando caminhei até ao local designado. Fui conduzida por um guia, um xamã local, o homem que me fez o convite. Lembro-me que inicialmente foi uma caminhada íngreme e desafiadora. Eu estava sobrecarregada com o equipamento e o guia caminhava rapidamente. Ele chama a esta região Montanha Urso, ou ‘Hartza Mendi’ na língua basca. Eventualmente, o caminho aplanou; um caminho que parecia contornar um vale, atravessar riachos e pequenas quedas de água e que nos levava por uma floresta mágica coberta de musgo. O meu guia sabia como dar vida à montanha. Ele disse-me que os espíritos da natureza viviam aqui e eu senti como se tivesse entrado na quinta dimensão.

Uma hora e meia depois de começarmos a caminhar, o guia apontou para o topo plano de uma colina, um cume entre cumes, por assim dizer. Esta seria a minha nova casa. “Vejo-a daqui a cinco dias, quando descer a montanha”, disse ele, levando o meu relógio e o telemóvel. Este seria um exercício de confiança e entrega – confiança em mim própria e entrega à natureza para me manter segura.

Quando o guia se foi embora, montei rapidamente a minha tenda, respirei e apreciei a vista de todos os ângulos. Estava rodeada de arbustos com um metro de altura. Ao meu lado tinha uma floresta densa, à minha frente tinha vista para o vale e atrás tinha mais cumes ondulantes. Por baixo, à distância, conseguia ouvir o leve tilintar dos chocalhos de ovelhas. Fiz um levantamento das minhas rações: tinha nove garrafas de água e, como estava em jejum, duas maçãs e algumas nozes para manter a fome sob controlo. Já tinha jejuado antes e estava familiarizada com a forma como isso provocava uma desaceleração no corpo e na mente, algo que apreciei.

Naquela primeira tarde, estava sozinha e, de repente, já não estava – uma égua selvagem e o seu potro galoparam entre os arbustos e pararam a alguns metros de distância. Os olhos castanhos da mãe perfuraram os meus, sem pestanejar. Eu conseguia sentir a sua preocupação. Quando os animais partiram, preparei-me para o anoitecer. Com medo do escuro, entrei sorrateiramente na minha tenda antes sequer de o sol se pôr. Durante algum tempo ouvi os sons noturnos e tentei adormecer. Mas depois, de repente, um estranho silêncio abateu-se sobre mim. Era tão profundo que o poderia cortar com uma faca, e os cabelos na minha nuca arrepiaram-se de imediato.

Era como se a montanha, a floresta e todas as suas criaturas estivessem a suster a respiração. Depois, do lado de fora da tenda, bem perto do meu ouvido, ouvi um sussurro sobrenatural, misterioso. O que poderia ser? Não havia passos reveladores, estalidos de arbustos ou sons de cascos. Pela primeira vez na minha vida fiquei devidamente apavorada. Peguei num ícone que levo sempre comigo para dar sorte e murmurei baixinho: “Venho em paz”. Um longo minuto depois, a voz, ou o sussurro, ou o que quer que fosse, parou. Depois, a montanha e esta humana respiraram, e os sons noturnos regressaram.

Na manhã seguinte, abri a tenda e pestanejei, o sol estava forte. Não havia vestígios de quaisquer mistério. Mas eu interroguei-me sobre o que tinha ouvido. Seria um espírito da natureza? Seria algo insondável de uma paisagem viva; algo que não pertence ao mundo racional? O resto do meu tempo foi passado sem mais visitas noturnas. Todos os dias, eu ficava sentada em silêncio e observava o arco do sol lentamente no céu. Uma tarde, depois de abrir caminho por entre os arbustos para me sentar na floresta para me refrescar, uma sombra escura emergiu das árvores. O meu coração quase que parou – mas era apenas outro cavalo selvagem.

Com o passar dos dias senti tédio, serenidade e tudo o resto. Principalmente, comecei a sentir-me mais perto do mundo natural do que nunca, a sensação de separação que havia entre nós estava a dissolver-se.

O tempo que passei nesta montanha foi uma dádiva que, mais do que qualquer outra coisa, desencadeou a minha busca por magia na paisagem.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

Continuar a Ler