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A Palavra ‘Alegria’ Significa o Mesmo em Todas as Línguas?

Aprender palavras desconhecidas pode levar-nos em jornadas épicas, mesmo quando não podemos viajar.

Publicado 4/01/2021, 17:17 WET
Uma bailarina dervixe atua na Resort e Spa do Deserto Al Shams no Dubai, nos Emirados ...

Uma bailarina dervixe atua na Resort e Spa do Deserto Al Shams no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Os diferentes idiomas contêm palavras únicas para as emoções humanas, como o termo árabe tarab, que é um estado de êxtase induzido pela música.

Fotografia de Christian Heeb, Redux

“O léxico de uma língua estrangeira é como o mapa de um país onde nunca estivemos”, diz o psicólogo Tim Lomas, professor na Universidade de East London.

Embora os viajantes costumem pensar que é fundamental ver o mundo para o compreender, alguns especialistas em linguística alteram este paradigma: para estes especialistas, as próprias palavras moldam a nossa perspetiva do mundo. Portanto, o estudo das palavras oferece uma janela para a experiência humana.

Para estes investigadores, os dicionários são como mapas que ajudam a definir a topografia e as texturas do nosso mundo e que podem abrir caminho para novas descobertas. Para os viajantes que ficaram em terra devido à pandemia, isto significa que aprender novas palavras – ou um idioma completo – pode ser a viagem mais abrangente de todas.


Enquanto “colecionador de palavras”, Tim Lomas é um excelente guia turístico. Tim estuda as palavras que usamos para expressar as nossas emoções, sonhos e desejos – palavras que variam amplamente nos 7117 idiomas falados no mundo. A sua investigação constitui um glossário global de sentimentos.

Mundo de emoções

Os idiomas, desde o aleúte ao zulu, contêm termos exclusivos para as nossas vidas interiores, e Tim reuniu milhares de idiomas numa lexicografia interativa. O seu índice de palavras está classificado por idioma e tema, e engloba idiomas de todas as partes do globo.

A coleção de Tim, com categorias como “folia” e “saudade”, está repleta de tesouros: há palavras que nos enrolam a língua, como a palavra alemã zielschmerz, que representa a emoção de finalmente perseguirmos um sonho antigo. Ou podemos aumentar o som da música e canalizar o árabe tarab, um estado de encantamento ou êxtase que só a música consegue induzir.

Algumas destas palavras são uma jornada por si só. Teraanga, um termo uolofe, representa o espírito de hospitalidade, generosidade e partilha que permeia a vida no Senegal, onde os viajantes desfrutam de uma receção calorosa.

O próprio vocabulário de Tim Lomas é inspirado, em parte, pelas viagens. Há mais de duas décadas, um Tim adolescente passou seis meses a vaguear pela China. Essa viagem introduziu-o a diversas culturas e sistemas de crenças, incluindo o budismo, que surgiu na Índia antiga antes de se espalhar por grande parte da Ásia. Tim ficou particularmente encantado com os conceitos tao e nirvana.

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“A China tem teorias muito detalhadas sobre a mente, o bem-estar ou os estados de espírito”, diz Tim. “Reconheço que muitas destas coisas estavam fora do meu horizonte conceitual.” Para Tim, encontrar palavras até então desconhecidas – e as ideias por trás das mesmas – deu origem a um interesse vitalício sobre budismo e meditação.

“Existem limitações reais se encararmos as nossas vidas emocionais apenas do prisma da língua inglesa”, diz Tim. Esta crença é subjacente ao léxico que Tim inclui na sua investigação psicológica. “Se quisermos compreender a mente humana, devemos olhar para além da nossa própria cultura.”

Há palavras intraduzíveis?

Podemos reconhecer algumas das palavras que figuram na lista de palavras intraduzíveis de Tim Lomas que tomaram a internet de assalto nos últimos anos. Entre elas estão conceitos como o hygge, o prazer do conforto aconchegante de inspiração escandinava, e sisu, uma espécie de força interior celebrada na Finlândia.

(Friluftsliv – Como um conceito de vida ao ar livre nos pode ajudar neste inverno.)

Muitos especialistas em linguística estão céticos em relação a estas listas. “Muitas vezes, estas listas aproximam-se de forma suspeita dos estereótipos sobre a cultura em questão”, escreve David Shariatmadari no seu livro de linguística que visa destruir mitos – Don’t Believe a Word: The Surprising Truth About Language.

“O próprio conceito de palavras intraduzíveis também não resiste a muito escrutínio”, diz David Shariatmadari. Afinal de contas, estas listas de palavras incluem invariavelmente traduções perfeitamente razoáveis. Em vez de intraduzível, é mais correto dizer que falta um equivalente de uma determinada palavra numa determinada língua.

Mas existem exceções que vão para além de palavras específicas como hygge ou sisu. Quando se trata de sentimentos, as traduções exatas são menos comuns do que imaginamos. Mesmo os termos como felicidade, tristeza e raiva – que parecem básicos – não são universais e não existem em todas as línguas.

Podemos tomar como exemplo a palavra “feliz”. Se folhearmos um dicionário Polaco-Inglês, encontramos o termo szczęśliwy como uma tradução direta. Mas a palavra polaca é realmente diferente, disse o falecido poeta polaco Stanisław Barańczak, que traduziu obras ricas em emoções de autores como William Shakespeare e Emily Dickinson para a sua língua materna.

A felicidade pode ser casual, mas a palavra szczęśliwy está reservada para “estados raros de profunda alegria ou satisfação total com coisas sérias como amor, família ou o sentido da vida”, escreveu Stanisław no livro Emotion and Cause: Linguistic Theory and Computational Implementation. Os contornos emocionais de szczęśliwy são diferentes dos de felicidade. O que aparentemente é uma tradução fácil, não o é de todo.

A importância das palavras

Quando aprendem um novo idioma, os alunos costumam deixar pequenos lembretes com vocabulário por toda a casa, transformando os móveis em “cartões de memória” que os ajudam a lembrar. Mas se as palavras forem apenas rótulos, por que razão é importante a forma como nos referimos às emoções?

Alguns investigadores acreditam que as palavras podem moldar subtilmente a maneira como vemos o mundo. A neurocientista Kristen Lindquist, diretora do Laboratório de Ciências Afetivas da Universidade da Carolina do Norte, descobriu que as palavras que usamos desempenham um papel importante na transformação de experiências em emoções reconhecíveis. Kristen descreveu este processo como uma espécie de categorização – ou colocar uma experiência num arquivo mental.

“O cérebro envolve-se sempre de forma automática e implícita na categorização.” Por exemplo, Kristen descreve o ecrã do seu computador, que tem uma imagem de uma montanha. Os minúsculos píxeis de luz irradiam a partir do ecrã, e o seu cérebro usa categorias adquiridas com a experiência – Kristen já viu muitas montanhas – para interpretar a imagem. Sem estas categorias, que dependem da linguagem, a imagem seria apenas um emaranhado aleatório de cores.

“Este é o processo pelo qual qualquer experiência emocional passa a existir”, diz Kristen. “Os conceitos que conhecemos, sobretudo para categorias como emoção, que são categorias realmente abstratas, são sustentados em grande parte pelo idioma que falamos.”

Usando uma teoria chamada “construcionismo psicológico”, Kristen explica como pode surgir uma emoção, como por exemplo alegria. Primeiro, surge uma constelação de pensamentos, visões, cheiros e outras experiências. Depois, o nosso cérebro usa categorias já existentes para classificar estas sensações em algo que consigamos compreender.

“Se examinarmos cada uma destas categorias, encontramos uma variedade impressionante”, diz Kristen. Os sentimentos podem ser confusos, flutuantes e difíceis de definir, mas as palavras ajudam a agrupá-los em algo mais coerente. “A linguagem serve de cola.”

O poder de aprender um idioma 

Aprender um novo idioma pode tornar a referida cola mais flexível. “Existem todos os tipos de diferenças em relação à forma como dividimos as categorias”, diz Aneta Pavlenko, linguista do Centro de Multilinguismo da Universidade de Oslo. Aneta argumenta que uma pessoa bilíngue ou multilíngue consegue reestruturar essas categorias, expandindo a forma como concebe as emoções.

“Talvez uma pessoa veja as coisas como um tipo único de raiva, mas agora precisa de as encarar como três ou quatro variedades diferentes de raiva”, diz Aneta. Isto também é válido para a alegria, o deleite ou até mesmo o amor.

Aneta salienta que o uso de alguns “cartões de memória” não altera as categorias emocionais no nosso cérebro. Para fazer isso, precisamos de colocar o novo vocabulário em utilização, de preferência numa situação em que tenhamos de falar sobre sentimentos. (Aneta diz que um romance entre pessoas de culturas diferentes pode ser o caminho mais rápido para uma reorganização a nível cerebral.)

Mas mesmo que uma pessoa não esteja a tentar encantar alguém em tagalo ou urdu neste inverno, o estudo da língua pode ser uma experiência abrangente, diz Tim Lomas. Embora a observação de um mapa não seja o mesmo que explorar os recantos de uma paisagem desconhecida, este processo indica a forma das coisas – assim como aprender novas palavras oferece um vislumbre do quão expansivo o mundo das emoções pode ser.

Enquanto tentamos descortinar os nossos sentimentos durante uma pandemia, as palavras estrangeiras podem oferecer algum consolo na forma de experiências nomeadas para as quais não temos vocabulário.

Depois de meses sem vermos os nossos entes queridos, todos nos conseguimos identificar com a palavra dor romena, que representa a saudade de pessoas e lugares. Os momentos de beleza num momento difícil podem dar vida ao bēi xî jiāo jí chinês, uma mistura agridoce de alegria e tristeza. E os viajantes que ficam em casa por questões de segurança podem sentir o fernweh, a nostalgia alemã por lugares ainda por visitar.

“Trata-se de tentar apreciar como é que as pessoas vivem e passam pela vida”, diz Tim Lomas. “E eu acho que as palavras conseguem fazer isso.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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