"Definitivamente Não é Fácil." Como os Comissários de Bordo Lidam com as Viagens Durante a COVID-19.

As medidas de segurança contra a pandemia carecem de fiscalização, expondo a saúde dos comissários de bordo e passageiros.

Published 29/01/2021, 14:12 WET
Um comissário de bordo com máscara distribui águas e refrigerantes num voo de São Francisco, na ...

Um comissário de bordo com máscara distribui águas e refrigerantes num voo de São Francisco, na Califórnia, para Newark, em Nova Jersey, no dia 27 de outubro de 2020. Nos aviões, os comissários de bordo correm mais risco de contrair COVID do que qualquer outra pessoa.

Fotografia de Michael Loccisano, Getty Images

Quando Amber Gibson voou pela última vez de Chicago para Denver, sentou-se ao lado de um passageiro que estava a usar uma máscara sobre a boca, mas não sobre o nariz. Apesar dos vários pedidos de Amber e dos comissários de bordo, o passageiro recusou-se a ajustar a máscara. Como o voo já estava atrasado, Amber concordou em mudar de lugar após a descolagem, mas acabou por ficar rodeada por pessoas que também estavam a usar mal as máscaras.

“Em vez de forçar [o passageiro ao meu lado] a sair do avião, [a tripulação] fez-me sentir a má da fita porque já nos tínhamos afastado do portão de embarque”, diz Amber, jornalista de viagens sediada em Chicago. “A tripulação disse que, se eu insistisse, podíamos regressar, mas isso ia prolongar o nosso atraso, e eu não queria fazer perder o tempo de todos.”

O dilema de Amber ilustra um dos muitos problemas em viajar de avião durante uma pandemia. As pessoas que precisam de voar têm de desvendar os protocolos de segurança de cada companhia aérea e ter em consideração a imprevisibilidade dos outros passageiros, e perceber até que ponto a tripulação vai lidar com essas situações. Os problemas são ainda mais preocupantes para os comissários de bordo, que lidam com um vírus que ainda não é completamente compreendido e com passageiros que desrespeitam as diretrizes sanitárias e colocam diariamente a saúde de todos – e empregos – em risco.

Um relatório do Fórum Económico Mundial / Visual Capitalist revela que os trabalhadores do setor dos transportes têm a pontuação de risco COVID-19 mais elevada – 75.7 numa média de 30.2 – entre os 966 empregos avaliados que não estão relacionados com a saúde. Os comissários de bordo correm mais riscos com a COVID-19 do que qualquer outra pessoa a bordo de um avião, simplesmente devido à natureza do seu trabalho. Os ambientes de proximidade significam que estes trabalhadores estão a menos de dois metros de cada passageiro durante um voo. E também são vulneráveis a contrair o vírus quando os passageiros retiram as suas máscaras para comer ou beber, ou quando tentam convencer um passageiro sem máscara a cumprir as regras.

Nos EUA, as proteções federais para os membros da tripulação são limitadas e cada companhia aérea tem o seu próprio conjunto de políticas. O novo mandato federal do presidente Biden, que exige o uso de máscara nas áreas de transportes, incluindo nos aeroportos e aviões, pode conferir mais robustez às diversas medidas de proteção contra a COVID-19 nos Estados Unidos. Mas ainda não se sabe quando é que este novo mandato irá entrar em vigor ou de que forma será aplicado.

Até lá, a tripulação de cabine depende apenas de diretrizes passíveis de interpretação que variam de empresa para empresa – e com poucas consequências para os passageiros que as desrespeitam. Para além disso, há outras preocupações relacionadas com o local de trabalho, como as políticas inconsistentes sobre o rastreio de contactos, testes e quarentenas, sem esquecer as consequências potencialmente penalizadoras para os membros da tripulação que perdem turnos para se isolarem após uma exposição ao vírus.

Os aviões são relativamente seguros, mas existem riscos

As investigações já estabeleceram que, graças aos sofisticados sistemas de circulação de ar e filtros HEPA, o ar nos aviões é mais limpo do que em quase todos os outros espaços fechados. Para além disso, a higienização com pulverização eletrostática, as regras do uso de máscara e as alterações nos procedimentos para reduzir os pontos de contacto ajudaram os membros da tripulação, como Roshonda Payne, a sentirem-se mais seguros. “Creio que o simples facto de começar a aprender mais sobre todos os produtos, processos e sistemas de limpeza ajudou a reforçar a minha confiança e a dos meus clientes”, diz Roshonda, assistente de bordo da companhia de jatos JSX.

(Aviões e aeroportos estão a adotar tecnologia de ponta para melhorar a segurança.)

Ainda assim, os aviões não são completamente seguros. No final do ano passado, investigadores determinaram que quatro pessoas provavelmente tinham contraído COVID-19 num voo de 18 horas do Dubai para Auckland. Dois dos quatro passageiros não usaram máscara durante o voo, que só tinha 25% da sua ocupação.

Os requisitos para apresentar um teste COVID-19 negativo antes do embarque, assim como as novas regras para se voar para os EUA, não eliminam os riscos. Em janeiro, as pessoas que voaram para o torneio de ténis Open da Austrália em voos fretados tiveram de apresentar um teste negativo. Ainda assim, quando foram testadas à chegada, pelo menos cinco pessoas de três voos diferentes apresentaram resultados positivos.

“Outros comissários de bordo contam histórias de passageiros que aproveitam as exceções relativas a comer e beber para tirar a máscara. Alguns passageiros passam voos inteiros a bebericar de copos praticamente vazios ou a petiscar quando a tripulação de cabine está por perto.”

Para piorar as coisas, há várias estirpes novas mais contagiosas e notícias de que as máscaras de tecido não são uma proteção adequada. A Áustria, França e Alemanha exigem agora máscaras cirúrgicas nos transportes públicos. Embora a chegada das vacinas seja um motivo de esperança, ainda não sabemos se estas evitam a transmissão da doença e, até agora, apenas uma pequena percentagem da população global foi vacinada.

Fiscalizar o uso de máscara – a pior parte do trabalho

Apesar das incertezas, os cientistas afirmam que as máscaras continuam a ser melhor proteção contra o vírus. Contudo, quando estão a voar, os comissários de bordo têm dificuldades em lidar com passageiros que se recusam a cumprir as regras do uso de máscara. Um comissário de bordo, que não estava a autorizado a falar, diz que alguns infratores alegam discriminação ou gozam e questionam a autoridade da tripulação.

Outros comissários de bordo contam histórias de passageiros que aproveitam as exceções relativas a comer e beber para tirar a máscara. Alguns passageiros passam voos inteiros a bebericar de copos praticamente vazios ou a petiscar quando a tripulação de cabine está por perto.

“Definitivamente não é fácil ser repetidamente desafiada sobre o uso de máscara”, diz Roshonda. Todas as semanas há passageiros relutantes em usar máscara nos aviões de 30 passageiros da JSX, que só voam entre terminais privados. “Eu compreendo que algumas [pessoas] não gostem de as usar. Eu também não gosto”, diz Roshonda,“ mas é de vital importância manter todas as pessoas seguras e protegidas”.

“Idealmente, todos deveriam querer usar máscara pelo bem dos outros, para não falar da sua própria segurança”, diz Sharona Hoffman, professora e codiretora do Centro de Medicina Legal da Universidade Case Western Reserve. Sharona explica que as companhias aéreas têm formas de obrigar os passageiros a cumprirem as regras, incluindo a exclusão de passageiros que se recusem a usar máscara enquanto o avião ainda está no portão de embarque, e colocar os nomes dos infratores numa lista de exclusão aérea. Em 2020, as companhias aéreas dos EUA baniram mais de 1.400 viajantes por infrações relacionadas com o uso de máscara.

Porém, os comissários de bordo têm uma autoridade limitada para fazer cumprir as regras e também lidam com orientações inconsistentes dos seus superiores. Alguns são instruídos para se limitarem a alertar os passageiros sobre o uso de máscara. Mas a administração é rápida a transmitir as reclamações de passageiros que acusam a tripulação de não fazer o suficiente.

Nos EUA, a indústria aérea tem esperança de que a ordem executiva do presidente Biden relativamente ao uso de máscara ajude a minimizar os problemas a bordo. “Agora que o mandato de ação executiva supera as políticas das companhias aéreas, sabemos que isso irá servir de apoio para os comissários de bordo e para os trabalhadores da aviação que estão na linha da frente desde o início desta pandemia”, diz Taylor Garland, porta-voz do sindicato da Associação de Comissários de Bordo-CWA (AFA), que representa a tripulação de 17 companhias aéreas.

O mandato de Biden pode reforçar a ordem de 13 de janeiro de 2021 da Administração Federal de Aviação (FAA). Esta ordem intensificou a aplicação da lei contra o mau comportamento de passageiros, incluindo os que se recusam usar máscara, na sequência dos incidentes em voos relacionados com a invasão do Capitólio dos EUA no dia 6 de janeiro de 2021. Agora, os passageiros que “agridam, ameacem, intimidem ou interfiram” com membros da tripulação de companhias aéreas têm muito mais probabilidades de enfrentar multas de até 35.000 dólares ou penas de prisão.

Mas a ausência de fiscalização sobre a aplicação deste mandato deixa as coisas um pouco no ar. “Os mandatos locais e estaduais ajudaram-nos a fazer cumprir a regra do uso de máscara”, diz Roshonda, “mas resta saber qual será o impacto do mandato nacional nos nossos voos”.

Preocupações persistentes

Mesmo que seja aplicável, o mandato do uso de máscara não aborda a outra preocupação fundamental para os comissários de bordo: a falta de rastreio de contactos da tripulação a nível nacional e a ausência de testes e padrões de quarentena que as companhias aéreas devem seguir. Isto aplica-se aos membros da tripulação que estão preocupados por terem sido expostos à COVID-19 e querem ser testados, aos que aguardam os resultados dos testes e aqueles cujo teste foi positivo. E também deve ser uma preocupação para os passageiros.

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Um comissário de bordo, que pediu para manter o anonimato, diz que as diretrizes federais deixam muitas coisas ao critério das companhias aéreas. “Eles dizem que as diretrizes atuais permitem que as companhias aéreas criem políticas – como as notificações de exposição à COVID-19 – mas estas priorizam a continuidade dos comissários de bordo a trabalhar em vez da segurança de funcionários e passageiros.”

Outro comissário de bordo referiu como exemplo a política da sua companhia aérea, que envia notificações por email sobre os testes positivos. Esta política não garante que todos os funcionários recebam as informações antes dos seus turnos. Um dos comissários de bordo soube através de colegas de trabalho – não através da gerência – que dois colegas com quem tinha voado recentemente tinham testado positivo.

A política da American Airlines é retirar do serviço toda a tripulação que trabalhou com uma pessoa infetada. Mas várias companhias aéreas interpretam de forma vaga as diretrizes da FAA e dos CDC, que definem de forma irrealista os “contactos de proximidade”, sobretudo se considerarmos que os comissários de bordo trabalham em espaços confinados. Os testes só são obrigatórios em circunstâncias específicas; caso contrário, a tripulação tem instruções para continuar a trabalhar e monitorizar os sintomas. Este processo é arriscado, sobretudo quando os estudos mostram que 59% dos casos de COVID-19 são transmitidos por pessoas assintomáticas ou pré-sintomáticas.

Os testes em geral são problemáticos devido às políticas diferentes de cada companhia aérea. Algumas companhias aéreas oferecem testes em casa se os funcionários forem expostos, mas apenas se apresentarem sintomas. Em algumas companhias aéreas, quem desejar fazer um teste PCR, que é mais conclusivo, tem de pagar do seu bolso e fazer o teste no seu tempo livre, mesmo que tenha recebido uma notificação de exposição no trabalho. Independentemente disso, um teste não significa que uma pessoa está livre de COVID, sobretudo logo após a exposição ao vírus.

Faltar ao trabalho devido à exposição ao coronavírus também pode ser stressante. Outro comissário de bordo, que também não quis ser identificado, disse que alguns membros da tripulação têm medo de faltar ao trabalho se estiverem doentes ou se acharem que contraíram o vírus, mesmo quando a exposição foi no trabalho. Eles dizem que a proteção salarial só se aplica se o teste for positivo.

De acordo com a AFA, os sindicatos das tripulações continuam a pedir mais consistência nos protocolos de segurança e pedem uma “resposta federal pró-ativa e abrangente na aviação e mais além”. Tornar algumas diretrizes obrigatórias, como o Alerta de Segurança de dezembro de 2020 da FAA, poderia ajudar. Atualmente, este alerta afirma apenas que os “CDC não recomendam que se permita que os membros da tripulação com uma exposição conhecida ao vírus continuem a trabalhar, mesmo que assintomáticos”.

Padrões gerais para toda a indústria poderiam ajudar a garantir que eram aplicadas políticas mais eficazes para proteger todos os tripulantes e passageiros, seja através do rastreio de contactos, verificação de sintomas como medir a temperatura, métodos rigorosos de embarque e desembarque, bloqueio de lugares intermediários, redução dos serviços de comida e bebida (sobretudo em voos de curta duração), ou na determinação de exceções para o uso de máscara. Isto também eliminaria o ónus sobre os viajantes em pesquisar as medidas de segurança de cada companhia aérea e para a tripulação de voo em explicar as políticas de cada companhia aérea.

Até agora, 25% dos quase 100 milhões de casos mundiais de COVID-19 estão ativos. Mais de dois milhões de pessoas morreram com a doença. Apesar dos riscos e avisos contínuos em relação às viagens, milhões de pessoas continuam a voar todos os dias.

Até que a maioria da população mundial seja vacinada e o número de infeções diminua significativamente, respeitar as regras pode ser a melhor forma de todos regressarmos ao normal. Quer venha das companhias aéreas ou dos governos, a simples regra de usar máscara pode salvar milhões de vidas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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