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O Colapso do Turismo é Problemático Para Machu Picchu

Com o desaparecimento das viagens internacionais, os trabalhadores do setor hoteleiro do Peru viraram-se para a agricultura e construção civil. As vacinas COVID-19 podem significar um regresso aos seus antigos empregos.

Por Lucien Chauvin
Fotografias Por Sharon Castellanos e Victor Zea
Publicado 18/01/2021, 12:10 WET
No outono de 2020, uma mulher passava pela Catedral de Cusco no alto dos Andes peruanos. ...

No outono de 2020, uma mulher passava pela Catedral de Cusco no alto dos Andes peruanos. O turismo na área em torno das ruínas incas de Machu Picchu foi interrompido devido à pandemia de COVID-19, e muitos habitantes regressaram à agricultura e a outras atividades para se sustentarem.

Fotografia de Sharon Castellanos and Victor Zea

Nota do Editor: Este trabalho foi financiado pelo Fundo de Emergência da COVID-19 para Jornalistas da National Geographic Society.
 

Juan Yupanqui olhou para uma pilha de colchões que ainda estavam embrulhados no mesmo plástico com que tinham chegado quando os comprou há quase um ano. Juan interrogou-se em voz alta se os colchões alguma vez serviriam para algo mais do que acumular poeira.

Os colchões estavam empilhados numa das casas de hóspedes redondas com telhado de palha que Juan construiu no ano passado na sua propriedade em Patacancha, uma pequena aldeia situada a mais de 3.350 metros acima do nível do mar perto da cidade colonial de Cusco, no sul dos Andes peruanos. Com as suas pequenas janelas e móveis rústicos, as cabanas foram erguidas para expandir o negócio de turismo de experiências da sua família.

Esquerda: No outono de 2020, Rosmery Barriga e o seu pai Ramón Barriga retiraram o artesanato da sua loja na cidade inca de Ollantaytambo, um ponto de paragem popular na rota para Machu Picchu, no Peru. As medidas de confinamento devido à COVID-19 mantiveram a loja encerrada durante meses e a família Barriga foi alvo de vários furtos e arrombamentos.
Direita: O guarda florestal Tomas Huamanttica Quispe observa o Centro Arqueológico de Moray no outono de 2020. Acredita-se que este sítio inca com terraços tenha servido para propósitos cerimoniais ou agrícolas. Tal como aconteceu com a maioria das atrações turísticas perto de Machu Picchu, este centro ficou encerrado durante meses devido à pandemia de COVID-19.

Sebastián Tobón, proprietário dos Hostels Supertramp em Aguas Calientes, no Peru, está sentado num dos seus quartos vazios na cidade peruana adjacente a Machu Picchu. A pandemia de COVID-19 dizimou a economia do turismo na área em torno das ruínas incas, que num ano normal atrai mais de um milhão de visitantes.

A chegada de turistas começou a aumentar em 2019, depois de Juan ter trabalhado na propriedade durante anos, com uma média de cinco grupos por mês que passavam um ou dois dias a aprender a pastorear alpacas; a tecer os ponchos vermelhos que são uma marca registada da comunidade; e a dançar quellwa tusuy, um passo festivo que significa “ave dançante” em quíchua, a língua local.

Juan decidiu melhorar as suas casas de hóspedes após um início promissor de 2020. Mas em março parou tudo repentinamente, quando o Peru impôs um confinamento rígido para responder à pandemia de COVID-19. Os turistas franceses e americanos que Juan esperava naquele mês cancelaram, e as cabanas ficaram vazias desde então.

A agricultura continua a ser a pedra basilar da vida em Patacancha e nas aldeias semelhantes no alto dos vales andinos fora de Cusco, mas é o turismo que gera dinheiro. Por enquanto, os visitantes pararam de chegar. Juan e milhares de outras pessoas que trabalham na indústria do turismo, uma indústria de várias camadas na região em torno de Machu Picchu, interrogam-se durante quanto tempo irão conseguir resistir até os dólares e euros do turismo regressarem.

Indústria de turismo em crise

“O turismo dava-nos dinheiro. Hoje, temos comida, mas não temos dinheiro”, diz Juan, posando para uma fotografia com um cordeiro, algo que os seus hóspedes costumavam fazer. “Fico mais preocupado a cada dia que passa, porque não sabemos quando é que isto vai acabar.”

As tecelãs como Myriam Cuba Callañaupa (à esquerda) costumam fazer demonstrações de artesanato têxtil e culinária na vila de Chinchero, perto de Cusco. Mas a pandemia de COVID-19 forçou Myriam e muitas outras mulheres que trabalham no turismo a regressar temporariamente à agricultura.

Para além do turismo em casas de família, muitos dos homens em Patacancha ganham dinheiro a transportar materiais ou a cozinhar para aventureiros que fazem o Trilho Inca, a antiga rota que vai dar a Machu Picchu. Juan Yupanqui, de 44 anos, fez isso durante 18 anos. As mulheres da comunidade tecem ponchos e outros tipos de artesanato têxtil que são vendidos nos mercados locais.

A família Yupanqui e outras famílias de Patacancha estão a lidar com a crise financeira vendendo fios de alpaca e chuño – batatas congeladas e desidratadas naturalmente. Também criam animais para comer, embora isso não seja possível para muitas das milhares de pessoas que trabalhavam no turismo nos arredores de Cusco.

 

No outono de 2020, uma menina estava à porta da loja da sua família em Aguas Calientes, no Peru. Esta cidade andina perto de Machu Picchu costumava estar cheia de turistas, mas está quase deserta desde o início da pandemia de COVID-19.

Eliana Miranda, diretora do departamento de turismo de Cusco, diz que 92% das pessoas empregadas no setor – desde rececionistas de hotéis a vendedores de souvenirs na calçada – perderam os seus empregos em agosto, quando Cusco entrou no segundo confinamento.

“Já enfrentámos problemas no passado, mas nada tão devastador para a indústria como a COVID-19”, diz Eliana.

De acordo com o governo do Peru, o negócio do turismo no país pode ter caído até 85% em 2020. O Conselho Mundial de Viagens e Turismo estima que, em 2019, o impacto económico direto e indireto do turismo no Peru foi de aproximadamente 22 mil milhões de dólares, ou 9.3% do produto interno bruto do país.

Nos primeiros dois meses de 2020, o aeroporto de Cusco recebeu quase 635.000 viajantes, um aumento de 16% em relação ao mesmo período de 2019. Nos oito meses seguintes, este número baixou para os 231.726, com quase 75% das chegadas em março, de acordo com o Ministério do Comércio e Turismo do Peru. Em junho, só chegaram ao aeroporto de Cusco 990 passageiros, em comparação com os 323.367 passageiros no período homólogo do ano anterior.

As visitas turísticas a Machu Picchu, as ruínas incas que ancoram o turismo em Cusco e que atraem viajantes do mundo inteiro para o Peru, caíram 72% no primeiro semestre de 2020. Em dezembro, a região recebia cerca de 500 visitantes por dia, quase todos turistas peruanos, uma descida de 2.500 visitantes em comparação com os tempos normais. Para estimular o turismo no interior do país, o governo eliminou as taxas de entrada em Machu Picchu para os peruanos. Em 2019, a região recebeu 1.6 milhões de turistas.

Do turismo para outras indústrias

No outono de 2020, após uma pausa devido à pandemia COVID-19, as viagens de comboio entre Ollantaytambo e Aguas Calientes foram retomadas para os habitantes locais. Aguas Calientes, apelidada de Cidade Machu Picchu, é a porta de entrada para as ruínas incas, o destino turístico mais visitado do país.

Fotografia de Sharon Castellanos e Victor Zea

Eliana Miranda diz que houve um êxodo na indústria do turismo, com as pessoas a mudarem para outros negócios, ou a regressarem para o campo para aguardarem pelo fim da crise de coronavírus. O gabinete de Eliana está a trabalhar com associações de trabalhadores e governos locais para fornecer assistência às pessoas deslocadas pelo colapso do turismo.

“Temos formação laboral e programas de curto prazo para ajudar na manutenção salarial. Temos trabalhado com os municípios em programas de emprego para as pessoas que regressaram ao campo, mas esperamos que isto seja temporário. Na realidade, estamos todos à espera que o turismo regresse”, diz Eliana.

Fernando Condori Torres e o seu filho Gonzalo cuidavam de macieiras em frente ao sítio arqueológico de Ollantaytambo em Cusco, no Peru, em finais de 2020. Fernando Torres, que trabalhava como guia turístico, regressou temporariamente à agricultura devido às paralisações da COVID-19.

Hilda Ortiz de Orue Bautista trabalha na manutenção e colheita de sal nas lagoas naturais do município de Maras. Este sítio turístico peruano é muito popular e foi encerrado durante meses devido à pandemia de COVID-19.

Porém, no setor da hotelaria, o relógio não pára.

Rubén Tello, guia turístico que fala espanhol, inglês e quíchua, não trabalha desde que ajudou um grupo de visitantes tailandeses a regressar para casa no dia 15 de março de 2020, quando o governo anunciou que iria encerrar as fronteiras. Rubén ficou fechado no seu apartamento durante dois meses, esperando que a situação estivesse resolvida a meio do ano. Ao perceber que a pandemia não iria desaparecer assim tão depressa, decidiu “reconverter”, que é o termo usado para designar as pessoas que abandonam o turismo para trabalhar noutras indústrias.

“Pensei que podia esperar que isto passasse, mas as despesas começaram a acumular e, em julho, não tive outra escolha a não ser encontrar outro trabalho”, diz Rubén.

Rubén despediu-se da sua esposa e dos seus filhos gémeos de 14 anos na cidade de Cusco e dirigiu-se para as planícies nas proximidades, as suas terras de origem, à procura de emprego. Ele encontrou um emprego como motorista de camião num projeto de construção rodoviário. Mais tarde, trabalhou nas portagens da autoestrada.

Rubén regressou à cidade no início de dezembro, tendo dois grupos de turistas na fila de espera e mais alguns em perspetiva. Mas ele é realista sobre o futuro. “Não consigo sobreviver com um ou dois grupos por mês. Se a situação não melhorar até janeiro, vou regressar à construção civil.”

Como o setor se poderá reconstruir

Esquerda: No outono de 2020, um polícia pedia às pessoas para manterem o distanciamento social na esplanada da Igreja de San Cristóbal em Cusco, no Peru. Este local é muito popular entre turistas e habitantes locais pelas suas vistas panorâmicas da cidade colonial.
Direita: Maria Santos Quispe varria a calçada em frente à sua loja na Rua Hatunrumiyoc de Cusco. Embora Maria geralmente tenha maioritariamente arte têxtil e outros souvenirs, agora também vende fruta e artigos diversos. “Aprendi que devo estar atenta a todos os tipos de clientes”, diz Maria. “Antes não tínhamos nada para a população local.”

Sofia Arce, que dirige uma agência de turismo, a Intense Peru, diz que a pandemia está a transformar a indústria. Sofia receia que muitos restaurantes e hotéis que servem os turistas possam encerrar de forma permanente se o Peru tentar apenas regressar ao comércio de forma normal.

Esta antiga bancária conseguiu superar os piores meses da crise de coronavírus com um empréstimo financiado pelo governo através do programa Reativar o Peru, e começou a reconstruir conforme o país vai reabrindo.

O Peru começou a permitir as viagens aéreas internacionais em outubro e, em dezembro, restabeleceu quase todas as rotas, incluindo os voos de longo curso vindos da Europa e da América do Norte. Sofia considera estas medidas positivas para o turismo, mas acredita que vai demorar algum tempo até que o turismo regresse aos números anteriores à pandemia.

“Vendemos quatro pacotes turísticos para dezembro, os primeiros em nove meses. É um começo, mas vamos ter de ser muito ativos para reconquistar o nosso mercado”, diz Sofia. “Se quisermos reconstruir melhor, não há espaço para abrandar.”

Antes da pandemia de COVID-19, o guia turístico Fernando Condori Torres passava grande parte do ano longe da sua casa perto de Cusco. Em 2020, devido aos confinamentos e ao colapso do turismo no Peru, Fernando passou mais tempo com o seu filho, Gonzalo.

Fotografia de Sharon Castellanos e Victor Zea

Mas há novas preocupações para Sofia Arce e para outros na indústria do turismo: A atual instabilidade política no Peru – país que teve três presidentes no período de oito dias em novembro – e as crescentes exigências sociais criadas por uma economia devastada pela pandemia. A economia do Peru contraiu 13.4% nos primeiros 10 meses de 2020; o setor da hotelaria caiu 54% em relação a 2019, a queda mais significativa de sempre segundo os cálculos da agência nacional de estatística. A taxa nacional de desemprego é de 15.1%.

Machu Picchu, quando estava a começar a recuperar, foi forçado a encerrar novamente em meados de dezembro, quando as comunidades ao longo da linha ferroviária que leva os turistas até às ruínas convocaram uma greve e bloquearam os trilhos, exigindo preços mais baixos para os habitantes que também usam o serviço.

“Os problemas políticos estão a adicionar uma nova dimensão aos outros problemas. Acho que os turistas se podem afastar um pouco mais se tivermos instabilidade devido à pandemia”, diz Fabricio Zelada, que recentemente regressou a Cusco depois de anos a viver na capital do país, Lima.

A ministra do Comércio e Turismo do Peru, Claudia Cornejo, reconhece que a indústria ainda enfrenta um clima difícil, e estima que pode demorar dois ou três anos até regressar aos números anteriores à COVID. A ideia do governo é usar a crise como um recomeço para que o turismo possa “regressar de forma diferente”.

Claudia Cornejo diz que “as condições criadas pela ausência de turistas devem ser aproveitadas pela indústria para se concentrar nas melhorias, para que, quando o turismo regressar, estejamos prontos para oferecer ainda mais do que antes”.

A ministra diz que o turismo de experiências e mais sustentável, como o oferecido em lugares como Patacancha, faz parte de uma tendência que estava a ganhar terreno antes da pandemia, com os turistas a quererem ir para além da simples observação de uma cultura, querendo também vivenciá-la. A pandemia pode até impulsionar este tipo de atividades.

“Penso que o turismo de experiências vai continuar. A COVID-19 interrompeu-o, mas não o vai parar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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