A disseminação global do coronavírus está a afetar os viajantes. Mantenha-se atualizado sobre a explicação científica por trás do surto>>

O que Significam as Vacinas Para o Regresso às Viagens

As vacinas contra a COVID-19 vão eventualmente ajudar o turismo a regressar, mas talvez devamos contar com viagens repletas de passaportes de imunidade, testes e viajantes cautelosos.

Publicado 14/01/2021, 15:25
Passageiros na fila para o check-in no Aeroporto Brandenberg de Berlim, no dia 21 de dezembro ...

Passageiros na fila para o check-in no Aeroporto Brandenberg de Berlim, no dia 21 de dezembro de 2020. Muitos países, incluindo a Alemanha, interditaram temporariamente as suas fronteiras aos viajantes vindos do Reino Unido devido a uma estirpe mais transmissível de COVID-19 que surgiu no país.

Fotografia de Paul Zinken, picture alliance/Getty Images

No final de dezembro de 2020, o mundo voltou a ter esperança, incluindo a esperança de um regresso às viagens, conforme os países começavam a aprovar as vacinas Pfizer/BioNTech, Moderna e Oxford-AstraZeneca. Algures em 2021, quando um número suficiente de pessoas forem vacinadas – e imunes – contra a COVID-19, isso pode significar um regresso às viagens pelo mundo inteiro (ou pelo menos umas férias menos arriscadas sem sair do país).

Contudo, a ansiedade em torno das viagens não está a desaparecer, dado que os profissionais de saúde e as pessoas mais idosas estão a enfrentar enormes dificuldades. Nos Estados Unidos, as pessoas ainda estão relutantes em planear viagens. Uma sondagem feita em dezembro de 2020 pela National Geographic e a Morning Consult inquiriu como as pessoas vão abordar as viagens quando a pandemia de coronavírus estiver sob controlo. Entre os entrevistados, 49% disseram que iriam viajar menos devido a preocupações com a exposição ao vírus, e um terço (34%) disse que não iria viajar mais em 2021 para compensar a ausência de viagens em 2020.

O que significam as vacinas COVID-19 para as viagens a curto e médio prazo, e como é que a atitude em relação às vacinas pode acelerar (ou abrandar) o processo de regresso à estrada ou aos céus? Eis o que aprendemos.

Não há vacina para o medo

“A hesitação em relação à vacina é um obstáculo crítico a ultrapassar”, diz o Dr. Tom Kenyon, diretor de saúde do Projeto HOPE, uma organização global de saúde e ajuda humanitária, e ex-diretor dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. Para regressarmos às viagens, os EUA e o mundo precisam de uma imunidade de grupo, que se acredita ser alcançada quando cerca de 70% da população tiver anticorpos. Porém, Tom Kenyon diz que 70% é um valor arbitrário e que não existe um interruptor de “ligar/desligar” para a imunidade de grupo. As notícias recentes sobre estirpes mais transmissíveis de COVID-19 sugerem que a imunidade de grupo pode surgir apenas quando 90% dos cidadãos tiverem anticorpos.

“Nos EUA, para conseguirmos controlar a COVID-19, uma grande maioria dos americanos (entre 75% a 80%) precisa de ser vacinada”, diz Michelle Williams, epidemiologista e reitora do corpo docente da Escola de Saúde Pública Harvard T.H. Chan. Mas a distribuição da vacina já está a demorar mais do que o esperado – em dezembro, das 20 milhões de doses previstas, apenas cerca de três milhões foram administradas. O Reino Unido diz que pode demorar até um ano a vacinar toda a sua população.

Para as viagens regressarem ao que eram antes da pandemia, todos os países precisam de ter imunidade de grupo. “Fazemos parte de uma comunidade global cuja saúde, economia e futuro estão vinculados e são impactados pela pandemia”, diz a Dra. Jewel Mullen, reitora e professora associada de medicina interna na Faculdade de Medicina Dell, na Universidade do Texas, em Austin.

Mas nos EUA pode ser difícil alcançar este estágio de imunidade de grupo. Entre os entrevistados na sondagem da National Geographic e Morning Consult, apenas 47% disseram que iriam receber a vacina contra a COVID-19 assim que esta estivesse disponível, e mais de um quarto (27%) disseram que não queriam ser vacinados. Ainda assim, 58% dos entrevistados disseram que acabariam eventualmente por ser vacinados.

Mangas arregaçadas, máscara na cara

As novas vacinas COVID são melhores do que o esperado a prevenir que as pessoas vacinadas adoeçam. Os especialistas em saúde esperavam conseguir uma vacina que tivesse uma eficácia de 50% a 70%. Os ensaios clínicos mostram que a vacina da Pfizer/BioNTech – agora aprovada em dezenas de países, incluindo os EUA – tem uma eficácia de 95%. É completamente eficaz um mês após a primeira dose (é necessária uma segunda injeção pelo menos 21 dias depois) e começa a funcionar 10 a 12 dias após a primeira injeção. A vacina da Moderna é semelhante.

No entanto, ainda não se sabe se as pessoas vacinadas podem propagar COVID-19. “Ainda não temos dados para saber se as vacinas COVID reduzem o risco de propagação/transmissão; neste momento, os dados mostram apenas que as vacinas reduzem o risco de doença”, diz a Dra. Jennifer Ashton, correspondente médica da ABC News.

O vírus que provoca a COVID-19 é novo e ainda há muito para aprender. Os CDC afirmam que mais de metade de todas as infeções por COVID-19 são transmitidas por pessoas assintomáticas; 35% antes de a pessoa infetada sentir quaisquer sintomas e 24% por pessoas que nunca desenvolveram sintomas. Tom Kenyon diz que isto deixa em aberto a possibilidade de algumas pessoas vacinadas ainda poderem ser infetadas sem desenvolverem sintomas e, consequentemente, transmitir o vírus de forma silenciosa.

Um homem faz um teste COVID-19 no Aeroporto Internacional de Los Angeles durante um surto de coronavírus na Califórnia, no dia 22 de dezembro de 2020.

Fotografia de Mario Tama, Getty Images

Todas as pessoas querem ir novamente de férias, mas a prioridade para os fabricantes de vacinas é prevenir doenças e mortes, não o regresso aos cruzeiros. “Até agora, os ensaios só rastrearam a quantidade de pessoas vacinadas que adoeceram com COVID-19, em comparação com as pessoas não vacinadas”, diz Tom. Embora existam boas possibilidades de os anticorpos ativados pela vacina resultarem numa probabilidade reduzida de propagação do vírus a outras pessoas, só saberemos quando se fizerem mais estudos.

Este é o motivo principal pelo qual, um mês após a primeira vacina, não podemos simplesmente ir às compras num mercado marroquino cheio de pessoas como se fosse 2019. Até que as investigações nos digam mais, Jewel Mullen diz que “os viajantes não devem abandonar as medidas que já sabemos que ajudam a reduzir o risco de transmissão – usar máscara, boa higiene, distanciamento físico e evitar viajar se tiver sintomas”.

De certa forma, é reconfortante que a maioria (67%) dos americanos na sondagem da National Geographic e Morning Consult queira continuar a usar máscara durante a época gripal, seja quando saem para fazer compras (63%), ou devido à poluição do ar (64%).

O mundo precisa de imunidade

Conseguir com que o mundo fique imunizado não vai ser fácil ou rápido. De acordo com a People’s Vaccine Alliance – um movimento de organizações de saúde e humanitárias que inclui a Amnistia Internacional e a Oxfam – os países ricos adquiriram 54% das vacinas mais promissoras, embora tenham apenas 14% da população mundial. Sem uma ação urgente, a People’s Vaccine Alliance diz que só 10% das populações de 67 países em desenvolvimento serão vacinadas em 2021. Isto coloca em risco os cidadãos de destinos turísticos populares como o Camboja, Quénia, Sri Lanka e Uganda.

As nações mais ricas garantiram o seu acesso às vacinas porque foram importantes no financiamento do desenvolvimento de vacinas. Mas a Vaccine Alliance acusa estas nações de acumularem vacinas, e algumas podem estar realmente a fazê-lo. Nos próximos meses, saberemos o quão equitativa é a distribuição global de vacinas. O Canadá garantiu mais doses das potenciais vacinas do que qualquer outro país – cerca de 10 doses por pessoa entre as sete vacinas candidatas – e pretende partilhar as doses extra das vacinas que forem comprovadamente seguras e eficazes. Os países em desenvolvimento estão ansiosos para saber quando e como.

Bill Gates Explica Como a Pandemia Vai Atrasar a Saúde Pública
Numa entrevista conduzida por Susan Goldberg, da National Geographic, Bill Gates fala sobre o relatório Goalkeepers e como o COVID-19 mudou radicalmente a nossa saúde global.

Uma das soluções é a iniciativa COVAX da Organização Mundial de Saúde. O objetivo da COVAX é acelerar a criação de vacinas e garantir uma distribuição global equitativa, entregando primeiro doses suficientes para 20% das populações mais vulneráveis entre os 184 países participantes, desde o Afeganistão ao Zimbabué. Nesta iniciativa, os países mais ricos ajudam a financiar os países mais pobres, embora a Rússia e os EUA ainda não tenham aderido a este projeto, que ainda carece de fundos – em 2021, necessita de pelo menos 24 mil milhões de dólares.

Até que o mundo tenha imunidade de grupo, as viagens precisam de ser abordadas com cautela. Jewel Mullen diz que, “ser excessivamente, ou prematuramente, confiante sobre a eficácia das vacinas pode colocar pessoas noutros países em risco. As viagens dão-nos a possibilidade de contribuirmos para as suas economias. Mas contribuir para a propagação da doença é contraproducente”.

O que é um passaporte de vacinação?

Quando grande parte da população mais vulnerável estiver vacinada, eventualmente teremos o suficiente para começar a inocular a população em geral. É aí que o estatuto de vacinação vai importar. É pouco provável que uma pessoa precise de ser vacinada para viajar, mas será muito mais fácil voar se for vacinada.

A Qantas foi a primeira companhia aérea a anunciar que vai exigir aos seus passageiros internacionais que estejam vacinados. A partir do dia 1 de março de 2021, o Chipre planeia deixar de exigir um teste negativo a qualquer pessoa que consiga provar que foi vacinada. Nos EUA, uma pessoa vacinada pode economizar tempo e dinheiro: A Live Nation/TicketMaster planeia verificar se as pessoas que comparecem aos eventos estão vacinadas ou se têm um teste recente negativo. As atrações turísticas, lojas e restaurantes podem vir a seguir este exemplo.

Até que as vacinas estejam prontamente disponíveis, os testes COVID-19 irão continuar a fazer parte das viagens. No entanto, o processo de testagem está a ficar mais fácil e mais preciso – por exemplo, há um novo teste (que supostamente tem 99% de precisão) que usa uma espécie de esponja bucal, não uma zaragatoa.

Ainda não se sabe exatamente como é que iremos provar o nosso estatuto de vacinação. Os documentos falsos de testes COVID já são um problema.

Há vários “passaportes de vacinação” que estão a ser publicitados, mas o CommonPass parece ser o mais promissor. Esta colaboração entre o Fórum Económico Mundial e a organização sem fins lucrativos The Commons Project é uma forma segura de validar o teste COVID de indivíduos, e respetivas credenciais de vacinação, e está a ser testado internacionalmente. O governo de Aruba foi o primeiro a aderir à rede CommonTrust, permitindo aos viajantes validarem de forma segura o seu estatuto COVID para desfrutarem de praias nas Caraíbas a partir de fevereiro de 2021.

“Turismo para vacinação” não vai acontecer – para já

As vacinas COVID-19 são um dos bens essenciais mais procurados a nível mundial, o que significa que as pessoas com dinheiro ou estatuto vão tentar passar à frente. A maioria das nações diz que os seus cidadãos mais vulneráveis – trabalhadores essenciais e idosos – serão vacinados primeiro, mas nos EUA os políticos foram os primeiros a arregaçar as mangas, e os mais abastados estão a fazer doações na esperança de passar para a frente.

RELACIONADO: VISTAS DESLUMBRANTES CAPTADAS DA JANELA DE UM AVIÃO

Até termos uma abundância de vacinas aprovadas e distribuídas, é quase impossível para qualquer pessoa fora dos grupos prioritários ter a possibilidade de ser vacinada. Ainda assim, quando o Reino Unido aprovou a vacina da Pfizer/BioNTech, agentes de viagens na Índia começaram a preencher solicitações para viagens rápidas de vacinação no Reino Unido, embora isso exigisse uma complexa rede de dupla cidadania, quarentenas e muito mais. A atenção está agora nos EUA e na Rússia enquanto possíveis destinos de vacinação.

Mark Warner, advogado e diretor da empresa MAAW Law em Toronto, diz que, antes de viajarmos para receber uma vacina noutro país, devemos interrogar-nos se a injeção que vamos receber é de uma vacina aprovada e não uma falsificação. Também devemos ponderar se a cadeia de distribuição foi mantida de forma segura em todos os estágios, incluindo temperaturas adequadas. Para além disso, será que esse certificado de vacinação será válido?

Ninguém está a salvo até que todos estejam a salvo

“Isto não é sobre mim, é sobre nós”, diz Jennifer Ashton. “Esta pandemia revelou uma dicotomia entre um comportamento responsável pela nossa saúde pessoal e a saúde pessoal dos outros.” A COVID-19 fez-nos perceber que vivemos num mundo partilhado – para que todos sejam saudáveis e prósperos, precisamos de cuidar uns dos outros.

As vacinas COVID-19 seguras e eficazes significam que a vida, incluindo as viagens, irão eventualmente regressar ao normal. Assumindo que estas vacinas também nos protegem contra a maioria das mutações do vírus, bem como contra a sua propagação, as restrições devido à pandemia podem vir a terminar assim que a imunidade de grupo for alcançada. O mundo inteiro precisa dessa imunidade de grupo, e é pouco provável que isso aconteça em 2021. Jewel Mullen diz que, até que isso aconteça, o privilégio de viajar não deve acontecer em detrimento dos habitantes dos destinos turísticos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados