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O próximo grande trilho do whisky não é onde pensa

A Alemanha tem mais destilarias do que a Escócia e também tem laços de longa data com o bourbon americano.

Por Mike MacEacheran
Publicado 10/02/2021, 14:57 WET
Cornelia Bohn junto aos barris de carvalho da sua destilaria de whisky na vila alemã de ...

Cornelia Bohn junto aos barris de carvalho da sua destilaria de whisky na vila alemã de Schönermark. Esta engenheira farmacêutica produz o seu Preußischer Whisky single malte desde 2009.

Fotografia de PATRICK PLEUL, PICTURE ALLIANCE / DPA / AP IMAGES

Todo o cenário ao longo deste roteiro de whisky é estranhamente familiar: castelos históricos e florestas repletas de veados, seguidas de fileiras de solo arado, campos de cevada e um doce aroma a grãos de cereais.

Mas não estamos algures na Escócia, nem na Irlanda ou nos Estados Unidos. Estamos em Brandeburgo, uma região pouco povoada na Alemanha em torno de Berlim. É a região mais compacta de uma nova terra sedutora de whisky que tem mais de 250 produtores – quase o dobro dos produtores da Escócia, mas com apenas uma fração dos visitantes. Se levarmos em consideração a ênfase colocada na qualidade da proveniência, é evidente que o interesse pelo whisky alemão está a disparar.

Com cinco destilarias espetaculares, todas num raio de 100 quilómetros do novo aeroporto de Berlim-Brandeburgo (inaugurado em outubro de 2020), Brandeburgo é um lugar fértil para saborear whisky. Uma visita a esta região em torno da capital alemã promete novas tradições e aventuras, com armazéns, caves de whisky e salas de degustação.  

“A destilação faz parte do tecido de Brandeburgo há séculos”, afirma Cornelia Bohn, produtora do Preußischer Whisky. “Mas este conhecimento perdeu-se durante a era comunista, quando a produção de bebidas alcoólicas era controlada e limitada à vodka produzida pelo Estado. É incrível pensar que o whisky era uma bebida ilegal que estava apenas disponível no mercado negro. Portanto, ainda estamos a recuperar terreno.”

Renascimento espirituoso

Nenhum produtor está a fazer tanto para colocar o whisky alemão no mapa como Cornelia Bohn. Crescendo atrás do Muro de Berlim, no distrito de Uckermark ocupado pela União Soviética, na ex-República Democrática Alemã, Cornelia apaixonou-se pelo romance dos anúncios de whisky transmitidos pelos canais de televisão sem censura da Alemanha Ocidental. Cornelia reparava nos bares cheios de fumo, nos copos a tilintar, nas conversas sobre aventuras exóticas no estrangeiro e venerava o licor proibido sem nunca o ter provado. Para Cornelia, tudo isto representava o Ocidente, a fuga para além da Cortina de Ferro, a liberdade.

Quando o Muro de Berlim caiu em 1989 e Cornelia chegou à capital alemã unificada pela primeira vez, uma pequena loja chamou a sua atenção. “Todas as pessoas recebiam 100 marcos alemães à chegada, era dinheiro de boas-vindas, e o meu primeiro instinto foi comprar uma garrafa de whisky”, diz Cornelia, que tinha 24 anos na altura. “Comprei uma garrafa de Johnnie Walker e foi o momento mais incrível da minha vida.”

Um campo de cevada na região de Uckermark, conhecida como o “espigueiro” de Brandeburgo, brilha em tons de dourado com o pôr do sol.

Fotografia de PREUßISCHER WHISKY

Agora, passados 31 anos, Cornleia Bohn é uma das fabricantes de whisky mais respeitadas da Alemanha e uma das primeiras mulheres a abrir a sua própria destilaria. Cornelia transformou uma modesta herança familiar numa marca nascida de um sonho de adolescente, produzindo o único single malte orgânico da Alemanha.

Na região de Uckermark, os campos entrelaçam-se com bosques de faias e pastagens repletas de cavalos negros que, por tradição, ainda são usados para puxar carroças nos casamentos e funerais das aldeias. Os frísios foram elementos centrais na cultura eslava local e, apropriadamente, os alambiques de Cornelia estão alojados em estábulos de tijolos vermelhos. A mascote do Preußischer Whisky também é um potro elegante que usa um pickelhaube, um capacete de soldado com um espigão. (Preußischer pode traduzir-se para “prussiano”.)

A empresa que produz o Preußischer Whisky é gerida por uma mulher e é uma das centenas de destiladoras alemãs que estão a ganhar reconhecimento internacional.

Fotografia de PATRICK PLEUL, PICTURE ALLIANCE / DPA / AP IMAGES

Histórias como esta estão por todo o lado em Brandeburgo, escondidas nas destilarias e nos campos de cevada e centeio. Na Grumsiner Brennerei, a atitude em relação ao whisky centra-se profundamente no passado. O proprietário desta destilaria, Thomas Blätterlein, está a revitalizar variedades antigas de grãos esquecidos.

Um destes cereais é o eppweizen da Prússia Oriental, um trigo geralmente ignorado e que é usado no seu malte frutado de grão único. Em termos aromáticos, o seu espírito feno-dourado sugere caramelo; mas o sabor é floral e ligeiramente picante.

'Grãos expectativas'

A menos de 100 quilómetros a sudeste de Berlim, o antigo barista Bastian Heuser fundou a Stork Club/Spreewald, a primeira destilaria de whisky de centeio da Alemanha, no município de Schlepzig. Os moinhos de farinha, as torres em forma de chapéus de bruxas e quintas em ruínas revelam a herança secular desta cidade.

As origens desta destilaria começaram com uma viagem de carro. Em 2015, Bastian Heuser e os coproprietários Steffen Lohr e Sebastian Brack estavam à procura de um barril específico para levar para Berlim. Curiosamente, o proprietário de uma destilaria que eles tinham visitado estava à procura de um sucessor.

Esquerda: A Destilaria de Spreewald, localizada em Schlepzig, produz o Stork Club, o primeiro whisky de centeio da Alemanha.
Direita: Bastian Heuser ao lado de uma destiladora de 600 litros. Este antigo barista de Berlim é cofundador da Destilaria de Spreewald/Stork Club.

Fotografia de MARKUS SCHREIBER, AP IMAGES (ESQUERDA) E BERND SETTNIK, PICTURE ALLIANCE / DPA / AP IMAGES (DIREITA)

“Acasos felizes”, diz Bastian. “O mais absurdo é que passámos de querer comprar um só barril para ficar com a destilaria inteira.”

Por detrás das suas paredes de tijolo, o local mantém o pátio de calçada, o celeiro de whisky e um jardim construído há mais de um século, mas a sensação hipster da marca é claramente contemporânea.

Aparentemente, o que o Stork Club oferece aos seus visitantes é um whisky deslumbrante. Mas a destilaria está habilmente integrada na rede de canais fluviais de Spreewald. É emocionante descobrir mais de 200 vias fluviais interligadas com a vida selvagem, incluindo 250 pares de cegonhas-brancas que regressam todos anos para nidificar na região. Também se recomenda vivamente uma viagem de barco pelos prados pantanosos de Spreewald. Por vezes, esquecemo-nos de que a natureza está no centro da maior rede de cultivo de centeio da Europa.

Os visitantes da Destilaria de Spreewald podem aproveitar o dia com um passeio de barco pela rede de canais da região.

Fotografia de HANS-JOACHIM AUBERT, ALAMY STOCK PHOTO

“A maioria das destilarias alemãs procura inspiração na Escócia”, diz Bastian. “Mas nós sentimo-nos mais atraídos pelo whisky feito nos Estados Unidos. É engraçado porque o centeio faz parte da história de Brandeburgo, mas nunca o acolhemos completamente. Até agora.”

Laços transatlânticos

Se puxarmos este fio começamos a desenrolar outra história. Onde o centeio de Brandeburgo realmente prevalece é do outro lado do Atlântico, nos alambiques de alguns dos maiores destiladores dos Estados Unidos, incluindo no Wild Turkey e no Four Roses do Kentucky, que armazenam safras desta região. Aliás, seria difícil exagerar o impacto que a herança da destilação alemã tem nos EUA, e as raízes de muitas destilarias no Trilho American Whiskey e no Trilho Kentucky Bourbon foram semeadas por imigrantes.

“Não é uma surpresa para ninguém que os alemães deram o pontapé de saída na indústria de whisky de centeio antes da Lei Seca, em 1800, devido ao que aprenderam na Alemanha”, diz Dave Broom, autor de World Atlas of Whisky, que escreve sobre whisky há 30 anos.

Bastian Heuser verifica o whisky na Destilaria de Spreewald.

Fotografia de TOBIAS SCHWARZ, AFP/GETTY IMAGES

A famosa Old Overholt da Pensilvânia, considerada a marca de whisky mais antiga da América a operar de forma continuada, foi fundada pelo menonista alemão Henry Oberholzer em 1810. E Johannes Jakob Böhm mudou-se para o Kentucky para vender bourbon com o nome de Old Jake Beam (agora mais conhecido por Jim Beam).

Existem muitas outras histórias de imigrantes, incluindo a história de George Dickel, de Grünberg, que foi para Nashville em 1844; e a história dos fundadores da destilaria Stitzel-Weller, fabricantes do famoso Pappy Van Winkle. Como seria de esperar, após 13 anos de Lei Seca (1920–1933), muitos destiladores alemães caíram no esquecimento, e hoje os historiadores do whisky têm dificuldades em distinguir entre as verdadeiras histórias pessoais e as mitologias romantizadas pelas marcas.

O futuro de Brandeburgo

A indefinição destas distinções é comum quando se trata de avaliar whisky, e este paradoxo é familiar para Tim Eggenstein, da Old Sandhill Whiskey, na cidade de Bad Belzig, a 90 quilómetros a sudoeste de Berlim. Este destilador envelhece o seu single malte em barris de carvalho virgem alemão, americano e francês, bem como em barris de xerez perfumados e barris de Bordéus, aceitando que cada um coloca a sua própria versão na história de um whisky.

Na Destilaria Glina, a 16 quilómetros de Potsdam, a capital do estado federal de Brandeburgo, o destilador Michael Schultz prefere criar um híbrido raro de centeio-cevada, usando barris de carvalho feitos pelo último tanoeiro mestre remanescente de Brandeburgo. Este whisky é produzido em tons suaves e terrosos.

Uma viagem por Brandeburgo deixa bem patente que o whisky faz agora parte da vida na Alemanha – olhando ao mesmo tempo para trás, para um passado esquecido, e para um futuro mais empreendedor e fértil.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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