Será possível mudar os estereótipos que alimentaram o aumento do turismo no norte gelado da Europa?

Durante décadas, as experiências turísticas, como passeios em trenós puxados por cães, contaram uma falsa narrativa sobre as tradições indígenas Sámi.

Published 18/02/2021, 10:58 WET
Turistas fazem um passeio de trenó

Turistas fazem um passeio de trenó puxado por renas em Levi, na Lapónia finlandesa, o lar ancestral de quase 10.000 indígenas Sámi neste país.

Fotografia de PARKERPHOTOGRAPHY, ALAMY STOCK PHOTO

Os visitantes que chegam ao ártico da Europa recebem uma lista de atividades que vão desde a observação da aurora boreal ao esqui cross-country e, cada vez mais, aos passeios pela neve em trenós puxados por huskies.

Nos últimos anos, os passeios em trenós puxados por cães tornaram-se no símbolo do extremo norte da Europa – a região denominada Sápmi pelos quase 100.000 indígenas Sámi que aqui vivem. Um relatório de 2018 da organização de Turismo Animal da Finlândia revelava que só na Lapónia finlandesa trabalhavam 4.000 huskies. Qual é o problema? “Os trenós puxados por cães foram adotados de outras culturas e transferidos para o cenário turístico da Lapónia na década de 1980”, diz Tuomas Aslak Juuso, presidente do Parlamento Sámi da Finlândia, o órgão representativo dos cerca de 10.000 Sámi que vivem no país. “Não faz parte da cultura Sámi ou finlandesa.”

Para além da falta de autenticidade cultural, os trenós puxados por cães criam tensões com os pastores Sámi de renas. Os cães que andam à solta ou que fogem podem assustar, atacar e matar as renas. “A atividade de trenós puxados por cães também é considerada uma espécie alienígena e culturalmente invasiva”, acrescenta Tuomas, “provocando danos ecológicos, financeiros, de saúde e sociais aos meios de subsistência tradicionais Sámi que fazem originalmente parte da nossa natureza no norte”.

Esta fotografia, tirada na década de 1890, mostra os Sámi no exterior de uma casa tradicional. Os Sámi são um povo indígena fino-ugriano que vive em Sápmi, região que atualmente abrange o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e a península russa de Kola.

Fotografia de Pump Park Vintage Photography, Alamy Stock Photo

Desde trenós puxados por cães a imagens estereotipadas de Sámi em trajes tradicionais, as representações erradas das comunidades indígenas desta região são comercializadas para os visitantes há décadas. Com o crescimento do turismo no ártico da Europa – as receitas na Lapónia sueca aumentaram 86% nos últimos 10 anos – os Sámi estão a tentar encontrar formas de participar na indústria do turismo para contarem as suas histórias com autenticidade.

Na Finlândia, o Parlamento Sámi adotou em 2018 os Princípios para o Turismo Sámi Responsável e Eticamente Sustentável, um conjunto de diretrizes que se foca principalmente nos agentes de turismo não-Sámi que trabalham na Pátria Sámi, bem como nos seus visitantes.

Destacando os trenós puxados por cães (juntamente com os hotéis “iglu” que surgiram recentemente na região), estas diretrizes revelam os potenciais danos das tradições emprestadas – “uma homogeneização através da qual as paisagens turísticas da região ártica começam a parecer todas iguais independentemente da sua diversidade e riqueza”.

As diretrizes adotadas pela Finlândia são apenas um passo para contar a verdadeira história do povo Sámi. Em Sápmi, os habitantes estão a unir-se para repor a verdade, na esperança de enriquecer as experiências de viagem para todos na região.

(Mulheres indígenas estão a remodelar a indústria de turismo do Canadá.)

Interpretação errada da liberdade de acesso à natureza

Na Finlândia, a Pátria Sámi é apenas uma parte de Sápmi, uma área grande e diversa que abrange o norte da Noruega, a Suécia e a Península de Kola na Rússia. Embora as regiões mais setentrionais da Suécia e da Finlândia sejam denominadas Lapónia, toda a região Sápmi foi incorretamente chamada “Lapónia” e promovida como uma “região selvagem intocada”, apesar da longa presença de pessoas que aqui vivem e trabalham.

“Embora a natureza possa parecer intocada em muitas zonas nórdicas, esta região ainda continua a ser utilizada pela população local”, diz Tuomas. “Os Sámi ainda usam a área para o pastoreio de renas, pescar, caçar, colher frutos silvestres e para outras atividades tradicionais. É importante ter isto em consideração quando a indústria do turismo refere os tradicionais direitos finlandeses, ou direitos públicos de acesso à natureza.”

Nos países nórdicos, os “direitos públicos de acesso à natureza”, ou a “liberdade de vaguear”, são considerados direitos humanos básicos. Na Finlândia, Suécia e Noruega, qualquer pessoa pode caminhar, andar de bicicleta, esquiar e acampar em praticamente qualquer lugar. Estes direitos são acompanhados pela responsabilidade de um comportamento respeitoso, mas os visitantes parecem cada vez menos cientes desses princípios.

Outi Kugapi, investigadora de turismo na Universidade da Lapónia, na Finlândia, diz que a interpretação errada destas liberdades gerou tensão entre os habitantes locais e as empresas de viagens de trenós puxados por cães de outros países. “Eles não sabem nada sobre a área, não conhecem ninguém, pelo que não comunicam realmente com os habitantes locais”, diz Outi. “Mas leram os direitos públicos de acesso à natureza, alegando que têm o direito de estar lá e de fazer aquelas atividades.”

“Este mal-entendido fez com que os turistas vagueassem pelos quintais das pessoas e olhassem pelas janelas, acreditando que não havia problema”, diz Outi. Os construtores cometem o mesmo erro, mas numa escala maior. As estâncias de esqui construídas em pastagens tradicionais de renas impactam negativamente uma indústria Sámi que é crucial. “Enquanto isso, os Sámi veem um enorme número de turistas, o lixo e a forma como cada vez mais turistas estão a usar a terra, mas não recebem parte das receitas”, diz Lennart Pittja, profissional de turismo na Suécia.

Apesar de os trenós puxados por cães não fazerem parte das tradições do povo indígena Sámi que vive na Lapónia finlandesa, esta atividade costuma ser comercializada aos turistas como uma experiência indígena.

Fotografia de Jonathan Nackstrand, AFP/ Getty Images

Outi Kugapi tem esperança de que o projeto de Turismo Culturalmente Sensível no Ártico (ARCTISEN) possa ajudar – projeto lançado por Outi com um grupo de investigadores. A ARCTISEN apoia empresas de turismo na Finlândia, Suécia e Noruega na criação de produtos que reflitam genuinamente as culturas locais e beneficiem a região. Através de publicações na internet, kits digitais de ferramentas e um curso online gratuito que será lançado em breve, o projeto salienta as experiências negativas e incentiva as comunidades locais a determinarem como é que as suas culturas podem ser usadas no turismo.

“Os empreendedores ficam assim com ferramentas concretas para tornar os seus negócios mais sensíveis à cultura”, diz Outi. “As nossas atividades já aumentaram a consciencialização e fizeram os empreendedores pensar [sobre] o turismo de forma diferente.”

“A sensibilidade cultural não é algo que se possa alcançar, é mais um estado de espírito, uma forma de trabalhar. Esperamos que o material que criamos melhore as capacidades dos empresários de turismo, e dos decisores, para serem culturalmente mais sensíveis no futuro.”

Décadas de erros de marketing

Os mal-entendidos vão para além dos espaços físicos, chegando a abranger a identidade. Na Finlândia, que tem a maior parte das empresas de turismo no Ártico, os erros de marketing sobre quem são os Sámi datam de meados do século XX, quando as pessoas começaram a viajar para a Lapónia finlandesa para esquiar.

“O povo Sámi tornou-se numa atração turística e começou a ser utilizado no marketing”, diz Outi. A demanda dos turistas para ver Sámi vestidos de forma tradicional tornou-se tão grande que os funcionários das empresas de turismo receberam orientações para se mascararem e fingirem que eram Sámi. Agora esta é a imagem estereotipada que os turistas esperam encontrar.

Pior ainda, foram inventados rituais, como o “batismo da Lapónia”, cerimónia em que um “xamã” vestido de Sámi batiza os turistas. Esta prática duvidosa continua até aos dias de hoje.

Esquerda: Uma tenda Sámi tradicional, chamada lavvu, sob as luzes da aurora boreal em Abisko, na Lapónia sueca.
Direita: Uma pastora de renas Sámi conta histórias sobre a vida e cultura Sámi aos turistas em Tromsø, na Noruega.

Fotografia de ROBERTO MOIOLA, ALAMY STOCK PHOTO (ESQUERDA) E JOANNA KALAFATIS, ALAMY STOCK PHOTO (DIREITA)

Para os visitantes que procuram experiências guiadas e aprovadas por Sámi pode ser complicado. Um grande problema, diz Tuomas, reside no facto de estas experiências serem comercializadas ao lado de produtos falsos. “Os visitantes deparam-se com uma incompatibilidade de produtos que podem ser comercializados sob a mesma alçada de ‘autenticidade’, embora só alguns dos produtos sejam realmente de origem local. E os turistas não sabem distinguir entre eles.”

Na Finlândia, o Parlamento Sámi está a trabalhar para desenvolver um certificado ou rótulo de turismo Sámi com critérios partilhados e específicos por país, bem como um Centro de Informações de Turismo Sámi para oferecer orientações aos visitantes.

“Existe uma necessidade premente de se criar critérios, regras e um sistema de monitorização para garantir a autenticidade, a responsabilidade e a sustentabilidade ética do turismo com base na cultura Sámi, conforme definido e aceite pela comunidade Sámi em questão”, diz Tuomas.

Ajuda para encontrar produtos autênticos

Este tipo de programa baseado na autenticidade existia na Suécia há cerca de 10 anos. Antes de ser descontinuado devido à falta de financiamento, a organização VisitSápmi garantia o selo de “Experiência Sápmi” às empresas que ofereciam experiências Sámi genuínas, éticas e sustentáveis. “Esta organização de viagens sustentáveis também tentou promover um marketing mais subtil sobre o que era a região de Sápmi, para se afastar da forma estereotipada com que a publicidade se focava nos trajes”, diz Lennart Pittja, que era o gestor do projeto.

Por toda a região nórdica estão a surgir esforços semelhantes. O selo Nature’s Best Sápmi premeia produtos de turismo liderados por Sámi que respeitem os critérios baseados no programa de sustentabilidade do Parlamento Sámi da Suécia, o Eallinbiras (“o nosso ambiente de vida” em Sámi do Norte). “Uma das razões mais importantes para se ter um selo Nature’s Best Sápmi é permitir aos próprios Sámi contarem a sua história à sua maneira”, diz a descrição no site.

Na Noruega, foi lançado em 2019 um projeto colaborativo entre o Parlamento Sámi do país e o município de Tromsø para garantir que as informações sobre a cultura Sámi são respeitosas. O objetivo do projeto, batizado com o nome de Vahca (“neve fresca”), “é tornar Tromsø num município pioneiro na gestão da cultura Sámi no turismo”, de acordo com a declaração divulgada no site do Parlamento Sámi norueguês.

De regresso à Finlândia, a organização de turismo Visit Finland divulga as diretrizes do Parlamento Sámi finlandês através de um workshop educacional, o “Sustainable Travel Finland”, que foi lançado no ano passado. “Se tivermos conhecimento de práticas de turismo Sámi pouco éticas na Finlândia... entramos em contacto com a empresa em questão e discutimos os princípios de turismo Sámi eticamente responsáveis com a mesma”, diz Liisa Kokkarinen, gestora do projeto de Desenvolvimento Sustentável da Visit Finland.

Sámi a liderar o caminho

Mais importante ainda, as indústrias de turismo destes países estão a perceber o valor de ter os próprios Sámi na liderança. O Projeto Johtit, cujo nome se traduz para “em movimento”, é um dos exemplos. Administrado pelo Conselho de Turismo do Norte da Noruega e apoiado pelo Parlamento Sámi da Noruega, o projeto engloba uma rede de 21 empresas de turismo Sámi que oferecem atividades que vão para além dos estereótipos.

Anja Christensen, Gestora de Desenvolvimento Estratégico, diz que este projeto surgiu das preocupações em torno da forma como o turismo Sámi era comercializado, muitas vezes com um Sámi vestido em trajes nacionais, posando ao lado de uma rena e uma lavvu (tenda tradicional). “Esta não é a imagem que se deve apresentar ao mundo, porque a cultura Sámi também é uma cultura moderna”, diz Anja. “Queremos apresentar a cultura Sámi tradicional e moderna [e] desenvolver novas experiências turísticas. O conselho também adotou diretrizes fotográficas para garantir que as imagens mostram uma vida autêntica, e não apenas a visão do tipo conto de fadas da cultura Sámi.”

Na empresa de Lennart Pittja, a Sápmi Nature, as experiências de glamping na Área Património Mundial da Lapónia sueca concentram-se em contar histórias e partilhar os conhecimentos e valores Sámi com os hóspedes. Lennart diz que este tipo de turismo sustentável de pequena escala promove a compreensão e o respeito mútuo entre as comunidade, enquanto beneficia as economias locais. “O turismo também pode servir de contrapeso para as outras indústrias mais prejudiciais”, como a mineração, a silvicultura e os parques eólicos, que procuram explorar os recursos naturais de Sápmi.

Lennart diz que, ao longo dos anos, tem visto os Sámi a ganharem mais controlo sobre a forma como as suas culturas são utilizadas pelo turismo. No entanto, a indústria precisa de mais empresários Sámi na indústria de viagens.

“O turismo veio para ficar. Nós, enquanto comunidades Sámi, não podemos dizer não ao turismo, isso já não está nas nossas mãos”, diz Lennart. “Só nos podemos envolver mais na criação de um turismo melhor e mais benéfico com base nos valores e práticas indígenas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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