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Será que a captura de carbono pode tornar os voos mais sustentáveis?

A captura de carbono é mais eficaz do que as tradicionais compensações de carbono, pelo que as companhias aéreas e viajantes estão a começar a embarcar.

Por Chloe Berge
Publicado 11/02/2021, 14:38 WET
Os especialistas dizem que reduzir as emissões das viagens aéreas não é suficiente para mitigar os ...

Os especialistas dizem que reduzir as emissões das viagens aéreas não é suficiente para mitigar os seus efeitos nas alterações climáticas. Também precisamos de extrair carbono da atmosfera.

Fotografia de NASA, EYEVINE/REDUX

Estamos na época do ano em que se definem metas, e a United Airlines anunciou recentemente um objetivo ambicioso. Esta transportadora planeia atingir emissões líquidas de carbono zero até 2050. Como? Em parte apoiando uma tecnologia chamada captura direta de ar, que suga dióxido de carbono da atmosfera.

Os humanos emitem mais de 44 mil milhões de toneladas de CO2 para a atmosfera todos os anos. O turismo contribui com cerca de 8% destas emissões, com os voos a serem responsáveis pela maior parcela, de acordo com um estudo de 2018 publicado na Nature Climate Change.

Durante a pandemia temos testemunhado como os ecossistemas beneficiam com o abrandamento de uma economia global frenética que é em grande parte alimentada por combustíveis fósseis. Para muitos viajantes foi um momento de introspeção que os fez repensar a forma como voam e por que razão o fazem – ao mesmo tempo que procuram maneiras de reduzir a sua pegada de carbono.

A compra das tradicionais compensações de carbono pode ajudar, mas os seus impactos são difíceis de quantificar. A remoção de carbono da atmosfera e respetivo armazenamento no solo, a chamada captura direta de ar (CDA), pode oferecer uma solução mais concreta.

Até agora, esta tecnologia de emissões negativas tem estado limitada aos círculos científicos, mas há novas iniciativas que visam envolver a indústria de viagens – e os viajantes.

Como funciona a captura direta de ar

A CDA, um tipo específico de captura de carbono, é o foco de empresas como a suíça Climeworks. As máquinas modulares desta empresa usam um ventilador para sugar o ar para um coletor, que captura o carbono com um filtro feito de compostos orgânicos. Quando o filtro está cheio, o coletor é fechado e aquecido a 100°C, libertando dióxido de carbono puro.

Nas instalações da Climeworks em Hellisheidi, na Islândia, que parecem um acampamento espacial numa paisagem lunar, o carbono é depois combinado com água e canalizado para o subsolo. As formações naturais de basalto na terra reagem com o carbono, transformando-o em pedra ao longo de alguns anos.

A chave para tornar estas fábricas viáveis é alimentá-las com energia renovável. Em Hellisheidi, a Climeworks fez parceria com a CarbFix, uma empresa que se especializa na rápida mineralização subterrânea de dióxido de carbono através de uma fábrica de energia geotérmica.

No caso do projeto da Climeworks em Hinwil, na Suíça, uma instalação de incineração de resíduos alimenta o processo. Os outros projetos de CDA pelo mundo inteiro – incluindo o Carbon Engineering no Canadá e o Global Thermostat, sediado nos Estados Unidos – usam fontes de energia renováveis semelhantes.

Em Hinwil, na Suíça, a Climeworks construiu uma fábrica de captura de carbono alimentada por uma incineradora de resíduos. Esta fábrica pode ser visitada através de uma experiência online do Airbnb.

Fotografia de GAETAN BALLY, KEYSTONE/REDUX

‘Uma floresta sintética’

Podemos imaginar uma instalação de captura direta de ar como se fosse uma super-floresta. Embora as florestas reais removam o carbono naturalmente, a maioria dos especialistas reconhece que esse processo é demasiado lento para ter o impacto dramático de que o nosso planeta precisa.

“A biosfera terrestre e o oceano absorvem coletivamente apenas metade do que libertamos na atmosfera todos os anos”, diz Jennifer Wilcox, especialista em política energética da Universidade da Pensilvânia, que foi recentemente nomeada para um cargo de liderança no Departamento de Energia dos EUA. “Estamos a ficar sem tempo.”

Um novo estudo mostra que o degelo está a acontecer a um ritmo mais acentuado, colocando o planeta no caminho do pior cenário de alterações climáticas delineado pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas em 2018. Para além de precisarmos de acelerar a remoção de carbono, quando examinamos os diferentes métodos de remoção também precisamos de levar em consideração a saúde do oceano (a absorção de dióxido de carbono por parte do oceano provoca acidificação) e o uso da terra. 

“Uma fábrica de captura direta de ar pode ser até cem vezes mais eficaz do que uma floresta”, diz Jennifer. “A terra é um recurso limitado... o benefício da captura direta de ar é não necessitar de terra arável, e é por isso que eu penso [nas fábricas de captura direta de ar] como se fossem uma floresta sintética.”

Na Climeworks, cada coletor captura o equivalente a 2.000 árvores e, como a concentração de carbono é a mesma em todo o mundo, estas instalações não dependem da sua localização.

O que as companhias aéreas estão a fazer

Para lançar o seu plano de captura de carbono, a United investiu na 1PointFive. Esta empresa planeia construir uma planta de CDA em grande escala no Texas que poderá sequestrar de forma permanente um milhão de toneladas deste gás todos os anos. A Delta também está a integrar a remoção de carbono nas suas estratégias de sustentabilidade.

Nos projetos de CDA onde o carbono capturado não é armazenado no solo, o gás pode ser reciclado e usado como matéria-prima. Na fábrica da Climeworks em Hinwil, por exemplo, o carbono é usado para fertilizar estufas e adicionar efervescência à Valser, uma água mineral suíça.

(As viagens aéreas mais sustentáveis vão depender destas tecnologias emergentes.)

“Ter um modelo de negócio onde se pode vender CO2 enquanto produto ajuda, porque desenvolve tecnologias”, diz David Goldberg, professor de investigação no Instituto da Terra da Universidade de Colúmbia. “Um destes produtos pode ser combustível.”

Quando misturado com hidrogénio feito de uma fonte de energia renovável, o carbono capturado pode ser usado para criar um combustível sustentável de aviação, como o que a Norsk e-Fuel está a produzir. “Queima-se o combustível e o carbono regressa para a atmosfera, mas não se usou petróleo no processo”, diz Jennifer.

Embora este tipo de aplicação não remova de forma permanente o carbono do ar, cria uma economia circular, bem como um mercado para a remoção de carbono que pode permitir que a tecnologia se expanda a um nível com impactos mais reais.

Numa instalação de captura de carbono em Hellisheidi, na Islândia, o gás é misturado com água e canalizado para o subsolo, onde se mineraliza em pedra.

Fotografia de ARCTIC IMAGES, ALAMY STOCK PHOTO

Como os viajantes podem ajudar

A Tomorrow’s Air, um coletivo de viajantes que fez parceria com a Climeworks, visa envolver os viajantes nestes esforços. Os passageiros das companhias aéreas podem compensar as suas emissões com doações para a captura de carbono mensalmente, enquanto recebem vantagens de empresas de turismo afiliadas, como a Tierra Del Volcan e a Natural Habitat Adventures.

Através de iniciativas que incluem a Artists for Air e as visitas Airbnb Climeworks, este coletivo também educa as pessoas sobre as formas como esta tecnologia ajuda a combater as alterações climáticas.

“Há muito potencial para os viajantes individuais conseguirem agir em prol do clima pelas suas próprias mãos”, diz Christina Beckmann, fundadora da Tomorrow’s Air. “Precisamos de fazer tudo o que conseguirmos para reduzir as nossas emissões, mas ninguém está a falar sobre um armazenamento permanente”, diz Christina.

(O que significam as vacinas para o regresso às viagens.)

Os viajantes já repararam nos efeitos visíveis das alterações climáticas e estão a procurar maneiras concretas de compensar as emissões. “Conseguimos ver os glaciares a derreter na Gronelândia”, diz Lykke Geisler-Yakaboylu, entusiasta de viagens e fundador da empresa de marketing de destinos turísticos Sila Greenland. “Nos últimos dois anos tivemos os verões mais quentes.”

Lykke Geisler-Yakaboylu juntou-se recentemente à Tomorrow’s Air e planeia integrar uma compensação de CDA no custo das suas viagens. “Parece que podemos realmente fazer algo.”

Embora as compensações tradicionais – como o plantio de árvores – tenham o seu valor, a CDA tem um impacto mais imediato. “Se dissermos que vamos compensar algo e isso só vai acontecer daqui a 50 anos, quando uma árvore crescer, mas estamos a emitir hoje, acaba por não parecer uma compensação”, diz David Goldberg.

As compensações de reflorestamento também são afetadas pelos incêndios florestais que surgem pelo mundo inteiro, e que podem libertar carbono sequestrado de regresso para a atmosfera. “Retirar CO2 e colocá-lo de parte – isso é uma compensação real, um armazenamento real”, acrescenta David.

Atingir o potencial

Incentivar os viajantes a perceber o valor da remoção de carbono pode ajudar a criar viagens mais significativas. “Em todas as nossas viagens, compensamos as emissões de CO2 em 1.25 vezes através de vários projetos, um deles sendo a Climeworks”, diz Jeff Bonaldi, fundador da The Explorer’s Passage.

“Os viajantes sabem para onde vai o seu dinheiro e isso muda as coisas para eles, porque sabem que estão ligados a algo que é mais do que apenas uma aventura”, diz Jeff. “Estão ligados na tentativa de ajudar o planeta.”

A demanda por compensações capturadas de carbono por parte de consumidores e empresas também pode ajudar a reduzir o custo desta tecnologia – que ainda é incrivelmente elevado. A Microsoft, por exemplo, prometeu recentemente atingir a neutralidade de carbono até 2030 através do uso de várias tecnologias de captura e armazenamento.

“Os governos e a política também têm um papel a desempenhar; esta tecnologia por si só não nos vai nos salvar”, diz Jennifer Wilcox. Em dezembro, o Congresso dos EUA reservou 447 milhões de dólares para pesquisar e desenvolver projetos de remoção de carbono em grande escala. A meta do presidente Joe Biden para ter uma economia com emissões líquidas zero até 2050 inclui investimentos federais e incentivos fiscais para as tecnologias de captura de carbono.

O potencial da CDA para combater as alterações climáticas e tornar as viagens mais sustentáveis é promissor. Mas não é de forma alguma um remédio para todos os males. Os especialistas esperam que esta tecnologia funcione em conjunto com outras formas de redução de carbono.

“Temos de usar tudo o que temos disponível”, diz David Goldberg. “Precisamos de escalar esta tecnologia [de captura direta de ar] o mais rápido possível e reduzir as emissões; não temos escolha.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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