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Caminhar à luz das estrelas é a atividade que precisamos neste momento

Ao caminhar à noite, os amantes da natureza ganham uma nova perspetiva enquanto fogem das multidões.

Por Rachael Davies
Publicado 11/03/2021, 14:35 WET
A Park interpreter poses for a scene in Grasslands National Park

Um guia contempla a Via Láctea no Parque Nacional de Grasslands, uma reserva Dark-Sky em Saskatchewan, no Canadá.

Fotografia de VW Pics, Universal Images Group/Getty Images

A fotógrafa Rebecca Douglas é fascinada pelo céu noturno. O seu amor pelas estrelas levou esta habitante do Reino Unido a fazer caminhadas à luz das estrelas pela Islândia até ao Ártico, onde mergulha em trilhos escuros para captar constelações cintilantes e planetas nas suas imagens.

Para os amantes da natureza como Rebecca, caminhar à luz das estrelas está a revelar-se um antídoto muito bem-vindo em tempos de pandemia. Ao visitar colinas e vales após o pôr do sol, os entusiastas do ar livre não desfrutam apenas de todos os benefícios de se estar na natureza, também encontram trilhos sem multidões que se desdobram sob um infinito céu noturno.

Caminhar durante a noite não é invulgar. Muitas pessoas caminham depois de anoitecer para verem o nascer do sol no topo de uma montanha. Caminhar à luz das estrelas vai mais além, combinando caminhadas com observação estelar. Em vez de visitarmos um observatório ou instalarmos um telescópio nos nossos quintais, estas caminhadas levam-nos numa breve jornada para olharmos para as estrelas de diferentes pontos de vista.

Um casal percorre um trilho montanhoso no parque do Glaciar Val Senales, em Tirol do Sul, Itália.

Fotografia de Stephen Lux, Alamy

Agora chegou o momento de fazer um passeio após o pôr do sol. O dia 20 de março marca o equinócio vernal – o primeiro dia da primavera no hemisfério norte, quando o dia e a noite têm praticamente a mesma duração. Depois, as noites ficam mais curtas a caminho do verão.

Porquê uma caminhada à luz das estrelas?

Quer esteja na encosta de uma montanha com a silhueta da paisagem a emoldurar a lua ou a olhar para um lago escuro com as estrelas refletidas na água, uma caminhada à luz das estrelas costuma ser muito mais dinâmica do que a tradicional observação de estrelas.

“[Um observatório] não substitui uma paisagem rural debaixo de um manto de estrelas”, diz Gary Lintern, do Stargazing Nights em Durham, Inglaterra, que organiza caminhadas noturnas. “É uma experiência mágica e gosto de a partilhar, sobretudo em alguns dos meus locais favoritos, como a queda de água High Force”, a maior catarata de Inglaterra, em Teesdale.

Para além disso, caminhar à luz das estrelas faz bem à saúde. Existem diversos estudos que mostram os benefícios de se estar na natureza. Passar pelo menos duas horas por semana ao ar livre, principalmente em atividades que envolvam “atenção sem esforço”, pode diminuir a pressão arterial, a frequência cardíaca e os níveis de stress.

Caminhar à noite tem o benefício adicional de melhorar o sono, algo que é importante para a saúde em geral, diz Christina Pierpaoli Parker, investigadora de sono comportamental na Universidade do Alabama.

Christina Parker diz que caminhar à luz das estrelas atua sobre dois processos fisiológicos que determinam a qualidade do sono. “Os movimentos e exercícios, como caminhadas relaxantes para observar estrelas ao ar livre, podem promover o sono agindo sobre o impulso homeostático do mesmo”, influenciando a pressão para dormitar, diz Christina. Os passeios noturnos também podem neutralizar os efeitos perturbadores que o aumento do tempo passado em frente a um ecrã têm no sistema circadiano, a forma de o corpo regular o ciclo do sono.

Entre na noite

Portanto, como é que um aspirante a caminhante estelar começa? Não é preciso muito mais do que um par de botas resistentes.

“Embora os telescópios e binóculos tenham obviamente a sua utilidade, eu incentivo sempre as pessoas a começarem a observar as estrelas a olho nu”, diz Gary Lintern. “Quando nos concentramos em algo pequeno [como quando usamos binóculos], é um estado de espírito completamente diferente em comparação com perdermo-nos simplesmente na expansão infinita do espaço e deixar as nossas mentes vaguear.”

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Gary aconselha as pessoas a obterem informações sobre o céu noturno antes de saírem de casa. As aplicações gratuitas para telemóvel, como a Star Walk 2, podem ajudar a identificar os corpos celestes e são fáceis de utilizar – basta apontar o telefone para o céu para o mapear. Sites como o Sky & Telescope e o Space Place da NASA cobrem as informações básicas, têm explicações detalhadas sobre as constelações e oferecem conselhos sobre equipamentos e materiais. O site Space publica atualizações mensais sobre a observação do céu, para que possa planear os seus passeios em torno de eventos como chuvas de meteoros.

Quando estiver familiarizado com o que deve procurar, visite o site da International Dark-Sky Association (IDSA) para obter uma lista de lugares para visitar. Desde 2001, a IDSA tem trabalhado com regiões pelo mundo inteiro para neutralizar a poluição luminosa, que está a piorar.

Os locais listados neste site enquadram-se numa de cinco designações: comunidades, parques, reservas, santuários e céu noturno urbano. Os santuários – os mais remotos – têm menos poluição luminosa, o que significa vistas mais limpas. Mas as comunidades, parques e locais de céu noturno urbano são mais fáceis de aceder e podem ser mais adequados para quem está a começar.

Os pontos de observação de estrelas no Reino Unido incluem o Parque Nacional de Yorkshire Dales, com as suas colinas ondulantes. Para encontrar um dos lugares mais escuros do Reino Unido, visite o Observatório Dark Sky Escocês, que fica no extremo norte de Loch Doon, onde as montanhas à beira do lago enquadram uma vista mágica do céu.

A Via Láctea eleva-se por cima do histórico Viaduto Ribblehead em North Yorkshire, Inglaterra.

Nos Estados Unidos, os parques nacionais são ótimas opções para os caminhantes noturnos mais inexperientes. Muitos dos parques oferecem passeios guiados que explicam a importância de se proteger o céu noturno. Os caminhantes mais experientes podem querer visitar o Parque Nacional Glacier, em Montana, onde as Montanhas Rochosas formam um cenário icónico para observar o crepúsculo.

Normalmente apinhado de gente durante o dia, o parque Big Bend no sudoeste do Texas e o parque Grand Canyon no Arizona são perfeitos para caminhadas noturnas. Estes Parques Internacionais Dark Sky são cenários ideais para captar a “conjunção quadrupla” antes do amanhecer nos dias 9 e 10 de março. É quando Mercúrio, Júpiter e Saturno aparecem em linha reta, em ângulo com a lua em quarto crescente.

A Reserva Internacional Dark Sky Sangre de Cristo, no Colorado, é o melhor local para esticar as pernas. Com mais de 7.700 quilómetros quadrados, esta reserva está prestes a tornar-se na maior área designada Dark-Sky a nível mundial.

Se os parques nacionais e outras áreas designadas Dark-Sky estiverem fora do seu alcance, verifique os clubes de astronomia e observatórios locais para sessões guiadas. Sites como o da União Astronómica Internacional são úteis para encontrar recursos por região. Os coordenadores nacionais desta associação podem fornecer detalhes sobre programas em regiões específicas de todo o mundo.

Independentemente de sair em grupo ou sozinho, o importante é estar em segurança. Para além das coisas mais óbvias (lanterna e água, usar máscara e manter o distanciamento social caso esteja com outras pessoas), o guia Dafydd Wyn Morgan, da Iniciativa Cambrian Mountains, recomenda apenas trilhos que já fez durante o dia. E também sugere caminhadas com um amigo e avisar em casa os detalhes do passeio.

Resumindo, o melhor conselho é fazer as coisas com calma e desfrutar da jornada.

“Com todo o caos que está a acontecer à nossa volta, e com a forma como isso é desnorteante, a única constante tem sido o céu noturno”, explica Rebecca Douglas, que tem explorado alguns lugares mais populares nas suas redondezas, como os penhascos de Ramsgate, em Kent, muito depois das multidões terem regressado a casa. “Caminhar é uma forma bastante focada de olhar para cima e lembrarmo-nos de que, embora tudo pareça muito diferente, algumas coisas permanecem as mesmas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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