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Esta sociedade nativo-americana pouco conhecida já foi tão poderosa quanto os Incas e Aztecas

Os Spiro já foram “o grupo mais poderoso que alguma vez existiu” na América do Norte. Uma inovadora exposição em Oklahoma partilha a história deste povo.

Por Heide Brandes
Publicado 11/03/2021, 12:16
Quando foram descobertos em 1935, os Montes Spiro de Oklahoma foram apelidados de “túmulo do Rei ...

Quando foram descobertos em 1935, os Montes Spiro de Oklahoma foram apelidados de “túmulo do Rei Tut do Vale do Arkansas” pelo jornal Kansas City Star. Os montes continham milhares de artefactos sofisticados e elaboradamente decorados deste povo nativo-americano da cultura Mississipiana, povo que prosperou na região antes da chegada dos colonos europeus.

Fotografia de Mostardi Photography, Alamy Stock Photo

Copos feitos de conchas esculpidas com seres míticos. Cachimbos enormes com efígies. Cestos com missangas. Estes são alguns dos objetos arqueologicamente importantes que foram escavados nos Montes Spiro. Muitas vezes ignorado, este local nativo-americano na região Centro-Oeste dos EUA está entre as maiores fontes de artefactos nativo-americanos da cultura Mississipiana alguma vez encontrados.

Localizados na fronteira entre o estado de Oklahoma e Arkansas, os Montes Spiro faziam parte de um complexo urbano que existiu entre há 800 e 1450 anos d.C. No seu auge, a cidade sustentava uma população de cerca de 10.000 pessoas. A confederação política, comercial e religiosa da cultura Mississipiana incorporava mais de 60 tribos diferentes e estendia-se desde a Costa do Golfo da Flórida até aos Grandes Lagos, e desde as Montanhas Rochosas até à costa da Virgínia.

A população Spiro, juntamente com outros grupos da cultura Mississipiana de toda região leste da América do Norte, chegou a ser tão poderosa quanto os Incas e Aztecas, mas apesar do seu tamanho e sociedade de comércio sofisticada, o seu legado nunca foi bem compreendido.

Agora, uma exposição inovadora visa mudar isso. Inaugurada em fevereiro e aberta até 9 de maio, a exposição “Spiro e a Arte do Mundo Mississipiano”, do Museu Nacional Cowboy & Western Heritage de Oklahoma City, é a maior apresentação sobre os Montes Spiro alguma vez realizada por qualquer museu.

Esta exposição ajuda a documentar “o grupo mais poderoso que alguma vez existiu” nos EUA, de acordo com Dennis Peterson, diretor executivo do Centro Arqueológico dos Montes Spiro.

“O povo que viveu [em Spiro] chegou a controlar o que chamamos cultura Mississipiana. Spiro fez trocas comerciais, comunicou e controlou diretamente praticamente todos os Estados Unidos durante mais de 350 anos, exceto o extremo nordeste e o extremo noroeste americano, e fê-lo quase sem recorrer à guerra violenta”, diz Dennis.

As descobertas arqueológicas de Spiro oferecem informações importantes sobre a cultura deste antigo povo Mississipiano.

O tesouro cultural

“O que torna Spiro realmente único, para além de ser o monte com mais objetos alguma vez descoberto na América do Norte, é incluir objetos de todo o mundo conhecido [desta região]”, diz Eric Singleton, curador responsável pela nova exposição do Museu Nacional Cowboy & Western Heritage.

“Temos cobre do Lago Superior, copos feitos de conchas de Florida Keys, contas do Golfo da Califórnia, itens do Vale do México, e estamos apenas a falar de alguns dos objetos. Eles convidavam pessoas de todas as partes que conheciam para trazerem os seus objetos sagrados para Spiro, para serem usados em rituais.”

Esquerda: Entre os tesouros dos Montes Spiro estão conchas da Costa do Golfo que foram transformadas em copos e gravadas com desenhos simbólicos que incluem homens e criaturas míticas.
Direita: Esculturas de madeira, cachimbos enormes com efígies e joalharia feita de conchas também figuravam entre os milhares de itens recuperados em Spiro.

Fotografia de MUSEU NACIONAL DO ÍNDIO AMERICANO, INSTITUTO SMITHSONIAN

Enquanto curador principal, Eric Singleton escolheu artefactos que representam as diferentes nações e a importância dos rituais. Placas de cobre gravadas e esculturas de madeira, milhares de pérolas e contas, enormes cachimbos com efígies, joias e copos elaboradamente gravados estão entre os milhares de itens recuperados em Spiro.

Para além dos artefactos históricos originais, a exposição também apresenta obras de arte de artistas indígenas contemporâneos, cujo legado vem do povo Spiro. “O aspeto mais importante de tudo isto é trabalhar com artistas contemporâneos e mostrar realmente a continuidade cultural e a resiliência da comunidade”, diz Eric.

Chase Kahwinhut Earles, ceramista tradicional contemporâneo e membro do povo Caddo, é um dos 12 artistas de 16 tribos diferentes apresentadas na exposição.

“Com algumas das minhas peças, tento educar as pessoas sobre a cultura dos construtores dos montes. Os Spiro são irmãos e irmãs do povo Caddo. Conseguimos ver muitas das influências e designs do povo Caddo nos Spiro”, diz Chase Earles. “Por exemplo, [um dos meus trabalhos] é na verdade uma peça Spiro, mas parece nova com os elementos de design que coloquei nela.”

Os mistérios dos montes

Os Spiro criaram comunidades agrícolas altamente desenvolvidas no Centro-Oeste e Sudeste americano que incluíam enormes plataformas de terra e montes funerários. Tradicionalmente, os líderes construíam as suas casas por cima das do chefe anterior, o que significa que quanto mais alto era o monte, mais prestigiado era o líder.

O Monte Craig – o segundo maior e único monte funerário em Spiro – continha os restos mortais de líderes importantes, juntamente com roupas, peles, cestos e outros itens para ajudar na sua transição para o outro mundo, diz Dennis Peterson.

Os Montes Spiro foram abandonados pela sua população em 1500. Os historiadores referem uma longa seca e lutas políticas internas como fatores que contribuíram para o seu abandono. O local permaneceu praticamente intocado até à década de 1930, quando caçadores de tesouros tomaram conhecimento das antiguidades ali enterradas. O que se seguiu foi um dos maiores e mais longos episódios de pilhagem da América do Norte.

Em 1936, depois de pilhagens em massa terem destruído quase um terço dos Montes Spiro, as escavações científicas começaram, descobrindo mais de seiscentas sepulturas completas ou parciais e milhares de artefactos. Hoje, os 12 montes restantes atuam como sítio arqueológico onde os visitantes podem aprender mais sobre esta outrora poderosa sociedade nativo-americana.

Fotografia de SOCIEDADE HISTÓRICA DE OKLAHOMA (ESQUERDA) E EMILY BRASHIER (DIREITA)

Em 1935, Spiro recebeu proteção judicial e deu-se início a uma escavação arqueológica financiada pelo governo. Hoje, mais de 65 instalações públicas nos EUA e dezenas de instituições pelo mundo inteiro possuem artefactos Spiro, incluindo o Smithsonian, o Louvre, o Museu Britânico e o Museu Nacional da Alemanha.

O que torna esta nova exposição tão importante é o facto de os seus curadores trabalharem diretamente com pessoas de ascendência Spiro antes de exibirem os artefactos publicamente. Falar com a Nação Caddo, o povo Wichita e as tribos afiliadas antes de avançar com a exposição foi um passo crucial para partilhar esta história.

“[Esta exposição] nunca foi feita do ponto de vista de um museu; foi feita do ponto de vista tribal e comunitário ”, diz Eric.

Equilibrar respeito e repatriação e a demanda por educação e exibição é uma luta contínua para tribos e museus. A Lei de Proteção e Repatriação de Túmulos Nativo-Americanos (NAGPRA) de 1990 tinha como objetivo alterar esta situação.

“Durante décadas e décadas, os arqueólogos encontravam estes locais, escavavam-nos e encontravam todas as coisas que continham”, diz Kelli Mosteller, diretora do Centro de Herança Cultural da Nação Potawatomi, em Shawnee, Oklahoma. “[Os museus] exibiam depois as coisas e [diziam] para as pessoas irem ver e aprender sobre pessoas míticas. Éramos tratados como coisas exóticas.”

Ao promulgar a NAGPRA, o Congresso americano reconheceu que os restos mortais de qualquer antepassado “devem ser sempre tratados com dignidade e respeito”. Isto significa que quaisquer restos mortais de nativos-americanos, objetos funerários, objetos sagrados e objetos de património cultural retirados de terras federais ou tribais regressam para a comunidade onde pertencem. Para além disso, qualquer instituição que receba financiamento federal deve fazer um inventário dos itens indígenas que possui e, de seguida, consultar a nação indígena para os repatriar.

“A [NAGPRA] fornece um mecanismo para que coleções de restos mortais de antepassados de nativos-americanos, objetos funerários e outros itens culturais sejam devolvidos às suas comunidades”, diz Jayne-Leigh Thomas, diretora do departamento NAGPRA da Universidade de Indiana. “É uma questão de soberania tribal. É uma questão de respeito. ”

Onde descobrir mais sobre a história dos Spiro

Existem muitos outros lugares onde pode aprender mais sobre a cultura Spiro e Mississipiana em Oklahoma.

A oeste da capital do estado, a cerca de três horas de distância, pode visitar o Centro Arqueológico dos Montes Spiro, o único sítio arqueológico pré-histórico nativo-americano em Oklahoma que está aberto ao público. As visitas programadas investigam a riqueza cultural deste antigo povo Mississipiano, e o museu local inclui muitas pesquisas e réplicas dos itens descobertos em Spiro.

Em Oklahoma, os outros museus com coleções de obras de arte e artefactos Spiro incluem o Museu Sam Noble de História Natural da Universidade de Oklahoma; o Museu Gilcrease em Tulsa; o Woolaroc em Bartlesville; o Museu do Rio Vermelho em Idabel; o Museu do Condado LeFlore e o Centro Histórico de Oklahoma.

A exposição “Spiro e a Arte do Mundo Mississipiano” está aberta ao público na Cidade de Oklahoma até ao dia 9 de maio. Os visitantes também podem explorar a exposição através de uma visita virtual. A exposição segue depois para o Museu de Arte de Birmingham, no Alabama, de 9 de outubro a 6 de fevereiro de 2022, e para o Museu de Arte de Dallas, de 13 de março de 2022 a 7 de agosto de 2022.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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