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Estes 9 memoriais revelam o impacto global da escravatura

Mais de 12 milhões de africanos foram retirados à força de suas casas e vendidos como escravos. Estes locais contam as suas histórias.

Por NNEKA OKONA
Publicado 2/03/2021, 13:52 WET
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Construída por escravos e homens livres durante o século XVIII, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos realiza cultos semanais de candomblé – uma mistura entre religiões tradicionais de África Ocidental e catolicismo romano.

Fotografia de Nick Potts, Getty Images

O esforço feito no ano passado para tornar o movimento Black Lives Matter popular desafiou os viajantes a procurarem perspetivas que geralmente não estão incluídas nos guias de viagens. Esta faceta do movimento fortaleceu ainda mais um debate recorrente sobre as origens e interpretações dos marcos históricos, dos memoriais mais venerados e de alguns locais-chave nos Estados Unidos, sobretudo locais da era colonial e da Guerra Civil.

Há cerca de 400 anos, africanos escravizados chegaram pela primeira vez à Virgínia colonial nos EUA. Mas o impacto da escravatura foi muito para além das colónias originais. O comércio transatlântico de escravos, ativo entre 1525 e 1866, deslocou agressivamente 12.5 milhões de pessoas, principalmente de África Central e Ocidental, e redistribuiu-as pelas Américas, Europa e Caraíbas. Para assinalar esta tragédia e garantir que o mundo dá passos em direção a uma reconciliação, a UNESCO lançou em 1994 o projeto Rota do Escravo para documentar os dezenas de locais essenciais para a história da escravatura.

Eis nove locais que desempenharam um papel fundamental no comércio transatlântico de escravos – locais que entretanto tomaram medidas para aumentar a sensibilização pública sobre o seu impacto global na escravatura.

Centro Histórico de Salvador da Bahia (Estado da Bahia, Brasil)

Em meados do século XVI, esta densa cidade colonial, com as suas ruas repletas de edifícios de cores vivas, tornou-se num dos primeiros mercados de escravos das Américas. Bahia, a antiga capital do Brasil, recebeu milhares de africanos escravizados para trabalhar nos seus campos de cana-de-açúcar, ajudando a tornar o Brasil no maior exportador de açúcar para a Europa no século XVII.

Os viajantes que visitam este epicentro da cultura afro-brasileira podem ouvir os sons rítmicos do samba a ecoar pelas ruas de pedra calçada de Pelourinho, um bairro histórico onde surgiu o primeiro mercado de escravos, e local onde os escravos também eram publicamente punidos por várias infrações.

Ali perto, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, os visitantes aprendem sobre o papel dos escravos na construção e criação desta catedral durante o século XVIII. O seu serviço religioso de candomblé – uma mistura entre as religiões tradicionais de África Ocidental e o catolicismo romano – inclui atabaques (tambores afro-brasileiros) e antigos cantos africanos e danças.

O Castelo de Cape Coast é um dos cerca de quarenta “castelos de escravos”, ou fortes, construídos na Costa do Ouro de África Ocidental (agora Gana) para prender os escravos antes de estes serem transportados em navios e vendidos nas Américas e nas Caraíbas. Agora, o Castelo de Cape Coast é um memorial e museu.

Fotografia de Ute Grabowsky, Getty Images

Castelo de Cape Coast (Cape Coast, Gana)

A Costa do Ouro, uma antiga colónia portuguesa e atual Gana, já foi o epicentro do comércio de escravos. Entre os mais de 40 castelos e fortes construídos pelos portugueses para servir de prisão para os africanos escravizados, o Castelo de Cape Coast é o mais conhecido. Cerca de 1.500 escravos foram aqui mantidos nas masmorras do castelo, antes de saírem pelo portão principal, também conhecido por Porta Sem Retorno. Este era geralmente o último vislumbre que os escravos tinham da sua terra natal antes de atravessarem o Atlântico. O castelo atua agora como museu, educando os seus visitantes sobre os horrores que ali ocorreram.

Declarada Património Mundial pela UNESCO em 2008, a montanha Le Morne Brabant forneceu abrigo temporário para os escravos que escapavam do cativeiro no início do século XIX.

Fotografia de Melissa Jooste, Alamy Stock Photo

Le Morne Brabant (Maurícias)

Le Morne Brabant, um monólito basáltico localizado na costa oeste das ilhas Maurícias, já serviu de abrigo temporário para as pessoas que escapavam da escravatura no início do século XIX. Os fugitivos, denominados “ilhados”, construíam aqui casas nas cavernas embutidas na montanha.

Hoje, os visitantes podem prestar homenagem aos escravos do passado, que encaravam Le Morne como um lugar de liberdade e salvação, visitando o Monumento Internacional da Rota do Escravo que fica no sopé da montanha. O design deste memorial segue o padrão de uma bússola, e cada escultura de pedra aponta para os diferentes locais onde os escravos eram comprados ou raptados.

Cais de Gadsden (Charleston, Carolina do Sul)

Durante o comércio transatlântico de escravos, cerca de 40% dos escravos africanos levados para os EUA passavam pelo porto de Charleston, que na época era o maior porto da América do Norte. Os que sobreviviam à viagem eram mantidos em vários armazéns e mercados de escravos até serem vendidos pelo lance mais alto. Os historiadores estimam que mais de 90% de todos os afro-americanos conseguem rastrear pelo menos um dos seus antepassados até esta região.

Após 20 anos de planeamento, foi anunciado que o antigo cais seria a futura casa do Museu Internacional Afro-Americano, que deve ser inaugurado no início de 2022. Para além das exposições históricas e culturais, o museu também irá incluir um centro de história familiar onde se podem pesquisar antepassados, um laboratório de justiça social e um jardim memorial para os antigos africanos. Os viajantes podem caminhar alguns quarteirões para visitar o Museu do Antigo Mercado de Escravos – construído em 1859 e considerado o último local de leilões de escravos da Carolina do Sul – para ler relatos sobre o papel desempenhado por Charleston no comércio interestadual de escravos.

Esquerda: A Maison des Esclaves (Casa dos Escravos), localizada na ilha Gorée, no Senegal, era um dos maiores centros de comércio de escravos na costa oeste de África. Agora é um testemunho do sofrimento humano e da devastação provocada pelo comércio de escravos.
Direita: O memorial Gorée-Almadies, adjacente à Maison des Esclaves, simboliza a ligação entre África e todas as comunidades negras que vivem do outro lado do mundo.

Fotografia de ROBERT HARDING. ALAMY STOCK PHOTO (esquerda); WOLFGANG KAEHLER. GETTY IMAGES (direita)

Ilha de Gorée (Dakar, Senegal)

Gorée, uma pequena ilha ao largo do Senegal, foi o maior centro de comércio de escravos na costa oeste de África entre os séculos XV e XIX. A Maison des Esclaves (Casa dos Escravos), uma impressionante casa vermelha construída na ilha em 1786, é considerada uma homenagem ao ponto final de partida dos escravizados de África.

Convertido em museu e memorial em 1962, o edifício partilha uma história mais intimista sobre o comércio de escravos documentando histórias pessoais sobre os donos da casa e dos escravos que ali trabalharam. Para descobrir mais sobre o papel integral do Senegal na escravatura e sobre as figuras-chave na resistência contra os colonizadores europeus visite o Museu Histórico IFAN, uma velha bateria de canhões que foi transformada em museu histórico em 1936.

Cidade Mercantil Marítima de Liverpool (Inglaterra, Reino Unido)

A Cidade Mercantil Marítima de Liverpool oferece vistas deslumbrantes desde as docas Stanley e Albert até Pier Head, mas também foi o coração do tráfico de escravos da cidade desde 1696 até ao início de 1800. No seu auge, esta cidade à beira-mar controlava 80% do comércio britânico de escravos, e 40% da sua riqueza vinha do transporte de escravos de África. Esculturas de pedra dos navios negreiros podem ser encontradas no Edifício do Porto de Liverpool, em Pier Head.

Os viajantes podem visitar o Museu Internacional da Escravatura perto da Doca Albert, que detalha a ligação entre Liverpool e o comércio de escravos. Em agosto de 2020, a Câmara Municipal de Liverpool nomeou 20 ruas onde serão colocados marcadores que detalham a história da cidade associada à escravatura.

Cais do Valongo (Rio de Janeiro, Brasil)

Considerado o “traço físico mais importante” da chegada de africanos escravizados às Américas, o Cais do Valongo foi o maior local de chegada e comércio de africanos escravizados no Brasil. Entre 1811 e 1831 (quando o comércio transatlântico de escravos foi proibido), quase um milhão de africanos passaram por este porto. Mas as atividades de tráfico ilegal de escravos continuaram no porto até 1888, quando as operações foram oficialmente encerradas.

Os laços do porto com a escravatura permaneceram desconhecidos durante séculos, até que foram descobertos em 2011 durante as obras de renovação para os Jogos Olímpicos de 2016. O cais é agora um local de arqueologia exposta onde os viajantes podem estudar os trabalhos de pedra originais e ver os três marcos históricos que narram os eventos que ali aconteceram.

Os visitantes também podem explorar o Cemitério dos Pretos Novos, que fica nas proximidades, um dos maiores cemitérios de escravos do mundo. Descoberto em 1996, quando uma família estava a remodelar a sua casa, o local funciona como um centro arqueológico e cultural que visa proteger a história da cultura africana na cidade. A Praça XV de Novembro, uma praça enorme que é usada para espetáculos musicais, foi um dos locais originais de leilões de escravos no Rio de Janeiro, e a Pedra do Sal, o centro histórico de “Pequena África” no Rio de Janeiro e berço do samba, foi onde muitos dos antigos escravos se estabeleceram.

Palácios Reais de Abomei (Benim)

Construídos pelo povo Fon entre 1625 e 1900, os Palácios Reais de Abomei eram o lar dos líderes do Reino de Daomé, um dos impérios mais poderosos ao longo da costa ocidental de África. Durante o reinado de doze reis sucessivos, o comércio de escravos prosperou, pois estes líderes capturavam pessoas noutros estados africanos como prisioneiros de guerra. Estes prisioneiros eram vendidos como escravos aos mercadores portugueses, franceses e britânicos, que os enviavam para as Américas, sobretudo para o Brasil.

Hoje, os palácios do Rei Ghézo e do Rei Glélé abrigam o Museu Histórico de Abomei, que conta a rica história do reino e a sua resistência contra ocupação colonial francesa.

Thomas Jefferson escravizou mais de 400 pessoas em Monticello, em Charlottesville, no estado da Virgínia. Os visitantes podem homenagear as pessoas que viveram e morreram na plantação de Jefferson no Cemitério de Afro-americanos, onde os arqueólogos identificaram mais de 40 túmulos sem designação em 2001.

Fotografia de Vanessa Vick, New York TImes, Redux

Monticello (Charlottesville, Virgínia, EUA)

Thomas Jefferson projetou quase todos os aspetos de Monticello, desde a propriedade no topo da montanha até à sua plantação de 2.000 hectares. Embora esta propriedade na Virgínia seja frequentemente romantizada, também foi o lar de mais de 400 pessoas que Thomas Jefferson escravizou para cultivar a terra. No total, entre as mais de seiscentas pessoas escravizadas nas suas várias propriedades, Jefferson só libertou 10 pessoas – todas da mesma família.

Os visitantes podem prestar homenagem a todos os que viveram e morreram nesta plantação no Cemitério de Afro-americanos, onde os arqueólogos identificaram mais de 40 túmulos sem designação em 2001. Descubra mais sobre a vida das pessoas que viveram nesta propriedade na exposição dedicada a Sally Hemings, escrava de Jefferson e mãe de seis dos seus filhos, que revela histórias comoventes contadas pelo seu filho Madison e por outros membros da sua família.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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