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Mulheres lideram no próximo grande destino de surf do mundo

Ao longo da vasta costa acidentada do Chile, mulheres surfistas brilham na competição e nos esforços de preservação.

Por Lacy Morris
Publicado 17/03/2021, 14:40 WET
Chile surfing landscape

Paloma Santos apanha uma onda na praia de Puertecillo, perto de Pichilemu, um dos locais que atraem surfistas aventureiros para a costa pouco conhecida do Chile.

Fotografia de Matias Donoso

Estou com a minha prancha de surf na praia de Pichilemu, no Chile. Estamos em janeiro – o pico do verão no hemisfério sul – o sol já nasceu e está uma brisa quase constante a soprar do Oceano Pacífico. Nesta região, uma série de enseadas de areia negra emolduram a atração principal: Punta de Lobos, uma zona de rebentação de ondas "esquerdas" que se curva graciosamente (em condições suaves) em torno de um afloramento rochoso.

Este cenário podia ser em Maui ou no sul da Califórnia – tirando o facto de as árvores serem pinheiros, não palmeiras; a água oscilar em torno dos 15 graus centigras; e quase não haver ninguém por perto. Com um fato de mergulho Quiksilver de 4/3 mm – apropriado para um “calor digno de inverno” – subo para a prancha e começo a nadar com uma sensação mista de entusiasmo e medo.

Com cerca de 4.000 quilómetros de costa de norte a sul, o Chile é realmente uma das últimas fronteiras para o surf. Os surfistas encontram aqui quilómetros e quilómetros de praias e ondas inexploradas e vazias, suportadas por uma série de aldeias piscatórias acolhedoras. A água fria, a localização remota e a ausência de infraestruturas turísticas fizeram com que o Chile permanecesse fora do radar para a maioria dos surfistas que viajam pelo mundo, e que se dirigem para lugares como a Irlanda e a China se estiverem à procura de aventura, e para Bali e Havai se quiserem uma experiência mais normal.

Contudo, nos últimos 20 anos, houve um aumento notável no interesse por este desporto e, com o desenvolvimento de uma cultura de surf que é bastante chilena, também houve uma maior ênfase na comunidade e sustentabilidade. Os surfistas chilenos são algumas das vozes mais audíveis a fazer pressão para proteger os tesouros imaculados que possuem e, nos últimos anos, estas vozes tornaram-se cada vez mais femininas. E num país que, antes da pandemia, estava a atravessar uma mudança social, as mulheres estão surfar uma onda de ativismo comunitário que está na vanguarda de um movimento político e na evolução de um desporto.

Ondas inexploradas

Pichilemu, a capital não oficial do surf no Chile, é uma pequena vila piscatória com 15.000 habitantes localizada a cerca de 200 quilómetros a sul de Santiago. As suas águas – com as ondas "esquerdas" de Punta de Lobos – conseguem produzir ondas de até sete metros.

Em 2017, após um esforço conjunto de angariação de fundos e de uma campanha feita pela organização sem fins lucrativos Save the Waves Coalition, pela empresa de equipamentos para atividades ao ar livre Patagonia e por uma organização sem fins lucrativos estabelecida localmente, a Fundación Punta de Lobos, esta costa foi considerada a sétima Reserva Mundial de Surf, protegendo a zona de rebentação e área envolvente de futuros desenvolvimentos.

A surfista chilena Antonia Vidueira compete durante as meias-finais da Maui and Sons Pichilemu Women Pro Chile 2016.

Fotografia de Martin Bernetti, AFP, Getty Images

Em 2020, o governo chileno aprovou a criação do Santuário Costeiro Marinho de Piedra del Viento. Este santuário protege 4.000 hectares de linha costeira a norte de Pichilemu e é a primeira área protegida do Chile a levar em consideração a proteção de ondas e o surf, preservando seis zonas notáveis de rebentação para a prática deste desporto.

Outras pequenas vilas de surf ainda em desenvolvimento, como Matanzas, Reñaca, e Totoralillo – todas a norte de Pichilemu e fora das áreas protegidas – também estão a crescer em popularidade juntamente com Pichilemu. E embora os projetos de conservação ainda sejam de pequena escala, o mesmo acontece com o desenvolvimento turístico. Estes lugares podem ser facilmente comparados à Califórnia da década de 1950, quando as pranchas na água ainda eram uma novidade e as cabanas improvisadas na praia com telhados de colmo alugavam materiais e davam formação para os poucos que procuravam a descontraída cultura do surf.

“Aqui, tudo é novo, mas há muito potencial [para o surf] no Chile se conseguirmos proteger a fonte de tudo isto”, diz Ramón Navarro, o nome que mais frequentemente é associado ao surf no Chile, quer seja como atleta ou como defensor da sua proteção. Ramón foi o primeiro chileno a ficar conhecido no circuito internacional de competição, para além de ser o rosto que lidera as campanhas de conservação.

O surf no Chile tem as suas raízes na década de 1970, quando os jovens começaram a ver turistas brasileiros a trazerem as suas pranchas durante as férias à procura de novas ondas fora do seu país, onde este desporto já estava bastante mais consolidado. Antes disso, o surf era considerado território de miúdos ricos, ou simplesmente inatingível, porque não havia onde comprar uma prancha.

Mulheres surfistas aguardam pelas ondas durante as meias-finais da Maui and Sons Pichilemu Women Pro Chile 2016.

Fotografia de Martin Bernetti, AFP/Getty Images

Num desporto dominado por homens, as mulheres só começaram a aparecer em cima de pranchas nos anos 90, e isso pode ter inadvertidamente aberto caminho para a futura luta pela igualdade das mulheres no Chile, que ganhou a atenção internacional no final de 2019, no auge do movimento #MeToo.

Um grito de guerra e uma dança realizada pela primeira vez pelo grupo feminista chileno Las Tesis percorreu o mundo, e foi adotado e adaptado pelas ativistas #MeToo no mundo inteiro para denunciar as violações dos direitos das mulheres. “A culpa não foi minha; nem do local onde estava, nem como me vestia”, foi uma frase entoada em vários idiomas, desde a Índia à Turquia e aos Estados Unidos, onde este poderoso hino foi cantado em janeiro de 2020 à porta do tribunal de Nova Iorque, onde Harvey Weinstein estava a ser julgado por violação.

Senhoras no alinhamento

“Foi definitivamente um momento poderoso para as mulheres chilenas assistirem a um movimento que tinha sido começado por elas a tornar-se global”, diz Jessica Anderson, surfista de competição com 30 anos de carreira. Para Jessica “foi uma ocasião bem-vinda – e invulgar – no desafio das normas de género, já que a cultura aqui era e ainda é muito machista, mas o surf e os desportos em geral ajudam a ultrapassar isso”.

Jessica – cujos pais eram missionários cristãos e antigos surfistas californianos – foi criada em Pichilemu. Em criança, Pichilemu era apenas uma vila de pescadores sem estradas pavimentadas que tinha praias largas e falésias rochosas.

Em 1993, quando Jessica Anderson tinha três anos, o Chile recebeu o seu primeiro evento da Liga Mundial de Surf, numa região a cerca de 1.900 quilómetros a norte, numa cidade chamada Iquique, perto de onde a fronteira do país encontra o Peru. Esse evento teve lugar quase 30 anos após a formação da organização que representa os surfistas profissionais de todo o mundo. Naquela época, outros países com abundância de ondas estavam na sua segunda, terceira ou até quarta geração de lendas do surf.

“Por razões que permanecem desconhecidas, este desporto demorou a ganhar tração [no Chile]. O Peru, país vizinho a norte, começou a surfar décadas antes, e o Brasil já estava a caminho de se tornar numa potência mundial do surf”, diz Matt Warshaw, autor de The Encyclopedia of Surfing.

“Aqui tem sido mais um desporto de crescimento lento”, concorda Jessica. Quase sem lojas de surf (a primeira foi inaugurada em Santiago em 1985), o pai de Jessica “pedia a amigos e igrejas nos Estados Unidos para doarem pranchas e fatos, e partilhávamos todos os nossos equipamentos com os amigos. Alguns surfistas brasileiros visitavam Pichilemu, e todas as pessoas lhes compravam pranchas”. Foi assim que Jessica conseguiu a sua primeira prancha aos 15 anos.

“Só nos últimos 10 anos é que o surf provocou alterações enormes em Pichilemu”, diz Jessica, e as mulheres formam uma grande parte do crescimento da região, sobretudo devido aos esforços de Trinidad Segura – habitante local de Pichilemu e por vezes rival de Jessica na água.

Em 2011, Trinidad Segura fundou a Sirena Producciones, empresa que tem como missão incentivar as mulheres a praticarem surf. Trinidad desempenhou um papel fundamental na organização da primeira ronda de qualificação da Liga Mundial de Surf no Chile, na qual foi coroada uma campeã feminina. Realizada em Punta de Lobos, a Maui and Sons Pichilemu Pro teve início em 2014 e desde então é realizada anualmente. (A Liga Mundial de Surf ainda não organizou um evento masculino de qualificação nesta famosa rebentação.)

“É difícil ser mulher e mais difícil ainda ser surfista”, diz Trinidad. “Eu queria começar algo que nos pudesse unir e criar uma comunidade, mas também queria chamar a atenção da imprensa para as minhas amigas. Não há muitas oportunidades de patrocínios para as mulheres surfistas, sobretudo no Chile.”

Hoje, há um alinhamento de nomes femininos reconhecíveis, como Josefina Vidueira, de 22 anos, que trabalha com marcas como a O’Neil. Em 2014, com 15 anos de idade, Josefina fez parte dos 75 jovens surfistas promissores que receberam uma Bolsa Individual da International Surfing Association, destinada a ajudar a aliviar o custo das taxas de entrada na competição e equipamentos de surf. Lorena Fica, de 26 anos, patrocinada pela Rip Curl e uma das chilenas melhor classificadas na Liga Mundial de Surf, venceu o campeonato nacional cinco vezes, enquanto Paloma Santos, com 21 anos, conquistou o campeonato nacional duas vezes.

Esta é a maior onda alguma vez surfada
Esta muralha de água bateu o recorde mundial como a maior onda surfada. O surfista brasileiro Rodrigo Koxa surfou uma onda com 24 metros de altura na Nazaré.

“[Pichilemu] tornou-se numa vila divertida para surfistas, com tudo o que precisamos e muitas coisas para fazer”, diz Jessica. “Tive o privilégio de surfar pelo mundo inteiro e não há nada a invejar nesses lugares, exceto talvez a água quente. Pode haver muito ego no alinhamento, mas temos de ser fortes e lutar pelas nossas ondas como os homens.”

Uma infraestrutura de hospitalidade construída em torno deste desporto está a crescer em Pichilemu e, na maioria dos casos, segue um modelo de sustentabilidade semelhante. O Hotel Alaia, um alojamento de surf com 12 quartos de carvalho reciclado e rocha negra, é o exemplo perfeito da arquitetura única de cor térrea e baixa do Chile. É onde me encontro com Trinidad Segura, a conversar em torno de uma lareira com vista para um conjunto de janelas perfeitamente posicionadas para ver as ondas. Perto do fim da sua gravidez, Trinidad pendurou temporariamente a prancha; a camaradagem das suas amigas surfistas é o que sente mais falta, diz Trinidad.

“Foi gratificante ver as mulheres do nosso país a iniciarem um movimento que se alastrou pelo mundo inteiro.” É algo para o qual Trinidad serviu de catalisador, agitando as águas na sua terra natal, Pichilemu, dando às mulheres a voz que merecem através de um desporto que ela adora.

“Também há um movimento a acontecer aqui”, diz Trinidad. “É isso que adoro no surf: consegue aproximar as pessoas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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