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A caçadora de fósseis esquecida que transformou a Costa Jurássica da Grã-Bretanha

Mary Anning e as suas importantes descobertas de dinossauros não receberam a devida atenção, mas o seu legado atrai agora viajantes para o sudoeste de Inglaterra.

Publicado 7/04/2021, 15:24
fósseis de Mary Anning

O Museu de História Natural de Londres exibe vários fósseis notáveis de Mary Anning, incluindo este de um ictiossauro (em baixo).

Fotografia de Tommy Trenchard, Panos Pictures/Redux

Se tivéssemos vivido na era vitoriana, poderíamos tê-la encontrado no sopé de Church Cliff, a leste de Lyme Regis, uma cidade à beira-mar na costa sudoeste de Inglaterra. Ela teria uma cesta de vime numa mão, um pequeno martelo de geólogo na outra, e estaria vestida com um casaco xadrez e uma capa feita de lã grossa – faz frio junto à costa. O seu pequeno cão, Tray, estaria a saltitar ao seu lado.

A paleontóloga autodidata Mary Anning procurava fósseis ao longo da costa de Dorset, acompanhada pelo seu cão, Tray.

Fotografia de GL Archive, Alamy Stock Photo

O que provavelmente não iríamos saber é que Mary Anning era indiscutivelmente uma das maiores caçadoras de fósseis, “a princesa da paleontologia”, como um dos seus contemporâneos a descreveu. Na Inglaterra vitoriana, numa era de cientistas amadores, os caçadores de fósseis eram quase sempre homens.

Mary Anning nasceu em Lyme Regis, que fica num dos grandes depósitos de fósseis da era jurássica. Conhecida por Costa Jurássica, este trecho de 150 quilómetros de arenito vermelho, xisto e penhascos de calcário entre as rochas de Old Harry, em Dorset, e Orcombe Point, em Exmouth, é o único Património Mundial Natural da Grã-Bretanha

“É a única costa visível e acessível que cobre toda a era dos dinossauros”, diz David Tucker, diretor do Museu Lyme Regis. “Imagine camadas de rocha sedimentar depositadas nos períodos Triássico, Jurássico e Cretáceo – como se fossem uma camada de esponja seguida de uma camada de creme e outra de esponja. Estamos a percorrer 185 milhões de anos de história.”

Lyme Regis também tem uma história literária: Beatrix Potter (Pedro Coelho), Henry Fielding (Tom Jones) e J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) visitaram este local à beira-mar. No seu livro Persuasão, Jane Austen descreve a “rua principal quase como se estivesse a correr para a água” e a “pequena baía agradável que, na estação adequada, era animada por máquinas de banho”. Jane Austen, que ficou hospedada em Lyme Regis, pode ter passado por Mary Anning nessa mesma rua, diz David Tucker.

Estendendo-se desde Exmouth, em East Devon, até Studland Bay, em Dorset, a Costa Jurássica tem 150 quilómetros e é o único Património Mundial Natural da UNESCO da Grã-Bretanha.

Fotografia de Andrea Artz, laif/Redux

Naquela época, tal como agora, os fósseis eram o souvenir de eleição. Mary Anning, cuja família era pobre, caçava e vendia fósseis para ajudar a família – uma aptidão que aprendeu com o pai.

Em 1811, o seu irmão Joseph encontrou um crânio a projetar-se na face de um penhasco em erosão. Mary demorou meses a escavar cuidadosamente o esqueleto do primeiro ictiossauro descrito como tal em Londres. Mary tinha 12 anos. As suas outras descobertas importantes incluem o primeiro plesiossauro completo – bem como o fóssil completo de um réptil voador, o primeiro pterodáctilo da Grã-Bretanha.

A maioria das suas descobertas acabou em museus como o Museu de História Natural de Londres, mas Mary permaneceu no anonimato. Ela encontrava os fósseis; mas outros recebiam o crédito.

Mary Anning fez esboços detalhados das suas descobertas, incluindo este de um plesiossauro.

Fotografia de MUSEU DE HISTÓRIA NATURAL, ALAMY STOCK PHOTO

Um eminente anatomista francês chegou a acusá-la injustamente de fraude. “O mundo usou-me de forma tão cruel”, escreveu Mary a um amigo. “Receio que isto me tenha feito desconfiar de toda a humanidade.” O britânico Gideon Mantell, médico e também ele próprio um caçador de fósseis, que visitou a “lojinha suja” de Mary em 1832, foi indelicado e chamou-lhe “mulher magra, afetada, pedante e com ar de vinagre”. (Kate Winslet interpreta Mary Anning no recente filme Ammonite, onde Mary tem uma relação homossexual com Charlotte Murchison, uma geóloga. As personagens são reais; mas o romance é ficção.)

Os cientistas que a consultavam faziam-no com um tom de condescendência. “Ela é uma criatura muito inteligente e engraçada”, disse um geólogo americano que a conheceu. Mas Mary não se limitava a encontrar fósseis, ela esboçava e estudava-os. O seu trabalho acrescentou evidências de que as espécies se podem extinguir, ajudando a abrir caminho para Darwin.

Em 1847, quando Mary morreu de cancro da mama aos 47 anos, como refere o historiador Hugh Torrens, a cidade parece ter lamentado – não pela própria Mary Anning mas, como afirmava um comunicado, “pela séria perda para a cidade, porque a sua presença atraía um grande número de ilustres visitantes... capazes de apreciar a sua genialidade”.

“Ela vendia o que encontrava. Os seus fósseis estão creditados ao homem abastado que os doou aos museus, e não à pobre mulher que os encontrou. Trata-se tanto de género como de classe. Hoje, Mary estaria a gerir um departamento em Oxford ou Cambridge”, diz David Tucker.

Esquerda: Mary Anning vendia os fósseis numa loja chamada Anning's Fossil Depot, loja que comprou aos 27 anos.
Direita: O túmulo de Mary Anning pode ser encontrado na Igreja Paroquial de St. Michael em Lyme Regis. Em 2010, a Royal Society listou Mary Anning como uma das 10 mulheres britânicas mais influentes e importantes na história da ciência.

Fotografia de NATURE PICTURE LIBRARY, ALAMY STOCK PHOTO (ESQUERDA); ANDREA ARTZ, LAIF / REDUX (DIREITA)

Ainda assim, Mary obteve algum reconhecimento, sobretudo na sua última década de vida. Em 1838, a Associação Britânica para o Avanço da Ciência ofereceu-lhe uma anuidade. Em 1846, foi nomeada o primeiro membro honorário do Museu do Condado de Dorset. E quando morreu, a sua morte foi destacada na revista da Sociedade Geológica – que não iria admitir mulheres durante mais meio século.

O próprio Museu Lyme Regis está localizado na zona onde estava a casa e loja de Mary, que se deterioram há vários anos. A sua lápide e placa comemorativa podem ser encontradas na Igreja Paroquial de St. Michael.

“Mas o verdadeiro monumento é ir à praia no verão e ver a quantidade de crianças a caçar fósseis”, diz Keith Moore, bibliotecário-chefe da Royal Society, a academia de ciências do Reino Unido. Keith Moore viaja de Londres várias vezes por ano para fazer uma pausa a caçar fósseis. Entre as suas descobertas: uma amonita preservada de forma excelente que foi rapidamente reivindicada pela sua irmã, e um peixe fossilizado, com os seus dentes ósseos ainda no lugar.

“É o entusiasmo da descoberta”, diz Keith, “encontrar algo encantador e aprender sobre isso – é uma mistura entre colecionar selos e Indiana Jones”.

Escavar fósseis

“A Costa Jurássica existe há milhões de anos e vai continuar disponível para todos desfrutarem dela assim que a atual situação for resolvida”, informa o Jurassic Coast Trust. Quando isso acontecer, jovens e idosos podem seguir os passos de Mary Anning e caçar fósseis na praia.

Connie Warner examina um fóssil de belemnite (uma criatura parecida com uma lula) que encontrou numa praia ao longo da Costa Jurássica. West Dorset é um dos poucos destinos onde é permitido aos amadores caçar, manter e vender os fósseis que encontram.

Fotografia de Tommy Trenchard, Panos Pictures/Redux

O trecho de Costa Jurássica em torno de Lyme Regis tem um código de coleta bem fundamentado para os caçadores profissionais de fósseis. Os profissionais podem extrair da plataforma de rocha e ocasionalmente nos penhascos com a permissão dos proprietários dos terrenos, mas os espécimes devem primeiro ser oferecidos ao museu para compra. O público em geral pode caçar nas praias de Lyme e Charmouth, os dois pontos mais seguros da costa, mas os amadores são alertados para se afastarem das falésias e ter cuidado com as marés. E devem deixar os seus martelos geológicos em casa.

O Museu Lyme Regis organiza passeios de caça de fósseis, assim como o Charmouth Heritage Coast Centre.

Quem não quiser sujar as mãos pode admirar as descobertas de outros, como por exemplo o crânio de um pliossauro com 2,40 metros de comprimento – “a maior dentada do mundo”, descoberto por um colecionador amador e exibido no Museu do Condado de Dorset.

A gelataria local também vende sabores inspirados no jurássico, como o Dig-A-Saurus e o Ammonite Bites, feitos pela Purbeck Ice Cream, sediada em Dorset, para angariar fundos para o Jurassic Coast Trust.
 

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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