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Descubra porque não deve recear um pouco de lama na sua próxima caminhada.

Para os caminhantes mais ávidos, a primavera é uma estação do ano onde se pode apreciar a natureza a ganhar vida. Mas esta época também traz os seus próprios riscos.

Por Miles Howard
Publicado 15/04/2021, 11:49
criança numa poça

Uma criança salta numa poça lamacenta durante uma caminhada de primavera com a mãe.

Fotografia de Vernon Wiley, Getty Images

Depois de um inverno de arrepiar no Maine, Eben Sypitkowski mal pode esperar para regressar ao Parque Estadual Baxter, sem esquecer a neve derretida que está a transformar os trilhos em lama.

Para os caminhantes primaveris mais ávidos, como Eben Sypitkowski, a “época da lama” – quando há um excesso de neve derretida nos trilhos e estradas de terra batida – é uma oportunidade para ver a floresta sair da hibernação do inverno. As toutinegras e os pica-paus-de-barriga-amarela enchem as florestas de cicuta com os seus cantos. As raposas e esquilos saem das tocas, geralmente com uma ninhada a reboque. A quantidade de neve acumulada durante o inverno alimenta quedas de água trovejantes. “É visual, é auditivo e é olfativo”, diz Eben.

A época da lama não é exclusiva do Maine – flui por todo o nordeste e algumas regiões do oeste americano, atraindo fãs obstinados que estão cansados do frio do inverno.

Um casal caminha por um trilho lamacento em Washington. Caminhar pelos trilhos já delineados ajuda a prevenir a erosão na primavera.

Fotografia de Thomas Barwick, Getty Images

Este ano pode trazer consigo mais caminhantes primaveris ansiosos para fugir das multidões durante a pandemia. Antes da chegada da COVID-19, as caminhadas já estavam a atravessar por um renascimento na América. O uso de trilhos aumentou constantemente no rescaldo de filmes como Livre, e também devido a modas nas redes sociais como a “selfie na natureza”. Os confinamentos aumentaram o interesse por esta atividade. No verão passado, muitos dos parques nos Estados Unidos quebraram recordes de visitas. Um estudo feito recentemente pela RunRepeat e AllTrails descobriu que, em 2020, a aplicação AllTrails registou um aumentou de 171%, em comparação com as métricas de 2019.

O aumento do tráfego de caminhadas pode ter implicações para os trilhos, estradas, vida selvagem e, em alguns casos, para as equipas de busca e salvamento. Embora exista uma beleza especial em observar o degelo do inverno a transformar novamente a paisagem num ecossistema navegável, o solo está literalmente a mudar. Este fator cria armadilhas que os caminhantes devem estar cientes antes de começarem a molhar os pés. Descubra como gerir uma caminhada enlameada na primavera.

Perigos na estrada

O degelo pode provocar problemas para os caminhantes, mesmo antes de chegarem ao início de um trilho. As estradas de terra batida que acumulam neve durante o inverno costumam ficar mais esponjosas, criando poças de lama que podem prender veículos e contribuir para a erosão.

“A estrada pode parecer muito boa e, de repente, ficamos com o veículo enterrado até aos eixos porque há geada na estrada que se transformou em humidade”, diz Eben, que para além de ser o diretor do Parque Estadual Baxter, passou vários anos na floresta a ajudar caminhantes, a monitorizar trilhos e a auxiliar em missões de busca e salvamento.

A melhor forma de evitar estes problemas é limitar as caminhadas aos trilhos acessíveis por estradas de alcatrão. Os sites de gestão de parques publicam regularmente atualizações sobre as estradas de acesso à medida que estas reabrem durante a temporada, mas os caminhantes devem conduzir com precaução até ao local da caminhada. Qualquer estrada numa zona mais fria pode desenvolver elevações no solo. Também conhecidas por “lombas de velocidade da natureza”, estas alterações no terreno são provocadas pelo deslocamento de neve e gelo.

Erosão dos trilhos

Nem é preciso salientar que é crucial levar um par de botas impermeáveis para caminhar na lama. Mais importante, este tipo de calçado facilita a permanência no trilho, mesmo com poças. Sair das zonas mais enlameadas pode alargar os trilhos e dar origem a erosão, sobretudo quando o solo está a absorver mais humidade do degelo. A erosão pode ter um efeito adverso na fertilidade do solo e na sua capacidade de suportar plantas nativas. E também torna os trilhos instáveis – nomeadamente aqueles que atravessam encostas – e isso pode rapidamente exigir reparações morosas e dispendiosas.

Matt Bowser, construtor de trilhos e diretor administrativo da Montana Wilderness Association, testemunhou em primeira mão a erosão da primavera nos parques nacionais de Yellowstone e Glacier. “Mesmo nesta era de roupas interiores forradas com GORE-TEX e tudo à prova de água, as pessoas não se querem sujar”, diz Matt, que liderou grupos de voluntários para reparar trilhos danificados. “Se as pessoas virem uma poça de lama num trilho e a contornarem, a poça fica maior e transforma-se num pântano, sendo muito mais difícil de reparar para os construtores de trilhos.”

Riachos a transbordar

Um dos perigos mais sérios para as caminhadas na época da lama são as travessias de água. Embora a primavera traga consigo quedas de água impressionantes, os níveis de água do degelo podem transformar travessias relativamente rasas em riachos com água pela altura dos joelhos. Qualquer coisa mais profunda do que isso deve ser sempre evitada.

Particularmente traiçoeira é a rapidez com que os níveis da água podem mudar num só dia, por exemplo, após uma tempestade ou um degelo mais acelerado ao longo de várias horas de temperaturas elevadas.

Estas condições podem fazer com que os caminhantes fiquem encharcados ou retidos no campo, ou ambos. Um incidente recente em Adirondacks, perto de Monte Marcy em Nova Iorque, serve de conto de advertência para estes perigos. Depois de se separar de um grupo, um jovem caminhante cruzou vários riachos que estavam repletos de gelo e neve a derreter, e depois perdeu-se. Felizmente, os guardas florestais do Departamento de Conservação Ambiental de Nova Iorque (NYSDEC) encontraram o jovem antes de as condições piorarem.

Até que o degelo tenha praticamente terminado – geralmente entre meados e finais de maio – é melhor caminhar por trilhos que tenham pontes sobre travessias de água.

Considerações sobre zonas alpinas

Os cumes montanhosos com vistas panorâmicas são destinos desejados por muitos caminhantes. Mas durante a época da lama, a zona alpina onde as árvores boreais param de crescer é extremamente delicada. As flores silvestres e o musgo nestas altitudes elevadas estão expostos à radiação ultravioleta do sol, às variações mais severas de temperatura e têm pouco solo para assentar raízes.

A presença de caminhantes neste ambiente pode devastar estas plantas frágeis, atrasando o seu lento crescimento em décadas. A flora alpina está particularmente vulnerável durante a primavera, quando a neve que permanece nos trilhos de altitudes elevadas pode fazer com que os caminhantes se sintam tentados a aventurar-se.

Os dispositivos de tração, como os pitões (usados nas solas de ténis de caminhada) podem ser traiçoeiros na primavera. “A neve está a desfazer-se, o gelo está mais espesso e tem menos aderência”, diz Ben Brosseau, diretor de comunicações do Adirondack Mountain Club e ávido caminhante primaveril. “Mesmo com raquetes para a neve ou pitões, podemos pisar neve que se está a desfazer, e o buraco pode ter vários metros de profundidade. É nestes momentos que acontecem lesões nos tornozelos ou nas pernas.”

Oscilações de temperatura

À medida que abril abre caminho para maio, as temperaturas mais quentes ajudam a secar a lama, embora ainda tenhamos muita chuva pela frente. Esta época do ano traz vislumbres adicionais de rejuvenescimento, quer seja o som de um esquilo bebé a emitir os seus primeiros gritos de guerra, ou o simples brilho do sol ao final da tarde junto a um pântano de castores. No Costa Oeste dos EUA, entre finais de março e início de maio, é quando os ursos-pardos emergem da hibernação, sendo importante levar spray para ursos (e aprender a usá-lo).

Mas o inverno ainda não acabou. Ainda podemos testemunhar descidas repentinas de temperatura ou tempestades de neve. Os caminhantes devem preparar-se para estas oscilações ambientais, mantendo um olhar atento sobre as previsões meteorológicas, levar roupa para várias estações e estar prontos para regressar se  as condições piorarem. Esta incerteza é a aposta que fazemos quando queremos testemunhar a beleza crua da época da lama.

“É importante lembrar que, se nos molharmos, aumentamos as probabilidades de ficarmos mais frios”, diz Eben Sypitkowski sobre as condições meteorológicas erráticas da primavera. “E isso pode fazer a diferença entre um evento de busca e salvamento ou uma simples caminhada agradável na época da lama.”

COMO PODE AJUDAR O PLANETA

Está a pensar em enfrentar a beleza enlameada da primavera? Eis duas formas de proteger os trilhos e as pessoas ao seu redor. Experimente trilhos menos conhecidos: procure rotas selvagens com menos pessoas – e desfrute da solidão. Respeite as comunidades adjacentes aos parques, seguindo os protocolos de segurança para a pandemia, limite-se aos trilhos oficiais nos terrenos públicos e faça um esforço para apoiar as economias locais.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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