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O turismo de vulcões está a crescer, mas será demasiado arriscado?

As erupções deslumbrantes atraem visitantes para lugares como a Islândia e o Havai. Eis como as pode observar em segurança.

Fotografias Por Chris Burkard
Publicado 13/04/2021, 12:39 WEST
Os fluxos de lava criam um padrão semelhante a um mapa nas rochas de basalto negro ...

Os fluxos de lava criam um padrão semelhante a um mapa nas rochas de basalto negro no vulcão Fagradalsfjall da Islândia, que entrou em erupção em março de 2021 pela primeira vez em quase 800 anos.

Fotografia de Chris Burkard, National Geographic

No final de março de 2021, milhares de pessoas na Islândia caminharam até ao vale de Geldingadalur para assistir à agitação da lava na cratera do vulcão Fagradalsfjall, quando este entrou em erupção pela primeira vez em quase 800 anos. Enquanto as nuvens de cinzas cobriam os trilhos de rocha fundida que avançava lentamente através de pedras negras escarpadas, alguns visitantes tiravam fotografias, outros sentavam-se em silêncio e admiração, e alguns assavam marshmallows sobre os fluxos de lava.

O fotógrafo Chris Burkard, que fez a cobertura desta erupção para a National Geographic, também ficou fascinado com a beleza e sinistralidade da paisagem. “Foi hipnotizante”, diz Chris. “Nunca pensei que algo tão simples como rocha derretida me deixasse tão entusiasmado.”

Esquerda: Milhares de visitantes caminharam até ao vulcão Fagradalsfjall para testemunhar o rescaldo da erupção de março de 2021.
Direita: Uma turista tira uma fotografia do vulcão em março de 2021.

Fotografia de Chris Burkard, National Geographic

As erupções vulcânicas têm criado solo fértil para o turismo. Desde o século VIII que os turistas japoneses ficam hospedados em onsen ryokans (pousadas com fontes termais) nas aldeias perto de vulcões. As ruínas da antiga cidade romana de Pompeia, preservadas por um manto de cinzas quando o Monte Vesúvio entrou em erupção em 79 d.C., atraíram inúmeros turistas durante as Grandes Viagens pela Europa nos séculos XVII e XVIII.

Mas o vapor, o crepitar e o tremor dos vulcões ativos tem um fascínio muito próprio. “São uma das forças da natureza mais primitivas que podemos observar”, diz Benjamin Hayes, chefe de interpretação e educação do Parque Nacional dos Vulcões na Ilha Havai. “Quando estamos perto desta força vital do planeta, sentimos o poder da mãe Terra.”

Viajar para visitar um vulcão ativo não é uma atividade isenta de riscos ou questões éticas. Pode ser a viagem de uma vida – ou uma atração fatal. Antes de ficarmos entusiasmados para visitar um destes vulcões, eis o que devemos ter em consideração.

Uma fotografia aérea de drone mostra sílica de lava a sair do vulcão Fagradalsfjall.

Fotografia de Chris Burkard, National Geographic

O aumento dos ‘caçadores de lava’

Na última década, o turismo de vulcões aumentou exponencialmente, alimentado em parte pelas redes sociais e pelos chamados “caçadores de lava”. São pessoas que procuram locais lendários e fotogénicos como o Monte Vesúvio (e mais de duas dezenas de sítios vulcânicos ativos na Lista de Património Mundial da UNESCO). Nos Estados Unidos, há vários parques nacionais com vulcões ativos, incluindo o Monte Rainier no estado de Washington, o Pico Lassen na Califórnia e a Caldeira de Yellowstone no Wyoming.

No dia a seguir à erupção do Monte Kilauea na Ilha do Havai, no dia 20 de dezembro de 2020, o Parque Nacional dos Vulcões do Havai registou um aumento acentuado no número de visitantes. Grande parte dos 8.000 visitantes são habitantes locais, mas o parque também tem registado um aumento constante de visitantes vindos de fora, à medida que as restrições nas viagens relacionadas com a COVID-19 são levantadas.

Dependendo do local, os viajantes podem fazer passeios de barco para observar lava, passeios de helicóptero por cima de caldeiras, surfar nas encostas de um vulcão ou até mesmo caminhar à beira de um lago de lava. Mas estas atividades acarretam riscos. As erupções costumam produzir gases tóxicos (dióxido de enxofre, por exemplo, presente em Fagradalsfjall) que podem danificar os nossos pulmões. Entre 2010 e 2020, morreram cerca de 1.143 pessoas em explosões vulcânicas. Mais recentemente, perto do vulcão Whakaari/Ilha Branca da Nova Zelândia, que entrou em erupção repentinamente no dia 9 de dezembro de 2019, morreram 22 turistas e 25 pessoas ficaram feridas.

Contudo, estas mortes parecem ter alimentado a curiosidade, em vez de desencorajarem este tipo de turismo. Em vez de evitarem os vulcões em erupção, os caçadores de adrenalina são atraídos pelas áreas de desastre – uma tendência que aparentemente vai continuar após a pandemia.

As erupções são o alvo

As erupções vulcânicas acontecem quando há um aumento na pressão magma-estática, ou uma mudança nas placas tectónicas, o que também pode provocar terramotos. Por vezes, a erosão ou o degelo dos glaciares movem lentamente a terra e, eventualmente, provocam erupções; noutras circunstâncias, os deslizamentos repentinos de terras também podem provocar erupções. As atividades vulcânicas são monitorizadas por observatórios científicos no mundo inteiro, pelo que as explosões raramente são uma surpresa. (Para um pouco de “vulcanologia de sofá”, use o rastreador de erupções online da Instituição Smithsonian.)

“Quem tem alguns conhecimentos básicos pode observar as erupções em segurança”, diz Rosaly M.C. Lopes, vulcanóloga e geóloga planetária do Laboratório de Propulsão a Jato em Pasadena, Califórnia. “Temos a sorte de as erupções mais bonitas – no Havai, Islândia e em Stromboli, Itália – não serem as mais explosivas.”

Rosaly, autora de Volcano Adventure Guide, diz que é importante conhecer o tipo de vulcão que queremos visitar. A volatilidade de um determinado local depende da sua lava: a lava mais fina flui lentamente do vulcão, enquanto que a lava espessa e viscosa aprisiona mais o gás, resultando em erupções mais explosivas (que possivelmente são mais mortais). Conhecer o tipo de vulcão com que estamos a lidar pode potencialmente salvar-nos a vida.

Um membro da equipa de Busca e Salvamento da Islândia (ICE-SAR) mede os níveis de gás perto da erupção vulcânica de Fagradalsfjall. As atividades desta equipa ajudam a manter os visitantes seguros, uma vez que a maioria não leva máscaras adequadas para a proteção contra gases tóxicos.

Fotografia de Chris Burkard, National Geographic

Veículos de busca e salvamento perscrutam a região em torno do vulcão Fagradalsfjall, na Islândia, à procura de turistas perdidos ou feridos.

Fotografia de Chris Burkard, National Geographic

Em Itália, quando o Monte Etna entrou em erupção em 1987, dois turistas morreram. Rosaly estava a pouco mais de um quilómetro de distância, numa viagem de investigação, quando isso aconteceu. “Se for um vulcão como o Etna e houver uma explosão repentina, devemos olhar para cima e ver onde é que os fragmentos de rocha vão aterrar. Mas não devemos correr; devemos desviarmo-nos. E depois de os fragmentos caírem, corremos.”

No espectro oposto, durante a erupção repentina do vulcão Whakaari/Ilha Branca da Nova Zelândia, Rosaly diz que as pessoas que sobreviveram foram as que provavelmente correram mais depressa. “Algumas pessoas ficaram para trás a tirar fotografias. Creio que algumas foram apanhadas e não conseguiram correr depressa o suficiente. Mas aquele vulcão é perigoso e os vulcanologistas sabiam que podia ter uma explosão repentina.”

Viver na sombra de um vulcão

Existem mais de 1.500 vulcões ativos em 81 países. Para as centenas de milhões de pessoas que vivem nas redondezas de vulcões, a sua presença faz simplesmente parte do quotidiano, como um engarrafamento de trânsito ou chuva frequente.

O Sakurajima, um dos vulcões mais ativos do Japão, na Prefeitura de Kagoshima em Kyushu, entra em erupção a cada quatro a 24 horas. “As pessoas que vivem em Kagoshima nem se preocupam em olhar para cima quando o Sakurajima entra em erupção, porque acontece com muita frequência”, diz Alex Bradshaw, diretor de Comunicações Internacionais da Prefeitura de Kagoshima.

A relação entre o Sakurajima e os habitantes locais é recíproca. O solo fértil perto do vulcão ajuda Kagoshima a cultivar os seus famosos rabanetes e pequenas laranjas komikan.

“Sem o Sakurajima, não havia Kagoshima. É o símbolo da nossa cidade, e as pessoas consideram-no um deus protetor”, diz Naoto Maesako, proprietário do restaurante Yogan Yaki na cidade de Kagoshima, onde vegetais, porco kurobuta e carne wagyu são cozidos em pratos quentes feitos de lava local. “Sentimos que o Sakurajima nos mantém em segurança durante os tufões e outros desastres. É a nossa história mesmo à nossa frente, e conseguimos ver o mesmo cenário fumegante que os nossos antepassados viam.”

Apesar do frio do inverno, milhares de islandeses apareceram para ver o vulcão nos dias em que este entrou em erupção no final de março de 2021.

Fotografia de Chris Burkard, National Geographic

Os fluxos de lava mantinham os visitantes fascinados após o anoitecer.

Fotografia de Chris Burkard, National Geographic

No Havai, a ligação entre vulcões e habitantes faz parte da história de origem das ilhas. Os antigos cantos havaianos referem-se a Pele, deusa dos vulcões e do fogo, como “aquela que molda a terra sagrada”. “O povo havaiano está aqui e prosperou durante mais de 1.000 anos”, diz Benjamin Hayes. “É impossível não estar profundamente ligado a gerações de histórias, aos antepassados e às ligações familiares com a ‘aina – a terra.”

O lado negro

Algum do turismo de vulcões aproxima-se mais de um tipo de turismo sombrio. Em 2010, 353 pessoas morreram e mais de 400.000 perderam as suas casas quando o Monte Merapi da Indonésia entrou em erupção. Pouco depois, surgiram empresas de turismo especificamente para oferecer excursões às aldeias soterradas pelas cinzas. É um eco dos moldes e impressões humanas de Pompeia, que revelam um terrível relato dos últimos dias dos seus habitantes.

(Descubra mais sobre “turismo negro” e porque é que os viajantes se sentem atraídos por desastres)

Em 2018, as sucessivas erupções do Monte Kilauea destruíram aproximadamente 600 casas, bem como estradas, quintas e ranchos na Ilha do Havai. Em maio desse mesmo ano, enquanto incêndios ainda se propagavam pelos bairros, os gastos dos turistas aumentaram 3.3%, atingindo os 173.9 milhões de dólares. O setor hoteleiro teve de equilibrar a satisfação das necessidades dos turistas com a sensibilidade para com os habitantes afetados.

Ross Birch, diretor executivo do Gabinete de Visitantes da Ilha do Havai, incentiva os turistas que estão curiosos sobre vulcões a limitarem-se ao parque nacional. “É um ótimo lugar para aprender sobre vulcões”, diz Ross. “Quem se aventurar fora dessas instalações pode atravessar propriedade privada e, potencialmente, acabar no quintal de alguém.”

À medida que arrefecia, a lava perto do vulcão Fagradalsfjall adquiria uma aparência irregular.

Fotografia de Chris Burkard, National Geographic

Embora o Monte Kilauea continue a entrar em erupção, o Mauna Loa da Ilha do Havai – o maior vulcão ativo do mundo – está lentamente a despertar. Os sismómetros do Observatório Havaiano de Vulcões (HVO) registaram aproximadamente 223 sismos de pequena magnitude no período de uma semana em março de 2021. “Os sensores de GPS dizem-nos que o solo está a mudar de forma devido ao movimento de magma abaixo da superfície”, diz Frank Trusdell, geólogo do HVO. “Não estamos perante uma erupção iminente, mas os habitantes locais devem começar a preparar-se.”

Frank lembra que, em 1984, 24 horas após a última erupção do Mauna Loa, as passagens de avião para a Ilha do Havai esgotaram. “Todas as pessoas queriam vir ver a erupção.”

Cientistas como Frank compreendem porque é que as pessoas se sentem atraídas por vulcões, e acreditam que isso ajuda a aumentar a consciencialização e o interesse pela vulcanologia. “Sempre que visitamos um lugar e testemunhamos um processo geológico – mesmo que sejam vulcões razoavelmente calmos como os géiseres de Yellowstone – isso desperta a nossa curiosidade”, diz Rosaly Lopes. “Dá-nos um respeito muito maior pelo nosso planeta.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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