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Porque é que as pessoas fazem pilhas de pedras (moledos) na natureza?

Desde o Maine até à Mongólia, pequenas pilhas de pedras marcam caminhos, túmulos e criam arte. Mas também podem trazer complicações.

Por Katy Kelleher
Publicado 30/04/2021, 10:56
cordilheira Zillertal da Áustria

Na cordilheira Zillertal da Áustria, os caminhantes encontram montes de pedras no Pico Petersköepfl, perto da vila de Ginzling.

Fotografia de Andreas Strauss, Alamy

Se percorrer o Parque Nacional de Acadia, no Maine, durante tempo suficiente, vai encontrar pedras empilhadas de uma forma distinta no meio de rochas de granito. Conhecidas pelo nome de Bates Cairns, estas pequenas pilhas de pedra, ou moledos, parecem pontes de pedra em miniatura: duas colunas de pedra a servir de base, uma pedra a servir de tabuleiro e, no topo, uma pedra mais pequena, ou ponteiro. Podemos até confundir estas formações com arte acidental feita por crianças, mas na verdade estes marcos fazem parte de uma enorme – e significativa – herança de Acadia.

“Os moledos datam até aos tempos de Waldron Bates, um dos pioneiros originais da Ilha de Mount Desert”, diz Steph Ley, coordenador do Acadia Summit Steward. “Nos anos 1900, Waldron construiu alguns dos trilhos pelos quais ainda hoje caminhamos.” Steph Ley e a sua equipa são voluntários que educam os visitantes do parque sobre as práticas de não deixar rastos e ajudam a manter os trilhos em boas condições. Estas tarefas incluem a reparação de moledos, que servem tanto de guias para os caminhantes (a pedra ponteiro indica o caminho) como de objetos esteticamente apelativos.

Independentemente de lhes chamarmos pedras empilhadas ou montes de pedra – os moledos parecem estar por toda a parte. Podemos vê-los em parques nacionais, em cidades como Lisboa, em praias, em cima de lápides de cemitérios ou até aos pés de estátuas em locais religiosos.

Os Clava Cairns são monumentos de pedra da Idade do Bronze localizados nos arredores de Inverness, na Escócia.

Fotografia de Albert Knapp, Alamy

Pode ser tentador criar os nossos próprios moledos enquanto viajamos, mas isso nem sempre é uma boa ideia: as pilhas de pedras em zonas aleatórias podem desviar os caminhantes; pôr em perigo ecossistemas frágeis (como as plantas alpinas de Acadia); e quando deslocamos pedras para fazer um moledo podemos estar a fomentar a erosão.

“Acima da linha das árvores, conforme a névoa se aproxima, uma pilha de pedras pode ser a única coisa que nos dá uma perceção do chão”, diz Steph Ley. “Tento dar às pessoas o benefício da dúvida, porque os moledos são bonitos e as pessoas querem fazer os seus, mas...”.

O desejo de empilhar pedras é compreensível de uma perspetiva prática, estética e espiritual. Parece quase primitivo. “Enquanto espécie, evoluímos em paisagens rochosas”, diz David B. Williams, que escreveu o livro Cairns: Messengers in Stone. “Construímos estas coisas há milhares de anos. São uma forma de dizer: estou aqui. Eu vivi.”

Pedras que marcam um caminho

Todas as culturas mundiais, desde nómadas até agrícolas e tribais, construíram moledos. Os antigos mongóis ergueram moledos, assim como os habitantes das montanhas da América do Sul. Muitas vezes, estas pilhas de pedras destinavam-se a ajudar as pessoas a encontrar o caminho em áreas com pouca vegetação.

Na região onde eu vivo, nos bosques do Maine, não é difícil fazer um trilho – basta caminhar pela floresta e partir alguns ramos quando passamos pelos pinheiros. Mas no deserto ou no ártico, sem vegetação para pisar ou ramos para partir, os humanos dependem de pilhas de pedras.

Estes moledos de navegação ajudaram os humanos a moverem-se entre povoações antes de a água acabar; e já foram encontrados no Planalto Tibetano, nas estepes da Mongólia e no Trilho Inca nos Andes. Os ingleses apelidaram-nos de “cairn”, do gaélico para “pilha de pedras”. Nos sítios funerários, os arqueólogos classificam-nos como mamoas, dólmens ou estupas.

Nos séculos XVIII e XIX, à medida que o oeste americano era colonizado, os moledos delineavam por vezes as linhas de propriedade. Há moledos enormes nas montanhas do Montana e do Colorado. Conhecidos pelo nome “johnnies de pedra”, estes montes eram erguidos por indígenas e também por pastores de ovelhas que emigraram de Espanha.

Esquerda: A Spiral Jetty, do artista Robert Smithson, projeta-se no Great Salt Lake em Utah.
Direita: Uma escultura de pedra do tamanho de uma casa, do lendário meio homem e meio troll Bárður Snæfellsás, está de guarda no oeste da Islândia.

Fotografia de ADAM GRAY, BARCROFT MEDIA / GETTY IMAGES (ESQUERDA); STEFAN ZIESE, ALAMY (DIREITA)

Moledos enormes também serviam de faróis para os antigos marinheiros nórdicos, celtas e escoceses. Geralmente, são estruturas grandes, mais altas do que um humano. São construções robustas, e um pioneiro podia demorar um dia inteiro para as construir. Mas esses moledos têm pouco em comum com os Bates Cairns, exceto pelo conceito básico.

Pedras que servem de memoriais ou pontos de peregrinação

As pilhas de pedras também servem como talismãs e símbolos de fé. “Num moledo, estamos a equilibrar o tempo profundo da geologia com o tempo humano”, diz David B. Williams. “O que se retira disto é uma ligação profunda.”

Por exemplo, no Caminho de Santiago, o trilho de 800 quilómetros que atravessa o noroeste de Espanha e França, os caminhantes fazem moledos cónicos a caminho do túmulo do apóstolo São Tiago. Embora muitos dos viajantes que fazem esta jornada de 30 a 35 dias sejam cristãos a trilhar os mesmos passos dos peregrinos medievais, o caminho e os moledos têm tanto que ver com a passagem humana como com religião.

“No judaísmo, quando vamos a um cemitério, geralmente deixamos uma pedra na lápide para homenagear a pessoa”, acrescenta David B. Williams. “Em algumas culturas [indígenas] do sudoeste americano, as pessoas cuspiam numa pedra e colocavam-na em cima de um moledo para receberem energia, para se rejuvenescerem.”

Os humanos também enterram os seus mortos debaixo de moledos. Talvez o exemplo mais famoso sejam os Clava Cairns na Escócia, túmulos da Idade do Bronze no arredores de Inverness que são guardados por monólitos e montes de pedras empilhadas. São decorativos e funcionais; os corpos por baixo são claramente venerados.

O deserto Jebel Qurma da Jordânia também foi notícia em 2017, quando túmulos que datam de há 8.000 anos foram descobertos numa “terra de fogo morto”. Os arqueólogos descobriram centenas de moledos e “torres túmulo” altas e estreitas.

Arte de pedra

Alguns escultores também usam pedras empilhadas. O meu trabalho favorito, o Opus 40, esconde-se na floresta Saugerties de Nova Iorque. Construído ao longo de 37 anos pelo escultor Harvey Fite, este complexo de terraplenagem de basalto flui ao longo de 2.5 hectares. Harvey Fite construiu uma série sinuosa de plataformas, piscinas e montagens através de técnicas que aprendeu ao visitar ruínas astecas e maias.

Outras esculturas de pedras empilhadas atuam como marcadores para lugares e arte. Nos arredores da vila de Arnarstapi, no oeste da Islândia, a estátua monumental de Bárður Snæfellsás, feita por Ragnar Kjartansson, é uma homenagem de pedra do tamanho de uma casa ao meio homem e meio troll que se acredita ser o protetor da região. E em 1970, o famoso artista americano Robert Smithson usou seis mil toneladas de basalto negro para criar a Spiral Jetty, uma espiral semelhante a uma cobra que se projeta no Great Salt Lake, em Utah.

Rumo aos labirintos

Se a arte de moledos lhe parecer demasiado fria (a temperatura desce literalmente conforme caminhamos pelo Opus 40), os labirintos de pedra geralmente envolvem os seus utilizadores em calor. Perto da minha casa no Maine, a Galeria de Arte da Universidade de Nova Inglaterra usa coisas simples (granito, areia, agulhas de pinheiro caídas) para fazer um caminho sinuoso dentro de um círculo no chão. Podemos colocar um pé à frente do outro, mas nunca vamos realmente a lado nenhum.

Um oovo ou santuário cerimonial de pedra e madeira nas estepes da Mongólia, perto de Arkhangai. Estas construções destinam-se a homenagear os espíritos tenger, ou espíritos do céu.

Fotografia de Alamy

Eu já atravessei labirintos em Abiquiu no Novo México, e também no Boston College, em igrejas e sinagogas. Ao contrário da construção de moledos, quando caminhamos por um labirinto não deixamos nada para trás. Caminhar por trilhos contidos com curvas apertadas está cada vez mais popular, talvez devido à pandemia. “Historicamente, há períodos em que os labirintos passam por uma espécie de renascimento”, diz David Gallagher, diretor executivo da The Labyrinth Society. “É algo que acontece durante os períodos de agitação.”

Existem centenas destes de trilhos de pedra pelo mundo inteiro; e o site Labyrinth Locator assinala muitos deles. As minhas caminhadas de sonho incluem um labirinto com mais de um quilómetro de extensão que está aninhado nas montanhas Amathole da África do Sul, e um trajeto simples em Kloster Damme, um mosteiro transformado em hotel nas colinas da região da Saxónia, na Alemanha.

David Gallagher acredita que os labirintos e os moledos partilham ADN, ambos são símbolos de jornadas e indicadores da efemeridade da vida.

As visitas aos labirintos parecem pequenas peregrinações, feitas com o intuito de encontrar tranquilidade. Provavelmente, é por isso que as pessoas também visitam  Rock Sculpture Point em Rye, New Hampshire, ou caminham até Laufskálavarða na Islândia, dois lugares onde os visitantes são convidados a construir centenas de moledos, sem prejudicar nada ou ninguém quando empilham pedras.

Juntos, os moledos nestes lugares parecem esculturas incríveis feitas por inúmeras mãos. Não é necessário ser religioso ou ter aptidões artísticas para participar. Basta ter mãos firmes e esperar que o equilíbrio natural se revele.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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