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A história fascinante do famoso ‘gato da sorte’

Com uma convidativa pata levantada e orelhas pontiagudas vermelhas, este icónico amuleto deseja boa sorte há séculos.

Por Rebecca Saunders
Publicado 19/05/2021, 12:36 WEST
gato da sorte

O maneki-neko, também conhecido por gato de boas-vindas, gato da sorte, gato do dinheiro, gato feliz e gato que acena, remonta ao século XVII e desde então tornou-se num dos elementos mais característicos das lojas asiáticas.

Fotografia de Richard Milnes, Alamy

O “gato chinês que acena” é muito conhecido – pelo menos visualmente. Este objeto que muitas vezes é ornamentado a ouro, é omnipresente nas Chinatowns e lojas asiáticas pelo mundo inteiro, mas estas pequenas estátuas adoráveis nem sequer são chinesas: são japonesas.

Chamado maneki-neko em japonês (literalmente “gato que acena”), a estatueta – fiel ao seu nome e ao contrário da crença popular – não está realmente a acenar. No Japão, ao contrário das culturas ocidentais, a forma de chamar alguém é com a palma da mão virada para a frente e os dedos a apontar para baixo.

Com uma pata levantada, orelhas pontiagudas vermelhas, moedas e outros acessórios, os maneki-neko têm trazido sorte e prosperidade durante séculos – e embora estas estatuetas icónicas tenham várias histórias de origem, todas começam no Japão.

Uma visitante tira uma fotografia às inúmeras estátuas maneki-neko que adornam o Templo Gōtoku-ji, o local de nascimento desta estatueta da sorte.

Fotografia de Carl Court, Getty Images

Felinos de eleição

Uma das lendas começa com um gato nascido no templo Gōtoku-ji em Setagaya Ward, Tóquio, durante o período Edo (1603-1868). De acordo com os historiadores do templo, enquanto caçava falcões, o daimyo (o governante regional) Naotaka foi salvo de um relâmpago quando Tama, o gato de estimação do abade, o chamou para o templo Gōtoku-ji.

Grato ao gato por lhe salvar a vida, o governante fez dele um defensor do templo, onde desde então tem sido venerado no seu próprio santuário.

Hoje, os terrenos tranquilos de Gōtoku-ji são pontilhados por milhares de estátuas de gatos de tamanhos variados. Os visitantes querem ver a variedade de gatos brancos – uma raça que aparece frequentemente no folclore local – e rezar para ter sorte. As estátuas podem ser compradas no templo e geralmente ficam lá como oferendas, embora muitas sejam levadas para casa como lembrança.

Perto de Asakusa, em Tóquio, a tradição fala do maru-shime no neko do Santuário de Imado (aproximadamente “gato da sorte”), uma variante do felino que acena e que está sentado de lado com a cabeça virada para frente. Em 1852, uma idosa que vivia em Imado era tão pobre que já não conseguia alimentar o seu gato de estimação e foi forçada a abandoná-lo. Nessa mesma noite, o gato apareceu nos sonhos da idosa e disse: “Se fizer bonecos à minha imagem, trago-lhe boa sorte”.

Seguindo as instruções do felino, a idosa fez estatuetas em cerâmica Imado-yaki e foi vendê-las para os portões do santuário. O gato manteve a sua promessa, e as estatuetas de cerâmica rapidamente se tornaram muito populares, salvando a senhora da pobreza. Nesse mesmo ano, o distinto Hiroshige Utagawa ilustrou os gatos a serem vendidos num mercado na sua aclamada xilogravura (a imagem mais antiga de que há conhecimento de um gato da sorte).

A xilogravura de Utagawa Hiroshige de 1852 ao estilo ukiyo-e, da série “Negócio Próspero em Balladtown”, retrata o maru-shime no neko, uma variante do maneki-neko, a ser vendido num mercado.

Fotografia de UTAGAWA HIROSHIGE I, WILLIAM STURGIS BIGELOW COLLECTION / MUSEUM OF FINE ARTS BOSTON

Independentemente do local exato de origem da estátua, uma coisa é certa: os gatos trazem boa sorte. A razão para a sua prevalência parece estar ligada aos seus análogos da vida real. Em 1602, um decreto imperial libertou todos os gatos no Japão, com a intenção de capitalizar na capacidade natural dos felinos para o controlo de pragas, sobretudo na comunidade sericícola. Após o declínio do comércio da seda, os gatos, por consequência, permaneceram como talismãs para a prosperidade de um negócio.

Mas é algo que vai para além do simples controlo de pragas – trata-se de cuidar dos gatos que trazem recompensas. “A importância do maneki-neko reside no seu poder mitificado de trazer boa sorte ao seu zelador”, diz Yoshiko Okuyama, professora de japonês na Universidade do Havai em Hilo.

“O provérbio japonês neko wo koroseba nanadai tatar (se matarmos um gato, ele vai assombrar a nossa família durante sete gerações), baseia-se na crença popular de que os gatos são vingativos e que têm uma longevidade que vai para além da vida humana”, continua Yoshiko. Existe uma crença profundamente enraizada no poder dos gatos: cuide deles e eles cuidarão de si.

A prevalência das estátuas de gatos no Japão não passou despercebida. No seu livro de 1927, Animal Motifs in Asian Art, Katherine M. Ball descreve os maneki-neko – geralmente de barro, por vezes de papel – como “uma forma simples e popular de magia”.

“Esta imagem é usada como um amuleto que foi projetado para atrair negócio e promover a prosperidade. Pode ser encontrada na entrada de lojas e restaurantes onde, com as suas qualidades felinas insinuantes e pata erguida, pode convidar os clientes a entrar”, escreveu Katherine Ball.

Quase um século depois, existe um arco-íris de estatuetas para diferentes tipos de sorte. Se estiver preocupado com a segurança no trânsito, pode optar por uma estátua azul; a cor rosa é para quem procura sorte no amor; e a famosa iteração dourada serve para atrair prosperidade.

O significado também muda consoante a pata levantada: a pata direita atrai dinheiro e boa sorte; a esquerda traz amizade e clientes. As outras versões incluem um ryō (uma moeda oval japonesa) para representar riqueza, bem como acessórios de tamanho real, como um sino, que mostram como os gatos de estimação eram respeitados e acarinhados na sociedade japonesa.

“[Estas estatuetas] não são apenas amuletos de proteção”, diz Yoshiko Okuyama. “São intermediários ou enviados que ligam as nossas vidas ao reino das divindades e que têm o poder de transmitir o nosso ‘S.O.S’ ao mundo espiritual em momentos de desespero e aflição.”

Expansão próspera

Ainda não se sabe exatamente como é que estas estátuas icónicas saíram das ilhas do Japão para se tornarem tão conhecidas na Ásia e no resto do mundo.

De acordo com um projeto de investigação liderado por Bill Maurer, professor de antropologia da Universidade da Califórnia, em Irvine, as estatuetas datam do período Meiji (1868–1912). O governo Meiji, na tentativa de ter melhor aparência para os ocidentais conservadores, promulgou a Portaria de Moral Pública em 1872. Esta lei proibia os amuletos fálicos que costumavam ser exibidos nos locais de prostituição. Os maneki-neko foram usados como ornamentos de substituição, e a adoção do maneki-neko como amuleto de prosperidade rapidamente se espalhou por outros países e comunidades asiáticas.

Uma mulher passa em frente a um mural maneki-neko em Hanói, no Vietname.

Fotografia de Manan Vatsyayana, AFP/Getty Images

O boom da cultura pop japonesa durante a era “Japão Fixe” dos anos 1980 e 90 – que coincidiu com a segunda onda de imigração chinesa para os EUA – incorporou ainda mais o maneki-neko na cultura popular.

Os icónicos gatos rapidamente se manifestaram enquanto personagens multimédia na arte, moda e até nos videojogos. “Esta mitologia do gato estendeu-se à cultura popular da atualidade”, diz Yoshiko, citando o filme de animação de Hayao Miyazaki, O Reino dos Gatos, no qual a personagem principal é recompensada por salvar um gato. Outro exemplo é Meowth, um Pokémon que tem uma moeda na cabeça e cujo truque especial se chama “dia do pagamento”, onde o jogador pode recolher dinheiro extra após uma batalha.

Onde encontrar

Nas lojas e negócios por todo o Japão, o maneki-neko na sua forma original ainda pode ser encontrado a acenar aos clientes. De uma perspetiva mais histórica, o Museu de Arte Manekineko em Okayama tem uma coleção de mais de 700 estátuas de gatos da sorte de todos os tempos. Os gatos também são celebrados anualmente em setembro, quando o Festival Manekineko é realizado em várias cidades do Japão.

E também há uma Rua Manekineko-dori (“Rua do Gato que Acena”) na cidade de Tokoname, na província de Aichi, onde dezenas de estátuas de cerâmica de gatos decoram a rua. E em Tóquio podemos seguir diretamente para as suas origens, para o templo Gōtoku-ji, que está cheio de gatos, ou visitar o Santuário de Imado, que também vende a sua própria versão do maneki-neko.

Nos EUA, os mais desafortunados que procuram um pouco de boa sorte podem visitar o Museu Lucky Cat de Ohio, em Cincinnati, que tem mais de 2.000 iterações do famoso felino.

Mas talvez o melhor lugar para ver um maneki-neko seja no seu habitat natural: sentado em cima de uma caixa registadora, a acenar para entrarmos numa loja ou restaurante.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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