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Viajantes estão a atravessar fronteiras para se vacinar. Será correto?

Perante a escassez de vacinas nos seus próprios países, algumas pessoas estão a aventurar-se no estrangeiro para obterem as suas doses.

Publicado 11/05/2021, 12:32
Passageiros desembarcam de um avião no Aeroporto Internacional de Velana em Malé, nas Maldivas, no dia ...

Passageiros desembarcam de um avião no Aeroporto Internacional de Velana em Malé, nas Maldivas, no dia 15 de julho de 2020. As Maldivas estão agora a incentivar os viajantes estrangeiros a visitar o país com uma estratégia “3-V” que combina visitas, vacinas e férias.

Fotografia de Ahmed Shurau, AFP/Getty Images

Enno Lenze, empresário alemão, jornalista e diretor de um museu, tinha o que parecia ser outro emprego à procura de uma vacina, algo que ele já e vacinarem. Sertigaçfazia desde dezembro. Enno vive em Berlim e perguntou aos médicos locais sobre as sobras de vacinas, mas estava disposto a viajar: Enno inscreveu-se para ser vacinado na Sérvia, perguntou sobre as opções existentes em Israel, nos Emirados Árabes Unidos e no Iraque e até tentou obter um visto dos EUA para tentar a sua sorte lá.

Finalmente, surgiu uma opção. A World Visitor, uma agência de viagens norueguesa, oferecia um pacote que incluía um voo até Moscovo e vacinação com a Sputnik V, a vacina russa. Enno e outros 50 alemães aproveitaram a oportunidade e viajaram até Moscovo no início deste mês para levarem as primeiras doses, e devem regressar em maio para a segunda dose. A cada visita, são obrigados pelo governo russo a permanecer no país durante três dias para serem monitorizados, mas Enno diz que não se importa.

“Faço muitos passeios turísticos”, diz Enno. “Tenho interesse na corrida espacial e queria ver as naves da era soviética.”

Um médico russo é vacinado com a vacina Sputnik V numa clínica em Moscovo em dezembro de 2020. Algumas empresas estão agora a oferecer pacotes turísticos que permitem aos estrangeiros viajarem para Moscovo para serem vacinados.

Fotografia de Yuri Kozyrev, NOOR/Redux

A World Visitor também tem uma viagem de “bem-estar” de três semanas, na qual os viajantes podem relaxar numa estância na Turquia entre as doses da vacina. Esta agência está prestes a lançar uma viagem de comboio na Sibéria que também inclui vacinação. Albert Sigl, coproprietário da World Visitor, diz que cerca de 600 pessoas da Alemanha e da Suíça, os dois países europeus que atualmente têm voos para a Rússia, já se inscreveram para uma das viagens. A Rússia é a primeira oferta de turismo de vacinas da agência, de acordo com Albert, mas provavelmente não será a última.

“Assim que um país abrir para o turismo de vacinas, teremos as viagens no nosso site”, diz Albert. “Não temos uma relação especial com a Rússia, é simplesmente um modelo de negócio.”

Vacinação desigual

A distribuição de vacinas COVID-19 tem assumido muitas formas pelo mundo inteiro, com os países a adotarem políticas diferentes para responder às necessidades das suas populações de maior risco. Mas em muitos lugares – incluindo na Alemanha, o país de origem da vacina da Pfizer/BioNTech, onde cerca de 7% da população já foi completamente inoculada – as vacinas são difíceis ou quase impossíveis de encontrar. Algumas pessoas mais ansiosas pelas vacinas estão a viajar além fronteiras à procura de qualquer vacina que consigam encontrar. Esta questão revela sérios problemas na distribuição global de vacinas e mostra que muitas pessoas farão de tudo para as conseguir.

Os Estados Unidos sofreram a maior mortalidade da pandemia, com mais de 567.000 mortes. No entanto, os esforços de vacinação dos EUA têm sido mais eficientes do que em muitos outros países; até agora, cerca de 28% da população adulta dos EUA já foi inoculada.

Todos os adultos americanos são agora elegíveis para serem vacinados, e as consultas para os visitantes estão a começar a surgir em locais onde a oferta ultrapassa a procura. Isto tem gerado algumas oportunidades interessantes. Em junho, o Alasca vai oferecer a todos os viajantes uma vacina no aeroporto. O Dakota do Norte está a vacinar camionistas canadianos. Na Flórida, após preocupações de que pessoas de fora estavam a tentar ser vacinadas, o estado teve de promulgar leis de residência no início do lançamento da vacina, mas conseguiu fazer concessões para residentes temporários e pessoas que têm negócios no estado. E no México, um país gravemente atingido pela pandemia – onde menos de 5% dos cidadãos estão completamente vacinados – o jornal Reforma diz que os “polleros” (gíria para coiotes) estão a ajudar pessoas a atravessar a fronteira com os Estados Unidos para serem vacinadas.

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Nos EUA as regras são bastante flexíveis, pelo que alguns habitantes da América Central e do Sul mais desesperados pela vacina estão a entrar no país através de Miami. Entre eles está Daniel Cordova Cayo, um economista peruano.

A segunda vaga de COVID no Peru está atualmente a ser pior do que a primeira; e o país tem uma das maiores taxas de mortalidade do mundo, com mais de 64.000 mortes. Os desafios na aquisição e distribuição justa de vacinas têm abalado o país. O seu ex-presidente, Martín Vizcarra, foi proibido de exercer cargos públicos nos próximos dez anos depois de ter sido considerado culpado por tráfico de influências, conluio e declarações falsas sobre pessoas ricas e bem relacionadas que receberam autorização para passar à frente na fila de vacinação.

“O Peru está numa situação muito má”, diz Daniel Cayo. “Eu não sou rico, mas tenho um visto americano.”

Daniel trabalha com uma universidade que tem um campus na Flórida; e voou de Lima para o Aeroporto Internacional de Miami, alugou um carro e foi diretamente para o local de vacinação no Hard Rock Stadium. Daniel apresentou documentação da universidade e o passaporte e foi vacinado.

“Se tivéssemos a distribuição global correta e as pessoas estivessem a saltar a fila, isso seria um problema. Não é o caso.”

por NICOLE HASSOUN, ESPECIALISTA EM BIOÉTICA

Daniel esteve em Miami em janeiro por motivos profissionais, mas não pensou em levar a vacina porque não tinha idade para ser elegível e não achava correto levar uma dose de um grupo de risco. Mas quando as vacinas ficaram disponíveis para todos os adultos, o economista sentiu que não fazia mal ser vacinado. Daniel diz que conhece muitas outras pessoas em Lima que estão a fazer a mesma viagem.

Da sua perspetiva enquanto economista, Daniel diz que os países que tiveram sucesso em fornecer vacinas aos seus cidadãos seguiram caminhos um pouco diferentes, mas os países que não conseguiram adquirir e distribuir vacinas encontraram obstáculos semelhantes.

“A burocracia é um problema, e existe pelo mundo inteiro”, diz Daniel.

Impulso para o turismo

Depois de um ano de enormes perturbações nas viagens, alguns países estão a tentar aumentar o número de visitantes oferecendo vacinas à chegada. As Maldivas adotaram a estratégia “3-V”, que incentiva os turistas a “visitar, vacinar e passar férias”. Isto proporciona uma forma “mais conveniente” de visitar o país, disse à CNBC o ministro do turismo das Maldivas, Abdulla Mausoom. Enquanto que só cerca de 13% dos habitantes das Maldivas foram completamente vacinados, cerca de 90% dos trabalhadores do setor do turismo já estão inoculados, de acordo com Abdulla Mausoom. Esta estatística salienta a importância que o setor do turismo tem para as perspetivas de recuperação do país.

Descubra o que significam as vacinas para o regresso às viagens.

Um dos desafios que muitas nações enfrentam é a desigualdade global na aquisição e distribuição de vacinas. Cerca de 82% das vacinas distribuídas a nível mundial foram para países de alto ou médio rendimento, de acordo com um estudo do projeto Our World in Data da Universidade de Oxford. Apenas 0.2% das vacinas foram para países de salários baixos.

Têm sido lançados esforços para mitigar este problema, incluindo a COVID-19 Vaccines Global Access, ou COVAX, uma iniciativa global centrada na distribuição de vacinas. Mas, até agora, os países ricos têm ficado com grande parte da oferta.

Trabalhadores em Idlib, na Síria, descarregam mais de 50.000 doses de vacinas COVID-19 no dia 21 de abril de 2021, como parte do programa COVAX, que visa fornecer acesso global e equitativo às vacinas.

Fotografia de Muhammed Said, Anadolu Agency/Getty Images

“Se tivéssemos a distribuição global correta e as pessoas estivessem a saltar a fila, isso seria um problema”, diz Nicole Hassoun, especialista em bioética e professora de filosofia na Universidade Binghamton. “Não é o caso.”

Viajar para receber tratamento, quer seja devido a disponibilidade limitada ou a opções mais baratas do que no país de origem, não é novidade, de acordo com Glenn Cohen, professor na Escola de Direito de Harvard e diretor do Centro Petrie-Flom. Há vários anos que existe um próspero mercado de turismo médico. No caso das vacinas COVID-19, desde que os grupos de risco tenham sido protegidos, os países com vacinas excedentes podem usá-las para impulsionar as viagens, se isso for feito com prudência.

“O importante é o destino do benefício líquido”, diz Glenn. “Deve beneficiar os mais pobres na comunidade e não apenas os ricos.”

Embora a vacinação de duas doses possa fazer com que os países se sintam tentados a reter os visitantes durante mais tempo, uma vez que demoramos algum tempo a construir uma resposta imunitária, a maioria das atividades de turismo pós-vacinação não deve ser apressada.

“Eu ficaria um pouco preocupado”, diz Glenn. “Espero que estas pessoas não vão de imediato para os mercados.”

Viajar à procura de vacinas

A Sérvia também tentou oferecer vacinas aos viajantes internacionais. O país comprou cerca de três milhões de doses de vacinas da Pfizer, AstraZeneca, Sputnik V e Sinopharm; curiosamente, a Sérvia ficou com mais vacinas do que os seus cidadãos precisavam. Assim, o país ofereceu doses aos viajantes; mais de 22.000 estrangeiros tinham sido vacinados até ao final de março, de acordo com a Euronews.

A maioria eram habitantes de países vizinhos nos Balcãs, mas os canadianos Alyssa Sutton e Noah Guthrie estavam entre os visitantes afortunados que receberam uma injeção. Alyssa e Noah, recém-formados na universidade, começaram a viajar pela Europa em setembro e tentaram fazer a sua viagem de um ano sabático pelos países com menos casos e seguiram todas as regras de quarentena de cada país. Ainda assim, em poucas semanas, os casos começaram a aumentar e ambos ficaram retidos na Europa, porque não conseguiam pagar os hotéis de quarentena onde todos os canadianos são obrigados a ficar quando regressam a casa.

Ambos seguiram para a Sérvia quando ouviram dizer que os estrangeiros podiam levar a vacina. Alyssa e Noah usaram o Google Tradutor para preencher os seus formulários e pensavam que não iam obter resposta. No espaço de uma semana, o seu pedido foi aprovado e seguiram de autocarro para Belgrado a partir de Novi Sad, uma cidade sérvia a cerca de uma hora de distância. E receberam a vacina da AstraZeneca sem quaisquer problemas. O seu vídeo no YouTube já acumulou milhares de visualizações e ambos têm recebido emails de pessoas de todo o mundo a perguntar como podem fazer o mesmo. Porém, desde meados de abril que a Sérvia suspendeu as vacinas para os estrangeiros.

“Tivemos a sorte de estar lá”, diz Alyssa.

Ambos estão prontos para receber a segunda dose, algo que pode acontecer a qualquer momento. A vacinação completa também significa que vão poder viajar para países que estão a abrir para turistas completamente vacinados.

Mesmo durante uma pandemia, temos o desejo de viajar. “Não vamos conseguir fazer sempre isto”, diz Alyssa, explicando que os planos para o futuro, como ter uma casa e uma carreira após este ano sabático, impossibilitam uma viagem deste género. “Temos de fazer isto agora.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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