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As peregrinações podem ser a próxima tendência de viagem pós-COVID

Tradicionalmente religiosas, as rotas de peregrinação podem oferecer aos viajantes de todas as esferas da vida uma oportunidade para encontrar paz interior e união com o mundo.

Por Kerry Walker
Publicado 14/07/2021, 12:46
Cume de Ol Doinyo Lengai, na Tanzânia

Depois de mais de um ano de confinamentos devido à pandemia, os viajantes estão a optar pelas rotas de peregrinação, como esta no cume de Ol Doinyo Lengai, ou “Montanha de Deus”, na Tanzânia.

Fotografia de Nichole Sobecki, VII/Redux

Tal como muitas das pessoas que percorrem as rotas de peregrinação dos Caminhos de Santiago, também Sherly Cho não tinha motivações religiosas óbvias. Mas Sherly nunca pensou que a viagem de 800 quilómetros desde St. Jean Pied de Port, nos Pirenéus franceses, até Santiago de Compostela, na Galiza, em Espanha, iria inspirar grandes mudanças na sua vida.

“Ir sozinha foi uma boa escolha”, diz Sherly. “Fiz amigos para o resto da vida. Partilhámos tudo: um dormitório, uma maçã, os nossos sentimentos mais íntimos. Percebi que conseguia viver sem coisas materiais; coisas que só servem para nos amarrar. Agora estou a minimizar a minha casa; a organizar a minha vida.”

Há mais viajantes do que nunca a fazer peregrinações, uma tendência que pode crescer num mundo pós-COVID, à medida que as pessoas se afastam das férias mais curtas em cidades e reduzem o número de voos, preferindo viagens mais longas e com um propósito.

“Nos últimos anos, as nossas reservas de peregrinação aumentaram significativamente”, diz Tim Williamson, da empresa britânica de viagens Responsible Travel. “As peregrinações são muito populares entre as pessoas que viajam sozinhas, mas também vemos cada vez mais famílias a fazer o mesmo. Os confinamentos mostraram-nos que a comunidade é importante; as pessoas gostam de ter espaço, mas sentem saudades da ligação humana. As peregrinações preenchem muitos destes requisitos.”

Um ano antes de a COVID-19 travar as viagens internacionais, os Caminhos de Santiago testemunharam um número recorde de peregrinos. Em 2019, de acordo com o Gabinete de Receção de Peregrinos da Catedral de Santiago de Compostela, 347.578 caminhantes receberam o certificado de Compostela (uma acreditação oficial), um aumento anual de 6%. Os registos deste gabinete também mostram um número crescente de peregrinos solitários, como Sherly, e que apenas 40% de todos os peregrinos afirmam que a religião é a sua única motivação.

Duas pessoas numa colina com vista para a catedral de Santiago de Compostela, na Galiza, depois de chegarem através dos Caminhos de Santiago.

Fotografia de Samuel Aranda, Panos Pictures/Redux

Entre 2016 e 2019, as vendas para as rotas dos Caminhos de Santiago aumentaram acentuadamente. Este aumento foi particularmente elevado no Caminho Português (rotas de peregrinação que começam em Portugal), que registou um aumento de quase 100%. As rotas menos conhecidas estão a tornar-se cada vez mais populares, como o Camino Invierno; uma alternativa pouco conhecida para quem procura solidão, como os peregrinos que chegam no final do outono e no inverno, e que abrange muitas das capelas e vinhas românicas de Espanha.

As reservas para as rotas tradicionais também parecem estar a disparar em 2021. “Esperamos um aumento nas reservas para o Xacobeo deste ano, ou Ano Santo, quando a Festa de Santiago (25 de julho) calha a um domingo, algo que aconteceu pela última vez em 2010”, diz Mary Lawless, especialista em caminhadas autoguiadas da Macs Adventure. “Consequentemente, os peregrinos que percorrem os Caminhos de Santiago podem entrar na catedral pela ‘Porta Santa’. E os que visitam o túmulo do apóstolo obtêm a indulgência plenária: o perdão completo de todos os seus pecados.”

Remédio natural

Optar por uma jornada de imersão na natureza – algo que cada vez mais é citado como sendo a razão para uma peregrinação – teria feito sentido para os primeiros santos celtas dos séculos V e VI, como São David. Na Idade Média, a sua cidade homónima no País de Gales era um destino de peregrinação que rivalizava com Santiago de Espanha. O Santuário de São David, na sua resplandecente catedral medieval, é o clímax de um novo trilho de peregrinação de uma semana para 2021, forjando a ligação celta entre a Irlanda e o País de Gales à medida que segue as pegadas de santos ao longo das costas fustigadas pelas ondas no condado de Wexford e Pembrokeshire.

“Nestas costas ainda sentimos a ligação espiritual com a paisagem viva”, diz Iain Tweedale, um guia que colabora com as organizações Journeying e Guided Pilgrimage e que vai liderar este novo passeio. “É o que os celtas chamam de ‘lugar estreito’, onde a lacuna entre o céu e a terra é pequena”, diz Iain. “Depois de vários dias de caminhada, quando a mente se acalma, observamos os arredores com mais atenção, vemos coisas simples como pedras, flores e pássaros como se fosse pela primeira vez. A jornada exterior de um lugar para o outro transforma-se numa jornada interior desde a mente ao coração.”

Se, como Iain sugere, o ritmo lento da peregrinação costeira nos permite reencontrar uma cadência que perdemos – onde as marés e as estações, e não o relógio, se tornam nos nossos pontos de referência – será que a peregrinação nos pode ajudar a sarar e oferecer uma perspetiva sobre um mundo pós-pandemia?

“A COVID obrigou-nos a parar, a pensar e a questionar os pressupostos da vida”, diz Iain. “À medida que emergimos dos confinamentos, a peregrinação torna-se mais relevante do que nunca, permitindo-nos fazer um balanço e reconsiderar o nosso caminho. Alguns irão lamentar ou repensar relações. Outros irão agradecer por terem superado as coisas.”

Viajantes percorrem a rota de peregrinação Kumano Kodo na cordilheira Kii, no Japão. Este caminho, Património Mundial da UNESCO, atravessa a península de Kii Hanto até Kumano Sanzan, ou até aos Três Grandes Santuários de Kumano.

Fotografia de Stefan Boness, VISUM/Redux

“A peregrinação moderna permite que exploremos o nosso lado espiritual sem sermos necessariamente religiosos”, acrescenta Iain. “À medida que caminhamos, ficamos em união com a natureza. E este amor e apreço recém-descobertos fazem com que a queiramos proteger. Portanto, talvez a peregrinação nos possa preparar para enfrentarmos as alterações climáticas, o maior desafio dos nossos tempos, assim que a COVID passar.”

(Caminhar é a atividade ideal durante a pandemia – descubra porquê.)

De acordo com uma sondagem do British Pilgrimage Trust, cerca de metade dos entrevistados cita o bem-estar emocional, a ligação com a natureza, a espiritualidade ou o património cultural como as suas principais motivações. Só 13%  dos entrevistados citaram a prática religiosa – e se muitas das peregrinações de hoje são seculares, o que diferencia cada uma destas jornadas de uma longa caminhada?

“Geralmente há um motivo para a peregrinação – a resolução de um problema, acolher algo, abandonar algo”, diz Guy Hayward, cofundador do British Pilgrimage Trust e coautor do guia Britain’s Pilgrim Places. Guy acredita que no cerne da verdadeira peregrinação está a intenção, determinada pelo nosso coração e ativada pelos nossos pés.

“Não há nada intrinsecamente religioso ou secular em nos ligarmos com as nossas necessidades mais profundas”, diz Guy. “Em inglês, a palavra ‘sagrado’ vem do antigo halig, que significa ‘trazer saúde’. Um lugar sagrado pode ser uma árvore antiga ou o topo de uma colina, uma sinagoga ou um círculo de pedras.” 

“Desde tempos imemoriais que a peregrinação oferece um caminho físico com um destino claro, permitindo-nos estruturar a nossa procura por um caminho interior em tempos de mudança e crise.”

(Caminhar à luz das estrelas é a atividade que precisamos neste momento.)

Um passo além

Para muitas pessoas, peregrinar significa fazer um “investimento”, não necessariamente no sentido físico ou monetário, mas sim estar disposto a uma abertura para mudanças e quaisquer consequências que isso acarrete. A COVID-19 apresentou desafios e restrições que poucas pessoas tinham enfrentado antes. Assim, muitas pessoas irão procurar jornadas que possam oferecer mudanças e recompensas terapêuticas.

“Há uma dor imensa por resolver por causa da epidemia”, diz Dee Dyas, diretora do Centro de Estudos de Peregrinação da Universidade de York e autora de The Dynamics of Pilgrimage. “As pessoas estão desesperadas; precisam de processar as suas vidas, precisam de encontrar significado em lugares especiais, criar memórias positivas, precisam de fazer as suas despedidas.”

“E a peregrinação não precisa de envolver uma longa caminhada – é muito mais multifacetada do que isso”, continua Dee. “Os humanos estão naturalmente programados para responder a lugares especiais e para olhar para algo maior do que eles. Há ‘peregrinos acidentais’ que não são religiosos, mas que posteriormente encontram a iluminação espiritual – e até mesmo Deus. A peregrinação é uma metáfora para a vida: une as jornadas interiores e exteriores.”

No seu aspeto mais fundamental, a peregrinação mudou pouco desde a Idade Média, quando Chaucer escreveu Os Contos de Cantuária, histórias sobre um grupo de peregrinos que viaja para o santuário de São Thomas Becket – uma obra que resume esta prática.

“Apenas três anos depois da morte violenta de Thomas Becket [em 1170], já lhe tinham sido atribuídos 700 milagres, e os peregrinos aglomeravam-se na Cantuária para venerar o seu túmulo”, diz Naomi Speakman, curadora da exposição de 2021 do Museu Britânico: Thomas Becket: Murder and the Making of a Saint. “A peregrinação à Cantuária está no centro da nossa exposição e Os Contos de Cantuária ainda reverberam no público moderno.”

Thomas Becket não foi o único santo a deixar uma marca indelével nas paisagens da Grã-Bretanha e a abrir caminho para os futuros peregrinos. Agendado para abrir ainda este ano, o Northern Saints Trails vai revitalizar seis rotas antigas no Nordeste, homenageando santos do norte da Grã-Bretanha como Santo Cuthbert, Santo Aidan e Santa Hilda.

“Nos tempos medievais, os peregrinos chegavam até Durham vindos de direções diferentes; estes trilhos refletem isso ”, diz David Pott, coordenador de rotas. “A motivação principal naquela época era procurar uma cura. Isso é muitas vezes verdade nos nossos tempos, mas de uma maneira diferente. Não é por acaso que muitas pessoas fazem uma peregrinação após uma crise de vida. Acredito nas palavras atribuídas a Santo Agostinho: solvitur ambulando [‘resolve-se caminhando’].”

Devotos hindus em preparação para se banharem na confluência dos rios Ganges, Yamuna e Sarasvati em Allahabad, Utar Pradexe, no dia 14 de janeiro de 2016. Este ritual faz parte do Kumbh Mela que é realizado a cada 12 anos, atraindo milhões de pessoas que procuram absolvição dos seus pecados.

Fotografia de Xinhua News Agency/Eyevine/Redux

Com as suas multidões e manifestações extremas de fé, as peregrinações em muitas partes do mundo podem parecer a antítese das caminhadas de contemplação silenciosa. Por exemplo, o Kumbh Mela, o maior encontro de peregrinação do mundo; é celebrado a cada 12 anos em quatro pontos diferentes ao longo do rio Ganges, onde 120 milhões de hindus visitam as águas sagradas e oram pela emancipação do ciclo de renascimento. Na Arábia Saudita, durante o hajj, 2.5 milhões de peregrinos muçulmanos dirigem-se para a Grande Mesquita de Meca.

Israel também está a dar as boas-vindas a mais peregrinos do que nunca: com um número recorde de 4.5 milhões de peregrinos em 2019. Para muitos, é exatamente este número imenso, a massa de humanidade, o objetivo da peregrinação.

Se a “intenção” é o início e o “investimento” é o coração de cada peregrinação, então a “gratidão” é a recompensa final: pela vida e boa saúde, pela natureza e suas maravilhas. Foi por esta última razão que, em 2019, o fotógrafo Tim Bird decidiu pedalar pela recém-inaugurada St. Olav Waterway, um trilho de peregrinação que liga a Finlândia à Suécia.

“A peregrinação foi meditativa e espiritual, mas não de uma forma religiosa”, diz Tim. “Gostei da natureza remota, da regeneração física após um longo inverno finlandês. Os ventos contrários e as chuvas eram complicadas, mas a vida selvagem era notável: aves migratórias, veados, lebres e os ocasionais alces a nadar de ilha em ilha. Encontrar um bando de garças recém-chegadas foi uma delícia.”

Numa era digital frenética, onde estamos frequentemente desligados do nosso ambiente, dos elementos e do nosso eu mais verdadeiro, o ritmo lento da peregrinação e o espaço físico e mental que nos oferece pode ajudar-nos a refletir, a realinharmos os nossos objetivos e a pressionar o botão para reiniciar.

Conforme lidamos com o longo caminho pós-crise que temos pela frente, podemos olhar para nós como peregrinos num admirável mundo novo, onde nada é mais poderoso ou necessário do que o simples ato de agradecer ou colocar um pé à frente do outro.

“Eu acordava às 6 da manhã e caminhava oito horas por dia”, diz Sherly. “Nunca me senti tão feliz e saudável como senti a percorrer os Caminhos de Santiago.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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