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Quer melhorar as suas fotografias de viagens? Pense como um pintor paisagístico.

Através de telas, pinturas e olhos criativos, os artistas revelam como se deve ver – e documentar – a natureza e as cidades.

Fotografias Por Greta Rybus
Publicado 5/07/2021, 12:29
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O artista Tim Wilson pinta na costa do Maine, um projeto de um ano que documenta os lugares selvagens deste estado norte-americano.

Fotografia de Greta Rybus

A paisagem não exige a nossa atenção como acontece com os cartazes publicitários, ou os semáforos, ou as pessoas com as suas roupas vistosas e pensamentos privados. As paisagens não são estáticas, mas também não são tão dinâmicas como o resto do nosso mundo. Mesmo as paisagens urbanas, com as suas constantes demolições e reconstruções, são o pano de fundo de grande parte da arte que consumimos, seja em vídeo ou fotografia. Mas se pararmos e nos concentrarmos, como fazem os pintores paisagísticos, percebemos que existe profundidade no mundo que nos rodeia e histórias a desdobrarem-se nas folhas, no solo e até no lixo.

Os pintores paisagísticos observam o mundo de uma forma diferente da maioria dos viajantes. Os seus olhos estão treinados para procurar o horizonte, ler a luz e compreender as variações subtis no clima.

Faz parte do trabalho, explica o pintor Timothy Wilson. Nos últimos dois anos, Timothy tem trabalhado numa série de imagens inspiradas nas paisagens do Fundo Patrimonial da Costa do Maine. Timothy já visitou mais de uma dezena de reservas naturais na costa deste estado, pintando em penhascos, ilhas e pântanos – e até mesmo no seu caiaque.

Timothy visita os parques da mesma forma que qualquer viajante o faria, com os olhos abertos para as maravilhas da paisagem acidentada. Mas, em vez de tirar uma fotografia para publicar no Instagram, Timothy para e monta um cavalete. “Isso impede-me de olhar para o telemóvel. Em vez de estar sempre a olhar para o ecrã, olho para a paisagem. Fico imerso. É uma sensação maravilhosa.”

Pintores como Timothy Wilson encontram inspiração em cenas ao ar livre, como a costa rochosa do Maine.

Fotografia de Greta Rybus

Não é preciso ser artista para apreciar o mundo natural. Qualquer pessoa pode parar e maravilhar-se com o pôr do sol. Mas pensar como um paisagista pode ajudar os viajantes a ver melhor o que os rodeia. Da próxima vez que se fizer à estrada, certifique-se de que tem sempre um caderno de desenho à mão – ou até o telemóvel – para captar o cenário. Qualquer viagem se pode transformar num retiro para artistas, se assim o permitirmos.

Primeiros passos

Para absorver uma paisagem, quer seja um deserto ou um pântano, o primeiro passo é encontrar um ponto de vista. “Quando estou a trabalhar, carrego o meu próprio peso e o peso do meu equipamento”, diz Timothy. “Embora eu goste da fluidez do terreno, não gosto de caminhar por áreas com areia húmida para chegar onde vou pintar. Gosto de ter chão sólido debaixo dos pés.”

Em vez de se preocupar com lama ou o perigo de escorregar em algas marinhas, Timothy coloca o seu cavalete numa colina sólida, numa rocha plana e seca ou num lugar onde as algas marinhas secaram bastante. “Para ser um bom observador da natureza, precisa de um bom lugar para se posicionar.”

Isto também serve para os fotógrafos amadores. Compor uma boa imagem demora tempo, mesmo que seja apenas para publicar no Instagram. Vale a pena encontrar um lugar fora dos caminhos mais batidos para parar e refletir sobre o mundo além.

Timothy pinta geralmente o mar, elemento que confere às suas obras uma linha de horizonte bastante delineada. A pintora paisagística April Gornik, de Nova Iorque, que usa um processo diferente, também se concentra na criação de imagens fortes e temperamentais que parecem intemporais (e por vezes um pouco assustadoras). April costuma observar primeiro o mundo que a rodeia, e depois pinta uma paisagem no seu estúdio. “Quando viajamos, deslocamo-nos deliberadamente. Portanto, temos de mudar de lugar. É saudável para as pessoas.”

Apesar de Timothy gostar literalmente de uma base sólida, April incentiva os viajantes a alcançar um lugar de tranquilidade, uma sensação de conforto dentro do desconforto. “A paisagem é o outro, o outro definitivo”, diz April. “Arte é dar o salto, familiarizarmo-nos, encontrarmo-nos.”

A maioria dos viajantes deseja dias limpos com sol, mas há um lado positivo nos dias de mau tempo. O céu nublado cria uma qualidade de luz diferente, uma luz que tanto pintores paisagistas como fotógrafos adoram. Este tipo de paisagens um pouco mais sombrias surge bastante nas obras dos Flórida Highwaymen, um coletivo de pintores negros de meados do século XX.

Estes artistas praticavam uma “pintura rápida” e vendiam os seus trabalhos na bagageira dos seus carros ao longo das estradas principais, muitas vezes captando céus tempestuosos, palmeiras fustigadas pelo vento, a rebentação das ondas na costa e rios ligeiramente sinistros. Os Flórida Highwaymen não eram necessariamente caçadores de tempestades, mas os seus trabalhos retratavam a Flórida como um ambiente atmosférico turbulento, cheio de calor, água e vida.

O artista Tim Wilson pinta no seu estúdio no Maine (na imagem) e ao ar livre.

Fotografia de Greta Rybus

É altamente eficaz, salienta Timothy, basta olhar para cima e observar as nuvens. “Pintar é uma ciência. O ar muda o que vemos. As coisas que estão mais próximas parecem mais quentes devido à forma como refletem as partículas de luz. Quando surgem tempestades, fica tudo em fluxo.”

Kim Do, pintor paisagístico que vive no Vale do Hudson, em Nova Iorque (mas que já trabalhou pelo mundo inteiro), também diz que “adora pintar o clima”. Kim acrescenta: “Nós, humanos, vivemos no fundo de um oceano de ar. Nós somos as lagostas do nosso planeta. Olhamos para cima e vemos o tempo.” Kim diz que pintar o céu faz com que se sinta ligado aos paisagistas que vieram antes dele, como o famoso pintor britânico John Constable, pela sua forma temperamental de pintar nuvens.

Procure cor, descubra beleza

Noa Charuvi divide o seu tempo entre Jerusalém e a cidade de Nova Iorque, dois ambientes urbanos ricos em história e pobres em zonas verdes. No entanto, as suas pinturas paisagísticas conseguem captar a energia de ambas as cidades e a vasta beleza dos seus edifícios. As caminhadas diárias de Noa por Brooklyn levam-na frequentemente a zonas de construção civil, onde Noa para e tira uma fotografia. “Muitas vezes sou atraída por uma cena porque encontro um potencial inesperado para a beleza. Nas zonas em construção, sou atraída por determinadas cores.”

Noa enfatiza que mesmo um arranha-céus a meio da sua construção ou uma zona de demolição podem fornecer um arco-íris de inspiração: o amarelo brilhante da fita isoladora, os baldes cor de laranja para misturar cimento, os tijolos vermelhos e a madeira com cola a secar. “E também materiais para janelas e isolamento, geralmente de cor pastel, rosa ou azul”, diz Noa. “Tudo começa com a cor.”

Encontrar paletas de cor significa que Noa consegue extrair alegria de qualquer cena, não importa o quão banal. Noa também retira algum prazer em ver a história a tomar forma. As cidades estão sempre a mudar. Edifícios são demolidos, outros novos são erguidos. A pintura paisagística permite a Noa dar sentido ao infinito que nos rodeia. “É algo que nos une.”

É algo que todos nós podemos ter em mente quando estamos a explorar o mundo. Existe beleza no quotidiano, na decadência, nas ruas movimentadas e nos sinais da vida humana. Não precisamos de recriar uma imagem perfeita da Torre Eiffel sempre que visitamos Paris – por vezes, é mais interessante captar os passageiros no metro ou os pombos nos telhados das casas.

 

Deixe-se ficar durante mais tempo

Talvez a maior lição que os viajantes podem aprender com os pintores seja esta: absorver e captar o que nos rodeia demora tempo. Para criar arte ou apreciar profundamente um lugar, precisamos de abrandar o ritmo para observar, aprofundar e imaginar. Uma boa fotografia não aparece só porque estamos a olhar para um cenário bonito. Precisamos de um momento para descobrir, como diz Timothy, “o feng shui de uma paisagem”.

“Contemplar de forma paciente é algo que nos devemos treinar para fazer”, explica Kim. “Eu estava a pintar em Barbados e havia um autocarro de turismo que passava de hora em hora. As pessoas entravam e saíam do autocarro, tiravam uma fotografia e seguiam viagem.”

Kim passou um dia inteiro naquele local a observar as pessoas a ir e a vir. Talvez algumas delas tenham captado uma bela fotografia, mas as suas viagens de turismo não eram planeadas para o trabalho envolvente que os artistas desejam. Cada um destes pintores enfatiza a importância de deixarmos o mundo entrar. Devemos absorvê-lo, abraçá-lo e sermos abraçados.

“Existe uma determinada consciência do que nos rodeia e que conseguimos obter quando pintamos”, diz Kim. “Estamos imersos no nosso ambiente. Isso embala-nos. Está à nossa volta. Quando o sentimos, é quase como se estivéssemos no útero do nosso planeta.” As pinturas de Kim são altamente detalhadas e evocativas, e quando olhamos para uma das paisagens Oculus de Kim, sentimo-nos imersos. “É esse o objetivo. É por isso que viajamos, é por isso que fazemos arte. É aquela sensação de ligação profunda e intensa.”

Tudo isto pode acontecer de repente, mas não acontece depressa.

Katy Kelleher é uma escritora que vive no Maine. O seu trabalho também aparece na The Paris Review e Longreads. Siga-a no Instagram ou Twitter.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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