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Será esta cidade dinamarquesa a capital mundial dos contos de fadas?

Odense, a cidade natal de Hans Christian Andersen, está a criar uma homenagem aos contos e imaginação do escritor.

Publicado 9/07/2021, 12:14 WEST
Sul da Dinamraca, turismo, viagens para a cidade de Odense

Um mural do escritor Hans Christian Andersen, pelo artista Don Jonh, decora uma casa na rua Bangs Boder em Odense, Dinamarca. 

Fotografia de Juliette Robert, HAYTHAM-REA/Redux

Era uma vez um escritor chamado Hans Christian Andersen que escrevia histórias que faziam as crianças sonhar.

Os seus contos mais famosos – A Pequena Sereia, Polegarzinha, As Roupas Novas do Imperador e O Patinho Feio – continuam a encantar no palco e no ecrã muito tempo depois de terem sido escritos no século XIX. No filme Frozen, a adaptação cinematográfica de A Rainha da Neve de Andersen, não é coincidência que as personagens principais – Hans, Kristoff, Anna, Sven – ecoem o seu nome.

Agora há uma nova forma de apreciar as suas histórias. Após anos de um ambicioso desenvolvimento, um museu de 54 milhões de euros foi inaugurado em Odense, a cidade natal de Andersen, na Dinamarca. Esta atração, segundo o diretor criativo do museu, Henrik Lübker, não é um epitáfio da era passada de Andersen, mas sim “uma homenagem ao mundo eternamente relevante e contemporâneo dos contos de fadas”.

Visitantes assistem a uma peça de teatro ao ar livre nos terrenos da casa de infância de Hans Christian Andersen, no dia 19 de agosto de 2015.

Fotografia de Jordi Salas, Alamy

Inaugurado no dia 30 de junho, o museu H.C. Andersen’s Hus, projetado pelo arquiteto japonês Kengo Kuma, recria os contos de fadas do autor através de uma série de instalações arquitetónicas, sonoras e luminosas semelhantes ao mundo de Willy Wonka, tanto por dentro como por fora. “O mundo dos contos de fadas não é linear, é uma curva”, diz Henrik Lübker. “Trata-se de esconder as coisas, e é assim que o museu é apresentado, através de espaços secretos e de curvas que nos deixam na expectativa.”

Numa das instalações, que faz lembrar o desejo da Pequena Sereia em fazer parte do mundo exterior, os visitantes olham para cima através de um reservatório transparente de água para ver o céu. No andar superior do museu, as famílias podem criar poções mágicas, fazer teatro com fantoches, construir um ninho de cisnes ou obter uma peruca feita por um barbeiro que representa uma personagem.

Mas, de muitas formas, o que está em exibição é irrelevante porque a verdadeira ambição do museu é fomentar o poder da imaginação. “Os contos de fadas abrem a possibilidade de transformação no mundo real do leitor”, diz Marina Warner, romancista, mitógrafa e atual presidente da Sociedade Real de Literatura. “As coisas más acontecem naturalmente, mas são sempre ultrapassadas. Há uma constelação de encorajamento no próprio tecido dos contos de fadas.”

Cidade de lendas

Nascido em 1805, Andersen cresceu em Odense, a cerca de duas horas de distância de Copenhaga, e as ruas desta cidade inspiraram as suas maiores obras. Nesta que é a terceira maior cidade da Dinamarca, é difícil atravessar uma praça ou participar num festival sem ficarmos com a imaginação a funcionar. É a representação perfeita de uma cidade fictícia, com campanários em forma de chapéu de bruxa, ruas sinuosas, casas em tons pastel, jardins reais e um palácio branco como a neve.

As ruas de calçada estão por toda a Odense, uma cidade da era Viking que está repleta de mitologia e charme dos contos de fadas.

Fotografia de Elena Noeva, Alamy

A história de Odense, localizada na ilha Fyn, parece um distorcido conto de fadas nórdico. Reza a lenda que esta cidade da era Viking era o lar de Odin, o deus mitológico da sabedoria, guerra, poesia e magia; as suas muralhas alinhavam-se com as margens dos rios para defender a cidade de invasores costeiros. As estruturas destes fortes estão enterrados sob a cidade, assim como os restos mortais do último rei viking da Dinamarca, Canuto IV, que foi assassinado na Igreja de St. Alban no século XI. O fascínio da região inclui os vestígios dos vikings e o legado dos contos de fadas, em vez do design de ponta dinamarquês ou a nova Gastronomia Nórdica.

(ADN da antiguidade revela a verdadeira diversidade dos vikings.)

Se seguirmos as ruas de calçada que Andersen percorreu, desde a sua casa de infância amarela em Munkemøllestræde até às margens do rio, descobrimos Eventyrhaven (que significa literalmente Jardim dos Contos de Fadas), com sebes aparadas, terraços cobertos e pontes. Ali perto, um trilho com esculturas de contos de fadas inspiradas em Andersen começa com uma estátua de bronze do escritor, perto do rio Odense, antes de passar pela escultura de um barco de papel, borboletas com as cores do arco-íris, cisnes selvagens, um cavalo-marinho, uma pastora, um limpa chaminés e uma agulha de coser para uma pequena sereia. De certa forma, a cidade atua como um atlas para as personagens imaginárias de Andersen.

Para os visitantes, a casa de Andersen é o auge deste mapa literário, um projeto lançado quando o conselho municipal de Odense decidiu adotar um plano de longo prazo para reconstruir o centro da cidade. O objetivo era não só repensar a área em torno do local de nascimento de Andersen, mas também colocar a cidade na posição de capital mundial dos contos de fadas.

Como é que Odense e um pequeno reino como a Dinamarca o conseguem fazer? A resposta está na tradição de contar histórias dos seus cidadãos e na obsessão pelo chamado hygge.

(Descubra ‘friluftsliv’, o conceito norueguês de vida ao ar livre.)

Influência duradoura

Este conceito cultural dinamarquês está há muito tempo enraizado na mente da nação. Mas tornou-se numa tendência de estilo de vida e num casamento peculiar entre setores culturais para promover aconchego e atenção plena – acender velas, estarmos aconchegados com uma chávena de chocolate quente ou desfrutar de um livro na companhia de uma lareira. De acordo com o professor Lasse Horne Kjældgaard, diretor do Centro Hans Christian Andersen, em Odense, o escritor tem muito mais crédito no conceito de hygge do que muitos dinamarqueses imaginam.

O Castelo de Egeskov, na ilha Fyn, que não fica muito longe de Odense, era um dos locais que Hans Christian Andersen mais gostava de visitar.

Fotografia de Manfred Gottschalk, Alamy

“Os contos de fadas são concebidos para serem lidos em voz alta perto do lume, em ambiente familiar, e esta tradição ganhou asas na Dinamarca na década de 1830”, diz Lasse Kjældgaard. “Foram anos terríveis na nossa história, estávamos do lado errado das Guerras Napoleónicas, e depois surgiu uma tendência para olharmos para dentro e um foco na vida familiar, ao invés de olharmos para o resto do mundo.”

Lasse diz que Andersen escreveu muitos dos seus contos de fadas mais famosos durante esse período, tornando-se inconscientemente numa força motriz para forjar as origens do conceito Hygge. “A ironia, como é óbvio, é que a sua escrita costuma ser assustadora e não tem nada de Hygge!”

Lasse, que investiga a influência de Andersen no mundo inteiro, diz que o escritor também é surpreendentemente um marco cultural na China. “Ele era um dos autores favoritos de Mao Tse-tung e continua a ser um escritor essencial no currículo de leitura chinês.”

Uma das teorias académicas sugere que contos como As Roupas Novas do Imperador, O Patinho Feio e A Menina dos Fósforos foram adotados pelo governante do Partido Comunista chinês para acusar a sociedade capitalista. “De certa forma, isto ajuda a explicar porque é que Odense tem um fluxo de visitantes chineses que todos os anos perseguem contos de fadas”, diz Lasse.

Turistas fotografam a estátua de A Pequena Sereia em Copenhaga, no dia 14 de maio de 2015. Esta estatueta no passeio de Langelinie é uma das homenagens mais famosas às obras de Andersen.

Fotografia de Rolf Nobel, VISUM/Redux

Nem todos os países são abençoados com uma paisagem adequada para povoar com personagens de contos de fadas, mas a Dinamarca é um desses lugares. Os viajantes podem encontrar aqui muitas das raízes dos contos de Andersen, desde as dunas de Skagen aos bosques de carvalho repletos de veados em Jægersborg Dyrehave. No campo, podemos encontrar Gisselfeld Kloster, a propriedade real que galvanizou a ideia de O Patinho Feio, e os penhascos ricos em fósseis de Stevns Klint, onde Andersen escreveu The Elf Mound.

Também podemos recordar Andersen no Canal Nyhavn de Copenhaga (onde o escritor viveu), nos Jardins Tivoli (a inspiração para O Rouxinol) e na estatueta da Pequena Sereia no passeio de Langelinie.

De regresso à terra do escritor, Fyn abriga cerca de 123 castelos e mansões, incluindo o Castelo de Egeskov que tem 450 anos, um dos favoritos de Andersen por causa dos seus labirintos geométricos de sebes.

“Se estivéssemos a fazer um mapa do mundo, sem fronteiras políticas ou geográficas, mas sim para representar a tradição dos contos de fadas, teríamos um contorno enorme em torno da Escandinávia, com Odense no centro”, diz Marina Warner.

Os contos de fadas de Andersen podem agora ser mais importantes do que nunca. “As crianças têm tantos problemas com que lidar – desde opressão política às alterações climáticas e violência doméstica – e os contos de fadas ajudam-nas a ter esperança”, diz Marina. “É esse o pilar do espírito dos contos de fadas, e é por isso que tanto os contos como Hans Christian Andersen irão continuar a perdurar.”

Mike MacEacheran é escritor de viagens sediado em Edimburgo. Siga-o no Twitter.

Frozen, o filme da Disney, foi adaptado da história de Hans Christian Andersen, A Rainha da Neve. A The Walt Disney Company é a proprietária maioritária da National Geographic Partners.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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